OS SINOS DE S. BENTO
Éramos três companheiros inseparáveis. Fizemos o serviço militar
juntos.
Nas horas em que nos
permitiam, voávamos. Tínhamos sido escolhidos para fazer parte do corpo de
pilotos comerciais de uma Companhia Aérea em embrião, que viria a marcar pela
excelência dos seus serviços - a D. E. T. A.
Já lá vão muitos anos.
A nossa loucura era o “TIGER”, o grande avião-escola da época. Apetrechado com
um esplêndido motor de cento e vinte cavalos, conferia-nos um óptimo
coeficiente de segurança. Nele fazíamos endiabradamente o velho
"parafuso", o “tonneau”, o “looping” e as mais diversas maluquices da nossa lavra.
A aviação entusiasmava a juventude que se deixava prender por ela.
Não há forças capazes
de a demover daquela tendência. Poder-se voar e ser-se piloto para toda a vida,
era a felicidade máxima a que um jovem podia aspirar. E nós tínhamos essa
ambição e a oportunidade de a realizar.
Tínhamos de a
aproveitar! Naquele tempo, princípios da aviação que viria a ser a sério,
levávamos uma vida deliciosa.
Ambicionávamos voar e
fazíamo-lo à vontade. Havia muito pouco controle sobre os aviões. Toda a
rapaziada tinha um pouco de tendência para o abuso e eu, dos três, era o pior,
logo a seguir vinha o Luís.
O Fernando é que
pretendia levar as coisas mais a sério. Um dia, o Luís sugeriu-me umas lagoas
que descobrira lá mais para o Sul. Vira bandos de patos grandes a valer e
acrescentou que havia sítios para aterrar; se fôssemos lá com uma espingarda,
caçávamos uma boa dúzia de patos num abrir e fechar de olhos. Apoiei desde logo
a ideia.
Um belo dia, a meio da semana, para que não
desconfiassem, muito pela calada, metemos duas caçadeiras no avião e lá fomos.
Aterrámos na margem e, sem que debandassem, no espaço de uma hora, amontoámos
uns vinte patos dos maiores,
aqueles a que chamam “séquas”. Os
pobres patos certamente, nunca haviam visto um avião e pensavam talvez que
aquilo pertencesse à família...
A verdade é que por muito
tempo se deixaram abater com uma facilidade espantosa. No regresso, ainda nos
vimos atrapalhados para tirar tanto pato do avião, sem sermos descobertos.
Dividimos ao meio o fruto da nossa proeza, que distribuímos pela família e
amigos. É claro que lá voltámos mais vezes, sempre que tínhamos oportunidade.
Que tentação !
Até que um dia a malta
do campo descobriu a marosca e tivemos que distribuir por eles os patos, mesmo
à chegada, única forma de não divulgarem o nosso segredo.
A verdade é que os
superiores vieram a sabê-lo e nós ainda passámos um mau bocado. A brincadeira acabou-se.
Diga-se, porém, que
metemos muitas vezes o avião em sítios difíceis e nunca tivemos a mais pequena
contrariedade. Daí talvez a minha atracção pelas aterragens de emergência!
O Fernando era, de nós
os três, o mais franzino mas, mesmo assim, rijo como as armas. Esta passou-se
com ele: uma vez, com tempo muito mau (chovia miudinho, daquela chuva a que
chamam de “molha-tolos”) o Fernando subiu, levando um barógrafo, instrumento
que regista a linha de subida e a altitude, para os instrutores verificarem os
progressos de voos sem visibilidade. O tempo, entretanto, piorou. A chuva,
batida fortemente pelo vento, tomava a visibilidade nula. Ele tentou, em vão,
voltar à pista. Subiu novamente e foi até aos mil metros, conforme depois
verificámos. Apercebeu-se então de que a gasolina não duraria muito. Enervou-se
e perdeu o domínio do avião, que entrou em parafuso descontrolado.
O avião entra em
parafuso a velocidade extremamente reduzida, em pura perda, e nestas condições
nada mais é do que uma pedra que cai.
Só volta a obedecer ao
piloto através de uma manobra de pedal e "manche" que o obrigue ao
parafuso consciente, para depois se sair dele.
Assim fez o nosso Fernando. Disse-nos:
"Quando vi que já
tinha dado imensas voltas num rodopio louco, centrei, puxando o manche e
endireitando os pedais. O avião passou como um foguete entre dois guindastes da
Ponte Cais, roçando levemente na água e nessa altura, com o domínio absoluto da
máquina, aqui vim aterrar".
Claro que chegou ao
campo amarelo como um canário. Mas nós rejubilámos com o êxito da aventura.
Afinal depois de duas horas de voo errante, lutando contra a tempestade, o
Fernando regressara são e salvo à pista. Para nós era o que contava!
Coitado! O Fernando
ficara marcado por aquele percalço e atribuímos a isso, como causa longínqua, o
seu desaparecimento, embora a causa próxima tivesse sido outra. Ficara
complexado, o que não pode acontecer a um piloto.
Pouco depois caberia a vez ao Luís.
Como o dinheiro não abundasse, fazíamos
habitualmente a pé os três quilómetros das nossas casas ao Campo de Aviação. Saíamos de casa ainda de noite para ao alvorecer estarmos no
campo, prontos para voar.
Nessa altura existia
apenas um avião para os treinos e tinha de ser aproveitado ao máximo.
Estava uma manhã de denso nevoeiro; um nevoeiro de meter medo.
Chegámos e, como de costume, retirámos o avião do hangar.
Empurrámo-lo para a
pista e procedemos ao trabalho que era sempre igual: prepará-lo para ir para o
ar.
Não havia vento, o que acontece quando há nevoeiro.
Pusemos os calços à
frente das rodas, para ele não avançar quando fosse experimentado.
E aí está a primeira
inspecção que um candidato a piloto tem que fazer para se manter calmo e
seguro, rolar na pista e ir para o ar. Primeiro tem de verificar se a máquina
está bem abastecida de gasolina e óleo, verificar todos aqueles cabos de
comandos, purgar o carburador, não vá haver qualquer bocadito de água que
prejudique a carburação, ver se os calços das rodas estão bem postos, não vá
haver um salto e uma fuga desordenada, porque não existiam travões (naquele
tempo era assim), subir e ocupar o lugar dos comandos, pedir por sinais ao
companheiro para dar a volta ou voltas ao hélice, até que o motor comece a
trabalhar. Deixar o motor trabalhar uns minutos até aquecer bem e quando o
achar em absolutas condições com magnetos e comandos, tudo experimentado, fazer
o "magnífico gesto" do polegar virado para cima, o que significava
estar tudo bem e, por isso, só faltar tirar os calços, operação cautelosa e um
tanto perigosa, que era feita pelo companheiro.
Falo neste gesto, por
ele ser o símbolo mais usado desde os primeiros tempos da aviação, pois, com um
motor muito barulhento a trabalhar, algum sinal teria de ser usado para indicar
o que se devia fazer cá fora e creio que foi a Aviação que mais o divulgou e o
vai eternizando.
Há milhares de anos que
os Imperadores Romanos o usavam nas arenas para dar direito ou à vida ou à
morte dos gladiadores que lutavam com homens ou com feras.
Com o andar dos séculos
o símbolo foi desaparecendo ou desvirtuando-se, e aparecendo em plena grandeza,
dando início à grande época da "Aviação".
É verdade que, com uma
mão, através de milénios, muitos outros gestos viriam a ser utilizados com
sentidos absolutamente diferentes, sobretudo nesta época contemporânea, a queda
da Civilização Europeia em que vivemos, significando ou um par de
"cornos", ou "sexo" ou ainda com a ajuda dos antebraços, um
"manguito" e até como símbolo político a significar
"comunismo", “nazismo", etc...
Para mim, o "magnífico
gesto" de polegar virado para cima, é e será sempre um símbolo da
"Aviação".
Mas vamos à provação a
que o Luís seria sujeito.
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