O GRANDE SURTO DE DESENVOLVIMENTO EM MOÇAMBIQUE
Como sempre, quando eu
idealizava uma coisa, do pensar ao realizá-la era obra de momento. E assim
fundimos os Transportes Aéreos do Gurué com os Transportes Aéreos da Zambézia,
e naquela fabulosa Zambézia passou a haver só uma companhia, A T.A .Z.. Eu era sócio também.
Foi, sem dúvida, a Companhia
mais bem montada e organizada que existiu em Moçambique. Desde a contabilidade
até ao mínimo pormenor técnico de voo, tudo estava altamente organizado. Não
havia ninguém que não conhecesse a T.A.Z. e eu augurava-lhe um futuro
grandioso.
Quelimane não tinha
um porto de mar decente. Não tinha hospital decente. Não tinha muitas coisas,
mas tinha a sua T.A.Z. e isto significava muito!
E os mosqueteiros do ar fizeram-na andar para a frente.
Os acontecimentos que se seguiriam viriam pôr à prova todas as suas
qualidades.
Naquela terra que até ali
vivera numa paz invejável, começaram a aparecer uns sinais de rebelião.
Lá para o Norte, muito
longe, ao longo do Rio Rovuma, começaram a aparecer os primeiros actos de
terrorismo. Viria a degenerar numa guerra de surpresas e traições
inconcebíveis. E a T.A.Z. foi chamada a ir lá e foi. Os seus aviões sulcaram
todos os Céus, em que havia ameaças e acções, levando as maiores patentes das
forças armadas aos locais que lhes eram determinados.
Um dia, um dos nossos
aviões foi todo furado a tiro de metralhadoras inimigas. Mas continuaram. Era a
aviação civil, comercial, ao serviço das forças armadas. Isso só nos
proporcionava orgulho.
Bem depressa essas
acções traiçoeiras chegavam bem ao coração da Zambézia, e nunca os nossos
aviões deixaram de fazer as suas carreiras ou de ir lá bem ao sítio onde era
necessário pôr homens e material. Foi nesta época que aconteceu um dos casos
mais tristes da minha vida aeronáutica. Morreu-me um dos maiores amigos dentro
do próprio avião: o Camacho da Cruz. Era uma tarde tenebrosa de tempestade e
voávamos de Nampula para o Gurué. Consegui chegar a trinta quilómetros, mas a
chuva era tanta e varria as serras de tal maneira, que a aproximação tornava-se
muito difícil e perigosa.
Ao meu lado, no “Piper
Comanche”, vinha o Sá Melo, Recrutador Geral do Gurué e, atrás, o Camacho. Ele
sofria bastante do coração e, embora tivesse muita confiança em mim,
afligiu-se. Pediu-me para voltar para trás e eu vi na cara dele uma ansiedade
esquisita. Voltei, e como havia um aeródromo relativamente perto, no Alto
Molocué, resolvi ir lá aterrar. Na aterragem, o avião parecia um barco, pois a
pista tinha muita água empoçada. Chegámos ao topo da pista, onde havia uma
casinhota, parei o motor ainda debaixo de chuva e o Sá Melo saiu. Eu disse para
o Camacho: "Saia! Já estamos em terra firme". Entretanto, fui
fechando todos aqueles botões que os tabliers dos aviões têm, os magnetos, a bateria,
o rádio, etc.. Como ele não saía, eu bati-lhe com a mão nos joelhos, sem olhar
para trás, insistindo para que saísse. Nada! Olhei então para ele e vi-o com um
olhar muito parado, parecendo que me estava a fitar e gritei-lhe:
"Camacho! Camacho!" E nada!
Comecei a dar-lhe bofetadas e
chamei o Sá Melo. Esbofeteámo-lo e nada de reacções: fora fulminado por um
colapso cardíaco. Apareceu logo ali um médico; desde a respiração artificial
até não sei que injecções, foi ali tratado por todos
os processos, mas tudo em vão. Morrera mesmo. Para mim foi um choque doloroso
porque ele era um grande e belo amigo, um honrado e bom homem, à sombra do qual
alguns fizeram fortuna, pois era gerente de uma grande plantação e gostava de
auxiliar quem dele se aproximava a pedir ajuda. Alguns deles foram depois muito
ingratos. O Camacho tinha sido melhor em vida para os outros do que para ele
próprio, pois podia ter morrido rico e morreu pobre, deixando viúva e dois
filhos sem nada. Grande amigo que perdi!
Mas estávamos a atravessar uma
época terrível. Em breve se reconheceria que o "terrorismo" sob
alguns aspectos, foi um bem para esta nossa querida
terra. Foi como que uma chicotada neste marasmo em que se ia vivendo. Houve uma
grandiosa reviravolta na política.
Iniciava-se uma nova era e eu
estava certo que Moçambique viria a ser um dos principais países da grandiosa
África, ao sul do Equador.
É nomeado Governador-Geral um homem que é de Moçambique!
Esse homem, por
ironia do destino é, como nós, piloto. Ele também conhece isto
palmo a palmo. Foi um dos primeiros oficiais a dirigir o Conselho da
Aeronáutica naqueles velhos tempos e a ele se deve, em parte, as facilidades
que levaram a nossa aviação tão longe. Nesse tempo era tenente e mais tarde
seria o General Costa Almeida. Começou um surto de desenvolvimento espantoso.
Surgiram escolas por toda a parte. O povo correspondeu, pois é fantástica a
febre que se sente pelo ensino. Abrem-se Escolas Agrícolas e finalmente uma
Universidade. Assim, sim..
Fábricas para trabalharem as nossas
matérias primas, nascem como cogumelos.
Quer dizer: toda aquela boa
gente de Moçambique, nascida na Metrópole ou em qualquer outro sítio, mas que
fizera daquilo a sua terra, os de lá, fossem de que raça fossem, porque lá
nunca houve diferença, fincou o pé e resolveu continuar. E não houve um
covarde!
Não houve a debandada
prevista e isto aconteceu, porque a agressão veio de fora. Eram forças
estranhas com objectivos inconfessados, que levariam a nossa querida terra ao
caos em que se encontra. É preciso compreender que um povo, só com uma certa
maturidade pode escolher aquilo que quer.
Ponderava eu então:
"Creio que mais tarde, quando a ocasião chegar, Moçambique será uma grande
Nação em África.
O que é preciso é que quando
chegar esse dia, a nossa terra esteja capaz de a governar com paz, com
segurança e com a projecção a que tem direito. Serão brancos, pretos,
castanhos, amarelos e azuis a dirigir. A coisa vem-se preparando para isso!
Terá de levar anos mas isto é um fenómeno histórico".
O nosso Governo tomou
imediatamente medidas para enfrentar uma tal guerra. Contingentes militares
começaram a chegar ao Norte e a festa então começou a sério.
Conheci muitos rapazes que
queriam a toda a força ir para lá, voluntariamente, para onde havia guerra. O
sangue fervia-lhes!
E muitos conseguiram-no.
Entre outros foi um do
Gurué que eu conheci de miúdo. Era o Dédê!
Tinha vinte e três anos e ele foi para não voltar.
Saíra do serviço militar havia pouco tempo e
voltara a casa dos pais. Tinha a sua namorada e um dia disse-lhe que a ia
deixar por seis meses e que depois voltava para casar. Esse rapaz era um grande
desportista. Eu é que lhe tinha ensinado e metido o vício do futebol no corpo,
noutros tempos. Muito conhecido e querido em toda a Zambézia. Os rapazes que se
ofereciam como voluntários assinavam um contrato de seis meses e tinham um bom
vencimento. Ele então disse à pequena que iria por seis meses, voltaria com
dinheiro para casarem e que depois ficaria a trabalhar com o pai, que se
dedicava ao comércio. Pouca gente sabia desse pacto de amor e eu sabia-o,
porque a rapariga encontrara na minha mulher a sua confidente na amargura
porque passava e sabia que ou eu ou os meus colegas de vez em quando víamos o
seu Dédê, andasse ele no teatro das operações em que andasse. E então eu
contava como ele ia e ela lá se alegrava. Infelizmente, o seu fim foi trágico e
aí está um caso em que se vê que o destino é inexorável. Ele não devia ter
morrido, mas o destino exigiu-o. Por ser tremendamente afoito e destemido, por
várias vezes se viu em situações difíceis, mas conseguiu sempre safar-se.
Percorreu a pé centenas de quilómetros sempre nas imediações do Rovuma, à
frente de vinte homens que comandava, até que chegou ao fim do contrato dos
seis meses e a rapariga recebeu uma carta assim: "Querida, como vês pela
data desta carta, esta minha aventura já acabou. Saí-me
bem. Em breve estarei
junto de ti e já sabes! Não temos tempo a perder! Eu tenho os meus papéis em
ordem. Tu vai tratando dos teus, pois eu quero casar logo que aí chegue.
Quero-te minha para toda a vida. Tu também não queres assim? Não digas aos meus
pais que
eu chego,
pois quero-lhes fazer surpresa!
Vou amanhã no avião da carreira a
Porto Amélia, ao Governo, pois já acabei a minha missão. Gostei destes seis
meses de aventuras mas, sem ti, o tempo
custou muito a passar. Estou desesperado para voltar para junto de ti,
para te apertar muito nos meus braços,
para sermos um do outro para sempre".
Ele pensava assim, mas o destino é que não quis que assim fosse!.
Quando chegou a Porto Amélia,
o Governador do Distrito não estava. Ainda demorava e o nosso Dédê voltou a
Mocímboa da Praia. Já estava desligado de qualquer compromisso, mas no dia
seguinte havia uma missão simples e o Administrador chamou-o e convenceu-o a
ir. Iriam ele e outro voluntário, com uma dúzia de milícias a escoltar dois
camiões que iam carregar uma mandioca que tinha de ser retirada de determinado
sítio, ali a uns quinze quilómetros. Quase a chegar ao local, foram
surpreendidos por uma vintena de terroristas que abriram fogo de metralhadora
contra os veículos. Bem treinados, saltaram do carro e abriram também fogo
contra os terroristas, que se puseram imediatamente em fuga. Mas o capim estava
muito alto e a traição espreitava-o. Ele ainda correu, atirando conforme podia,
e então fez-se silêncio absoluto. Tinham desaparecido!
Voltou para o carro, subiu para o “capot”
e quando procurava ainda descobrir qualquer coisa, de lado, mesmo do meio do
capim, veio uma rajada de metralhadora que o apanhou na barriga. Mesmo ferido,
ainda fez fogo com a sua metralhadora, mas já estava condenado! Levado a toda a
pressa para o Hospital de Mocímboa da Praia, viria a falecer horas depois,
chamando pela mãe e pela sua amada!
Pobre Dédê, que em vida tinha
sido tão bom rapaz e tão bom desportista, pobre pequena que chorou amargamente
um destino tão cruel e pobre mãe que nunca esquecerá o seu Dédê!
E aparecem então tipos, os
mais curiosos, a enfrentarem aquela situação difícil porque passávamos, das
maneiras mais estranhas.
Um deles, rapaz bom
amigo, bem lançado na vida, ainda novo mas já casado e com três filhinhos, logo
que tinha notícia de que havia uma entrada de terroristas pela fronteira, que
ficava relativamente perto, arranjava um ou dois companheiros com o mesmo
espírito e aí ia ele ao encontro do perigo. Metia-se pelo mato dentro, bem
armado, claro, e passava dias e dias no que ele chamava a "caça ao
terrorista". Felizmente para ele, a táctica dos grupos que entravam
consistia em nunca darem luta frontal e fugirem quando se sentiam perseguidos,
mas mesmo assim ele andou por vezes bem junto deles e entrou em vários
tiroteios. A esposa lá ficava ansiosamente à sua espera e ele voltou sempre.
Teve sorte!
Era o sangue que lhe fervia também e foi
pena que um indivíduo destes não tivesse enveredado pelo caminho da aviação,
pois, com o seu modo destemido de encarar a vida e o espírito aventureiro,
estava bem talhado para a vida do ar: o João Bandeira de Melo (Rilvas)
Administrador e herdeiro das grandes plantações de chá do grande pioneiro
Manuel Saraiva Junqueira.. Então ele que tinha uma
irmã, a Isabel Rilvas, que foi das melhores aviadoras portuguesas de sempre e
até ao pára-quedismo se dedicava, chegando a ser campeã Ibérica da modalidade!
Os actos de terrorismo não
diminuíam e a T.A.Z. respondia sempre: Presente! Quando era chamada, sobretudo
para serviço de socorro.
Os seus aviões
aterravam em campos inconcebíveis. E para demonstrarem a todos quantos
acompanharam isto que eu conto e que tenham pretensões de conhecerem bem a
geografia e topografia das regiões em que estas acções decorreram, eu apresento
umas dezenas de campos de aviação que foram criados por esta altura e quase
garanto que poucos terão conhecimento de eles existirem. Isto só no Norte de
Moçambique.
Cantina Dias, Nova Coimbra, Macaloge,
Cóbué, Olivença, Muembe, Metangula, Milepa, Tenente Valadim, Mecula,
Mecanhelas, Mandimba, Mocímboa do Rovuma, Palma, Diaca, Nangade, Muidumbe,
Chai, Miteda, Mutamba dos Macondes, Negomano, Mueda, Pundanhar, Nangololo, Nairoto,
Meloco, Meluco, Ancuabe, Mucojo, Marere, Lugenda, Catur, Nova Viseu, são campos
que foram feitos à pressa para servirem de testa de defesa, quando necessário.
A todos estes sítios foram os nossos aviões.
Eu era o que ia menos para o
teatro de operações: os meus colegas mais novos é que iam dar o corpo ao
manifesto e posso aqui garantir que eles fizeram o quase impossível. Aterravam
em campos incríveis e, por vezes, o mau tempo, o mau campo e o mau inimigo,
tudo era contra eles. Porém, isto fazia-se alegre e desportivamente.
Assistiram, por
vezes, a cenas terríveis. Alguns tiveram de passar a noite debaixo da asa do
avião acompanhados de soldados e num tiroteio permanente, para evitar a
destruição da sua querida máquina.
Nunca estranharam isto, mas eu
já era burro velho, que tinha seguido o conselho do meu pai, que nunca me
interessara jogar para as medalhas, lamentava no íntimo que para aquela
rapaziada nunca tivesse havido um louvor, uma palavra de estímulo, enfim,
qualquer incentivo que eles tanto mereciam. Houve tantos louvores para outros!
Eu é que ia ficando cá atrás, habilidosamente, mas nem assim me safei.
As carreiras que me estavam
distribuídas apanhavam o triângulo que foi depois o teatro terrorista na
Zambézia: Gurué, Milange, Tacuane, Gurué.
Do outro lado ficava o
Malavi, antigo Niassalândia e dali vinham os terroristas.
Mas começaram a aparecer também grupos de
bandoleiros e vadios. A princípio eles actuavam à vontade, à surpresa e à
traição. Havia umas lojas e eles em grupos, aproximavam-se. Isto em pleno dia.
Um ou dois entravam e pediam uma caixa de fósforos ou qualquer outra coisa.
Quando o desgraçado da loja se voltava para satisfazer o pedido, levava pelas
costas dois ou três tiros e ficava ali estendido. Então vinham os outros e praticava-se
o saque. Se havia família, era tudo massacrado. Aqui está o horror de uma tal
guerra.
Passava um carro na estrada
carregado de farinha ou de outros produtos e vinha uma rajada de metralhadora
que, se não matava o condutor, o obrigava a parar, e ele, ou fugia mato dentro,
ou era mesmo morto. E nesta "brincadeira" foram matando vários
europeus.
Apesar de tudo, a malta não
arredou pé. Armou-se, de facto, até aos dentes e depois, eles que viessem.
Os próprios trabalhadores
viviam apavorados, pois, quando chegava um grupo de terroristas, já sabiam que
tinham de entregar tudo o que era de comer. E os grupos eram enormes.
Acompanhava-os uma multidão
imensa de vadios, que só tinham em mira os saques. Se os outros se recusavam a
dar-lhes os seus produtos, eram abatidos como cães.
Um dia, no Tacuane, mesmo ao
lado do campo de aviação, resolveram fazer um ataque em forma a três lojas que
lá existiam. Tratava-se de um grande grupo, com espingardas, pistolas e
metralhadoras.
Começaram pela loja do
lado esquerdo e deram uns tiros que partiram as vitrinas todas para poderem
entrar. O dono, que estava lá, não teve tempo para nada e conseguiu desaparecer
na escuridão da noite. Mas o comerciante do meio,
tinha bastante material de guerra em casa e resolveu fazer frente. Abriu fogo
e, segundo parece, teve sorte, pois de entrada atirou dois abaixo e feriu
outros. Então, vira-se tudo aquilo contra o homem e foi um tiroteio dos diabos.
Durante hora e meia foi uma guerra a sério. O homem corria de uma janela para a
outra e atirava. Umas vezes, com uma metralhadora, outras com uma caçadeira e
ainda com uma 7.7.. Chegou a atirar uma granada de mão que não explodiu. A
verdade é que com aqueles tiros a esmo ele foi apanhando um ou outro e ele
também foi apanhado mas, a esvair-se em sangue, nunca o deixou perceber e nunca
deixou de fazer fogo. Tinha sido baleado no pescoço, num ombro e num braço. No
dia seguinte de manhã, um dos nossos aviões levava-o para Quelimane, onde
esteve muito tempo hospitalizado.
Os bandoleiros, na retirada, ainda
passaram pela casa de um europeu que vivia isolado, o Isidro. Um deles foi
bater-lhe à porta sob qualquer pretexto e o desgraçado veio ver
desprevenidamente quem era. Foi imediatamente agarrado, espancado e por fim
cortaram-lhe os órgãos sexuais. Foi assim barbaramente que morreu o Isidro, o
homem que tantas vezes me aparecia lá no campo de aviação a saber notícias da
mulher e dos filhinhos que tinha mandado para Quelimane, para os pôr a salvo da
tragédia que adivinhava.
A situação naquela altura esteve tão má que foi resolvido tirar todas as senhoras e crianças do Tacuane.
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