O GRANDE DESASTRE E MAIS ALGUNS

O Loockeed acabava de aterrar em Quelimane. O aeródromo regurgitava de gente, pois todo o povo se queria despedir do querido Director da Fazenda, Valente e esposa, que abalavam para um descanso merecido depois de mais de quarenta anos de serviço prestado ao Estado, na maioria em Quelimane mesmo. Ele reformara-se e vinha à Metrópole. Com o avião abastecido e pronto, veio a ordem de embarque. Muitos abraços, muitas lágrimas e muitos lenços a acenarem. O Xico, aos comandos, com um sorriso, acenou levemente para aquela multidão. Tudo experimentado, o avião rola e vai para o ar. Centenas e centenas de lenços a acenarem, e aquela gente seguia com os olhos o avião que se elevava. A seguir rodou suavemente para a esquerda, parecendo que ia tomar o rumo normal, mas não.

Alguém viu uma fumarada a sair de um dos motores e o avião a descer um pouco. Era a tragédia! Depois, com um esforço desesperado parecia que o avião queria voltar à pista sem o conseguir. De longe viram-no a afocinhar, ali mesmo à frente, na planície, a uns escassos quilómetros. Foi um pavor! Quando o avião caíu no chão, explodiu imediatamente. Toda aquela gente viu uma labareda horrível que parecia elevar-se a mais de cem metros: trezentos galões de gasolina ardiam infernalmente, envolvendo num banho fatal o nosso Xico e mais oito vidas. Todos quantos seguiam naquele fatídico avião. Eu estava na base, na oficina de reparações de motores, onde parava muito, e a notícia chegou-nos suave: "Há qualquer coisa com o Loockeed em Quelimane. Parece que houve estoiro!” Depois veio a notícia pavorosa: “O avião explodiu no ar!” A própria rádio de Lourenço Marques deu assim a notícia para todo o mundo. Depois, para nós, a malta da aviação, a malta da casa, todos agarrados ao rádio em comunicação directa com Quelimane, veio uma notícia que nos encheu de esperanças: "Um avião acaba de sobrevoar o local do desastre. Notou umas pessoas de aspecto andrajoso a moverem-se à volta, a salvo do fogo". Momentaneamente houve alegria. Numa hora destas é que se pode aquilatar o que é a rapaziada da aviação, do mais graúdo ao mais miúdo! Eram os chefões, os Engenheiros, os pilotos, os mecânicos, os telegrafistas, os aprendizes, os serventes, enfim, todos a ver se com aquele calor humano a transbordar, conseguiam que fosse mentira o que aconteceu, porque, de facto, acontecera a tragédia. Na madrugada seguinte, eu iria com uma comissão de inquérito, num velho Junker, para se saber as causas do desastre. Iria encontrar o meu querido camarada, que era mais alto do que eu, reduzido a um tição que não tinha mais de um metro de comprimento. Ele foi dos que foram reconhecidos, porque tinha os dentes sobre o comprido e os galões de comandante, metálicos, fundidos naquilo a que dificilmente chamaríamos de ombros. E era dos que estava mais inteiro. Um horror! E então eu vi todos aqueles tipos que tinha levado, alguns tidos como muito duros, que perante aquele espectáculo não se contiveram, deixando correr fartamente as lágrimas pela cara abaixo. Eu também, mas fugi. Procurei ir para longe, amargurado, cozinhar o meu sofrimento. Mas ao pobre Luís fora reservado o pior. Ele voava no dia do desastre noutro avião para o mesmo aeródromo donde o Loockeed saíra. Chegaria dez minutos depois do outro largar. Quando deu a hora da chegada à Estação Radiogoniométrica, foi avisado de que se passava qualquer coisa de grave com o Xico. Se eles eram amigos!... "Aonde está o avião? Na direcção da Beira, a uns cinco quilómetros do campo!”  E aí vai o Luís directo ao local da tragédia. Dizia-me depois: "Ainda havia labaredas enormes, não só no avião, como à volta". Ele passara tão baixo que sentira o cheiro de carne queimada, mas não se queria convencer de que estavam todos mortos. Não podia ser! Ele tinha estado poucas horas antes com aquela bela tripulação lá no Lumbo. O Xico, o Rui da Cunha, o Leão, não podiam estar mortos. Na última volta conseguiu ver uns vultos a arrastarem-se ao largo daquele inferno. E então mandou umas mensagens para a base. "Desastre horrível, avião a arder furiosamente. Vejo nitidamente vultos andrajosos a arrastarem-se à volta dos destroços". Não se enganava, não. De facto, cinco rapazes que estavam ligados à aviação, largaram numa corrida louca desde o aeródromo através do pântano que os separava do local do desastre, água pela cintura, num esforço tremendo e lá estavam a chegar numa tentativa vã de prestar os primeiros socorros. O Luís dirigiu-se à pista, mas a tentativa de aterragem gorou-se. Pernas e braços tremeram-lhe tanto que era impossível aterrar. Deu outra volta, respirou fundo, trincou a língua e então aterrou. Soube logo que os vultos que vira, eram daquela bela rapaziada dali que fora na esperança também de os salvar. Depois, fora do avião foi debruçar-se numa asa e ficou por muito tempo a sofrer aquela visão diabólica! A origem daquele desastre foi uma cabeça de cilindro que rebentou e acabou por estoirar com um dos motores. Mas a meu ver, isso não era razão suficiente para uma tal catástrofe. O Xico era um piloto de mão cheia. Tinha sido um dos nossos melhores acrobatas. Dificilmente se atrapalhava. O avião, com um motor só, podia seguir adiante centenas de quilómetros, se fosse necessário. De mais a mais, não ia muito carregado. Apareceram testemunhas a afirmar que o avião antes de cair, ia a arder. Seria isso? Se foi, pobre Xico! Ele viu  que não se podia defender e então muito deve ter sofrido naqueles últimos instantes. Não havia piloto comercial nenhum no Mundo que, a cinquenta ou cem metros de altura com o avião a arder, se conseguisse safar! Teriam os passageiros percebido o perigo e teriam corrido para a porta ou mesmo para a cabine de comandos, dificultando as manobras necessárias? O mistério fica. O Xico era um grande piloto e algo de anormal devia ter acontecido para a tragédia ocorrer daquela maneira. Foi o único desastre de consequências graves que a D.E.T.A. teve. Apareceram logo detractores. Neste caso, atiraram-se ao velho Eng°. Pinto Teixeira, pai do Xico, dizendo ser ele o culpado da morte do filho. Esse homem foi o criador da D.E.T.A.: a ele se deve essa grande D.E.T.A. . A versão chegava a este cúmulo: o pai estava nesse dia em Quelimane e que o filho lhe teria dito que os aviões andavam a cair e que talvez resolvesse nem continuar já a viagem, ao que o pai respondera: "Vais e vais mesmo. Se te recusares, serás imediatamente demitido. Isto não é para covardes!"

Ele foi e lá se foi!...

         Ora o pai nem estava em Quelimane!...

Há muita crueldade nisto.

O Xico como filho do Director, tinha muitas mais possibilidades de lhe falar do que qualquer de nós. Ele era um camaradão e pugnava sempre pela classe a que pertencia também.

Como já foi dito, estávamos em tempo de guerra e os aviões por vezes tinham dificuldades de sobressalentes. Mas ia-se tirando peças de um e metendo no outro e a verdade é que as carreiras nunca deixaram de ser feitas. Nunca pararam.

O Xico contou-nos uma vez que tinha dito ao pai que a malta andava aborrecida porque os aviões estavam a ser um bocado atamancados, ao que o pai respondera: "Olha!... Tu sabes que à testa das oficinas está um engenheiro responsável que sabe o que faz".

Ele sabia, de facto! Era o Eng°. Carregal Ferreira.

- "Diz lá aos teus colegas, aos que não concordarem, aos que não se acharem bem, que saiam. E tu se quiseres, sai também!"

Ora, se ele tivesse saído, tinha dado uma alegria tremenda à mãe que nunca concordou que ele fosse piloto. Mas o Xico, sair? Nunca!

Ele era como nós. Tinha esta doença incurável. Mas daí, talvez o ter aparecido aquela venenosa versão só para denegrir o homem a quem ao fim e ao cabo se deve a aviação que sulcava todos os recantos de Moçambique.

Este desastre chocou-nos muito. A perda do amigo, dos amigos, é o que mais custa.

Depois, o nosso pensamento, a nossa vontade voltava-se logo para mais um voo. Voar! E temos mesmo que continuar a voar. Já não se podia viver sem isso.

Quando se gosta de uma mulher e ela se "faz cara", não liga, parece que ainda gostamos mais dela. A aviação é assim também!

Desastres? Há sempre. Quer seja de bicicleta, de moto, de carro, todos os dias há desastres. Mas aqui tratamos dos da aviação.

Temos de partir do princípio de que em noventa e cinco por cento dos desastres de aviação, o homem, o piloto, é o culpado.

Vou relatar alguns desastres para verem como é. A pelo menos três eu assisti.

Aquele Tiger que me ia matando em cima da casa foi reconstruído.

Levou muito tempo a ser reconstruído e muito pouco tempo para ir para o ar, matar dois amigos e desaparecer de vez. Por causa do meu desastre e deste que se seguiu, chamaram-lhe o avião "fatídico", mas ele, o meu rico Tiger, não teve culpa nenhuma, nem no primeiro nem no segundo desastre.

Naquela noite de sábado houve farra até de madrugada.

O nosso Águas, piloto do Aero-Clube, tanto insistiu com o Almeida - pois este não queria ir - que o convenceu. O Almeida era um rapaz novo, mas muito bem lançado na vida. Era o homem do bar do Savoy Hotel e a simpatia em pessoa. Naquela manhã de domingo eles aí vão para o campo de aviação. Levantaram voo e dirigi­ram-se à praia.

Pequename” que fervia e aí está o Águas em voos rasantes a assustar toda aquela gente. De facto, ele abusava muito.

A páginas tantas, viu um barquito com motor fora de borda, reconheceu o Peão Lopes, um companheirão de farras, e não resistiu. Fez um picanço e o nosso Peão Lopes teve que se deitar no fundo do barco. Outro picanço e quase o tocou. Ainda outro e no mesmo instante quis descrever uma curva: a ponta da asa bateu na água e o avião entrou pelo mar num estrondo infernal. O Peão Lopes já se tinha atirado à água. Eles morreram instantaneamente. Andámos depois a nadar no local em que estava o avião, tentando retirar os cadáveres, mas a gasolina que se ia derramando no mar cegava-nos. Só quando a maré vazou pudemos retirá-los.

O avião não tivera culpa!

A seguir, foi o do Tenente Ivo Cerqueira, dos homens mais entusiastas da aviação que eu conheci, também piloto do Aero-Clube. Voar, para ele, constituía a maior alegria.

Era bastante atrevido.

Naquele domingo à tarde, convidou o Juiz Peixoto e Cunha para um passeio. Soprava uma ventania dos diabos. O avião, era um “Cubezito” muito frágil e com um motor pouco potente. Eles aí vão, mas não se afastaram muito da pista. Uma rajada de vento embrulha o avião e estatela-o. Entrou em perda! O Dr. Juiz, a quem entrou um ferro na testa, teve morte instantânea. O Ivo partiu uma perna e fracturou várias costelas. Fui vê-lo muitas vezes ao hospital. Pensam que perdeu o entusiasmo pela aviação? Nunca! Daí para a frente, logo que se apanhou bom, passou a ser ainda maior entusiasta. Fomos bons amigos.

A aviação desportiva começou a ter grande desenvolvimento.

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