O 25 de Abril...

25 De Abril de 1974 mudou tudo.

É claro que se esperavam e desejavam mudanças no país. E Moçambique não era excepção. Alguns anos antes já assistira ao movimento gerado pela candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, assisti ao grande movimento de massas que a sua recepção teve em Coimbra, onde então eu era estudante, tendo estado no meio de uma multidão bastante considerável reunida no Largo da Portagem, onde estava prevista a sua chegada vindo da estrada da Beira, para o receber, recepção que depois se gorou, e nomeadamente presenciei à noite, um seu comício no Teatro Avenida, cheio a transbordar, no qual, além do próprio Delgado, discursaram figuras consideradas eminentes como o Prof. Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, Rolão Preto, Vasco da Gama Fernandes e outros cujos nomes já não recordo, por vezes portadores de ideologias bastante diferenciadas, de cujo conteúdo geral aliás não gostei. Todos, empolgados nas suas palavras, conseguiam transmitir à plateia expectante um elevado exponencial de entusiasmo. Vivia-se um ambiente electrizante, de alta tensão. A emoção sobrelevava a razão. Eu, como até ainda hoje é moda, podia declarar-me convencido e totalmente aderente, conforme à linha geral propagandeada pela esquerda. Eu, porém, independente, sempre me guiei pêlos meus critérios.

Fiquei impressionado, mas não convencido e por isso não me empolguei como os presentes, e não ... não gostei.

E também muitos de nós estudantes seguíamos diariamente as vicissitudes da campanha pêlos jornais. E comentávamos. Toda a gente comentava. E nunca esqueci a notícia da célebre conferência de imprensa no salão superior do Café Chave d’Ouro, no Rossio, e a famosa frase do general, à pergunta sobre o que faria a Salazar caso ganhasse as eleições: - “Obviamente demito-o “. E sem esquecer a proclamação do general, e que era afinal uma espécie de programa político, as linhas gerais dos seus propósitos políticos nos vários sectores da vida nacional, e o mesmo em relação ao ultramar, em relação ao qual estava longe a ideia de independência e muito menos de uma guerra colonial. Programa editado em caderno anexo pêlos principais jornais, e que aliás guardei por vários anos.

E tudo isso, entre colegas e amigos discutíamos, uns mais a favor da mudança, outros mais reticentes... isto, apesar de a grande maioria ser contra a situação e contra Salazar.

Mas sabíamos que as populações em geral, principalmente as rurais, não davam acolhimento a mudanças. Era um movimento essencialmente urbano. Como quase sempre acontece na política nacional. E bastante limitado.

Ora, de tudo isso havia que tirar duas conclusões imediatas: que uma parte do povo mais esclarecido, e os chamados intelectuais, desejavam a mudança; mas que aqueles homens, a entourage do general, bastante heterogénea na sua qualidade, e sobretudo na sua ideologia (socialistas, integralistas, comunistas.... e outros), a maior parte deles sobrantes dos grupos da I República, não eram as pessoas consideradas confiáveis e capazes de realizar as necessárias mudanças a contento do país em geral. Eram mais teóricos e utópicos, que verdadeiros políticos com sentido do real. E por isso concluía-se que a candidatura valia mais pela coragem de enfrentar o sistema do que pelo conteúdo do seu projecto e pelas perspectivas de sucesso que oferecia. Era assim um movimento assente mais no emocional que no real. E portanto utópico e nada verdadeiramente político, assente na realidade do país, destinado a resolver os seus problemas reais.

Mas se uma certa camada, talvez a mais intelectualizada, reconhecendo as restrições aos direitos políticos desejava a mudança, a grande massa da população, ainda ruralizada, quase analfabeta e pouco esclarecida, preferia o estado de coisas em que se vivia. Ou, de outro modo, quem não tinha que se preocupar com a subsistência e vivia na abundância, queria mais, queria os direitos fundamentais, as liberdades plenas para isto e para aquilo; mas o povo, a maioria, que

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caos, o povo só desejava um governo honesto, competente e de mão firme para pôr ordem na sociedade, e na política, refazendo a autoridade do Estado, cansada de tanto desgaste, para lhe dar segurança e tranquilidade para poder trabalhar em sossego, governo que pudesse acabar com os pretensos revolucionários arruaceiros e bombistas, e evitar que o país viesse a ser alvo de uma acção revolucionária mais ampla, brutal e feroz, como a desencadeada na Rússia em 1917 e da qual vinham chegando cada vez mais notícias dos horrores sofridos pela inocente população daquele país, e a que o mundo livre chamava o terror vermelho Tanto bastaria para o grande público, católico, abominar a acção das esquerdas em minoria, que eram ateias e amorais, e combatiam abertamente a religião e todos os princípios cristãos.

Tudo isso razão suficiente para apoiar qualquer governo que com mão firme pusesse termo a tantos dislates. Por isso um governo de autoridade firme era considerada uma bênção!

E mesmo ao longo dos anos, mais tarde, nesta mesma linha, também foram vistos, tal como na Rússia, os horrores praticados na guerra civil da vizinha Espanha, aqui mesmo ao lado, em 1936/39. Em ambos os casos uma guerra civil dramática e catastrófica, causadora dos maiores sofrimentos às populações e das maiores depredações materiais.

O que só veio confirmar o que tanto se receava.

E muitas outras situações que ocorreram, antes e depois, em várias partes do mundo. Pois como se sabe, ocorreram, mais tarde e de forma não menos dramática, em momentos sucessivos com o post segunda grande guerra mundial, nos países vizinhos, e da Europa central, incluindo uma boa parte da Alemanha, ditos satélites, da União Soviética que, não lhes bastando o que sofreram com a devastação geral resultante da guerra, tiveram ainda de suportar as purgas ideológicas e todos os efeitos nefastos resultantes da instalação de regimes socialistas totalitários, dependentes da URSS, e a esta ligados e submetidos pelo Pacto de Varsóvia. Os campos de concentração na Sibéria, em crueldade, não ficaram atrás dos campos de concentração nazis.

E veio depois a guerra da Coreia, a guerra do Vietname, do Cambodja, de Cuba, e mais recentemente da Nicarágua, e além de muitos outros casos menores. Num extenso rol de casos cada um o mais gritante, de barbaridades, causadoras de milhões de mortos. Pois onde aparecia a tal esquerda, o tal socialismo, aparecia a guerra subversiva, o terrorismo, depredações, sofrimento e morte.

E o mesmo também aconteceu, de forma bem mais grave e mais profunda, na China, em resultado dos actos de loucura desumana de Mao Tse Tung, primeiro ao desencadear a guerra civil contra os nacionalistas chefiados pelo general Schyang Kay Schek, que com grande sacrifício do povo e grandes dificuldades militares acabavam de combater e expulsar os invasores japoneses, e que perseguidos agora por Mao, acabaram por terem de se refugiar na Ilha Formosa ou Taiwan. E em seguida, dominando toda China continental, com toda a sua absurda e criminosa política radical de esquerda, que culminou com a revolução cultural, movimento fundamentalista levado a cabo pelo partido único e sobretudo pêlos jovens guardas vermelhos fanatizados, com episódios grotescos como a grande marcha contra os pardais, matando milhões, com o pretexto de que estas pobres aves devastavam as searas, ou o grande programa da produção de aço que levou a fundir tudo quanto era metal, só para aumentar as estatísticas de produção e depois de nada serviu por inútil, e muitos outros programas ou episódios do mesmo jaez, que serviram para desmantelar toda a economia tradicional, quer a rural, de subsistência, ou mesmo a industrial; e ainda todas as iniciativas ditas culturais que não passavam de purgas ideológicas e que todas juntas e ao longo desses trágicos anos de revolução, levaram à morte de cerca de quarenta e cinco milhões de pessoas, umas passadas pelas armas, ou em resultado da tortura, na maior parte dos casos praticada pêlos jovens guardas vermelhos, muitos deles crianças, irresponsáveis, cruéis, às vezes mesmo na pessoa de elementos das próprias famílias, ou dos seus próprios professores, quase sempre por "crimes ideológicos” e outras pessoas mortas simplesmente de ... fome. Além da destruição de bens materiais ou mesmo documentos, de interesse histórico, sob o pretexto de romper  com todo o passado e em geral pretendendo-se a aniquilação de toda tradição e no final de toda a cultura dita burguesa, ou no pior sentido pequeno-burguesa, vigente na sociedade, cultura que é a final e com toda a certeza a identidade, a alma, de cada povo.

E foi nessa linha, que vieram depois os pretensos movimentos nacionalistas em África, nas nossas colónias. Mas que de nacionalistas não tinham nada. Por um lado não existia nacionalismo algum. Os territórios, ou colónias, eram então e serão ainda por muito tempo, largos espaços habitados por populações distribuídas por diversas tribos, raças, ou etnias, subdivisões dentro da raça negra. Em  geral, e quando vizinhos, inimigos uns dos outros, ou no mínimo rivais. Com usos e costumes muitas vezes semelhantes, mas diferentes. As fronteiras das colónias, hoje países, tinham sido completamente determinadas à distância, a régua e esquadro, sobre o mapa, a partir da Europa, na partilha de zonas de influência, segundo a política e circunstâncias de cada momento na evolução histórica, resultando que certas tribos ou raças se distribuíam por dois ou mais países, em virtude da televisão geométrica do seu território. Tal como o caso típico da nação dos curdos, na Ásia Menor, que se espalha por seis países. Mas nação, no sentido culto do termo, era coisa que não existia em África. Era pura ficção. Mais invenção interesseira que ficção.

Tem sido invocado como prova de nacionalismo em Moçambique o incidente com os vátuas, no fim do século XIX, os quais eram chefiados então pelo soba Gungunhana, matéria objecto muita escrita, muita lenda e celebrada até em filme. Mas nem sempre de forma correcta. Pois não se tratou de movimento nacionalista, nem sequer independentista. Que tais conceitos não estavam revelados na época, nem tinham então, face às circunstâncias e ao momento histórico, o menor cabimento. Acontece apenas que a tribo vátua de sua natureza violenta e agressiva, e naquela época chefiada por esse soba não menos agressivo, fazia constantes razias nas tribos vizinhas, massacrando populações, raptando mulheres, e saqueando gados e outros bens, de que resultavam inúmeras queixas das tribos vizinhas ofendidas às autoridades portuguesas, que durante muito tempo não puderam pôr termo à sua impunidade por falta de forças disponíveis e suficientes para uma acção de sucesso. Tendo sido necessário organizar a expedição da Metrópole, nos termos que se sabe. Por outro lado estes territórios situavam-se na zona de fronteira de influência inglesa, que ambicionava o domínio de tal zona, e que através da acção no terreno dos missionários protestantes ingleses, ciosos da defesa dos interesses da Coroa britânica, incitavam Gungunhana à revolta, e chegaram a fornecer-lhe armas. Foi então que se justificou a conhecida intervenção militar portuguesa com a expedição comandada por Mouzinho de Albuquerque. E para se mostrar que o tal interesse inglês pêlos territórios dessa zona era real, veja-se a questão que se arrastava e que se internacionalizou e durou por largos anos, da chamada questão da “ baia de Lourenço Marques” baía que os ingleses reivindicavam, que se ligava como fronteira marítima à zona do interior do território dos vátuas, questão que entretanto foi resolvida a favor de Portugal num processo de arbitragem internacional.

Como se mostra, era assim muito mais que uma questão tribal, e nada nacionalista... era o interesse oculto da "pérfida Albion”, como então muitas vezes era designada a Coroa britânica.

Deve dizer-se ainda que a baia de Lourenço Marques era tão apetecida que até os holandeses já tinham tentado ali instalar-se em tempos mais recuados e custou bastante desalojá-los.

A história é a ciência dos factos. Não das mentiras fabricadas com fins interesseiros de propaganda.

Mas é claro e perfeitamente inteligível: era conveniente criar aqui pela esquerda, para fins de propaganda, um “nacionalismo“oprimido, uma situação de coitadinhos sofredores que justificasse os factos subsequentes, ou seja a luta de terrorismo a favor de tal "nacionalismo” com vista à pretensa "libertação” dos povos sofridos "oprimidos e explorados".

E foi ainda necessário, para toda a esquerda, para alcançar os seus perversos objectivos políticos, e que fundamentalmente eram estender também até esses territórios a influência e o domínio socialista totalitário soviético, criar uma semântica própria para certas palavras-chave, tipo slogan, ou estribilho, para repetir, repetir, insistentemente, para entrar nas cabeças de todos, palavras como colonialismo, nacionalismo, e outras, e enquadrar tal sentido, pejorativo, no pior sentido, num contexto geral, inventado para fins de propaganda, e relacionando-os com conceitos base chocantes, como exploração, opressão, escravatura, etc, e que era servido como produto de informação, e que deveria minar toda a opinião pública internacional, principalmente europeia, chocando as sensibilidades, porque tais conceitos são de facto chocantes e sensibilizam as pessoas. E minou.

E era aqui que entrava a acção da esquerda portuguesa, acção já exercida, como hoje e sempre, por verdadeiros profissionais da revolução, apoiada e tutelada por Moscovo. Pois como se sabe, a partir de Hitler que criou, para divulgar as ideias oficiais do nazismo, o ministério da propaganda chefiado e segundo uma certa filosofia elaborada pelo monstruoso dr. Goebels, também os soviéticos tinham uma colossal organização da propaganda comunista, mas neste caso de alcance muito mais amplo, pois abrangia o mundo todo, com raras excepções.

Os supostos nacionalistas africanos eram alguns estudantes em escolas da Metrópole ou mesmo até universitários (em geral com bolsas de estudo pagas pelo Estado, curiosamente através da organização da Mocidade Portuguesa, tão vilipendiada pelos ingratos beneficiários), ou aventureiros com algum traquejo internacional, portanto já com alguma cultura, com formação à europeia, alguns bastante intelectualizados, com mais ou menos ambição, quer material e de poder, quer de pura ideologia, e portanto utópicos, como todo o intelectual, ou ambas, que se ligaram às esquerdas, a depois aos países de tutela, por sua própria iniciativa ou seduzidos e aliciados pêlos agentes socialistas em acção por toda a parte, portugueses ou não, e que depois de instruídos na doutrina marxista, à soviética, e nas técnicas da guerra subversiva e do terrorismo, principalmente no uso das minas e armadilhas e preparação de emboscadas, se deslocaram para os respectivos territórios de origem  e aí organizaram pequenos grupos de elementos, em geral boçais, recrutados nos locais, de preferência e quase sempre, entre os mais jovens, quase crianças, portanto muitas vezes junto das escolas do mato, e até das missões, portanto jovens ainda irresponsáveis e imaturos, pouco conscientes dos efeitos maléficos da guerra, mas sempre dominados, orientados, apoiados logisticamente e armados pelo comunismo internacional. Basta dizer que a arma típica e comum destes terroristas era quase sempre a Kalashnikov, a arma russa individual mais usada e comerciada de sempre, em numero de milhões, e que se encontra em todos as guerras em qualquer parte do mundo. E mesmo algumas armas colectivas também de origem russa, checa ou chinesa...

Ora este pessoal era recrutado em geral por meio de promessas de qualquer natureza, de benefícios diversos, por vezes usando a influência dos curandeiros, cuxe-cuxe, ou feiticeiros, conforme as regiões. E convencendo-os para o combate contra o inimigo branco, o opressor, porque “ bala de branco é água, não mata, “ ou embriagando-os ou drogando-os.

Organizações apoiadas também por essas democracias liberais, principalmente do norte europeu, até algumas vezes e mais tarde pela democracia americana do partido democrático, na época chefiadas por lideres mais progressistas e menos sensatos e menos responsáveis, como os Kennedy, e com pouca visão das coisas e menos previsão do futuro, como se exige a um verdadeiro estadista, e como já antes se escreveu.

Mas estava em voga a esquerda, ou muitas ideias consideradas de esquerda. Era moda. E bem se sabe quanto pode a moda.. até nas ideias. Até na asneira.

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Pelos anos sessenta, a Europa estava já em vias de consolidação das suas economias do pós-guerra, decorridos mais de quinze anos do seu termo, no dealbar de uma nova geração, vivia-se já na abundância, reconstruíram-se as cidades em ruínas, sararam-se as feridas da guerra, o nível de vida era já muito bom, mas todos

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metalurgia, do aço, da invenção de máquinas, como a máquina a vapor, os teares, e outras, apareceram as grandes unidades mineiras do carvão e industriais com milhares de empregados a trabalhar apenas pelo valor da sua subsistência, por vezes em condições consideradas desumanas, que causou uma certa reacção e agitação.

Mas tais situações já não existiam no nosso tempo. Cerca de um século depois, estava tal situação ultrapassada. A teoria marxista, além de mais ou menos utópica, era já obsoleta. As coisas tinham mudado. Não passava agora de um marco, aliás bastante importante, na cultura universal moderna, e nessa medida uma interessante curiosidade intelectual.

A tese do materialismo dialéctico da história, de inspiração hegeliana, e depois as teorias do valor das coisas, da exploração, da acumulação e concentração das riquezas, da luta de classes, da miséria e das crises, aproximando-se do catastrofismo de Malthus, e a conclusão final do domínio do mundo, por um sindicato de trabalhadores, ou antes de proletários, o seu termo favorito, e a obtenção a final de uma sociedade, sem classes, comunista, a última sociedade, enfim a utopia da sociedade perfeita (o que até era uma contradição com a dialéctica, pois nesse caso o processo dialéctico parava ali, e portanto quebrando a sua lógica, negava-se a si próprio) era já um campo mais de ficção do que real, sério e objectivo. Era utópico. Mas também se gosta, por vezes, de utopia, de ficção, enquanto tal.

Ora, vistas as coisas segundo este prisma, para mim os comunistas enquanto marxistas, idealistas, eram merecedores do nosso respeito, como quaisquer outras pessoas com outras convicções. Comunista poderia ser qualquer um, um amigo, um colega, que porventura estava ali ao meu lado, podia ser eu próprio, se eu pensasse desse modo aderindo a tais ideias. Era uma questão de ideal, do domínio das ideias, de gosto ou preferência, questão teórica, puramente intelectual, portanto algo de teórico e subjectivo. E que em qualquer caso, naturalmente se presumia estar a pessoa intelectualmente de boa-fé. Era o idealismo da juventude. E assim, segundo creio, deveria ser sempre.

Tudo é diferente hoje. Da teoria à prática vai um abismo. Depois de ter conhecido os comunistas reais, em pessoa, os seus métodos, a sua cegueira paranóica e o seu fanatismo, significando com isto a estreiteza de vistas, a não disponibilidade para encarar outras perspectivas das coisas, a falta de sentimento e humanidade, de respeito pelo ser humano, e tudo isso conhecido de perto por ter sido vitima das suas acções, suportando na pele a sua desumanidade, ou sendo testemunha do que se passou com terceiros, por vezes num enorme sofrimento, sem causa, tive de rever a minha opinião acerca dos comunistas em concreto. E tive de concluir pelo dever fazer correctamente a distinção entre marxismo e comunistas, que são duas realidades diferentes. Hoje posso declarar que me tornei um “anticomunista primário", isto é, radical, não pelo marxismo, como teoria, mas pela prática efectiva dos comunistas-pessoas, agindo a coberto de uma teoria que se pode dizer em si mesmo inócua. E sem receio de o declarar. Pois se em alguma matéria sou radical, sou-o nessa mesma.

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O movimento pro-Delgado tinha também chegado a África. Dizia-se mesmo que se a contagem dos votos nas eleições presidenciais não estivesse viciada, o general Delgado teria mais votos, teria ganho as eleições de 58. Talvez.

As pessoas que em Moçambique, e também ao que se sabe em Angola, labutavam, gostavam de ver o produto do seu trabalho garantido, e que fossem eliminados os entraves ao desenvolvimento geral, pois como se sabe, naquela época, de acordo com o regime de condicionamento industrial do país, para se conseguir legalizar uma empresa ou obter licença ou alvará para qualquer actividade, para um empreendimento, era preciso vir a Lisboa, andar de repartição para serviço, de direcção para secção, de Herodes para Pilatos, meter cunhas, pagar almoços e jantares e por vezes oferecer um envelope bem recheado, para obter uma assinatura ou agilizar um despacho. A corrupção não era um faz de conta. Mas assim mesmo não tão generalizada e escandalosa como hoje. Pois bem sabemos o que se passa ainda por aí em algumas repartições...

Os portugueses de Moçambique, brancos, imigrados e residentes, sem desejarem desligar-se de Portugal, que patriotas sempre foram, queriam mais liberdade, talvez autonomia, talvez mesmo independência. E porque não? Interessando menos a formula política, do que o resultado. Talvez por isso mesmo tenha agradado tanto a tese do livro do general Spínola, ainda que não inovadora, pois já era há muito ventilada por aí, a bondade de uma reforma constitucional, estatuindo uma nação com vários estados, pluricontinental, uma federação ou união, das colónias, conforme a fórmula que se achasse mais adequada e vantajosa para uma boa administração e a contento e no interesse dos diversos povos. Solução de que o Brasil era o exemplo a seguir, embora forçosamente com a introdução das correcções indispensáveis.

Mas tal tese chegou demasiado tarde.

E sem apoios relevantes.

Ao contrário, tal tese ou outras semelhantes, para a esquerda activa e dominante, não se enquadrava nos seus objectivos. Logo, era

apriori rejeitada.

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Ora, o 25 de Abril, nos primeiros dias, ainda sem definição do que fosse, e do que viria a ser, gerou uma expectativa, um receio e uma esperança. Mas os acontecimentos que vieram a seguir fizeram perder toda a esperança a quase todos os residentes, europeus ou não, e até nativos evoluídos. Só os receios se confirmaram.

As notícias que chegavam de Lisboa deixavam os residentes altamente preocupados e confusos. Com efeito, as constantes, as diárias manifestações de rua, principalmente em Lisboa, e eventualmente em outros lugares do sul, a confusão geral que se instalou na mente das pessoas, a virada política e ideológica à esquerda como rumo obrigatório; a radicalização das atitudes e ideias, a perda de bom senso natural, a liberdade libertina, sem limites, a perda de respeito por tudo e todos, as imoralidades, a devassidão, a amostra do poder de rua, a desinformação geral, com noticias e contra noticias, e tudo o mais que é conhecido, mas e

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       Em Moçambique, com a liberdade de expressão e reunião, antes inexistentes, esboçam-se organizações de grupos, base de futuros partidos, discutem-se princípios, sedimentam-se ideias, enquadram-se ideologias, inicia-se um trabalho de divulgação com escritos e comícios, as pessoas fazem suas opções. Surgem pessoas que foram de liderança conhecida na Frelimo mas agora afastadas, com mais ou menos prestigio local, como Joana Simeão, Uria Simango, Lázaro Kavandame. Outras pessoas que nunca pertenceram à Frelimo pretendem iniciar a organização de um partido. Os partidos começam a desenhar-se, muitas vezes por impulsos de líderes incipientes, um pouco ao acaso, mas que poderiam alguns deles vir a evoluir e engrossar suas fileiras. Eram tentativas ainda sem consequências relevantes, talvez frustradas, talvez com sucesso. A Coremo, a Fumo, a Gumo, etc são disso exemplos conhecidos.

Era normal. Esperava-se ver instalada uma democracia - não se falava noutra coisa - onde a todos fosse permitida a liberdade política total. Os comícios e reuniões promovidas por grupos de pretensos democratas sucediam-se por todo o lado. E nessa linha recordo uma reunião-comício a que assisti, em Vila Pery, promovida por algumas pessoas conhecidas, auto designadas democratas, e que me deixou perplexo: as pessoas que constituíam a mesa, todas elas tentando cada uma ser mais democrata que as outras, tratava os assistentes como se estes fossem todos não democratas aconselhando comportamentos e atitudes, colocando-se eles próprios acima da linha d'água do nível geral, da vida corrente, como senhores e donos da tão famigerada verdade, essa tal ideia de democracia. Era a revelação de líderes políticos com ambição de poder.

E a meu ver, e para mim, pouco democráticos. Era o oportunismo. A verdadeira democracia tinha de ser amadurecida e sedimentada na cabeça das pessoas. Tinha antes de mais de ser assimilada culturalmente por cada um, através da educação, dos hábitos correntes, dos comportamentos do dia a dia, do respeito, que deve ser recíproco, pelas pessoas, quaisquer que fossem, e pelas ideias. Embora estas devessem ser combatidas se não se concordar com elas. A democracia, para além da organização do estado, vive-se, pratica-se, exerce-se. É como aprender e acostumar todos os dias a lavar os dentes... Ia levar seu tempo.

De resto, como toda a gente percebe, não há palavra mais enganadora do que esta: - democracia. Tanto servia para soviéticos como para americanos. E todos os intermédios.

Ora, a Frelimo, comunista que era, que agora tinha os seus amigos cá deste lado, em Lisboa, e passou a ter desde logo o apoio do novo governo tropeiro do MFA, agora pro-Moscovo, e de que a Frelimo também dependia em grande parte, tentou, e conseguiu, por todos os meios, evitar a formação de novos partidos, que tal não estava nos seus planos - pretendia instituir, como instituiu, um governo de partido único, comunista. Por isso perseguiu todos os líderes mais capazes e alguns ao que se sabe, mais cedo ou mais tarde acabaram por ser eliminados fisicamente. E até um deles, não há muitos anos, foi assassinado em Portugal por polícias ou elementos mais ou menos mafiosos às suas ordens que vieram expressamente de Moçambique para o efeito. Facto que a meu ver constitui uma nódoa - entre tantas - do nosso governo por não ter sido mais categórico na censura ao governo de Chissano e por não terem sido os criminosos castigados exemplarmente.

Os métodos criminosos comunistas, como se vê, não se confinavam à KGB de Moscovo, tão evidenciados, até pelas fantasias quer da literatura quer do cinema, caso, entre muitos outros, dos famosos filmes de 007.

As maldades da nossa PIDE, (sempre tão vilipendiada), para com os revolucionários de esquerda remanescendo da antiga Carbonária, ou outros de igual estirpe (pois só estes é que dela se queixam) eram, em comparação com as "carícias “ da KGB, na URSS, da Stasi, na Alemanha Oriental, ou de outras equivalentes nas demais republicas comunistas, brincadeiras inocentes.

E não apenas a KGB, mas a sua antecessora a NKVD, a GPU, ou outros órgãos policiais especializados em vários sectores da criminalidade política, famosos pelas prisões arbitrárias, pelas mais cruentas práticas de tortura, pelo desprezo absoluto pela vida Humana...

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Entretanto as nossas tropas numa retirada, antes num abandono, de posições no terreno, deixam o campo livre à Frelimo, que avançou e começou a aparecer por todo o lado. Não tanto em actos de guerra, mas em actos de puro terrorismo, de barbárie, como o ataque no Inchope, a pouco mais de 50 quilómetros de Vila Pery, na estrada para a Beira, a um autocarro de passageiros, que metralharam e incendiaram, matando dezenas de pessoas, todas africanas, e ferindo outras tantas, ou o ataque a uma serração, com morte dos trabalhadores, também africanos, e destruição de máquinas e madeiras, como a pretender demonstrar quem mandava ali. E para mais facilmente tomar e ocupar o terreno. Para só referir incidentes naquela zona. Os piores horrores da Frelimo tiveram justamente lugar após o 25 de Abril, quando, mudado o regime e o governo de Lisboa, se vislumbrou a possibilidade de acabar a guerra num benéfico acordo de paz. O que não pretendia a Frelimo era um acordo qualquer...

E deve dizer-se que todas essas vitimas da Frelimo eram pretas, nativas de Moçambique, eram o seu suposto povo que supostamente dizia defender e proteger e pelo qual, segundo dizia, teria lutado...

Os carpinteiros que restam não têm mãos a medir. Até então trabalhavam quase só para os tropas que aproveitavam para trazer as suas mobílias de madeira exótica, geralmente panga-panga, nos barcos de regresso no fim das comissões. Além de outras coisas, claro. Mas agora, como só fosse permitido aos residentes, por vezes de lá naturais, tirar de Moçambique as mobílias e o recheio, ou parte dele, da casa de morada de família, todos desejam ao menos salvar alguma coisa dos, em geral muitos, anos de trabalho naquela parcela de Portugal por quase quinhentos anos.

Os contentores acumulavam-se no cais da Beira sobrepostos em enormes volumes, quais montanhas, à espera de transporte marítimo. A procura de moeda estrangeira era doentia. O dinheiro do Banco Nacional Ultramarino, de Moçambique valia cada vez menos.

A inflação era galopante. Parava a construção civil, paravam todas as actividades a montante. Fechavam fábricas, oficinas, estabelecimentos comerciais, escritórios, serviços. O tecido empresarial, e económico em geral, estava cada vez mais delido. Rompia por todo o lado. Desemprego. Confusão. Problemas sociais em progressão avassaladora.

Entretanto estabelecem-se negociações entre o governo de Lisboa e a Frelimo. Desenha-se o acordo de Lusaka. Ninguém é ouvido nem achado, nem o povo português, na Metrópole, nem os residentes na colónia, nativos ou não. Os comunistas de Lisboa negoceiam com os comunistas da Frelimo. Por sobre as nossas cabeças. Sem o menor respeito pelas nossas vontades. "Democraticamente", à comunista.

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