O 25 de Abril...
25 De Abril
de 1974 mudou tudo.
É claro que se esperavam e desejavam mudanças no país. E Moçambique não
era excepção. Alguns anos antes já assistira ao movimento gerado pela candidatura
do general Humberto Delgado à Presidência da República, assisti ao grande
movimento de massas que a sua recepção teve em Coimbra, onde então eu era
estudante, tendo estado no meio de uma multidão bastante considerável reunida
no Largo da Portagem, onde estava prevista a sua chegada vindo da estrada da
Beira, para o receber, recepção que depois se gorou, e nomeadamente presenciei
à noite, um seu comício no Teatro Avenida, cheio a transbordar, no qual, além
do próprio Delgado, discursaram figuras consideradas eminentes como o Prof.
Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, Rolão Preto, Vasco da Gama Fernandes e
outros cujos nomes já não recordo, por vezes portadores de ideologias bastante
diferenciadas, de cujo conteúdo geral aliás não gostei. Todos, empolgados nas
suas palavras, conseguiam transmitir à plateia expectante um elevado
exponencial de entusiasmo. Vivia-se um ambiente electrizante, de alta tensão. A
emoção sobrelevava a razão. Eu, como até ainda hoje é moda, podia declarar-me
convencido e totalmente aderente, conforme à linha geral propagandeada pela
esquerda. Eu, porém, independente, sempre me guiei pêlos meus critérios.
Fiquei impressionado, mas não convencido e por isso
não me empolguei como os presentes, e não ... não gostei.
E também muitos de nós estudantes seguíamos diariamente as vicissitudes
da campanha pêlos jornais. E comentávamos. Toda a gente comentava. E nunca
esqueci a notícia da célebre conferência de imprensa no salão superior do Café
Chave d’Ouro, no Rossio, e a famosa frase do general, à pergunta sobre o que
faria a Salazar caso ganhasse as eleições: - “Obviamente demito-o “. E
sem esquecer a proclamação do general, e que era afinal uma espécie de programa
político, as linhas gerais dos seus propósitos políticos nos vários sectores da
vida nacional, e o mesmo em relação ao ultramar, em relação ao qual estava
longe a ideia de independência e muito menos de uma guerra colonial. Programa
editado em caderno anexo pêlos principais jornais, e que aliás guardei por
vários anos.
E tudo isso, entre colegas e amigos
discutíamos, uns mais a favor da mudança, outros mais
reticentes... isto, apesar de a grande maioria ser
contra a situação e contra Salazar.
Mas sabíamos que as populações em geral,
principalmente as rurais, não davam acolhimento a mudanças. Era um movimento
essencialmente urbano. Como quase sempre acontece na política nacional. E
bastante limitado.
Ora, de tudo isso havia que tirar duas conclusões
imediatas: que uma parte do povo mais esclarecido, e os chamados intelectuais,
desejavam a mudança; mas que aqueles homens, a entourage do general,
bastante heterogénea na sua qualidade, e sobretudo na sua ideologia
(socialistas, integralistas, comunistas.... e outros), a maior parte deles
sobrantes dos grupos da I República, não eram as pessoas consideradas
confiáveis e capazes de realizar as necessárias mudanças a contento do país em
geral. Eram mais teóricos e utópicos, que verdadeiros políticos com sentido do
real. E por isso concluía-se que a candidatura valia mais pela coragem de enfrentar
o sistema do que pelo conteúdo do seu projecto e pelas perspectivas de sucesso
que oferecia. Era assim um movimento assente mais no emocional que no real. E
portanto utópico e nada verdadeiramente político, assente na realidade do país,
destinado a resolver os seus problemas reais.
Mas se uma certa camada,
talvez a mais intelectualizada, reconhecendo as restrições aos direitos
políticos desejava a mudança, a grande massa da população, ainda ruralizada,
quase analfabeta e pouco esclarecida, preferia o estado de coisas em que se
vivia. Ou, de outro modo, quem não tinha que se preocupar com a subsistência e
vivia na abundância, queria mais, queria os direitos fundamentais, as
liberdades plenas para isto e para aquilo; mas o povo, a maioria, que
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caos, o povo só desejava um governo honesto,
competente e de mão firme para pôr ordem na sociedade, e na política, refazendo
a autoridade do Estado, cansada de tanto desgaste, para lhe dar segurança e
tranquilidade para poder trabalhar em sossego, governo que pudesse acabar com
os pretensos revolucionários arruaceiros e bombistas, e evitar que o país
viesse a ser alvo de uma acção revolucionária mais ampla, brutal e feroz, como
a desencadeada na Rússia em 1917 e da qual vinham chegando cada vez mais
notícias dos horrores sofridos pela inocente população daquele país, e a que o
mundo livre chamava o terror vermelho Tanto bastaria para o grande
público, católico, abominar a acção das esquerdas em minoria, que eram ateias e
amorais, e combatiam abertamente a religião e todos os princípios cristãos.
Tudo isso razão suficiente para apoiar qualquer
governo que com mão firme pusesse termo a tantos dislates.
Por isso um governo de autoridade firme era considerada uma bênção!
E mesmo ao longo dos anos, mais tarde, nesta mesma
linha, também foram vistos, tal como na Rússia, os horrores praticados na
guerra civil da vizinha Espanha, aqui mesmo ao lado, em 1936/39. Em ambos os
casos uma guerra civil dramática e catastrófica, causadora dos maiores
sofrimentos às populações e das maiores depredações materiais.
O que só veio
confirmar o que tanto se receava.
E muitas outras situações
que ocorreram, antes e depois, em várias partes do mundo. Pois como se sabe,
ocorreram, mais tarde e de forma não menos dramática, em momentos sucessivos
com o post segunda grande guerra
mundial, nos países vizinhos, e da Europa central, incluindo uma boa parte da
Alemanha, ditos satélites, da União Soviética que, não lhes bastando o que
sofreram com a devastação geral resultante da guerra, tiveram ainda de suportar
as purgas ideológicas e todos os efeitos nefastos resultantes da instalação
de regimes socialistas totalitários, dependentes da URSS, e a esta ligados e
submetidos pelo Pacto de Varsóvia. Os campos de concentração na Sibéria, em
crueldade, não ficaram atrás dos campos de concentração nazis.
E veio depois a guerra da Coreia, a guerra do
Vietname, do Cambodja, de Cuba, e mais recentemente da Nicarágua, e além de
muitos outros casos menores. Num extenso rol de casos cada um o mais gritante,
de barbaridades, causadoras de milhões de mortos. Pois onde aparecia a tal
esquerda, o tal socialismo, aparecia a guerra subversiva, o terrorismo,
depredações, sofrimento e morte.
E o mesmo também aconteceu, de forma bem mais grave e mais profunda, na
China, em resultado dos actos de loucura desumana de Mao Tse
Tung, primeiro ao desencadear a guerra civil contra
os nacionalistas chefiados pelo general Schyang Kay Schek, que com grande
sacrifício do povo e grandes dificuldades militares acabavam de combater e
expulsar os invasores japoneses, e que perseguidos agora por Mao, acabaram por
terem de se refugiar na Ilha Formosa ou Taiwan. E em seguida, dominando toda
China continental, com toda a sua absurda e criminosa política radical de
esquerda, que culminou com a revolução cultural, movimento
fundamentalista levado a cabo pelo partido único e sobretudo pêlos
jovens guardas vermelhos fanatizados, com episódios grotescos como a
grande marcha contra os pardais, matando milhões, com o pretexto de que estas
pobres aves devastavam as searas, ou o grande programa da produção de aço que
levou a fundir tudo quanto era metal, só para aumentar as estatísticas de
produção e depois de nada serviu por inútil, e muitos outros programas ou
episódios do mesmo jaez, que serviram para desmantelar toda a economia
tradicional, quer a rural, de subsistência, ou mesmo a industrial; e ainda
todas as iniciativas ditas culturais que não passavam de purgas ideológicas e
que todas juntas e ao longo desses trágicos anos de revolução, levaram à morte
de cerca de quarenta e cinco milhões de pessoas, umas passadas pelas armas, ou
em resultado da tortura, na maior parte dos casos praticada pêlos jovens guardas
vermelhos, muitos deles crianças, irresponsáveis, cruéis, às vezes mesmo na
pessoa de elementos das próprias famílias, ou dos seus próprios professores,
quase sempre por "crimes ideológicos” e outras pessoas mortas
simplesmente de ... fome.
Além da destruição de bens materiais ou mesmo documentos, de interesse
histórico, sob o pretexto de romper com todo o passado e em geral
pretendendo-se a aniquilação de toda tradição e no final de toda a cultura dita
burguesa, ou no pior sentido pequeno-burguesa,
vigente na sociedade, cultura que é a final e com toda a certeza a identidade,
a alma, de cada povo.
E foi nessa linha, que vieram depois os pretensos
movimentos nacionalistas em África, nas nossas colónias. Mas que de
nacionalistas não tinham nada. Por um lado não existia nacionalismo algum. Os
territórios, ou colónias, eram então e serão ainda por muito tempo, largos
espaços habitados por populações distribuídas por diversas tribos, raças, ou
etnias, subdivisões dentro da raça negra. Em geral, e quando vizinhos, inimigos uns
dos outros, ou no mínimo rivais. Com usos e costumes muitas vezes semelhantes,
mas diferentes. As fronteiras das colónias, hoje países, tinham sido completamente
determinadas à distância, a régua e esquadro, sobre o mapa, a partir da Europa,
na partilha de zonas de influência, segundo a política e circunstâncias de cada
momento na evolução histórica, resultando que certas tribos ou raças se
distribuíam por dois ou mais países, em virtude da televisão geométrica do seu
território. Tal como o caso típico da nação dos curdos, na Ásia Menor, que se
espalha por seis países. Mas nação, no sentido culto do termo, era coisa que
não existia em África. Era pura ficção. Mais invenção interesseira que ficção.
Tem sido invocado como prova de nacionalismo em Moçambique o incidente
com os vátuas, no fim do século XIX, os quais eram
chefiados então pelo soba Gungunhana, matéria
objecto muita escrita, muita lenda e celebrada até em filme. Mas nem sempre de
forma correcta. Pois não se tratou de movimento nacionalista, nem sequer
independentista. Que tais conceitos não estavam revelados na época, nem tinham
então, face às circunstâncias e ao momento histórico, o menor cabimento. Acontece
apenas que a tribo vátua de sua natureza violenta e
agressiva, e naquela época chefiada por esse soba não menos agressivo, fazia
constantes razias nas tribos vizinhas, massacrando populações, raptando
mulheres, e saqueando gados e outros bens, de que resultavam inúmeras queixas
das tribos vizinhas ofendidas às autoridades portuguesas, que durante muito
tempo não puderam pôr termo à sua impunidade por falta de forças disponíveis e
suficientes para uma acção de sucesso. Tendo sido necessário organizar a
expedição da Metrópole, nos termos que se sabe. Por outro lado estes
territórios situavam-se na zona de fronteira de influência inglesa, que
ambicionava o domínio de tal zona, e que através da acção no terreno dos
missionários protestantes ingleses, ciosos da defesa dos interesses da Coroa
britânica, incitavam Gungunhana à revolta, e chegaram
a fornecer-lhe armas. Foi então que se justificou a conhecida intervenção
militar portuguesa com a expedição comandada por Mouzinho de Albuquerque. E
para se mostrar que o tal interesse inglês pêlos territórios dessa zona era
real, veja-se a questão que se arrastava e que se internacionalizou e durou por
largos anos, da chamada questão da “ baia de Lourenço Marques” baía que
os ingleses reivindicavam, que se ligava como fronteira marítima à zona do
interior do território dos vátuas, questão que
entretanto foi resolvida a favor de Portugal num processo de arbitragem
internacional.
Como se mostra, era assim muito mais que uma questão
tribal, e nada nacionalista... era o interesse oculto
da "pérfida Albion”, como então muitas
vezes era designada a Coroa britânica.
Deve dizer-se ainda que a baia de Lourenço Marques
era tão apetecida que até os holandeses já tinham tentado ali instalar-se em
tempos mais recuados e custou bastante desalojá-los.
A história é a ciência dos factos. Não das mentiras
fabricadas com fins interesseiros de propaganda.
Mas é claro e perfeitamente
inteligível: era conveniente criar aqui pela esquerda, para fins de propaganda,
um “nacionalismo“oprimido, uma situação de coitadinhos
sofredores que justificasse os factos subsequentes, ou seja a luta de
terrorismo a favor de tal "nacionalismo” com vista à pretensa "libertação”
dos povos sofridos "oprimidos e explorados".
E foi ainda necessário, para toda a esquerda, para alcançar os seus
perversos objectivos políticos, e que fundamentalmente eram estender também até
esses territórios a influência e o domínio socialista totalitário soviético,
criar uma semântica própria para certas palavras-chave, tipo slogan, ou
estribilho, para repetir, repetir, insistentemente, para entrar nas cabeças de
todos, palavras como colonialismo, nacionalismo, e outras, e enquadrar tal
sentido, pejorativo, no pior sentido, num contexto geral, inventado para fins
de propaganda, e relacionando-os com conceitos base chocantes, como exploração,
opressão, escravatura, etc, e que era servido como
produto de informação, e que deveria minar toda a opinião pública
internacional, principalmente europeia, chocando as sensibilidades, porque tais
conceitos são de facto chocantes e sensibilizam as pessoas. E minou.
E era aqui que entrava a acção da esquerda
portuguesa, acção já exercida, como hoje e sempre, por verdadeiros
profissionais da revolução, apoiada e tutelada por Moscovo. Pois como se sabe,
a partir de Hitler que criou, para divulgar as ideias oficiais do nazismo, o
ministério da propaganda chefiado e segundo uma certa filosofia elaborada pelo
monstruoso dr. Goebels,
também os soviéticos tinham uma colossal organização da propaganda comunista,
mas neste caso de alcance muito mais amplo, pois abrangia o mundo todo, com
raras excepções.
Os supostos nacionalistas africanos eram alguns estudantes em escolas
da Metrópole ou mesmo até universitários (em geral com bolsas de estudo pagas
pelo Estado, curiosamente através da organização da Mocidade Portuguesa, tão
vilipendiada pelos ingratos beneficiários), ou aventureiros com algum traquejo
internacional, portanto já com alguma cultura, com formação à europeia, alguns
bastante intelectualizados, com mais ou menos ambição, quer material e de
poder, quer de pura ideologia, e portanto utópicos, como todo o intelectual, ou
ambas, que se ligaram às esquerdas, a depois aos países de tutela, por sua
própria iniciativa ou seduzidos e aliciados pêlos agentes socialistas em acção
por toda a parte, portugueses ou não, e que depois de instruídos na doutrina
marxista, à soviética, e nas técnicas da guerra subversiva e do terrorismo,
principalmente no uso das minas e armadilhas e preparação de emboscadas, se
deslocaram para os respectivos territórios de origem e aí organizaram pequenos grupos de
elementos, em geral boçais, recrutados nos locais, de preferência e quase
sempre, entre os mais jovens, quase crianças, portanto muitas vezes junto das
escolas do mato, e até das missões, portanto jovens ainda irresponsáveis e
imaturos, pouco conscientes dos efeitos maléficos da guerra, mas sempre
dominados, orientados, apoiados logisticamente e
armados pelo comunismo internacional. Basta dizer que a arma típica e comum
destes terroristas era quase sempre a Kalashnikov, a
arma russa individual mais usada e comerciada de sempre, em numero de milhões,
e que se encontra em todos as guerras em qualquer parte do mundo. E mesmo
algumas armas colectivas também de origem russa, checa ou chinesa...
Ora este pessoal era recrutado em geral por meio de
promessas de qualquer natureza, de benefícios diversos, por vezes usando a
influência dos curandeiros, cuxe-cuxe, ou feiticeiros, conforme as
regiões. E convencendo-os para o combate contra o inimigo branco, o opressor,
porque “ bala de branco é água, não mata, “ ou embriagando-os ou
drogando-os.
Organizações apoiadas também por essas democracias
liberais, principalmente do norte europeu, até algumas vezes e mais tarde pela
democracia americana do partido democrático, na época chefiadas por lideres
mais progressistas e menos sensatos e menos responsáveis, como os Kennedy, e
com pouca visão das coisas e menos previsão do futuro, como se exige a um
verdadeiro estadista, e como já antes se escreveu.
Mas estava em voga a esquerda, ou muitas ideias
consideradas de esquerda. Era moda. E bem se sabe quanto pode a moda.. até nas ideias. Até na
asneira.
* * *
Pelos anos sessenta, a
Europa estava já em vias de consolidação das suas economias do pós-guerra,
decorridos mais de quinze anos do seu termo, no dealbar de uma nova geração,
vivia-se já na abundância, reconstruíram-se as cidades em ruínas, sararam-se as
feridas da guerra, o nível de vida era já muito bom, mas todos
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metalurgia, do aço, da invenção de máquinas, como a máquina a vapor, os
teares, e outras, apareceram as grandes unidades mineiras do carvão e
industriais com milhares de empregados a trabalhar apenas pelo valor da sua
subsistência, por vezes em condições consideradas desumanas, que causou uma
certa reacção e agitação.
Mas tais situações já não existiam no nosso tempo.
Cerca de um século depois, estava tal situação ultrapassada. A teoria marxista,
além de mais ou menos utópica, era já obsoleta. As coisas tinham mudado. Não
passava agora de um marco, aliás bastante importante, na cultura universal
moderna, e nessa medida uma interessante curiosidade intelectual.
A tese do materialismo dialéctico da história, de
inspiração hegeliana, e depois as teorias do valor das coisas, da exploração,
da acumulação e concentração das riquezas, da luta de classes, da miséria e das
crises, aproximando-se do catastrofismo de Malthus, e a conclusão final do domínio do mundo, por um
sindicato de trabalhadores, ou antes de proletários, o seu termo
favorito, e a obtenção a final de uma sociedade, sem classes, comunista, a
última sociedade, enfim a utopia da sociedade perfeita (o que até era uma
contradição com a dialéctica, pois nesse caso o processo dialéctico parava ali,
e portanto quebrando a sua lógica, negava-se a si próprio) era já um campo mais
de ficção do que real, sério e objectivo. Era utópico. Mas também se gosta, por
vezes, de utopia, de ficção, enquanto tal.
Ora, vistas as coisas
segundo este prisma, para mim os comunistas enquanto marxistas, idealistas,
eram merecedores do nosso respeito, como quaisquer outras pessoas com outras
convicções. Comunista poderia ser qualquer um, um amigo, um colega, que
porventura estava ali ao meu lado, podia ser eu próprio, se eu pensasse desse
modo aderindo a tais ideias. Era uma questão de ideal, do domínio das ideias,
de gosto ou preferência, questão teórica, puramente intelectual, portanto algo
de teórico e subjectivo. E que em qualquer caso, naturalmente se presumia estar
a pessoa intelectualmente de boa-fé. Era o idealismo da juventude. E assim,
segundo creio, deveria ser sempre.
Tudo é diferente hoje. Da teoria à prática vai um
abismo. Depois de ter conhecido os comunistas reais, em pessoa, os seus
métodos, a sua cegueira paranóica e o seu fanatismo, significando com isto a
estreiteza de vistas, a não disponibilidade para encarar outras perspectivas
das coisas, a falta de sentimento e humanidade, de respeito pelo ser humano, e
tudo isso conhecido de perto por ter sido vitima das suas acções, suportando na
pele a sua desumanidade, ou sendo testemunha do que se passou com terceiros,
por vezes num enorme sofrimento, sem causa, tive de rever a minha opinião
acerca dos comunistas em concreto. E tive de concluir pelo dever fazer
correctamente a distinção entre marxismo e comunistas, que são duas realidades
diferentes. Hoje posso declarar que me tornei um “anticomunista
primário", isto é, radical, não pelo marxismo, como teoria, mas pela
prática efectiva dos comunistas-pessoas, agindo a
coberto de uma teoria que se pode dizer em si mesmo inócua. E sem receio de o
declarar. Pois se em alguma matéria sou radical, sou-o nessa mesma.
*
* *
O movimento pro-Delgado
tinha também chegado a África. Dizia-se mesmo que se a contagem dos votos nas
eleições presidenciais não estivesse viciada, o general Delgado teria mais
votos, teria ganho as eleições de 58. Talvez.
As pessoas
que em Moçambique, e também ao que se sabe em Angola, labutavam, gostavam de
ver o produto do seu trabalho garantido, e que fossem eliminados os entraves ao
desenvolvimento geral, pois como se sabe, naquela época, de acordo com o regime
de condicionamento industrial do país, para se conseguir legalizar uma empresa
ou obter licença ou alvará para qualquer actividade, para um empreendimento,
era preciso vir a Lisboa, andar de repartição para serviço, de direcção para
secção, de Herodes para Pilatos, meter cunhas, pagar almoços e jantares e por
vezes oferecer um envelope bem recheado, para obter uma assinatura ou agilizar
um despacho. A corrupção não era um faz de conta. Mas assim mesmo não tão
generalizada e escandalosa como hoje. Pois bem sabemos o que se passa ainda por
aí em algumas repartições...
Os portugueses de Moçambique, brancos,
imigrados e residentes, sem desejarem desligar-se de Portugal, que patriotas
sempre foram, queriam mais liberdade, talvez autonomia, talvez mesmo
independência. E porque não? Interessando menos a formula política, do que o
resultado. Talvez por isso mesmo tenha agradado tanto a tese do livro do
general Spínola, ainda que não inovadora, pois já era há muito ventilada por
aí, a bondade de uma reforma constitucional, estatuindo uma nação com vários
estados, pluricontinental, uma federação ou união, das colónias, conforme a
fórmula que se achasse mais adequada e vantajosa para uma boa administração e a
contento e no interesse dos diversos povos. Solução de que o Brasil era o
exemplo a seguir, embora forçosamente com a introdução das correcções
indispensáveis.
Mas tal tese
chegou demasiado tarde.
E sem apoios
relevantes.
Ao contrário, tal tese ou outras semelhantes, para a
esquerda activa e dominante, não se enquadrava nos seus objectivos. Logo, era
apriori rejeitada.
* * *
Ora, o 25 de Abril, nos primeiros dias, ainda sem
definição do que fosse, e do que viria a ser, gerou uma expectativa, um receio e
uma esperança. Mas os acontecimentos que vieram a seguir fizeram perder toda a
esperança a quase todos os residentes, europeus ou não, e até nativos
evoluídos. Só os receios se confirmaram.
As notícias que chegavam de
Lisboa deixavam os residentes altamente preocupados e confusos. Com efeito, as
constantes, as diárias manifestações de rua, principalmente em Lisboa, e
eventualmente em outros lugares do sul, a confusão geral que se instalou na
mente das pessoas, a virada política e ideológica à esquerda como rumo
obrigatório; a radicalização das atitudes e ideias, a
perda de bom senso natural, a liberdade libertina, sem limites, a perda de
respeito por tudo e todos, as imoralidades, a devassidão, a amostra do poder de
rua, a desinformação geral, com noticias e contra noticias, e tudo o mais que é
conhecido, mas e
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Em Moçambique, com a liberdade de expressão e
reunião, antes inexistentes, esboçam-se organizações de grupos, base de futuros
partidos, discutem-se princípios, sedimentam-se ideias, enquadram-se
ideologias, inicia-se um trabalho de divulgação com escritos e comícios, as
pessoas fazem suas opções. Surgem pessoas que foram de liderança conhecida na
Frelimo mas agora afastadas, com mais ou menos prestigio local, como Joana Simeão, Uria Simango,
Lázaro Kavandame. Outras pessoas que nunca
pertenceram à Frelimo pretendem iniciar a organização de um partido. Os
partidos começam a desenhar-se, muitas vezes por impulsos de líderes
incipientes, um pouco ao acaso, mas que poderiam alguns deles vir a evoluir e
engrossar suas fileiras. Eram tentativas ainda sem consequências relevantes,
talvez frustradas, talvez com sucesso. A Coremo, a
Fumo, a Gumo, etc são disso
exemplos conhecidos.
Era normal. Esperava-se ver instalada uma democracia
- não se falava noutra coisa - onde a todos fosse
permitida a liberdade política total. Os comícios e reuniões promovidas por
grupos de pretensos democratas sucediam-se por todo o lado. E nessa linha
recordo uma reunião-comício a que assisti, em Vila Pery, promovida por algumas
pessoas conhecidas, auto designadas democratas, e que me deixou perplexo: as
pessoas que constituíam a mesa, todas elas tentando cada uma ser mais democrata
que as outras, tratava os assistentes como se estes fossem todos não democratas
aconselhando comportamentos e atitudes, colocando-se eles próprios acima da
linha d'água do nível geral, da vida corrente, como senhores e donos da tão
famigerada verdade, essa tal ideia de democracia. Era a revelação de líderes
políticos com ambição de poder.
E a meu ver, e para mim, pouco democráticos. Era o oportunismo. A
verdadeira democracia tinha de ser amadurecida e sedimentada na cabeça das
pessoas. Tinha antes de mais de ser assimilada culturalmente por cada um,
através da educação, dos hábitos correntes, dos comportamentos do dia a dia, do
respeito, que deve ser recíproco, pelas pessoas, quaisquer que fossem, e pelas
ideias. Embora estas devessem ser combatidas se não se concordar com elas. A
democracia, para além da organização do estado, vive-se, pratica-se, exerce-se.
É como aprender e acostumar todos os dias a lavar os dentes... Ia levar seu
tempo.
De resto, como toda a gente percebe, não há palavra
mais enganadora do que esta: - democracia. Tanto servia para soviéticos
como para americanos. E todos os intermédios.
Ora, a Frelimo, comunista que era, que agora tinha
os seus amigos cá deste lado, em Lisboa, e passou a ter desde logo o apoio do
novo governo tropeiro do MFA, agora pro-Moscovo, e de que a Frelimo também
dependia em grande parte, tentou, e conseguiu, por todos os meios, evitar a
formação de novos partidos, que tal não estava nos seus planos - pretendia instituir, como instituiu, um governo de partido
único, comunista. Por isso perseguiu todos os líderes mais capazes e alguns ao
que se sabe, mais cedo ou mais tarde acabaram por ser eliminados fisicamente. E
até um deles, não há muitos anos, foi assassinado em Portugal por polícias ou
elementos mais ou menos mafiosos às suas ordens que vieram expressamente de
Moçambique para o efeito. Facto que a meu ver constitui uma nódoa - entre tantas - do nosso governo por não ter sido mais
categórico na censura ao governo de Chissano e por não terem sido os criminosos
castigados exemplarmente.
Os métodos criminosos comunistas, como se vê, não se
confinavam à KGB de Moscovo, tão evidenciados, até pelas fantasias quer da
literatura quer do cinema, caso, entre muitos outros, dos famosos filmes de
007.
As maldades da nossa
PIDE, (sempre tão vilipendiada), para com os revolucionários de esquerda
remanescendo da antiga Carbonária, ou outros de igual
estirpe (pois só estes é que dela se queixam) eram, em comparação com as "carícias
“ da KGB, na URSS, da Stasi, na
Alemanha Oriental, ou de outras equivalentes nas demais republicas comunistas,
brincadeiras inocentes.
E não apenas a KGB, mas a sua antecessora a NKVD, a
GPU, ou outros órgãos policiais especializados em vários sectores da criminalidade
política, famosos pelas prisões arbitrárias, pelas mais cruentas práticas de
tortura, pelo desprezo absoluto pela vida Humana...
* * *
Entretanto as nossas tropas numa retirada, antes num
abandono, de posições no terreno, deixam o campo livre à Frelimo, que avançou e
começou a aparecer por todo o lado. Não tanto em actos de guerra, mas em actos
de puro terrorismo, de barbárie, como o ataque no Inchope,
a pouco mais de 50 quilómetros de Vila Pery, na estrada para a Beira, a um
autocarro de passageiros, que metralharam e incendiaram, matando dezenas de
pessoas, todas africanas, e ferindo outras tantas, ou o ataque a uma serração,
com morte dos trabalhadores, também africanos, e destruição de máquinas e
madeiras, como a pretender demonstrar quem mandava ali. E para mais facilmente
tomar e ocupar o terreno. Para só referir incidentes naquela zona. Os piores
horrores da Frelimo tiveram justamente lugar após o 25 de Abril, quando, mudado
o regime e o governo de Lisboa, se vislumbrou a
possibilidade de acabar a guerra num benéfico acordo de paz. O que não
pretendia a Frelimo era um acordo qualquer...
E deve dizer-se que todas essas vitimas da Frelimo
eram pretas, nativas de Moçambique, eram o seu suposto povo que supostamente
dizia defender e proteger e pelo qual, segundo dizia, teria lutado...
Os carpinteiros que restam não têm mãos a medir. Até
então trabalhavam quase só para os tropas que aproveitavam para trazer as suas
mobílias de madeira exótica, geralmente panga-panga, nos barcos de
regresso no fim das comissões. Além de outras coisas, claro. Mas agora, como só
fosse permitido aos residentes, por vezes de lá naturais, tirar de Moçambique
as mobílias e o recheio, ou parte dele, da casa de morada de família, todos
desejam ao menos salvar alguma coisa dos, em geral muitos, anos de trabalho
naquela parcela de Portugal por quase quinhentos anos.
Os contentores acumulavam-se
no cais da Beira sobrepostos em enormes volumes, quais montanhas, à espera de
transporte marítimo. A procura de moeda estrangeira era doentia. O dinheiro do
Banco Nacional Ultramarino, de Moçambique valia cada vez menos.
A inflação era galopante. Parava a construção civil, paravam todas as
actividades a montante. Fechavam fábricas, oficinas, estabelecimentos
comerciais, escritórios, serviços. O tecido empresarial, e económico em geral,
estava cada vez mais delido. Rompia por todo o lado. Desemprego. Confusão.
Problemas sociais em progressão avassaladora.
Entretanto estabelecem-se
negociações entre o governo de Lisboa e a Frelimo. Desenha-se o acordo de
Lusaka. Ninguém é ouvido nem achado, nem o povo português, na Metrópole, nem os
residentes na colónia, nativos ou não. Os comunistas de Lisboa negoceiam com os
comunistas da Frelimo. Por sobre as nossas cabeças. Sem o menor respeito pelas nossas
vontades. "Democraticamente", à comunista.