Na ilha de Moçambique


 

O alicerce do domínio, na África Oriental, e portanto da colonização, em terras bravias, inhóspitas no ponto de vista do clima e do acolhimento, não, em geral, dos natu­rais, mas dos primeiros ocupantes, árabes ou mouros, segundo o vocabulário dos navegadores portugueses, fo­ram : primeiro a feitoria, depois a fortaleza, mais tarde a igreja, ampliada com o convento. Nesta ordem de ideias a segunda fortificação permanente, construída na provincia de Moçambique, em seguida á de Sofala ou de Sofar, à moda árabe, foi a da ilha de Moçambique, frequentada pela navegação, devido á sua especial situação geográ­fica.

Mandou construir essa defesa inicial o capitão de Sofala, Vasco Gomes de Abreu, perdido mais tarde num nau­frágio no canal de Moçambique. Dirigiu as obras e foi fei­tor da fortaleza Duarte de Melo, que principiou os traba­lhos em 29 de Março de 1507 e os concluiu em igual mês de 1508, antes de morrer em Angoche numa campanha contra os mouros.

      Em 1569 os missionários da companhia de Jesus desembarcaram em Moçambique, mas só ali estabeleceram uma sede provisória em 1619. D. Nuno Alvares Pereira, pela segunda vez governador da conquista de Moçambi­que, Sofala, Rios de Cuama e Monomotapa, concedeu-lhes a fortaleza, reconhecida inútil pela deficiente posição, para, depois de demolida, ali edificar o colégio de S. Fran­cisco Xavier. Assim se efectuou. A igreja anexa teve a invocação de S. Paulo.

Em 1759 o marquês de Pombal decretou a confiscação dos bens da companhia de Jesus. Governava então a pro­víncia o capitão-general Pedro de Saldanha e Albuquer­que, que enviou presos para Goa os padres ali residentes. Em 1763, quatro anos depois, já no governo do capitão--general João Pereira da Silva Barba, este apropriou o edifício a sua residência. Desde então passou a ser conhe­cido pelo palácio de S. Paulo, e ali moraram, dessa data em diante, os chefes supremos da colónia, bem como lá se fixaram a Secretaria Geral e demais repartições da capital, até a sua transferencia para a cidade de Lourenço Marques. Até esse momento, isto é até 1763, a apo­sentadoria dos capitães-generais era na fortaleza de S. Sebastião, na depois moradia dos comandantes da mesma fortaleza.

Convém notar que, logo no principio, a expansão por­tuguesa se manifestou enérgica com elementos e meios, por assim dizer, superiores à categoria de um país de li­mitados réditos, estreita faixa de terra da ponta mais oci­dental da Europa. E' claro que a ilha de Moçambique de escassa superfície, boa para escala e estação marítima, para posto comercial, e excelente posição estratégica, não correspondia às condições exigidas para o desenvol­vimento adequado a a essa expansão. Nessas circunstân­cias os primeiros dirigentes pensaram em se dilatar pela orla do continente fronteiro, situado a cerca de duas ho­ras de viagem, à vela. Da mesma forma progrediam as transacções com os indígenas.

Assim se ocuparam as Cabaceiras, o Mossuril, ò cairel recortado da fértil zona, até cerca de uma légua para o interior. Predominavam ainda ali os xeques mouros. Al­guns deles, como os da Quintagonha e Sancul concederam determinadas áreas territoriais, mediante compensações, umas honorificas, como a de graduações militares, e ou­tras monetárias, como as dos respectivos soldos e mais vantagens. Prestaram ainda auxílios com gente de guerra, valiosos em dificeis conjunturas, tais como a invasão dos zimbos ou musimbas, selvagens antropófagos da pior índole.

A temerosa horda, ida do norte, penetrou na região de Cabo Delgado e assolou e massacrou tudo e todos que en­controu. A população do litoral, mais ou menos maometanizada, ante esta vaga de extermínio buscou salvar-se, atravessando do continente para as ilhas próximas, já povoadas, mas com pouca densidade. Os portugueses ajudados pêlos aludidos xeques, não só opuseram dique à invasão, mas ainda aproveitaram o ensejo para se apode­rarem dessas ilhas e erigirem fortes, fortins e fortalezas nalgumas delas. Além da ocupação das ilhas Querimbas, ergueram uma fortaleza, em 1510, em Cabo Delgado e criaram uma feitoria na baía do Tundo Tungue destinada ao trafico da escravatura e ao resgate do marfim de pon­tas de cavalo marinho e de abada ou rinoceronte. Na qua­dra faziam-se já valiosas permutas entre Zanzibar e Quiloa e aqueles territórios. Acentuaram-se duas zonas de influencia: a de Moçambique, ao norte; a de Sofala ao sul.

A fortaleza de S. Sebastião, a mais importante de todas as fortificações antigas da província de Moçambi­que, assenta na ponta nordeste da ilha do mesmo nome, outrora capital, como já ficou dito. Erecta sobre rochas, de natureza coralifera, trabalhadas pelo oceano como o mais fino e delicado ponto de renda de fama pela subti­leza, desenvolve-se em quatro cortinas flanqueadas por outros tantos baluartes e abrangendo um perímetro de setecentos e oitenta metros. Por aqui se faz ideia do es­forço e dispêndio realizado pela metrópole para comple­tar obra tão monumental, padrão quasi gigantesco do nosso dominio em paragem tão distante da mãe pátria, donde foi o principal material, do seu inicio à conclusão.

As suas baterias varejam tqdos os sectores em redor, com maior eficácia os do lado do mar.. Possue alojamen­tos, dependências, anexos, casernas, prisões, para uma guarnição de mil homens e respectiva oficialidade, depo­sito de degredados, que ali esteve durante séculos, arma­zéns, paióis e três cisternas, para agua da chuva, captada em larga superfície e com um volume de liquido para o abastecimento de dois anos. Integra a praça de guerra duas baterias razantes. Dentro da parada existia a igreja de S. Sebastião, devorada por um incêndio. As paredes aproveitaram-se para outras arrumações. E m baixo, numa das baterias à flor de agua, alveja a capela de N.a S.a do Baluarte, anterior à militarização do recinto.

Escolheu o local para aquela afirmação do poder de Portugal, D. João de Castro, em 1545, quando invernou na ilha, em viagem para Goa para o desempenho do cargo de vice-rei da índia. A construção só principiou em 1558, no governo de Sebastião de Sá, e o seu aproveitamento, na parte exterior, data de 1607 a 1614, segundo a opinião do tenente-coronel Joaquim José Lapa, a quem a colónia deve inequívocos serviços. Os trabalhos de aperfeiçoa­mento e depois de conservação nunca cessaram.

A praça sofreu vários ataques e cercos. Assediaram-na os holandeses, por duas vezes, em 1607 e 1608. Ficaram memoráveis os dois assédios. Defendeu-a D. Estevam de Ataide com cento e cinquenta homens. Urn estran­geiro, creio que francês, Francisco Pyrard, traduzido por Cunha Rivara, deixou-nos testemunho comprovativo do que foram esses cercos.

Os  holandeses   em   guerra  com  Portugal, e sabendo quanto a ilha de Moçambique nos convinha, tentaram apo­derar-se dela. Também outras nações tinham a mesma pretensão. Várias expedições foram organizadas nesse sentido. Em obediência a um plano preconcebido, os ho­landeses enviaram ali uma primeira esquadra em 1607, composta por oito grandes naus. A fortaleza resistiu ao bombardeamento e "a guarnição repeliu todas as investi­das, com perdas de consideração para os assaltantes. De­sesperados estes com a resistência, e por se terem asse­nhoreado da ilha e da cidade, aberta, queimaram-na e sa­quearam-na em duas manifestações de represálias.

Da segunda vez, escreve Pyràrd que em 1609, mas pa­rece que foi em 1608, a frota de investimento subia a treze alterosas naus. Não as bafejou a sorte com resulta­dos mais favoráveis. Nesse tempo a fortaleza de S. Se­bastião não dispunha dos meios com que contou depois. Só mais tarde o seu poder militar aumentou, como o das suas congéneres da índia quando o governo de Lisboa se certificou da cobiça que a holandeses, franceses e ingle­ses assaltou. Neste ultimo assédio o inimigo perdeu uma peça de grosso calibre e um dos seus navios naufragou quando velejava a sair do porto.

Aconteceu-lhes ainda outro precalço. Durante o cerco três dos seus, soldados ou marinheiros, fugiram-lhes para terra, descontentes, e apresentaram-se ao governador da fortaleza. Os sitiantes irritaram-se ao máximo com esta fuga. Sem essa deserção talvez a fortaleza tivesse sucum­bido. Porquê? Os cercados passavam as maiores priva­ções e discutia-se já no seu intimo o angustioso assunto da capitulação. Os três transfugas trouxeram-lhes um vislumbre de esperança. Informaram-nos que os holan­deses se encontravam na carência absoluta de munições, tanto de guerra como de boca, e por isso na precisão ina­diável de levantarem o cerco. Ao passo que faziam estas declarações, de todo o ponto verdadeiras, afirmaram hi­pócrita e falsamente que o motivo principal da sua desercão se baseava no desejo de terem acolhida no grémio católico, e ainda que os tinham obrigado a embarcar, num acto de tirânica forca. Tudo aquilo era fantasia de três aventureiros, da pior espécie.

Os nossos receberam-nos com aparente agrado. Enga­nados? Talvez não. Os jesuítas apregoaram aos quatro ventos a conversão, o que lhes convinha para fins polí­ticos e religiosos. Os três meliantes imaginavam melhorar de situação e dar largas à Índole gananciosa. Não queriam trabalhar e os holandeses constrangiam-nos a um labor extenuante.

Os do assédio calcularam que esses seus indesejáveis, compatriotas ou não, denunciariam quanto ocorria no seu arraial e que as deficiências seriam arma de muitos gumes para os portugueses. Resolveram vingar-se antes de retirarem da ilha, o que se tornava urgente. Sobreviera a monsão e, com ela, a aproximação da frota portuguesa da índia, e isto seria o aniquilamento da esquadra ho­landesa.

Esta na sua rota, para a África Oriental, apresara, pró­ximo da ilha de Moçambique, uma embarcação portu­guesa, como depois tomou outra fundeada em frente da fortaleza. A ambas saquearam e, por inúteis, incendiaram. Aprisionaram, é claro, as suas tripulações e passageiros, entre os quais havia oficiais dos barcos, pilotos, mestres, negociantes, alguns ricos e, a major parte, casados.

Os sitiantes com o intuito de rehaver os três deserto­res enviaram um parlamentario ao governador da praça, D. Estevam de Ataide, bravo e galhardo fidalgo. Ofere­ciam-lhe trocar todos os portugueses, seis, que tinham em seu poder, pelos três fugitivos. O governador respon­deu pouco mais ou menos nestes termos:

— Os regimentos e usos da guerra proíbem entregar homens nas condições daqueles. Apresentaram-se para adoptar a minha religião e servir o meu rei, Não me ficaria bem restituí-los aoVosso braço que os mataria. Signi­ficaria o mesmo que ser eu o algoz deles.

— Sacrificareis desse modo os vossos — argumentou o comissário.

— Os meus compatriotas em vossa guarda, são prisio­neiros de guerra e portanto compreendidos na lei que permite resgatá-los pela forma ajustada.

— Serão mortos à  vossa vista—insistiu o mensageiro.

— Se os matardes a sangue frio não será isso acção digna de leais cavaleiros.

Um dia inteiro andou o parlamentario holandês para cá e para lá com estes recados. Sem que se chegasse a acordo. Os do malogrado assédio, despeitados, queriam ti­rar um desforço por iníquo que fosse. Os desditosos por­tugueses seriam imolados. Amarraram-nos e puseram-nos fora da tranqueira, dos aproxes, presos por uma corda, cuja ponta seguravam do lado de dentro.

— Socorro! Valei-nos! Somos portugueses! Acudi--nos! Não nos mateis, senhor governador! Tende piedade de nós! — gritavam os desventurados, fazendo inauditos esforços para comover o coração alanceado, mas insensí­vel a tudo, que não fosse o estrito cumprimento da honra militar. Do dilema era difícil sair. D. Estevam de Ataide portou-se espartanamente. Com as lagrimas a cor­rerem-lhe pelas faces tisnadas pelo sol dos trópicos, exortou:

— Morrei com constância. Não posso aceder aos vossos rogos. Não me é licito entregar os três foragidos. Proíbem-me Deus e el-rei. Vieram refugiar-se entre nós e converter-se à nossa religião.

Ao cabo de certo tempo — infinda tortura moral — os holandeses excitados, dominados pela cólera fria dos ho­mens do norte, fuzilaram a tiros de arcabuz os seis infe­lizes portugueses, não sem que da fortaleza caísse sobre eles densa saraivada de balas de artelharia e metralha dos bacamartes e espingardões.

 

Nesse mesmo dia principiaram os trabalhos do levan­tamento do cerco. Pouco depois o inimigo tomava o rumo de Sonda. Decorridos sete ou oito dias avistavam de terra a esquadra portuguesa da índia. Por diferença de uma semana, deixaram os desditosos prisioneiros massacrados de serem condignamente vingados.

Os três desertores holandeses foram levados nessa mesma monsão para Goa. A população portuguesa sem­pre os olhou de revés. Todos três tiveram mau fim.

Ao governador D. Estevam de Ataide, que com tanta valentia e pundonor soube cumprir o seu dever contra almirantes holandeses da fama de Paulus Veneaerden acusaram-no, da segunda vez que ali exerceu o mesmo cargo, de tratar mais dos seus interesses que do bem pu­blico. Sindicou-o o desembargador Francisco da Fonseca Pinto, que julgou provada a incriminação de concusssão. Demitiram-no e sequestraram-lhe os bens, que, liquida­dos, foram aplicados às obras da fortaleza. O acusado, vergado de desgostos, entregou a alma ao Criador, ao cabo de um ano, e ali ficou sepultado.

Raro é o governador de Moçambique, com este titulo ou de capitão-mór, a quem a maledicência das terras africanas, aquecidas pelo sopro ardente do Equador, não conspurcasse a reputação. Felizmente tem-se ido rehabilitando a memória dalguns. Com o tempo a posteridade ha-de fazer a justiça à quasi totalidade.

Quasi nunca o colonial de certa categoria se retirava impoluto das possessões ultramarinas, nossas ou dos ou­tros. Á aleivosia, provocada pelos interesses feridos, cor­respondia a ingratidão dos reis com. frequência originada no exacerbamento político, ou doutra ordem, dos minis­tros e conselheiros. O progresso extirpou em boa parte tão nefasta enfermidade. Ainda de hora em quando pre­valece, mas, felizmente bastante atenuada.

Raro é aparecer um nome dos que governaram coló­nias, ilustre por qualquer motivo, que não tenha a babujá-lo a peçonha do aleíve. Era devido à quadra e ao clima. Tudo melhorou; até isso. Nas nossas e nas estrangeiras quanto mais alto ascendia o dirigente, mais sibilante e impaludada repenicava a trombeta dos mosquitos zumbidores, arautos clamorosos do murmúrio rasteiro e irifamador, baixos-falantes da injuria hipocritamente cobarde, que o juizo severo da posteridade, na sua cristalina obra de equitativa rehabilitacão, coloca no seu devido lugar. As colónias, até certa época, pela sua constituição es­pecial, não foram, nem podiam ser, mansão de justos, nem céu de almas puras; mas foram eficaz purgatório, onde a ardentia dos trópicos serviu de cadinho para acrisolar muito carácter.

 

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