NO
TRABALHO SANITÁRIO MATERIALIZEMOS O PRINCÍPIO DE QUE A REVOLUÇÃO LIBERTA O POVO
(1971)
Camaradas
Iniciamos hoje um novo curso para
formação de enfermeiros. Em 1968 tínhamos sido obrigados a suspender estes
cursos. Durante três anos eles estiveram interrompidos. Durante três anos a
nossa luta, o nosso Povo, viram--se impedidos de receberem novos quadros de
saúde. Durante estes últimos três anos morreram combatentes por falta de
assistência sanitária, morreram elementos do Povo, morreram crianças, porque não
estávamos em condições de lhes dar um mínimo de assistência médica. Para muitas
regiões libertadas, para muitas populações, estes últimos três anos não foram
anos de combate contra a doença. O nosso povo viu-se esquecido como na época
colonial, durante este três anos.
Há três anos atrás tínhamo-nos engajado
na batalha de formação de quadros para a saúde. Perdemos a batalha nesse
momento. Não há guerra em que só existem vitórias para nós e derrotas para o
inimigo.
Perdemos a batalha, porque a consciência
política dos alunos de enfermagem não estava em condições de assumir o sentido
e a importância da batalha que se travava e, assim, permitiram que o inimigo se
instalasse no seu seio.
Em 1968, a nossa luta armada
desenvolvia-se muito. Bombardeávamos e tomávamos de assalto as bases inimigas.
Fazíamos soldados portugueses prisioneiros de guerra, capturávamos toneladas
de material. Em Tete, reabríamos a frente da luta armada.
A batalha fundamental pela clareza da
nossa linha política, pelo desenvolvimento da nossa ideologia, demonstrava os
objectivos populares das forças revolucionárias no nosso seio.
Este combate engajava o pessoal da saúde.
Este combate era também um combate entre duas linhas no domínio da saúde. Um
combate para defender os interesses do Povo no campo da saúde.
1.
O QUE É O HOSPITAL DA FRELIMO E SUAS TAREFAS
Á primeira vista pode parecer absurdo falarmos em linha
política no campo da saúde, em combate entre duas linhas no domínio da saúde. À
primeira vista pode-se pensar que existe na FRELIMO uma vontade de politizar uma
coisa, aparentemente tão neutra, como a saúde. No fim de contas, dirão esses
que imaginam uma saúde apolítica, a penicilina ou cloroquina têm o mesmo
efeito, quer sejam administradas ou não por um revolucionário, quer sejam dadas
num hospital da FRELIMO ou num hospital colonialista.
Mas todos os nossos actos, toda a nossa
vida, são radicalmente diferentes dos actos e da vida da zona do inimigo.
Na zona do inimigo, na zona colonialista,
na zona capitalista, tudo se destina a manter o Povo dominado, manter o Povo
explorado, dar lucro aos capitalistas.
Na zona capitalista, na zona
colonialista, a estrada serve para fazer passar rapidamente a tropa e polícia
que te prendem e levam para o trabalho forçado. A estrada é o caminho rápido
para te virem buscar o imposto. A estrada serve para levar o algodão, que tu
produziste mas pertence à companhia. Serve para o comerciante te vir vender, a
pregos fabulosos, os artigos que tu e teus irmãos de classe produziram e de que
os colonialistas sp apropriaram a
preços de miséria.
Na zona do inimigo a escola é para, os
filhos dos ricos, mesmo se ela é financiada pelos teus impostos. Se alguma vez,
como por milagre, o filho do pobre entra na escola, não é para aprender a
servir o seu País. A escola vai-lhe lavar o cérebro, fazer-lhe ter vergonha da
sua origem, transformá-lo em instrumento dos ricos para explorar os
trabalhadores.
Tudo tem um conteúdo em função da zona em
que se encontra, em função da natureza do poder que existe nessa zona. Na zona
capitalista e colonialista a escola, a machamba, a estrada, o tribunal, a loja,
o técnico, as leis, o estudo, tudo serve para sermos explorados, oprimidos.
Na nossa zona, porque o poder nos
pertence, porque são os camponeses, operários, as massas laboriosas quem
concebe e dirige, tudo se destina a libertar o homem, a servir o Povo.
Assim se
passa com os hospitais, com o serviço de saúde.
Na zona do capitalismo e do colonialismo
o hospital é um dos centros de maior exploração. Aí, porque está em jogo a vida
dum homem, a vida dos seus entes mais queridos, é onde se manifesta da maneira
mais desmascarada e sem vergonha a ganância do mundo capitalista.
Não se entra e não se é tratado no
hospital capitalista em função das necessidades. Quando se é pobre, quando não
se tem influências poderosas, é difícil arranjar-se uma cama no hospital, e no
entanto o cancro devora-te a carne, a tuberculose rói-te os pulmões, a febre
queima-te o corpo. O rico, o senhor, o patrão, esse não tem a mínima
dificuldade em obter quartos, em obter lugar para si e para quem o acompanha.
Mobilizam-se médicos e professores da
faculdade para tratar a constipação do grande capitalista, para curar a prisão
de ventre do senhor juiz, mas ao lado morrem crianças, morrem homens, porque não
tiveram dinheiro para chamar o médico.
No hospital não se analisam os doentes,
analisam-se as riquezas. O medicamento é vendido a peso de ouro. Só se trata
quem pode pagar. A operação é para quem a pode custear. A comida, a dieta, as
frutas ou o leite, a salada, as carnes e peixes delicados para revigorarem o
doente, isso não é para quem precisa, mas para quem pode pagar. Até a ambulância,
que vai buscar de urgência quem está a morrer, muitas vezes regressa vazia
porque a família do moribundo não pode garantir o pagamento das facturas.
Na zona do inimigo os cães dos ricos têm
mais vacinas, mais medicamentos, mais cuidados médicos do que os trabalhadores
que constituíram a riqueza do rico.
Não é pois de estranhar que na zona do
inimigo ser-se médico significa também ser-se rico, ser-se enfermeiro significa
também um alto vencimento de muitos contos. Ser-se médico é gozar-se duma
elevada situação social como explorador, ser-se enfermeiro é gozar de muitos
privilégios.
No Moçambique dos colonialistas e capitalistas
só há hospitais onde há colonos, só há médicos e enfermeiros onde vivem os que
podem pagar. Na cidade de Lourenço Marques há mais camas nos hospitais, mais
médicos, mais enfermeiros, mais laboratórios do que em todo o resto de
Moçambique. Será que isto quer dizer que só em Lourenço Marques é que há
doentes?
Nas minas onde trabalhamos, nas
plantações das companhias que cultivamos, nas estradas que estamos a abrir,
nas fábricas, nas machambas, nas povoações, há milhões e milhões de
Moçambicanos que nunca viram um médico, nunca viram um enfermeiro, que estando
doentes nunca puderam beneficiar de qualquer assistência sanitária.
O nosso hospital é diferente. O que faz
um hospital não são os instrumentos cirúrgicos ou medicamentos que lá se
encontram. Os instrumentos os medicamentos, são importantes, mas o que é
essencial, o que é o factor decisivo, é o homem. Por isso, hoje, pela primeira
vez, em Cabo Delgado, em Niassa, em Tete, o Povo é objecto de assistência,
sanitária, as pessoas são vacinadas, nas povoações aprendem-se hábitos de
higiene. No entanto são raros os nossos medicamentos, são muito poucos os nossos instrumentos cirúrgicos, e as nossas instalações são
tão pobres que do exterior mal se distinguem de modestas palhotas.
O nosso hospital é constituído de sangue,
de sacrifícios. Não são paus e maticado, cimento ou tijolos, que constróem as
paredes do nosso hospital.
O nosso hospital pertence ao Povo, é um
fruto da Revolução. O nosso hospital é muito mais que um centro de distribuição
de medicamentos, ou do curativos.
Um hospital da FRELIMO é um centro em que
se concretiza a nossa linha política de servir as massas, é um centro em que se
materializa o nosso princípio de que a Revolução liberta o Povo.
O nosso hospital destina-se a libertar o
Povo da doença, a dar boas condições físicas aos combatentes, militantes e
trabalhadores, para que estes cumpram as tarefas revolucionárias em que estão
empenhados, por amor do Povo.
Curamos as pessoas pela confiança que
inspiramos, pelo moral que lhes Inculcamos. O pessoal da saúde, o doente e o
medicamento combinam-se para libertar o homem da doença.
O nosso hospital é um centro da
Revolução, ele existe por causa da Revolução e está intimamente associado à
Revolução.
Enquanto os hospitais capitalistas e
colonialistas estão ligados aos exploradores, aos colonos, porque é a eles que
servem, o nosso hospital está ligado às massas porque é a elas que se destina.
Assim o nosso hospital é um centro de
unidade nacional, um centro de unidade de classe, um centro de purificação de
ideias, um centro de propaganda revolucionária e organizacional, um
destacamento de combate.
Pessoal médico, alunos, serventes,
doentes, e o resto da sociedade estão intimamente unidos.
No hospital da FRELIMO não há tribos, não
há regiões, não há raças, não há crenças religiosas, não há nada que nos
divide. O hospital cumpre uma tarefa revolucionária. Pessoal médico, alunos,
serventes, estão a cumprir tarefas essenciais que lhes foram confiadas pelo
Povo.
O Povo inteiro, do Rovuma ao Maputo, pêlos
sacrifícios que fez, pelo sangue que verteu, ergueu esse hospital para o
servir, para o libertar da doença. Ninguém foi enviado por uma tribo ou região
para trabalhar num hospital.
Na medida em que os doentes sentirem
unidade no pessoal do hospital desde o médico aos serventes, eles unir-se-ão ao
pessoal médico e serventes e juntos concentrarão forças para liquidar a doença.
Mas se houver desunião reinará a desconfiança, o doente recusará o medicamento
porque temerá que o tratamento a que o submetem sirva para agravar a sua
situação.
Estamos todos unidos no cumprimento da
nossa tarefa. Não temos pequenas ou grandes tarefas, porque eu sou servente e
aquele é enfermeiro ou médico. A nossa tarefa é essencial, embora as nossas
responsabilidades sejam diferentes.
O sentirmos qualquer complexo de
inferioridade no cumprimento da nossa tarefa, o preocuparmo-nos em procurar
grandes e pequenas tarefas, significa falta de consciência de classe.
Somos de origem trabalhadora, seguimos as
massas laboriosas, o Povo trabalhador. A nossa tarefa é grandiosa. Qualquer
outra atitude só reflecte elitismo, busca de privilégios, perca do sentido de
classe, aquisição de ideias burguesas.
Exige-se pois que, assim como nos
desinfectamos ao entrar na sala de operações, nos purifiquemos das ideias
erradas e complexas que vêm contaminar o nosso hospital. Assim como nos
revestimos de máscaras e batas, devemos estar constantemente armados da nossa
unidade e consciência de classe, para revolucionariamente servirmos as massas.
Neste contexto, o nosso hospital será
realmente um centro de propaganda revolucionária e organizacional, ele será um
exemplo concreto da justeza da nossa linha, uma verdadeira zona da
FRELIMO.
Assim o hospital cumpre as nossas
tarefas, ele combate a doença, ele forma o homem, ele produz.
A
produção não pode estar separada da nossa actividade sanitária.
O hospital necessita de comida. Muitas
vezes as populações, a FRELIMO, não estão em condições de abastecer o hospital,
porque estamos em guerra, porque o inimigo nos ataca,,
porque a produção é um dos alvos do inimigo.
Exige-se pois que o hospital se esforce
em apoiar-se nas suas próprias forças, que seja tanto quanto (possível
auto-suficiente na alimentação.
Por outro lado não podemos esquecer a
Importância duma alimentação adequada para o tratamento correcto das doenças.
Os pacientes necessitam de se alimentar convenientemente, para combaterem o
mal.
É na fruta, nas saladas, nas verduras, na
carne, nos ovos, no peixe, no leite, que se encontram as vitaminas, os sais, os
minerais, as proteínas que revigoram o organismo, que reforçam para o combate
contra a doença.
O hospital, sendo um centro de produção,
também é centro de formação
para os doentes.
Não podemos desprezar nenhuma
oportunidade para elevar a consciência política e o nível de conhecimentos do
nosso Povo. No nosso hospital não existe inactividade, não existe ociosidade.
Finalmente, a experiência tem demonstrado que o engajar os doentes e em
particular os convalescentes em actividades levanta-lhes o moral e é um
poderoso auxiliar da cura.
Com isso queremos propor que os nossos
hospitais procurem continuamente alargar as suas actividades, aliar-se ao
Comissariado Político e ao Departamento de Educação e Cultura.
Devemos procurar alfabetizar os doentes e
convalescentes, ensinar-lhes português, fazer-lhes conhecer, compreender e
assumir a riqueza cultural do nosso País inteiro.
Devemos organizar para os doentes
pequenos cursos de higiene, a fim de lhes fazer adquirir bons hábitos
higiénicos, que impedirão muitas doenças.
Procuremos tornar agentes activos de
propaganda higiénica todos aqueles que se vêm tratar nos nossos hospitais. É
de considerar também que em muitas regiões do nosso País existem péssimos
hábitos alimentares. Ë importante que as populações adquiram novos hábitos
alimentares; para isso, nos hospitais devemos organizar pequenos cursos para
doentes, em particular para as mães, explicando-lhes o valor nutritivo dos
diferentes alimentos e mesmo como prepará-los.
Não podemos nunca abandonar o trabalho
político, isso é sempre a nossa tarefa prioritária,
A estadia do doente no hospital deve
servir para elevar a sua consciência de unidade nacional, a sua determinação
de combater, o seu ódio ao inimigo explorador.
Compreende-se então porque definimos um hospital
da FRELIMO como um destacamento operacional nosso, uma
linha da frente.
Assim, o nosso enfermeiro, o nosso
pessoal médico, além das suas tarefas específicas, são instrutores da nossa
vida, professores, comissários políticos. A acção do nosso pessoal médico
revolucionário não só cura do corpo, como também liberta e forma o espírito.
O inimigo compreende isso muito bem, tão
bem o compreende que define o nosso hospital como um alvo dos seus
bombardeamentos, um alvo para as suas tropas criminosas.
2. O
HOSPITAL, LINHA DA
FRENTE
Ao iniciarmos este curso abrimos uma nova frente de luta. Ao
iniciarmos este curso criamos condições para abrirmos novos hospitais, novos centros
em que se concretiza a linha política da FRELIMO. Novos hospitais são novas
linhas da Frente.
Ao abrirmos uma frente, podemos também
dizer que a nossa luta cresceu; por isso ampliámos o alvo para o inimigo,
damos-lhe mais um alvo para as suas armas.
Em 1968, como dissemos já, fomos
obrigados a recuar, fomos forçados a interromper o curso. Perdemos uma batalha.
Hoje desencadeamos de novo a batalha,
fortes das experiências que adquirimos através dos sucessos e fracassos.
Ao desencadearmos uma batalha é
fundamental, para obtermos sucessos, conhecermos o inimigo, definirmos os nossos
métodos e saber quais são as nossas forças.
No
combate em que nos encontramos, fazemos face a três inimigos:
— o
inimigo directo;
— o
inimigo indirecto;
— o
inimigo camuflado no nosso seio.
Os colonialistas portugueses são nossos
inimigos directos. Atacam-nos abertamente, fisicamente. Eles vêm com os seus
aviões bombardear os nossos hospitais, eles assaltam-nos com os seus
helicópteros, eles lançam as suas tropas para assassinar os doentes, destruir o
material, impedir que os medicamentos cheguem aos seus destinos. O
colonialismo é o inimigo mais fácil de identificar porque é aberto, ataca-nos
com uma arma.
Mais perigosos, porque são mais
facilmente acreditados que os colonialistas, são os inimigos indirectos, os
aliados de Portugal. Aqueles que nos combatem camuflados, atrás das tropas
portuguesas.
Estes combater-nos-ão com artigos nos
jornais, com boatos, com calúnias. Hoje dirão que vendemos medicamentos, amanhã
irão contar que nos nossos hospitais gente de tal e tal região é desprezada.
Uma vez escreverão que não somos competentes, outra, que o Povo despreza o
hospital.
E a campanha continuará, para nos
dividir, para nos encher de complexos, para subtilmente nos forçar a
rendermo-nos.
Cada erro nosso, cada falta que
cometermos, será utilizada por eles como prova irrefutável da veracidade de
tudo o que dizem.
Mas sobretudo, para nos vencer, para mais
uma vez privar o nosso Povo da assistência sanitária, o inimigo, directo ou
indirecto, conta com o trabalho dos seus destacamentos operacionais no nosso
seio.
A força decisiva que nos pode derrotar é
o inimigo camuflado no nosso seio, aquele que connosco levanta a bandeira da
FRELIMO para mais facilmente destruir a FRELIMO.
Esta é a nossa experiência, esta foi a
razão fundamental da nossa derrota em 1968, a causa da interrupção dos cursos.
Tendo infiltrado os seus espiões, os colonialistas
mobilizaram o tribalismo, o racismo, o egoísmo, a ambição, o elitismo, a
ignorância, a superstição, o fanatismo religioso, a corrupção.
Cada
uma destas coisas
é um destacamento
inimigo no nosso seio.
O tribalismo levou os alunos à desunião, a transformarem-se
em contra--revolucionários e combaterem contra a Direcção da FRELIMO, contra a FRELIMO
e contra o Povo. Cada um tomava-se como representante dos interesses
desta ou daquela região, procurando meticulosamente verificar se um outro grupo
linguístico tinha no curso mais alunos do que o seu, semeando a desconfiança e
desunião entre nós,
O racismo levou à desunião entre alunos e
professores. Dizendo-se muito revolucionários, alunos que ainda não tinham dado
nenhumas provas de verdadeiro engajamento revolucionário combatiam professores
que tinham já dado muitas provas de dedicação ã causa
popular, só porque os professores eram brancos.
Combinando o egoísmo e a ambição, os
alunos recusavam um programa de estudo concebido em função de necessidades
imediatas e urgentes da luta, para exigirem programas que lhes dariam muitos
diplomas e privilégios para explorar o Povo no futuro. Queriam constituir-se
em elite de parasitas, ganhando fortunas e posições sociais, graças à doença e
sofrimento do Povo.
A ignorância, a superstição, o fanatismo
religioso, levou os alunos a confiarem em forças sobrenaturais inexistentes, em
amuletos e pedras, desprezando a ciência, recusando os ensinamentos dos
professores que eram fundados nas leis da natureza, na realidade objectiva.
Dentro deste clima fomentou-se a
Indisciplina, a anarquia, a corrupção, o caos.
A batalha estava perdida. O inimigo
indirecto, nos seus jornais, publicava artigos e comentários sobre «a revolta
dos estudantes revolucionários contra a Direcção da FRBLIMO».
Os colonialistas felicitavam-se e
intensificavam as campanhas para reforçar o inimigo no nosso seio: as ideias
velhas, os hábitos da sociedade antiga.
Durante muito tempo o peso de tradições
ultrapassadas e reaccionárias, as ideias colonialistas e capitalistas,
esmagaram o nosso Povo. Muitos alunos, quadros, pessoal médico, responsáveis,
ainda carregam a carga impura.
Há os que imaginam Moçambique reduzido à escala
minúscula de um grupo linguístico ou região. Um órgão, por importante que seja,
não vive fora do corpo. Uma perna, um braço, apodrecem se deixam de ser
irrigados pelo sangue do organismo, se são separados da unidade com o corpo.
Pela unidade que criamos entre nós, pela
maneira revolucionária como o hospital serve o Povo, demonstramos concretamente
às massas a necessidade de fazer viver a Nação e de fazer morrer o tribalismo.
Assim como liquidamos os germes e bactérias nocivas para proteger os doentes, o
hospital deve ser um exemplo vivo de liquidação do micróbio contagioso do
tribalismo, para fazer viver a Pátria.
Outros procuram num sobrenatural, nascido
da ignorância, a resposta para os problemas concretos. Ainda não sabem ver que
a resolução de todos os problemas depende unicamente da combinação da nossa
inteligência e energia com as leis objectivas que regem os fenómenos naturais e
sociais.
Procuram respostas
no céu, quando o
segredo se encontra na terra.
É porque o Povo vê operar a ciência, porque o Povo constata
os resultados da ciência, porque continuamente explicamos aos doentes e ao
Povo as origens e os meios de combaterem
a doença, que o hospital pode tornar-se numa base sólida de luta contra o
obscurantismo.
E na medida em que acreditamos no Homem,
que destruiremos a superstição no seio do Povo. Na medida em que o nosso
trabalho demonstrar o valor da ciência, faremos recuar o obscurantismo
sobrenatural.
Há quem se considere insubstituível, uma
sumidade. Cheio de arrogância recusa aprender dos outros, monopoliza
conhecimentos, alegra-se com o insucesso dos camaradas. Agindo assim, esses
procuram criar condições para se instalarem como privilegiados, explorando as
massas, fazendo reinar as suas pequenas e miseráveis tiranias. Para consolidarem
a sua posição aceitam e fomentam boatos e intrigas, egoistamente fechados nos
seus interesses mesquinhos.
O individualismo, o egoísmo, a ambição, a
arrogância são micróbios transmissores da divisão, são Incubadoras das ideias
velhas da sociedade exploradora.
Porque viemos de longe, porque à luta
chegam todos os homens, por vezes entre nós encontram-se aqueles que viviam
habituados ao banditismo. Estes elementos frequentemente introduzem os seus
vícios na nova sociedade.
Uns roubarão medicamentos, lençóis,
comida. Outros, abusando da confiança dos doentes, utilizarão os segredos
delicados que conhecem para satisfazer os seus gostos de intriga e ambição.
Haverá também os que, utilizando-se da
missão, vão procurar corromper a juventude, contaminando com os seus instintos
baixos as novas gerações.
Existe, pois,
uma frente de
combate contra estes
comportamentos.
Um enfermeiro que num hospital andasse a
destruir os frascos de plasma, seria considerado um criminoso. Um enfermeiro
que envenenasse doentes seria considerado um criminoso. A nossa moral
revolucionária, os nossos princípios, são o nosso plasma, a sociedade nova que
construímos é a nossa vida. A nossa acção é contra aquele que quer destruir o
nosso plasma, o nosso sangue, aquele que quer roubar a nossa vida.
3. OS NOSSOS
MÉTODOS DE COMBATE
É o nosso pessoal médico quem constitui a
nossa força operacional na linha da frente sanitária. Eles constituem forças de
vanguarda da nossa Organização, da nossa Revolução.
O pessoal médico representa no hospital a
nossa linha política de servir as massas.
Entre o doente e o enfermeiro ou médico
que o trata estabelece-se um laço forte de confiança e de esperança. Aliviar a
dor, curar a enfermidade, está associado para o doente à acção do enfermeiro,
do médico.
Esta confiança do doente, da sua família,
dos seus amigos, constitui um capital político extraordinário, que devemos
utilizar para fazer progredir a Revolução.
Na base da confiança que se estabelece devemos orientar os
pacientes na via da unidade nacional, no reforço da consciência de classe, na
aquisição de conhecimentos higiénicos, científicos e culturais. Em resumo, que
ao tratamento do corpo
corresponda um tratamento
idêntico do espírito, para, fazer triunfar a mentalidade nova.
É necessário uma vocação, um entusiasmo
natural por essa actividade. A vocação esta intimamente ligada e é orientada
pela consciência e as necessidades da luta.
Enquanto na zona capitalista,
rapidamente, a vocação combinada com o desejo de lucro e de privilégios é
corrompida e asfixiada, na nossa zona a vocação, porque é combinada com uma
alta consciência política, torna-se um estimulante poderoso do nosso trabalho.
Na formação do pessoal médico, porque
precisamente consideramos o homem como factor decisivo, a prioridade deve ser
dada à formação política, à consciência política.
Em sete anos de luta a experiência provou
amplamente que o nosso pessoal médico, apesar do seu baixo nível técnico e
falta de medicamentos, foi capaz de fazer muito mais pelo Povo do que os
serviços de saúde colonialistas que dispõem de todas as técnicas, de todos os
meios. Com dois médicos fizemos mais trabalho do que os serviços de saúde
colonialistas, que dispõem de muitas dezenas, senão mesmo centenas de médicos.
Este resultado testemunha a importância vital da linha política.
A formação política é sobretudo cultivar
continuamente a consciência política nos alunos, no pessoal médico, no pessoal
hospitalar. Desenvolver o espírito anti-colonialista e anti-imperialista,
conhecer a opressão, enraizar a consciência e o sentido de classe.
O pessoal hospitalar está em contacto
permanente com os sofrimentos do homem, causados pela exploração, causados pela
ignorância. Esta ligação com o sofrimento humano deve servir para aguçar a
consciência política, para aumentar os conhecimentos do pessoal médico, para
reforçar a sua determinação em combater o inimigo, em combater a doença, em
combater a ignorância.
A consciência política superior deve ser
a base da consciência profissional do pessoal médico.
Um enfermeiro não tem horas de trabalho e
horas de repouso. Se o seu trabalho normalmente começa a uma hora fixa — é
fundamental ser pontual — não tem hora fixa para terminar.
A doença, o sofrimento, a guerra, não se
subordinam às decisões burocráticas.
Um hospital funciona 24 horas por dia,
sete dias por semana. Onde está o doente, onde está o sofrimento está o pessoal
médico, sem se importar da hora. Só assim se serve o Povo.
Não se faz guerra com horas de repouso
fixas, não se combate a doença com horas de repouso fixas para o pessoal
médico.
Para que os alunos de enfermagem se
habituem a este ritmo exigente, é necessário que o seu programa diário comporte
um mínimo de dez horas de actividade.
No exercício da sua missão, o pessoal
médico é forçado a conviver com todas as fraquezas e misérias humanas. Os
doentes não podem, mesmo que queiram, guardar segredo sobre os seus males e
origens. A análise científica é reveladora.
E pois fundamental que o pessoal médico
tenha a noção do segredo profissional. O seu conhecimento das fraquezas e
misérias não pode ser motivo de conversas, ou ainda pior, instrumento de
ambição ou vingança.
O doente é sagrado para o hospital. Um
enfermeiro, um servente, um médico, não conhecem vingança no exercício da sua
missão. Para o pessoal médico não existem raças, cores, crenças ou mesmo
nacionalidades. Para eles só existem doentes. Uni soldado português ferido ou
doente, no nosso hospital, é tratado como qualquer de nós. Fazemos isso porque
possuímos uma moral revolucionária, uma moral superior, uma moral radicalmente
oposta à baixeza do fascismo e do colonialismo.
Já dissemos que o hospital materializa a
nossa linha política, que os enfermeiros devem representar duma maneira viva a
nossa ideologia. Por isso as nossas palavras, o nosso comportamento, devem
rigorosamente concordar com a nossa linha, É isto o
fundamental. Se apesar das nossas deficiências técnicas e de material obtivemos
no campo da saúde resultados superiores aos dos colonialistas, isso deve-se
unicamente à justeza e superioridade da linha.
Fazermos o combate interno para integrar
as nossas palavras e comportamento na nossa linha, é criar condições de
sucesso para o nosso trabalho.
Que os nossos hospitais sejam para as
massas uma fonte diária de mil exemplos bons da eficácia dos nossos princípios.
A técnica encontra-se em segundo lugar.
Ela é importante. Só o conhecimento exacto das leis da natureza, a sua
mobilização para os nossos fins, é que permite a destruição da doença.
Não pode haver limite para o estudo.
Ninguém sabe tudo, ou mesmo o suficiente. Enquanto houver doenças, enquanto
houver gente que morre, temos que estudar, temos que aprender.
Para
servirmos melhor devemos estudar muito.
Devemos estudar tudo. Evidentemente que
devemos primeiramente estudar as ciências médicas, devemos adquirir os
conhecimentos teóricos que sintetizam e racionalizam os ensinamentos da
prática. Mas devemos também estudar e aprender da prática, devemos estudar e
aprender do Povo.
"Ê necessário um estudo da sociedade.
Conhecer os usos e costumes, a cultura e as particularidades de cada região,
integrando-os continuamente no contexto nacional.
É -necessário estudar os homens,
conhecê-los. A doença não existe em abstracto, existe num homem concreto, com a
sua psicologia própria, a sua energia específica. Conhecer o homem é o caminho
para mobilizar as suas energias contra a doença que o ataca, é também o caminho
que nos leva a agir e transformar revolucionariamente
o seu espírito.
E conhecendo que compreendemos e só depois
de compreender é que podemos agir.
Mas sobretudo importa estudar
constantemente a política da nossa Organização, porque só ela nos dá a visão de
conjunto e nos define as perspectivas que garantem a orientação segura do nosso
trabalho.
O objectivo do nosso estudo não é o de
nos fornecer os meios para melhor explorar o Povo e adquirirmos situações
privilegiadas, como na zona capitalista.
Não nos preocupamos em obter uma nota
alta para um, inculcar muita sabedoria num outro.
Esse um, por muito sábio que seja, será
incapaz de fazer funcionar todos os hospitais que necessitamos, de assistir
todos os que se encontram doentes.
O nosso estudo é colectivo, o nosso
progresso é em vagas, em que todos avançamos juntos. Por isso é necessário
entre os alunos, entre o pessoal médico, um espírito de ajuda mútua, sentir o
atraso de um como um recuo para a Organização, um atraso no serviço do Povo.
Este espírito colectivo deve dominar toda
a nossa vida. Sem a unidade nacional somos vencidos pêlos colonialistas. A
nossa classe camponesa e operária sem unidade é dominada
pelos exploradores. O nosso trabalho sanitário sem unidade resulta em fracasso.
O espírito colectivo obriga-nos a
enfrentar cada problema, cada situação, cada deficiência, como nossa. Não
estamos indiferentes a nenhum problema. O poder pertence-nos, por isso não
podemos ficar de braços cruzados diante duma situação, por pequena que seja,
que trave o nosso progresso. Uma pequena ferida desprezível pode abrir a porta
ao tétano que destrói o organismo inteiro. No corpo, a ferida no dedo mais
pequeno do pé, se não é tratada, pode destruir a vida. Porque o problema não
nos afecta pessoalmente não é menos importante, porque esse problema faz parte
do organismo em que estamos integrados.
Os nossos hospitais existem porque houve
sacrifício. Os nossos hospitais representam um lago de sangue.
Os instrumentos cirúrgicos, os
medicamentos, o material, resultam dos sacrifícios do Povo, dos sacrifícios dos
nossos amigos.
Em muitos países, porque o sangue corre
em Moçambique, criou-se uma corrente poderosa de solidariedade, para nos
ajudar. As pessoas voluntariamente aceitam privações para nos apoiar.
Ter um alto sentido de economia, lutar
contra o desperdício, é respeitar o nosso sangue, é respeitar os sacrifícios
dos nossos amigos, é demonstrar espírito colectivo.
Frequentemente nos nossos hospitais
morrem camaradas por falta de medicamentos. Muitas vezes, para tratar um
ferido, nem sequer temos água oxigenada.
Poupar medicamentos, poupar material, é
salvarmos vidas que esse medicamento, que esse material irão curar.
Este curso inicia-se no Hospital Américo
Boavida, é uma coincidência simbólica.
O camarada Boavida, médico angolano,
sacrificou-se pelo Povo. Podia ter sido um médico explorador, mas foi um médico
que morreu servindo o Povo, combatendo a doença e a exploração.
Que também sirva de exemplo e
encorajamento para nós o espírito internacionalista destes camaradas
estrangeiros, que por solidariedade revolucionária abandonaram as suas
pátrias, abandonaram o conforto construído pelo seu trabalho, para trabalharem
connosco.
Eles vieram
porque há luta em Moçambique. Eles vieram (porque os trabalhadores
da Bulgária e da Itália combatem como nós a exploração, consideram-nos como uma
das frentes da sua luta.
A nossa responsabilidade
é grande, o nosso combate não é só para libertar o nosso Povo, ele é também
para apoiar os povos irmãos, a classe trabalhadora no mundo inteiro.
Na nossa
missão, unidos sob a direcção da FRELJMO e guiados pela nossa ideologia,
apliquemos a palavra de ordem de servir o Povo na nossa tarefa sanitária.
Agindo
assim, cumpriremos o
nosso dever nacional
e internacional.
A LUTA
CONTINUA
INDEPENDÊNCIA
OU MORTE
VENCEREMOS!
Novembro de 1971
Samora
Machel
Presidente.