LINHAS GERAIS DO PROJECTO POLÍTICO DA FRELIMO

 

       Na sequência do projecto iniciado nas zonas libertadas e das palavras de des­pedida ao povo tanzaniano, em 23 de Maio de 1975:

«Nós queremos criar o Homem Novo. Queremos criar os futuros revolu­cionários. Queremos criar a nova mentalidade livre, com a nossa própria personalidade. Também queremos libertar alguns que ainda persistem (tanto em Moçambique como na Tanzânia e em todos os outros países independen­tes da África) em usar uma mentalidade escrava do estrangeiro. Por isso, teremos as nossas novas escolas que ensinarão a todo o povo os melhores meios de combater esse mal» (MACHEL, S.)75,

o Presidente confirmava o novo desafio da reconstrução nacional, para depois anunciar as linhas gerais do projecto da Frelimo para essa «nova fase». Eram as seguintes as prioridades da «nova fase»76, que exigiria de todos «trabalho e sacrifício»77:

1) Criação de uma sociedade nova e do Homem Novo, com uma mentalidade livre da dependência ao estrangeiro;

2) Formação de uma nação e de um Estado novo, situados ao nível das nações modernas;

3) Desenvolvimento de uma economia baseada na agricultura e na indústria (MACHEL, S.)78.

Este projecto, qualificado de «revolucionário», aparece ligado à utopia da modernização da sociedade: «queremos fazer de Moçambique um país moder­no» e «em conjunto e unidos marcharmos vitoriosamente para o progresso» (MACHEL, apud REIS, 1975: 464).

A tomada do poder significava para o Povo, acima de tudo, assumir a direc­ção e o controlo do campo da historicidade, valorização da sua cultura e constru­ção de um novo mundo da vida.

A Revolução perdia o sentido de sublevação popular violenta, de uma revolta contra o invasor estrangeiro, para significar mais mudança estrutural de longo prazo, que provém do passado e vai atingir o futuro (MARTINS, 1992: 8). Trata-se de revolução mais no sentido de processo de mudança social. Mesmo que esta dimensão estivesse na Frelimo da «luta armada revolucionária», agora o seu campo de acção é maior. Estende-se a toda sociedade e não apenas às zonas libertadas, abrange os vários segmentos económicos e sociais como da indústria, do campo, da ciência e da cultura. A Frelimo estava assumindo o desafio da revolução com nova dimensão de processo, que implica conhecimento mais pro­fundo da realidade, para torná-la, ao mesmo tempo, «direccionador da acção». E nisto reside, segundo Estêvão Resende, a modernidade do conceito de revolu­ção. Daí a sua ligação com o desenvolvimento, com o progresso, enfim, com a modernização da sociedade. Enfim torna-se «uma categoria reflexiva que faz confluir as condições do agir político com a análise do conhecimento histórico» (ibidem).

O carácter revolucionário do projecto estava também no seu carácter popular. Ao defini-lo como tal, a FRELIMO estaria definindo, pelo menos em teoria, a classe dirigente e toda a sociedade como actores participantes directos do pro­cesso de construção do campo da historicidade, ou seja, estava considerando imprescindível o envolvimento de toda a sociedade na construção da Nação--Estado.

A Frelimo acentua que, nesta nova fase, a revolução ou modernização se faz pela ciência e pela técnica. Samora Machel desenvolve todo um discurso sobre a importância e o carácter revolucionário do trabalho (MACHEL, 1974b: 13).

Aplicando-o à Educação, Samora Machel faz ver que o projecto implica: na «criação de uma Escola de tipo novo», onde «se deve valorizar 'devidamente' o trabalho manual como uma das fontes de conhecimento» (REIS, 1975: 214); em fazer combinar o ensino com o trabalho produtivo socialmente útil79; enfim, em fazer da Escola espaço de formação intelectual, participando na produção. O objectivo é criar no aluno, desde os primeiros anos de escolarização, uma menta­lidade de trabalhador. Em segundo lugar, levar o aluno a interiorizar que o seu trabalho deve ter dimensão económica, com uma mentalidade de produtividade, rompendo com a mentalidade «tradicional» de economia de subsistência, incom­patível com a mentalidade da modernidade.

Os discursos de Samora Machel, baseados na prática do trabalho colectivo das zonas libertadas, visam mostrar às populações, em geral, que o conheci­mento objectivo da realidade social e o critério de avaliação do verdadeiro enga­jamento do indivíduo na revolução constituem-se pela mediação do trabalho; que, ligando o Homem à Natureza, dá conteúdo e consistência teórica à práxis e torna possível o conhecimento objectivo do próprio Homem. Pelo trabalho, identifica-se e procura-se superar as contradições. Em suma, o trabalho dá ao conhecimento e à acção humana a dimensão de historicidade. Daí que a educa­ção, que se pretende crítica e revolucionária, deva andar articulada ao trabalho produtivo.

A utopia da modernização não surge apenas com a independência. Ela está presente nos discursos de mobilização anteriores a 1975, vistos quando tratámos da educação nas zonas libertadas.

Baseando-se igualmente na experiência das zonas libertadas, Samora Machel estabelece como estratégia o contacto directo dos dirigentes com as massas para sucesso do projecto (MACHEL, 1975a: 27) e como método o trabalho colectivo e a solução política dos problemas do País, antes de ser administrativa, não devendo sobrepor a técnica à política (MACHEL, 1975: 205)80.

Por este projecto político, a Frelimo já no poder visava instaurar uma «nova ordem social popular» no país (REIS, 1975: 45). A estratégia e o método defini­dos ajudariam a manter a população sempre mobilizada e, sobretudo, a consoli­dar a postura revolucionária do Partido.

Essa postura, como fruto de uma prática de luta e de superação de contradi­ções internas, na sua origem traduzia-se na união estreita do ciclo dirigente com o Povo, na priorização de soluções políticas às burocráticas dos problemas das massas, na reflexão dialéctica da realidade social e na sua extensão dinâmica a toda a sociedade. Ela implicava também uma moral, uma «disciplina rigorosa» aos militantes (III CONG: 93) e um «combate enérgico» contra os preconceitos baseados na cor da pele, na região de nascimento e na religião, para o sucesso do projecto (REIS, 1975: 31/52).

Em que medida, na nova fase, a Revolução caminharia com a modernização, e esta com a afirmação do poder? Em que é que este processo de modernização da Frelimo diferia da modernização colonial que excluirá a participação da sociedade colonizada? Como conseguiria a FRELIMO implantar o seu projecto de modernização, assegurando os interesses da maioria da população sem margi­nalizá-la? Os desafios punham-se não somente a nível económico como também a nível cultural. Ou seja, qual (seria) é o lugar da cultura nesse projecto moder­nista? Como é que a Educação foi respondendo aos desafios do projecto nacio­nal e como é que o próprio processo ajudou ou não a Educação a colocar-se ao serviço da maioria do povo?

 

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