III

 

                             O MONOMOTAPA - PRIMEIRO PERÍODO CHONA 1325 - 1600

1. A tribo Makaranga

 

Por volta do ano 1325 uma tribo pertencendo ao grupo Chona veio fixar-se no planalto central entre os rios Save e Fungue.

Esta tribo era os Makaranga, um povo patrilinear que se dedicava à agricultura, a pastorícia e à transformação dos minerais em ferro e ouro. Patrilinear quer dizer o sucessor do pai era o filho mais velho e todos os filhos usam o nome da família do pai (apelido).

Os povos Batonga que viviam no planalto antes da chegada dos Makaranga foram-se gradualmente assimilando aos Chona e com tempo confundiram-se com eles.

Os Makaranga tinham uma organização politica de carácter semi-feudal e praticavam um culto religioso complexo.

 

2. O primeiro reino Makaranga

 

NeMbire era chefe quando os Makaranga se fixaram no planalto. NeMbire começou a alargar o seu território para o sul. Várias tribos Chona começaram a submeter-se a sua autoridade. NeMbire governava ajudado por um cunhado seu, que tomava o título de Mutota Churuchamutapa, quer dizer aquele que assistia o Senhor das Minas.

Neste primeiro reino Makaranga começou a desenvolver-se o trabalho das minas e o rei começou a ser chamado Monomotapa, o Senhor das Minas.

Começaram a ser trabalhados o ferro, o ouro, o cobre, que eram enviados até ao porto de Sofala onde os mercadores árabes vinham trocar por outros produtos.

O trabalho dos metais ainda simples, não provocara ainda grandes transformações na vida do povo. Os clãs que trabalhavam os metais iam vendê-los aos mercadores árabes. Mas a força dominante da vida do povo era ainda a agricultura e a pastorícia.

Mas com o tempo, pequenas transformações se deram. Certos clãs, que se instalaram nas zonas mais ricas em minério, começaram a acumular uma maior riqueza do que os restantes clãs. A repartição das riquezas dentro dos clãs foi a pouco a pouco perdendo o carácter de igualdade; assim certos chefes de clãs tornaram-se mais ricos do que os restantes membros.

As modificações que se deram nesta altura eram muito insignificantes, mas eles prepararam o campo para o feudalismo.

 

3. O segundo reino Makaranga

 

A NeMbire sucedeu seu filho que tomou o nome do pai e ficou conhecido na história por NeMbire II.

NeMbire II continuou a política centralizadora do pai e, tal como ele, foi alargando também a sua zona de influência, submetendo mais tribos à sua autoridade.

 

NeMbire II tentou dominar uma tribo Rozwi que se instalara perto do Alto Limpopo na zona compreendida entre a actual cidade de Bulawayo e a curva do Limpopo. Como os Rozwi não estivessem dispostos a aceitar a sua autoridade, NeMbire enviou os seus homens armados que, pela força, depuseram o chefe Rozwi e colocaram na chefia Chicura, filho de uma sua filha.

Pouco a pouco estabeleceu-se uma estrutura feudal. As alianças começaram a ser feitas entre chefes de várias tribos para uma defesa mútua, concentrando a autoridade nas mãos de um só chefe, o rei Makaranga.

Dentro de cada tribo uma divisão de trabalho foi aparecendo: mineiros, agricultores, pastores e comerciantes. Os chefes das tribos, estando unidos, podiam assim mais facilmente fazer face a toda espécie de exigências da população tribal, que começava a sentir que o antigo sistema igualitário de distribuição das riquezas ia desaparecendo. Era frequente ver os guerreiros duma tribo a lutar contra o povo duma outra tribo que se rebelara contra o seu chefe. Os chefes tribais começaram a dominar pela força e a antiga democracia tribal ia enfraquecendo.

 

PERGUNTAS

 

1. A que grupo pertence a tribo Makaranga?

2. A que ocupações se dedicavam os Makaranga?

3. O que significa a palavra «patrilinear»?

4. Quem era chefe quando os Makaranga se fixaram no planalto entre os rios Save e Púnguè?

5. Que metais trabalhavam os Makaranga e com quem os trocavam?

6. Qual era o porto de importação e exportação de mercadorias?

7. Mais tarde apareceu dentro de cada tribo uma divisão de trabalho. Quais foram as ocupações mais importantes nesta altura?

8. Quais são as grandes tribos que estavam debaixo da autoridade dos reis Makaranga?

 

As alianças entre chefes de várias tribos foram-se formando e criou-se uma grande confederação de tribos da mesma origem Chona. Esta confederação é o esboço de um futuro Império.

Os Makaranga dominavam a zona central entre o Zambeze e o Save. Os Rozwi dominavam o sul entre o Save e o Limpopo. Entre os dois, para o interior leste ficavam os Butua. Estas três grandes tribos reuniram-se sob a autoridade dos reis Makaranga. Apenas na costa litoral se destacaram as tribos Báruè e Quiteve e entre elas a tribo Manica. Veremos como em breve elas serão anexadas.

 

4. A Dinastia Rowzi: Mutota e Matope

 

Cerca de 1420 o rei NeMbire II morre e uma luta pelo poder começa entre as três tribos. Aquele que mais se evidenciou na conquista pelo poder foi Chicura, chefe tribal dos Rozwi. Derrotou os guerreiros do pretendente Makaranga e instalou-se no trono do Monomotapa. Os Butua aceitaram a sua soberania depois da vitória estrondosa de Mutota.

Mutota vai verdadeiramente dar inicio ao Império. Foi um grande guerreiro e assim conseguiu submeter as tribos Manica e Quiteve, que começaram a fazer

parte dum Império que se estendia do Zambeze ao Limpopo. As guerras de conquista duraram vários anos. Ao submeter o reino de Quiteve, começou a ter acesso ao porto de Sofala, onde os árabes vinham comerciar e onde possuiam uma fortaleza dirigida por um sultão. Este pagava tributo ao rei de Quiteve.

 

5. O Estado teocentrico dos Rowzi

 

Mutota instalou a sua capital no Noroeste do Império perto do rio Uteve na colina Chitako. A sua capital era também um Zimbabwe, quer dizer uma cidade -fortaleza feita de grandes blocos de pedra.

Os Rozwi acreditavam que o rei era de origem divina e por isso se chama teo­centrico ao Estado Rozwi. No Zimbabwe de Mutota foram encontradas grandes figuras de pássaros esculpidos na pedra que eram o símbolo da realeza divina. A capital do Sul, Grande Zimbabwe, iniciada pêlos Batongas, foi assim abandonada.

O povo acreditava na divindade do Monomotapa até ao ponto de não ver a sua cara quando falava. Sempre que o rei se dirigisse ao povo, falava atrás de uma cortina. O povo ouvia a sua voz mas sem ver a cara. Todos temiam ver a cara de uma divindade.

 

6. A sociedade no tempo de Mutota

 

A sociedade no tempo de Mutota apresentava já todas as características de um estado feudal.

Havia vários reinos vassalos dum rei central a quem pagavam tributos anuais em géneros. Dentro de cada reino o rei e uma camada de funcionários reais controlavam o trabalho do povo. Entre o rei e o povo havia uma classe de comerciantes.

As diversas minas eram a propriedade do rei assim como as forjas e outros instrumentos de trabalho. As pessoas que trabalhavam nas minas e nas forjas eram pagas em pequenas quantidades de mineral seja ouro, ferro, cobre ou estanho.

As diversas minas eram a propriedade do rei assim como as forjas e outros instrumentos de trabalho. As pessoas que trabalhavam nas minas e nas forjas eram pagas em pequenas quantidades de mineral, seja ouro, ferro, cobre ou estanho. Para viverem trocavam esse mineral contra os produtos da agricultura e pastorícia e contra os produtos vindos do exterior, tais como tecidos, missangas e outros objectos de adorno. Também tinham que adquirir outros utensílios domésticos, tais como panelas e tijelas.

O mineral que os agricultores, pastores e pequenos artesãos recebiam ia parar, por sua vez, nas mãos dos comerciantes, porque eles também necessitavam de outros produtos. Assim, a camada dos comerciantes amontoava grandes quantidades de mineral que ia trocar na costa com os árabes que traziam as missangas, tecidos e outros produtos. Essa camada de comerciantes ia enriquecendo à custa do trabalho da maioria.

O rei, que tinha as minas e forjas, ficava com a maior quantidade do mineral e tinha os seus comerciantes que trabalhavam para ele.

Havia assim classes distintas na sociedade. Já havia a exploração do homem pelo homem.

 

7. O comércio com os árabes

 

    Os árabes vinham da península arábica comerciar com os povos da costa oriental da África. Tinham entrepostos comerciais em Mombassa, Malindi, Kilwa, Moçambique, Quelimane e Sofala.

Nestes portos eles dominavam e tinham guarnições militares. Já vimos que no reino de Quiteve havia um sultão que mandava e governava Sofala.

Os árabes vinham à procura não só de minérios mas também de marfim e madeiras raras. Mais tarde começaram também a comerciar escravos que eram levados para a península arábica e também para a índia. Em troca dos produtos africanos os árabes traziam tecidos de algodão, seda, missangas, pequenas pérolas, porcelanas, drogas medicinais, perfumes, etc.

Estes árabes, embora explorassem os povos da África, nunca tiveram ambições de conquistadores. Limitavam-se a comerciar. Tinham os seus entrepostos comerciais onde a sua actividade era defendida por guerreiros.

 

8. A técnica dos metais

 

O ouro é um metal que se encontra quase no seu estado puro no subsolo. Portanto não é de admirar que tenha sido o primeiro metal a ser utilizado. Mas é um metal pouco resistente.

Com o tempo o ferro e o cobre foram-no substituindo no uso corrente e ficou reduzido ao papel de moeda.

As diversas descobertas arqueológicas que se fizeram no território do antigo Império do Monomotapa provam-nos que os povos que o constituíam tinham uma técnica muito avançada de prospecção, isto é, procura dos metais. Não só apanhavam o minério que se encontrava na superfície mas também cavavam minas à procura de filões.

As forjas e os fornos encontrados mostram-nos que na técnica de transformação dos metais também estavam muito avançados.

Os povos do Monomotapa nos meados do século XV encontravam-se num período de técnica tão avançada como os povos dos outros continentes.

 

9, Matope

 

Mutota morre em 1450 antes de ter conseguido dominar toda a região entre o Zambeze e o Limpopo. Seu filho e sucessor, Matope, irá fazê-lo.

Continuando com a mesma política de conquista que seu pai, consegue submeter os povos Báruè e dominar assim a região do estuário do Zambeze. Isso deu-lhe mais uma porta para o comércio exterior, Quelimane.

As grandes riquezas que o Monomotapa conseguira acumular provocaram a cobiça dos seus reis vassalos que aspiravam também ao poder central. Vários reis tentaram subtrair-se à autoridade do Monomotapa, não lhe pagando os tributos nem os impostos sobre as exportações e importações.

Matope reuniu um grande exército e subjugou todos os reinos, consolidando assim a sua autoridade.

 

10. Divisão administrativa do Império

 

Para impedir que outros reis tentassem subtrair-se à sua autoridade, Matope dividiu o Império em várias províncias que ia dando a governar a pessoas da sua família. Dividiu a zona sudeste em províncias de Chidima, Utonga, Báruè, Shiringa, Manica, Quiteve e Mandanda, que deu a governar a seus filhos. A região sul deu-a a governar a dois parentes Rozwi, Torwa e Changa. A região norte do vale do Zambeze ficou sob o seu controle e de seus irmãos.

Desta forma Matope conseguiu governar e ser obedecido em todo o Império.

Durante o reinado de Matope o Império do Monomotapa atingiu a sua época de maior prosperidade e riqueza. O comércio com a costa estava florescente, as minas estavam no seu maior rendimento, a autoridade do Monomotapa era indiscutível.

Mas esta prosperidade trazia em si as sementes da divisão. Com a sua divisão administrativa, Matope não tinha conseguido consolidar a unidade num Império tão vasto. As dificuldades de meios de transporte e de comunicação pouco a pouco foram deixando isoladas certas províncias. Os seus governadores começaram a ter tendências de se identificarem como reis e com a ambição ao poder.

Por outro lado o poderio do Monomotapa criava dificuldades aos mercadores árabes, que viam aumentar os preços do ouro e outros metais. Assim, estes come­çaram a instigar certas tribos à rebelião. Um dos primeiros a declarar-se indepen­dente do Monomotapa foi o chefe Rozwi, o Changa. Os árabes deram-lhe o titulo honorífico de Emir e ele passou a usar o nome de Changamire.

A quando da morte de Matope em 1480, vamos assistir a uma série de guerras pelo poder, que pouco a pouco enfraquecerão o Império. A partir da morte de Matope começa o declínio do Império do Monomotapa.

 

//. Dinastia Changamire (1490-1494)

 

Depois da morte de Matope em 1480, Changamire declara que não se considerava vassalo do senhor das minas, Monomotapa. O filho e sucessor de Matope, Nhahuma, enviou os seus exércitos contra o rei rebelde. Nhahuma é vencido em várias batalhas.

Changamire vitorioso convence o rei Torwa a unir-se a ele contra Monomotapa. Mais tarde consegue convencer também o reino de Quiteve a separar-se do Mono­motapa.

Vemos assim o Império a dividir-se nas suas partes componentes. Dum, lado Changamire com os seus aliados, os Torwa e os Quiteve, doutro lado Monomotapa com os reinos ainda fiéis de Manica, Báruè e Butua. Os árabes apoiavam o Changamire na conquista do Império.

Nhahuma ainda tentou várias vezes submeter os reis rebeldes, mas estes apoiados pelos árabes de Sofala, conseguiram vencer Nhahuma e este foi obrigado a retirar-se para as províncias do norte do Império.

Changamire aliado aos Torwa ataca o Zimbabwe de Nhahuma em 1490. Nhahuma é morto e Changamire toma lugar no trono de Monomotapa, dando origem desta forma à dinastia Changamire.

Para evitar que a descendência do Monomotapa pudesse recuperar o trono, Changamire instala-se em Zimbabwe e aniquila todos os filhos e parentes próxi­mos de Nhahuma. O filho mais velho Kakuyo Komunyama, consegue fugir e encontra abrigo junto dos Batua.

Changamire vai apenas reinar até 1494. Kakuyo Komunyama consegue auxílio dos seus vassalos fiéis e ataca Changamire. Este tinha-se instalado no Zimbabwe de Mutota, longe dos seus domínios e tinha apenas um pequeno grupo de guerreiros. Kakuyo Komunyama cercou Zimbabwe e durante três dias Changamire conseguiu resistir mas ao fim deste tempo a falta de água e mantimentos obrigou-o a dar batalha. Changamire foi morto na luta entre ele e Kakuyo. Este matou todos os resistentes de Zimbabwe e tomou lugar no trono de seu pai.

 

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