I

 

 

AS  MIGRAÇÕES  AFRICANAS

 

Muitos dos povos africanos que habitam o sul do deserto do Sahara vieram da região dos Grandes Lagos (Vitória, Alberto, Rudolfo, Eduardo, Tanganhica, etc.).

As migrações foram deslocações africanas, muitas vezes em grupos de tribos. Estas migrações sucederam-se durante séculos e só acabaram nos princípios do século XVIII.

As migrações eram, na sua maioria, pequenas deslocações em etapas não superiores a 100 quilómetros, o que representa uma marcha de 2 ou 3 dias. Os caçadores na busca de caça percorriam facilmente essas distâncias. Desempenhavam o papel de reconhecedores, tal como o fazemos na FRELIMO. Notavam e fixavam os locais mais favoráveis e no dia da marcha sabiam já onde dirigir-se. Este pro­cesso, embora lento, permitiu assim deslocações a grande distância.

 

1.      Motivos das migrações

 

Podemos dividir os motivos em dois grupos: positivos e negativos. São motivos positivos aqueles que atraíram as populações, e são negativos aqueles que fizeram partir as populações.

 

Motivos negativos

 

a) Motivo político: tratava-se geralmente de ameaça militar. A tribo devia fugir diante um conquistador para evitar a morte ou escravatura.

b)Motivo económico: é razão mais frequente para as migrações. Vários anos de secas consecutivas provocavam fomes que obrigavam as populações a partir. Um exemplo destas migrações permanentes causadas pelo cultivo intensivo das terras e pelo despovoamento florestal ou corte de árvores, é o caso da Botswana, um país muito seco onde as migrações seriam devidas ao problema da falta de água.

c)Motivo social: devido a epidemias muitas vezes aliadas a anos de seca.

 

Motivos positivos

a) Motivo político: se em certos casos as populações foram obrigadas a abandonar as suas terras noutras circunstâncias foram atraídas por uma situação mais vantajosa militarmente e que permitia uma melhor defesa.

b) Motivo económico: A procura de terras novas e férteis e bem irrigadas, pouco povoadas e ricas em caça.

c) A procura duma situação em que ó aproveitamento da carne, a fertilidade do solo e boa irrigação estejam acompanhados por condições favoráveis à práctica da religião.

É muito difícil estabelecer as datas das migrações devido à falta de documentos e por outro lado pela duração prolongada das deslocações que nunca tinham um carácter de estadia definitiva. Todavia, diversos historiadores conseguiram estabelecer que os Macuas e Ajaus teriam atingido a zona onde ainda hoje se encontram, por volta do ano 1.000. Os Chonas e Ndaus atingiram o sul do continente por volta de 1.500, enquanto que os Zulus e os Xosas atingiram a costa do Natal por volta de 1600.

Há, todavia, razão em se perguntar, quem vivia nessas regiões antes da chegada dos  povos  Bantu?   Parece definitivamente estabelecido que o povoamento pri­mitivo da África Austral era feito pelos Hotentotes e Bosquimanos que, fugindo das tribos Bantu, se foram refugiar no Sudoeste da África onde se encontram até hoje.

 

2. Os povos Bantu                            

Todos os povos da África meridional, com excepção das tribos Hotentotes e Khoisan do Sudoeste Africano, pertencem à grande família dos povos que falam a lingua Bantu.

Cada um destes povos fala uma lingua que é uma ramificação ou um idioma duma mesma lingua fundamental, o Bantu. O mesmo aconteceu na Europa onde o Latim deu origem ao português, francês, espanhol, italiano, etc. Estas línguas são ramificações ou idiomas do Latim. Assim, o Maconde, o Nhanja, o Sena, o Ndau, o Shangana, etc., são idiomas do Bantu.

Mas os Bantu não são só os moçambicanos mas também os tanzanianos, os zambianos, os quenianos, os sul-africanos, os congoleses, os zimbabwianos, os angolanos, etc.

 

3.      Quem somos nós

 

Nós somos moçambicanos. Não sabemos dizer ao certo a origem e o significado do nome Moçambique, mas o nome provavelmente veio do nome de um árabe Musa ai Bique, que talvez era sheik ou sultão na ilha de Moçambique, quando os por­tugueses chegaram lá em 1498. Moçambique é hoje nome de uma cidade, de uma ilha, de uma província e de um País.

A maioria do povo moçambicano é de origem Bantu. O nome Bantu significa gente ou povo. É a mesma palavra que antu em Sena, wantu em Nhanja, vantu em Maconde, wantu em Ndau, vanhu em Shangana, Ronga, e Xitswa, bantu em Zulu e Xosa etc.

Bantu é apenas o nome de grupos de línguas que falamos. Não é nome de uma raça nem de uma tribo. Nós somos da raça negra.

Dissemos que os primeiros habitantes da África Austral, incluindo Moçambique, foram os Khoisan a quem Europeus erradamente deram os nome de Bochimanes (Bushmen), gente do mato. Passaremos a referir esta raça pelo nome de Khoisan, seu verdadeiro nome. Os Khoisan eram um povo pequeno em número e estatura. Um homem adulto tinha a altura de uma criança de 10 ou 12 anos. Viviam de caça de animais e de pesca e de frutos silvestres. Nunca aprenderam a construir casas. Viviam em cavernas como animais. Caçavam animais com arco e flecha envenenada na ponta. Um pequeno ferimento bastava para matar um animal com veneno. Os Khoisan deslocavam-se de lugar em lugar à procura de caça e água. Eram nómadas.

O segundo grupo a chegar a Moçambique e partes do sul, foram os Hotentotes. Estes eram mais altos e mais fortes que os Khoisan. Os Hotentotes eram criadores de gado. Confiscaram as terras pertencentes aos Khoisan e estes fugiram para as terras secas do deserto de Calahari, onde se encontram até hoje.

O terceiro e último grupo foi o dos Bantu. Durante o longo percurso da região dos Grandes Lagos os Bantu tinham de se defender contra os Hamitas e outros povos. Várias vezes os Bantu abandonaram os territórios que ocupavam, fugiram dos novos ataques dos Hamitas e passaram os limites da África equatorial central para se dirigirem uns para o sul e outros para o ocidente e oriente. Assim surgiram três grandes ramificações dos povos Bantu, a saber:

Os Bantu Orientais Os Bantu Meridionais Os Bantu Ocidentais

Os povos que constituem o Moçambique de hoje pertencem ao grupo dos Bantu Meridionais. Passaremos, então, a fazer um estudo atencioso de nós mesmos.

 

4. Os Bantu Meridionais

 

A migração das tribos Bantu da África Equatorial Oriental para a África Austral deu-se em três vagas sucessivas.

A primeira vaga trouxe as tribos Macua, Ajaus e outras para as regiões mais meridionais da África Equatorial Oriental, isto é, para a região entre os rios Rovuma e Zambeze.

A segunda vaga trouxe as tribos Ndau e Chona (Machona, Makaranga e outras) através dos territórios dos Macua e Ajau para a região situada entre o Zambeze e o Limpopo. Dentro destas tribos Chona deve salientar-se o papel relevante dos Ma­karanga que foram os criadores do Império de Monomotapa (Mwanamutapa) que mais tarde estudaremos.

A terceira e última vaga trouxe para a África Austral três grupos de tribos: os Bechuanas, os Xosas e os Zulus. Estas tribos atravessaram os territórios ocupados pelas camadas mais antigas e vieram fixar-se: os Bechuanas para o Sudoeste (Botswana), os Xosas para o sul (Província do Cabo), e os Zulus para o Sudoeste (Natal).

 

PERGUNTAS

 

1. Quais são as fontes de informação escrita sobre a história de Moçambique?

2. Donde vieram os povos africanos que habitam o sul do deserto do Sahara?

3. Diga alguns motivos negativos e positivos das migrações dos nossos antepassados?

4. Que povos habitavam a África Austral antes da chegada dos Bantu?

5. Quais são as ramificações dos povos Bantu? A que ramificação nós pertencemos?

 

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