Esforço prodigioso
A ocupação gradual da depois chamada província de Moçambique, obedeceu a um plano largamente discutido e assente, e não a uma operação sem delineamento, principiada e continuada aos baldões desordenados das fantasias do acaso. Não. Conhecidas mais ou menos as sinuosidades e recortes da costa do continente africano, do quadrante oriental, por isso que a navegação muçulmana atingira, pelo menos, Cabo de Correntes, próximo de Inhambane, o primitivo projecto orientou-se num objectivo definido.
Ao mesmo tempo pioneiros, idos e vindos por
terra, em busca das terras do Preste João, adquiriam conhecimentos preciosos.
È assim que Vasco da Gama ao penetrar no canal de Moçambique e entestar com a
rota do Mar Indico levava instruções precisas, devidas principalmente a D.
João II, acerca dos pontos onde mais ou menos deveria lançar a base do nosso
domínio, na terra firme e no colar das ilhas de Barazute, Moçambique, Mombaça, Melinde, etc.
Quando se realizou a exposição colonial do Porto, convidado a escrever acerca do seu significado expus pouco mais ou menos o seguinte:
Portugal é uma varanda corrida, sobre a imensidade do Oceano. Os seus naturais desde as eras mais remotas que não desviavam a vista da linha vincadamente azul do horizonte, em constante interrogação, na ânsia pertinaz de desvendar o mistério oculto por trás dele. As visitas amiudadas das embarcações dos povos mediterrâneos, que também se consideravam oprimidos, esmagados, com falta de ar, entalados entre as orlas sul da Europa e norte de África, e que também ambicionavam mais largo campo de acção, mais incitou o desejo de sempre, a vontade forte e irreprimivel de converter a ideia vaga do que existia para além, na outra ponta da toalha liquida, em factos precisos, consumados.
Simultaneamente a navegação de cabotagem até aos portos do Rif e de Marrocos, as conversas constantes com os árabes da orla nortenha, fronteira ao estreito de Gibraltar, as narrativas dos cativos alforriados, o conhecimento existente, nítido, expresso, indubitável entre negociantes e mercadores de escravos, em permanente travessia pelas terras do interior, de que os arenosos desertos se prolongavam a milhares de léguas para o sul, certeza arraigada havia dezenas de séculos, e ainda a copia enorme do que fica por dizer, criavam entre os portugueses um espirito de aventura a que nenhum peninsular se exime — um peninsular é quási um ilhéu — isto é um emigrante nato, ave de arribação que precisa variar permanentemente de moradia, adquirir um ambiente que satisfaça os voos da fantasia nunca em repouso e que mitigue a sede, a voracidade, da ininterrupta emoção, de pretender tornar tangível, de aproximar o longínquo.
Então as nossas caravelas — como as deambulatórias andorinhas, como tantas das suas divagadoras congéneres aladas — impelidas pelas asas brancas, esmaltadas com a Cruz de Cristo—tão exíguas e frágeis que o pequeno peixe nautilus, ainda -hoje perpetua na tradição inglesa do portuguese man of war, quantas façanhas praticaram essas casquinhas de noz — percorreram todas as latitudes, singraram por todas as longitudes. Regiões ínvias, defendidas por escolhos inacessíveis, desconhecidas, temerosas pelas lendas apavorantes, inexpugnáveis pelas selváticas hordas nelas aglomeradas, foram por elas descobertas, visitadas, estudadas, tomadas, avassaladas.
Nunca a lenda dos trabalhos de Hercules encontrou mais clamorosa realização. Esses percussores dos navegadores modernos apoderaram-se dos picos das montanhas da imersa Atlântida, escalonadas entre as arribas dos continentes mais resistentes — o extenso rosário de ilhas; gemas no escrínio azul das aguas remancosas ou revoltas, desde a Madeira aos rochedos sul-americanos de Fernando de Noronha, fraguedo onde pensaram os modernos Prometeus Gago Coutinho e Sacadura Cabral, — e nunca mais pararam. Ocuparam as terras de Santa Cruz, flanquearam as compridas faixas de Angola e Moçambique, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, transformado em cabo da Boa Esperança; impuseram-se aos rajás indianos ; intimidaram os mandarins de botão amarelo das velhas dinastias chinesas, de origem manchu e mongólica; tocaram em cada arquipélago fazendo respeitar as suas dignas bandeiras pelos potentados de maior poder; numa palavra, descreveram com meios irrisórios e "resultados estupendos a eclitica gigante» citada por Guerra Junqueiro no seu assombroso poema A morte de D. João.
Desta expansão inacreditável, se não fosse
verdadeira, palpável, evidente, escrita em todas as linguas, nasceu império vastíssimo, povoado por criaturas de
todas as raças na etnografia mundial, com exemplares de todas às
categorias no copioso formigueiro humano do globo.
Calcula-se a população de Portugal, no fim do século XV, no prólogo das descobertas, num milhão de almas. Se se descontar as mulheres, os velhos, as crianças, os enfermos, os mesteirais, os agricultores, a grande massa de habitantes que não se podia deslocar, depressa se conclue que pequeno numero de homens, desdobrados em todas as profissões, efectivaram o esforço da navegação, da conquista, da ocupação, de pioneiros, de exploradores. Espalharam aviadores, pombeiros, traficantes, guerreiros, missionários, da banda ocidental de África à contra-costa oriental. Marearam navios; pelejaram contra indígenas e clima ; enraizaram feitorias ; estabeleceram comunicações ; estudaram a topografia dos lugares ; corrigiram, itinerários ; fundaram mercados ; improvizaram certames com permutas variadas ; atraíram os cativos ; ergueram templos ; catequizaram com a perspectiva de aliviar martírios ; arraigaram uma colonização muito sua pela qual a propaganda antecedeu sempre a violência, salpicaram de feiras o sertão, sendo uma das principais a de Barotze, quasi no centro do continente negro, frequentada por vendedores e compradores idos de confins longínquos.
A par disto os bandeirantes nas cerradas florestas brasileiras — aventureiros admiráveis pela multiplicidade das aptidões, quadrilheiros, bucaneiros, mineiros, garimpeiros, pesquisadores de diamantes — simultaneamente soldados e capitães, possuidores em ponto pequeno, de certa maneira, das qualidades ostentadas, em grande, por Matias de Albuquerque, como general, e o padre António Vieira na mentalidade e na eloquência de aliciar e convencer.
Em Ormuz, Freire de Andrade, contra os persas e os ingleses esculpe, à ponta de espada, paginas excepcionais na excepcional epopeia terrestre e marítima de além--mar. Por toda a parte, consubstanciada no colono, transparece o combatente como Diogo de Azambuja, o nauta como Bartolomeu Dias, o caminheiro como Pêro da Covilhã, o cientista como Duarte Pereira, o animador como o infante D. Henrique e D. João II, o executante como Vasco da Gama. Punhado de heróis, que levantam padrões inacessíveis na costa da Mina; que acentua a sua eficiente audácia em Angola com Salvador Correia de Sá e continua em afirmativas retumbantes de conquistas modernas com Hermegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto, Silva Porto, Anchieta, Nascimento, Henrique de Carvalho e Paiva Couceiro.
Em Moçambique entalha a traços indeléveis de buril ciclopico os nomes de Augusto de Castilho, de António Enes, de Mousinho de Albuquerque, de Alfredo Freire de Andrade, estrelas cintilantes de fulgida constelação. Na China, em Macau, no Japão, o rol é tão comprido que não caberia num livro. Na índia só três entidades repercutem mais estrondeantes pregões que os tan-tans dos pagodes ou que os carrilhões existentes entre o Kremlin de Moscovo e as torres de Mafra: D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque e D. João de Castro, três dos maiores capitéis, no topo dos pilares da abóbada da nossa nacionalidade. No imenso tapete matizado de vagas alterosas, mosaicos de vulcões, de cratera prestes a vomitar Ígnea lava, na Oceania, a odisseia dos de ontem, continuada pelos de hoje, reluz em espadanantes façanhas, que molham de agua lustral, purificadora e sublimadora das acções grandiosas, quantos nascem neste solo.
È tudo isto, e principalmente o que se vai relembrar na continuação desta obra, que se evidenciou em passados certames em paginas abertas a todas as culturas, em demonstrações irrecusáveis, patentes a todos os olhos, grandes bíblias que a todos ensinam, exposições onde se coleccionam todas as certezas, cinema onde desusam os filmes de axiomas palpitantes, catecismo onde avolumam as três virtudes teologais: a fé que levou os portugueses a tornar real tal sonho; a esperança no futuro da pátria; a caridade com que sempre trataram os povos avassalados.
A pesquiza do oiro, o desejo de alcançar depressa as regiões auríferas de Manica e de obter breve o precioso metal, tornaram menos intensa, menos objectiva, a ocupação do norte da província de Moçambique. Nessa direcção os ocupantes tinham de lutar com inimigos mais numerosos e não menos temiveis e ainda, e principalmente, com os mouros ou catequizados por eles. Densa a população, afecta aos maometanos por constante propaganda, ferozes intimidações e castigos, aferrados às suas crenças religiosas, mais fortes e bem armados, robustecidos com o auxilio amiudado, .efectivo, valioso, ido do exterior, de toda a vasta zona onde predominavam as suratas do Corão e as promessas edenicas do Profeta, a dilatação foi mais morosa e incompleta.
Houve um período no século XVIII, apagada a influencia e o prestigio legado por Pereira de Lago, que os indigenas, sentindo aliviar o peso da mão de ferro que pesava sobre os negócios a eles relativos, se levantaram, senão em rebeldia armada, pelo menos em passiva resistência aos mandados da autoridade. Assim, para não alongar os exemplos, citarei o dos régulos do Eticulo e Macuana, no continente fronteiro à ilha de Moçambique. Invadiam constantemente as denominadas Terras Firmes, na zona de Mossuril. Quando agentes do governo iam às suas sedes para os repreender e ameaçar com castigos, respondiam com vitupérios e sarcasmos afrontosos. O governador geral pretendeu reprimir essa desobediência e infligir-lhes severa punição. Reuniu para isso alguns milhares de nativos de vinte e oito régulos mais ou menos fiéis. Estes xeques, de origem muçulmana, ou chefe de qualquer designação, mais ou menos cafreais, estão sempre prontos a acudir onde haja morticínio e pilhagem, movidos pelos seus instintos de rapina e a pretexto de rivalidades, por vezes bem insubsistentes. Deste modo se aniquilam reciprocamente e a sua divisão permite aos brancos, e algumas ocasiões até aos pretos, reinarem sobre eles, dispersos e enfraquecidos. O falecimento deste governador anulou o projecto.
O governo provisório, seu substituto, não só não quis efectivar o discutido e aprovado projecto, mas ainda instaurou processo ao falecido por ter planeado tal campanha, e que todos esses membros do novo corpo governativo tinham sancionado com a sua opinião e assinatura enquanto vivo foi. A politica europeia não era mais consequente.
Devido
aos sessenta anos de domínio castelhano e suas
consequências,
tínhamos ido perdendo aquela enfiada de
ilhas —
outros tantos postos militares — que se estendiam
da ilha
de Moçambique para o norte, na rota da índia. A
ultima do
comprido camandolario, como atrás se disse, foi
Mombaça.
As extremas da província ao norte marcava-as Cabo Delgado. Com os anos restringiram-se ao sul da baía do Tungue. Por varias causas, que não vem para aqui enumerar, desfraldava-se nessa região, que tão nossa era, a bandeira do imane de Mascate, que se apoderara de Mombaça, de Zanzibar, da costa de Zanguebar, principais centros dos diferentes mercados de escravatura, alimentados pelos franceses, consentidos pelos ingleses e sempre, com poucas excepções em contrario, combatidos pelos portugueses. O novo potentado de Zanzibar engrandeceu à nossa custa, auxiliado, por debaixo de mão, por Londres e Paris.
A ocupação portuguesa abrangia as ilhas Querimbas, das quais só cinco estavam então definitivamente povoadas. No primeiro quartel do século XIX, no continente fronteiro a essas ilhas, só existia uma autoridade nossa efectiva, o capitão-mór, residente todavia no Ibo. No bom desempenho desse cargo as crónicas conservam os nomes de dois funcionários activos, resolutos: António Correia, que dispunha de quatro mil combatentes e que em diferentes conjunturas se colocou ao lado da nossa autoridade, e outro de que adiante se tratará.
Mouros e nativos nem sempre nos obedeciam, por falta de elementos coercivos e punitivos. Milagre era que, com tão pequena força armada, ainda mantivéssemos o prestigio em tão larga área e com implacáveis inimigos de dentro e de fora, por que aos já citados havia a ajuntar os piratas sacalaves, que de Madagáscar iam ali fazer incursões esclavagistas. Eis o motivo por que as populações eram nómadas e se fixavam ou levantavam campo conforme o perigo que as ameaçava.