EPÍLOGO

Algures, de um miserável sótão de um velho edifício da parte alta de Belém, poderia eu mais tarde aquilatar, com amargura crescente, a grande tragédia que nos criaram. Nos jornais apareciam em vagas sucessivas as mortes dos conhecidos e desconhecidos, vindos do Ultramar, que não conseguiram sobreviver ao infortúnio. Quantos suicídios para acabar com mais sofrimento! Nas ruas, seres humanos retorcidos, marcados por tromboses, fruto do traumatismo e do desespero a que foram levados. Os "Retornados" termo filho da Revolução quase sempre aplicado no sentido depreciativo, querendo dar-se-lhe os sinónimos de "Exploradores" "Ladrões" e quase "Leprosos" que vinham complicar, diminuir e ensombrar a grandiosa metamorfose (propaganda dos próprios "heróis" responsáveis por esta situação) por que passa este desgraçado País, eram as grandes vítimas. Houve três bases fundamentais que orientaram os mentores desta pré-concebida "Revolução": a destituição do velho Governo; logo a seguir a premeditada e desgraçada “Descolonização” e, por fim, o afundamento da Pátria! Meu Deus! Não há Retornados, há ATRAIÇOADOS!

Mas daquele sótão eu via também, lá em baixo, a Torre de Belém, o Rio Tejo e, mais longe, o mar, o Oceano Atlântico, por onde as caravelas seguiam à procura de Novos Mundos e também via o belo Mosteiro dos Jerónimos, onde repousa Camões que cantou no seu imortal poema épico "Os Lusíadas", a história daquele povo "que entre perigos e guerras esforçado, mais do que permitia a força humana, entre gente remota edificaram um novo Reino que tanto sublimaram", e ele próprio, depois de ter passado no Além-Mar quase duas dezenas de anos, em lutas e escrevendo sempre a sua obra, regressado à Pátria, viria a morrer na mais triste miséria. Morreu em 1580, já lá vão mais de quatrocentos anos.

A verdade é que os portugueses, aquele pequeno mas valoroso povo de Navegadores, plenos de fé, vocacionados para a bravura e aventura, conseguiram levar a Cruz do Cristianismo a todos os cantos do globo, até então desconhecidos da Europa.

Mas a sua maravilhosa história continuará a ser escrita!

Momentos houve de uma grandiosidade inigualável e também de crises que tiveram de ser vencidas. Aconteceu sempre haver portugueses que debelaram essas crises e honraram a sua Pátria.

Hoje, nos tempos que correm, Portugal sofre a maior crise da sua história. Ele foi traído! Como fazê-lo reviver?

Cataclismos, guerras, desgraças têm acompanhado a história do Mundo. Desde a Idade da Pedra Lascada até hoje, o ser humano, o animal dotado de inteligência, é o responsável por essas guerras. E cada vez com mais engenho o homem procura a todo o transe a forma de destruir-se a si próprio. Vejamos nos tempos modernos esta grande última guerra que ceifou em cinco anos, milhões de vidas pêlos processos mais avançados que cada um dos contendores punha em prática para destruir o outro. Lembremos, no final, Hiroshima e Nagasaki, onde duas bombas lançadas com o fim de intimidar, aniquilaram perto de duzentas mil pessoas.

Mas visto que a história não pára, como será no futuro, a vida dos povos nesta Terra, onde hoje não há distâncias, mas que estão, sujeitos, vivam onde viverem, aos caprichos de umas chamadas "elites" que se degladiam e pensam cada uma por seu lado no processo de dominar o mundo? Até a palavra "dominar" está já a ser ultrapassada. Mais certa é a palavra "destruir". Chegou-se já a uma tal perfeição que, em meia dúzia de horas, um país pode ser literalmente destruído! Mais tarde se verá que o simples premir de um botão poderá destruir um Continente. Foi sobretudo neste sentido que o cérebro humano mais se aperfeiçoou, a ponto de, se amanhã aparecer um cérebro doente, mas que tenha sob o seu domínio esses botões, de um só golpe, poderá acabar com a humanidade! Estaremos longe desse dia? Ninguém sabe.

Filmes que ontem eram de ficção científica já pouca aceitação vão tendo, pois todas essas antecipações estão a ser ultrapassadas pela realidade. O que será o Mundo de amanhã? O de hoje estamos nós a ver o que é e de que maneira!

Com o avanço da informação, todos os dias estamos a par do que nele se passa. E o que vemos? Guerras, ameaças de guerra, sequestros, bombas por toda a parte, insegurança generalizada. Será possível acabar-se com este estado de coisas? Estamos pelo menos a viver o pior ciclo da História da Humanidade.

Já fomos à Lua, tem havido muito progresso, sobretudo no campo militar, automóveis e aparelhos modernos de toda a espécie para facilitar a vida em determinados aspectos, mas também muita fome que uma grande parte da humanidade já sofre assustadoramente, cria novos campos de reacção e guerra. Mas a que ponto isto chegará? A geração que está agora no fim, mas que há quarenta anos era nova, viu que, de então até ao presente, houve uma reviravolta na história do Mundo, tão rápida como jamais acontecera.

Ia havendo progresso com peso, conta e medida, não restando dúvida de que se caminhava para um Mundo melhor. De repente, aproveitando os meios rápidos de comunicação sempre em progresso, foram difundidas pêlos quatro cantos do Mundo, promessas de liberdade e de direito sempre crescentes, convidando o povo à sublevação. Essa propaganda é emanada de povos, ou em nome de povos, que nem liberdade têm. Mas a máquina montada para dominar o Mundo começava a rodar e não seria nada difícil a sua caminhada, pois através de todos esses quatros cantos, ela encontrava ambiciosos que de imediato queriam segurar as rédeas para governar populações atrasadas sob todos os aspectos e que facilmente se deixavam embalar. Não há dúvida de que toda a humanidade tem direito à liberdade e a tudo mais que ambiciona para seu bem estar, mas a verdade é que tudo isso tem de ser conquistado. Ela terá também obrigações. Terá que trabalhar para conseguir tudo isso. Com estas últimas palavras, a sedutora propaganda nunca se preocupou. Estava mesmo empenhada em não as pronunciar.

Europa, mais o Mundo Ocidental, têm carradas de culpas em tudo o que está a acontecer. Mas ela também está desgraçada! Através da vida de dois rapazes que há umas dezenas de anos partiram, não para qualquer país da Europa nem das Américas, mas sim para Moçambique, continuação deste Portugal que conheceram em todos os pormenores, talvez se possa aquilatar um pouco o que foi, tanto para eles como para dezenas, senão centenas de milhares de outros que escolheram o Ultramar Português para fazerem vida, o triste fim a que foram conduzidos. Havia que passar uma vista de olhos pela alegre e laboriosa vida de aviação civil na terra onde primeiro, em todo o conjunto Metrópole-Ultramar, foi demonstrada a grande vantagem das deslocações a pequenas e grandes distâncias por esse meio, e que muito contribuiu para o grande desenvolvimento que se viria a verificar. A primeira grande companhia de Transportes Aéreos iniciou-se em Moçambique! A grandiosa D.E.T.A.! Só alguns anos mais tarde se formaria, na Metrópole, a também grandiosa T.A.P.. E para esta viriam alguns valorosos pilotos da D.E.T.A ..

O inconcebível para esses rapazes era que, conhecedores como eram da história do seu Portugal, que dera novos Mundos ao Mundo, pudesse aparecer um punhado de portugueses que deliberadamente o procurasse destruir de um só golpe.

Para já, eles amputaram de repente e sem remédio prolongamentos vitais da Pátria. Mais ainda: levaram mais de metade da sua população, que ultrapassava os vinte e cinco milhões de habitantes, a condições de humilhação, miséria e morte que não se sabe quando acabarão. Entregaram traiçoeiramente quase todo o seu Ultramar.

A maneira como isso foi feito é que brada aos céus!

Quando os nossos Generais garantiram que a guerra estava ganha, eles traiçoeiramente perpetravam o crime !...

Já na 2a. Guerra Mundial, a propaganda nazi inventara que uma mentira bem martelada pela rádio se transformava numa "verdade" em que toda a gente acreditava. E isso acontecia. Os jornais, que não podiam chegar a toda a parte, foram relegados para segundo plano. Nos tempos modernos, e porque apareceu mais uma maravilha  da civilização, a rádio-televisão, uma Europa decadente aproveita-se de todos estes meios e vai conseguindo afundar-se a si própria, procurando arrastar o Mundo para um caos que há-de ter o seu fim e de que alguém se aproveitará. Não esqueçamos a última grande arma política que tão largamente vemos utilizada e que se chama "lavagem aos cérebros".

Através da História, sabemos que várias civilizações, vários Impérios desapareceram. Parece chegada a hora de desaparecer também a Civilização Europeia. Mas esta cairá pelas suas mãos. Não serão necessárias guerras. A rádio e a aviação, criações da nossa época, transformaram em meia dúzia de anos um Mundo imenso num espaço limitadíssimo. O que no período dos descobrimentos levava anos a percorrer, o homem faz hoje em escassos minutos. Mas quem contribuiu para esta grande evolução foi o povo europeu. Estas conquistas do Espaço, a chegada à Lua, tudo o cérebro europeu gerouu.

O que vamos verificando na época desgraçada em que vivemos?

Pega-se num globo, num mapa do Mundo, e vê-se uma Europa fragmentada, superlotada, já sem matérias primas para as suas necessidades, encurralada entre uma Rússia ameaçadora, a querer dominar, e uns Estados Unidos da América, que não são mais que uma continuação da Europa, a querer o mesmo. São as duas Super-Potências que, à primeira vista, fazem o que querem do Mundo. Aparentemente têm medo uma da outra e, por isso, não se confrontam numa guerra, mas, habilidosamente, vão fomentando, de longe, e vemos então problemas como jamais existiram. Hoje, o grande campo de lutas escolhido por eles, para os seus desígnios, é África. Foram naturalmente ao ponto mais fraco, donde mal nenhum lhes irá bater à porta, pelo menos aparentemente. Vamos ver se isso acontecerá por muito tempo. A África é, de facto, um manancial de matérias primas, de terras a serem povoadas, com dimensões fabulosas. Mas quem a aproveitará? De urna coisa pode haver a certeza: não será para os quatrocentos milhões de negros que nela vivem.

Esses, se não abrirem os olhos, serão absorvidos, porque "alguém" se encarregará de açambarcar esse novo e maravilhoso Mundo. A América, não, porque nem mate­rial humano tem para uma empresa dessas. A Rússia europeia, porque a grande Rússia é asiática, também não, porque tem os seus problemas internos e porque com a sua política, há-de acabar por driblar-se a si própria. Vamos pondo em mente este debatido Dragão Amarelo, essa China imensa, meia adormecida, mas que está a acordar com os seus quase dois biliões de habitantes, que têm inevitavelmente que se expandir, pois as suas terras já mal comportam uma população que cresce a passos de gigante. E então vê-se uma Europa drogada, narcotizada, esgotada, dormente, perante uma China a despontar, cheia de manha, a infiltrar-se silenciosamente num novo Mundo que há-de ser talvez seu. Já alguém escreveu que à China se devem as grandes quantidades de ópio que sabiamente são cada vez mais introduzidas no Mundo Ocidental para o adormecer!

Dorme Europa, dorme! Quando acordares já será possivelmente tarde!

Foi por volta de 1500, quando Portugal e a Espanha começaram a dividir entre si o Mundo, então desconhecido pelos europeus, que se teve a ideia da vastidão deste Continente.

Era enorme, pouco povoado e muito atrasado. Depois, outros países da Europa também o cobiçaram. Foi então retalhado e dividido entre Portugal, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Holanda e França. Estes, os principais países que se propuseram ocupá-la. Foi uma ocupação muito longa e diremos mesmo que a África nunca foi devidamente aproveitada por ninguém.

Só nestas últimas décadas surgiria uma corrida para explorar as suas potencialidades, mas que logo é travada pelas convulsões que avassalam o Mundo.

Ela só arrancará novamente quando os senhores, que a hão-de explorar, se definirem. E começa aqui a grande tragédia de África.

Por muitos e muitos anos, jamais terá sossego. Para já, quase todos os países a quem foi dada a independência são governados por ditaduras terríveis. Dentro deles, lutas tribais vão reduzindo as suas populações a um ritmo impressionante. Pouco se sabe cá por fora a esse respeito, ou pouco se quer saber: parece que há conveniência em que precisamente isso aconteça. No momento presente, os principais problemas a resolver estão na tão falada África Austral, porque é a região onde existem mais europeus que, pela política que tem vindo a processar-se, têm de lá sair. Mal se apercebem esses políticos que as grandes regiões agora em foco eram, há pouco mais de cem anos, praticamente desabitadas e só com a chegada desses europeus puderam obter condições de vida para se transformarem no que são hoje. Mas a grande arma da propaganda é: "Fim à escravatura de que a África foi vítima. Fim à exploração do povo". E a Europa doutros tempos não foi também vítima do mesmo? Os seus povos não foram escravizados e explorados? E não o são ainda? Até que ponto se pode afirmar que há escravatura em África? A ideia é: sacudir de lá os europeus. Mas não será nem a América nem a Rússia que lucrarão no futuro com esta política. A Europa muito menos. Essa pagará, porque até já está a pagar cara, muito cara, a sua política de auto-destruição.

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