E ERA A ÉPOCA DOS PILOTOS AVENTUREIROS

Eu considero-me dos pilotos que mais abusaram em todos os tipos de máquinas capazes de andar no ar. Desde os planadores, em que andei metido até aos aviões mais pesados, experimentei-lhes todas as situações. Eu adorava o perigo. Como que queria experimentar até que ponto chegava a perícia e a sorte. Até aqui tive várias experiências. Daqui para a frente, melhor, muito melhor. Já que os aviões tinham dado cabo de tantos amigos, eu queria ver até que ponto era capaz de fazer um avião mostrar-me a morte. E por vezes rondei a poucos milímetros dela, mas cá estou para contar como as coisas se passavam... Mas não era só eu que experimentava essas sensações.

Um colega meu, que mais tarde criaria os Transportes Aéreos da Zambézia (pois os que eu criei foram os Transportes Aéreos do Gurué), foi protagonista de uma aventura que acabou bem, mas podia ter redundado numa tragédia - o Celestiano Nunes. Mais tarde acrescentaria mais façanhas à sua vida aeronáutica. Ele saiu de Lourenço Marques num

“Tiger” acompanhado de um mecânico que era nosso amigo, de nome Abreu e chegaram a Mambone próximo da Beira. Quando saíram dali o motor engasgou-se, forçando-os a aterrar na margem de um rio que passa na Ilha de Chiloane. Aterraram bem. O mecânico verificou o motor e pouco depois resolveram prosseguir. O avião foi para o ar mas, quando voavam precisamente no meio do rio, o motor parou.

O Celestiano, que já era piloto bastante experimentado, conseguiu poisar na água, tão devagar quanto possível, não tendo os dois sofrido nada. Como o motor é muito pesado começou a ir para o fundo e do avião só ficou a cauda cá fora. Agarraram-se à cauda e ali estavam no meio do rio numa situação dos diabos. O Nunes não sabia nadar e pedia ao Abreu para não o abandonar. Foram-se despindo e deixando ir a roupa pela água abaixo, pois num caso destes nada interessa a não ser a vida. Ficaram em cuecas. O avião derivava ao sabor da corrente e afundava-se cada vez mais.

Quase chegaram ao desespero quando viram lá longe, vindo na sua direcção, o que lhes parecia um grande jacaré, de boca muito aberta, preparadinho para os trincar. Lembraram-se das mães e um disse ao outro que o que se safasse contaria a tragédia por que tinham passado e diria à querida mãe que no fim só pensara nela. Verificaram depois que era um tronco de árvore que também vinha rio abaixo. Mas atrás de um tronco vinha outro e todos pareciam jacarés. Foram horas horríveis as que estes dois moços passaram dentro de água, até que por fim apareceu um pescador numa “almadia” e os levou para a ilha de Chiloane. O avião perdeu-se para sempre.

Foi este meu colega que me comprou o "Tempestade" para iniciar a sua vida aeronáutica como profissional. Mas antes de me desfazer dele ainda apanharia um susto dos grandes, juntamente com o Felizardo. Efectuávamos um voo do Gurué para Blantyre e passamos uns segundos terríveis. Estava muito calor e havia umas serras no caminho que íamos a sobrevoar, a uma altitude relativamente pequena. Então, de repente, o avião entrou num daqueles "poços de ar", como o público lhes chama como se uma mão gigantesca o tivesse agarrado pela cauda, sacudido e largado. O certo é que eu tive a impressão de que o avião "andou para trás" e veio de escantilhão por ali abaixo, num mergulho tão desamparado que me parecia não poder evitar que se despedaçasse contra a montanha.

Ainda parti a cabeça contra um ferro, e isto mais afligiu o Felizardo que instintivamente se agarrou aos comandos.

Quando o avião se agarrou novamente bem no ar, estávamos virados em sentido contrário e a rasar perigosamente o monte. E então ele disse-me que o melhor era voltarmos para trás. Era a primeira vez que eu o ouvia falar daquela maneira e já tínhamos passado péssimos bocados na vida aeronáutica intensa em que andáramos.

Foi talvez a sensação da queda desamparada que o impressionou.

Claro que eu disse-lhe logo que o caminho era para a frente; ele concordou e continuámos mesmo.

A seguir eu compraria um “Dragon Rapide” com a capacidade para oito passageiros, pois queria os meus Transportes Aéreos do Gurué dotados com um avião que desse para tudo. Combinei com várias companhias de Chá uma avença para garantir uma carreira regular com Quelimane, sede do Distrito, várias vezes por semana.

Chegavam elementos à Aeronáutica Civil que determinaram controlar com rigidez todas as actividades aeronáuticas daquela terra.

As despesas com os aviões tornaram-se cada vez maiores, mas para mim foi um bem, pois não seria mais o mecânico das minhas máquinas.

A manutenção teria de ser feita por mecânicos devidamente qualificados. Começou a haver mais segurança, tanto para pilotos, como para passageiros. Claro que a disciplina começou a ser de tal ordem que criou muito descontentamento a colegas que se dedicavam de corpo e alma à vida do ar. Mas para se endireitar uma coisa que já vinha torta de longe, eles tomariam medidas por vezes consideradas injustas para rapazes enfronhados nesta vida e com a noção exacta de tudo que dizia respeito à navegação aérea. Dois homens eram responsáveis por esta revolução na segurança: o Comandante Cardoso Barata, que seria logo baptizado pela malta de Cúmulo-Nimbus (CB), as  iniciais do seu nome e ao mesmo tempo as nuvens mais temidas pela gente do ar, oficial superior da nossa aviação Naval, homem altamente considerado em assuntos aeronáuticos e, Luís Salbany, um homem que noutros tempos tinha voado a meu lado na D.E.T.A. centenas de horas e que era de facto um rapaz de inteligência excepcional. Tinha ido à América onde esteve vários anos a tirar um curso de Engenharia Aeronáutica e viera para adjunto daqueles serviços.

Talvez pela confiança que eles depositavam nas minhas qualidades de piloto, a verdade é que pude continuar a fazer aviação cá a meu modo, embora integrado já nas disposições vigentes.

Penso que a esses dois homens devo eu estar ainda vivo, pois, a continuar uma vida completamente à vontade, a voar como voava, um dia teria de me acon­tecer uma coisa de mais grave de que eu não escaparia. E não era só eu que voava assim L.

Apareceu então um na Beira com ideias de contrariar tudo o que a Aeronáutica determinava: era o Carvalho. Com um pequeno “Tiger”, que arranjou não sei como, sonhou que havia de alimentar a cidade da Beira, trazendo variadíssimos produtos de variadíssimos locais.

As zonas de abastecimento da sua preferência eram as imediações do Inhassoro, lá para Vilanculos, onde ele aterrava em qualquer parte da praia para meter no avião, desde os camarões até às galinhas, leitões e até porcos. Um dia os controladores da torre da Beira, onde estava q velho António Câmara, que também era piloto e um belo camarada do ar, ficaram estarrecidos ao verem aproximar-se um avião que trazia como que um pára-quedas auxiliar de aterragem. O que tinha sido? O nosso Carvalho tinha ido ao Inhassoro comprar um porco de uns oitenta quilos, amarrara-o muito bem, metera-o no lugar de trás do Tiger onde ainda o prendeu com os cintos como se fosse um passageiro. O porco devia vir aflitíssimo, mas o Carvalho ainda vinha mais. Logo que foi para o ar, explicava ele depois, começou a sentir os comandos muito presos e o avião não avançava como de costume. Fez uma viagem horrível, pois convenceu-se que o porco se soltara e ia a rebolar-se, provocando a prisão em determinados pontos nevrálgicos dos comandos. Vinha apavorado! Com o avião a querer desiquilibrar-se, lá conseguiu aterrar e então todos verificaram... Ao levantar voo, prendeu-se na bequilhe, a parte de trás do avião que assenta no chão, uma corda que por sua vez trazia parte de uma rede. Ele tinha levantado da praia.

 E lá veio a corda e a rede "armados" em pára-quedas!

Como se travava de um abusador a Aeronáutica Civil pôs-lhe restrições. Então arranjou um avião “Stinson” e passou-se para a Zambézia. Aí ainda fez umas operações de contrabando com o Niassalândia, mas não se governou. Passou-se para os distritos de Moçambique e Cabo Delgado e continuou a fazer tantas e tão poucas, que a Aeronáutica, embora tivesse contemporizado muito, acabou por lhe tirar o brevet. Nunca mais voou.

Eu continuaria a fazer as minhas carreiras dentro da Zambézia e a efectuar voos para toda a parte.

Mas já espreitava um novo furo!

O Governo melhorara a vida dos trabalhadores e exigia das entidades patronais, entre outras coisas, fornecimento de carne às refeições. Eu sabia que havia carne aos montes no delta do Zambeze. Chegar lá, era difícil sob todos os aspectos. Mas de avião eu chegaria.

O Director da Aeronáutica Civil autorizou-me a fazer um campo de aviação bem no meio daquelas planícies.

Lá estava eu em plena e empolgante aventura!

De caça, contudo, percebia pouco. Dispunha, apenas, de entusiasmo.

Havia no Gurué, daqueles caçadores que contavam histórias mirabolantes. Eu delirava quando ouvia façanhas narradas por eles próprios e, embora suspeitasse de muita fantasia, posso garantir que nas caras daqueles homens estava estampada a convicção de que tudo o que diziam era verdade.

Um contava-me esta: "Um dia sofri a carga de um búfalo, a que atirei aí a uns oitenta metros. Ele investiu e ainda lhe meti mais cinco balas no corpo, enquanto avançava. Continuou para cima de mim mas já devia vir cego. Com um pequeno passo afastei-me e quando ele passou, ouvi perfeitamente as balas a tilintarem lá dentro, assim: Tlim, tlim,  tlim!"

Eu perguntava-lhe: "E o búfalo?" "Esse fugiu. Sabe que o búfalo é um animal muito resistente!"

Outro que tinha muitas pretensões contava-me que um dia perseguia um elefante até o alcançar. Meteu-lhe um tiro na espádua e o bicho caíu. Aproximou-se, mas quando estava já quase ao pé dele, o animal levantou-se e fugiu. Ainda lhe deu outro tiro. Foi encontrá-lo dois dias depois a pastar numa baixa mas com os ossos ilíacos em completo estado de putrefacção. Ele, quando dizia ossos ilíacos, apontava para o seu próprio ombro!

- "E então o que aconteceu ao elefante?" "Bem, esse, como estava ferido, mal me pressentiu, desapareceu por aquele mato fora, nunca mais o vi!...”

Mas com um búfalo tinha-lhe acontecido uma também com piada.

Dera-lhe vários tiros, mas o bicho conseguiu escapar-se. Foi-lhe no encalço. O sangue que deixava no rasto era tanto que o nosso caçador enterrava-se nesse sangue até aos joelhos. O búfalo conseguiu fugir!

Outro, era caçador de sensibilidade extraordinária: o Manuel Veleda. Havia tanta perdiz à volta da casa dele que, quando lhe apetecia uma canja, dizia para a mulher: “Oh Maria, põe lá uma panela de água ao lume que eu trago-te já uma perdiz". Mas naquele dia não houve canja. O homem pegou na caçadeira, saiu à porta e aí está a perdiz a levantar voo. Meteu a arma à cara e a bichinha virou a cabeça e viu que ele lhe ia mesmo dar um tiro. Mesmo no ar, com medo, largou um ovo. O nosso homem viu aquilo e ele disse-me imediatamente que era, pois tinha lá ido ver e era ovo com gema e tudo.

Mas como estas histórias, muitas outras eu conheceria de caça grossa e caça fina.

Associei-me a dois irmãos caçadores, durante uma época de caça e então aquilo é que foi caçar!

Depressa me desiludiria, sobretudo pela maneira desumana como a coisa era feita.

Comecei por sobrevoar pormenorizadamente toda a região para escolher o sítio ideal. Fi-lo, levando um dos irmãos Coelho, que já conhecia, por terra, muito daquilo. Assentámos que o campo seria bem no meio da planície, havendo apenas uma moita com algum arvoredo a uma centena de metros. Aí faríamos o acampamento para eles, pessoal e tratamento de carnes. Elefantes, búfalos e antílopes, à volta, eram aos montes.

Disse ao Amílcar Coelho como devia limpar uma faixa de uns trezentos metros e para isso ele depois seguiria com o irmão, o Mário, num camião carregado de trabalhadores que, além de auxiliarem o carro a chegar lá, pois tornava-se dificílimo, aceleravam o início da caça. Não se podia perder tempo. Eram os únicos três meses que estavam à nossa frente sem as grandes chuvas tropicais que deixavam os terrenos intransitáveis. Levaram quatro dias a lá chegar. No quinto dia, como estava combinado eu chegaria num avião pequeno e aterraria mesmo. Não falhei. Mas nunca supus que me acontecesse o que aconteceu. Lá chegado verifiquei logo que os cavalheiros tinham de facto limpo uma faixa de trezentos metros, mas não em recta. Também não era uma curva. Fazia um ângulo não muito pronunciado, mas a verdade é que era um ângulo. Ainda por cima tinham lançado fogo a uma das cabeceiras onde amontoaram o capim, que era precisamente do lado por onde eu teria que entrar.

Roguei-lhes umas pragas valentes, que eles não ouviram, e apesar de tudo resolvi aterrar. Teria de rolar naqueles cento e tantos metros e depois travar e guinar o avião para prosseguir nos cento e tantos restantes. Estava um calor sufocante, o que ainda dificultava mais a aterragem. Fiado nas minhas habilidades lá vim a rasar a planície, cortei o motor logo na entrada da faixa, o avião rolou, dei a tal guinada, continuou a rolar mas não evitei que, no fim, quase já a parar, ainda fosse embater com uma almadia, pequeno barco, o que me assustou de verdade. Se eu ficasse ali com o avião partido é que era um sarilho! Mas não. A pancada foi ligeira. Então fui com eles e mais os trabalhadores e fiz, com umas estacas, um alinhamento de uns oitocentos metros e, de facto, tivemos campo.

Eles ficaram a fazer os acampamentos e eu fui à minha vida, combinando voltar na semana seguinte, pois tinha as minhas carreiras Gurué-Quelimane em determinados dias. Nos outros, incluindo os domingos, iria ali. E começámos.

O acampamento estava montado razoavelmente e pode dizer-se que não era mau. Umas palhotas bastante rudimentares, pois aquilo era só para três meses, uns

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