Do Rovuma ao Maputo

 

 

A 24 de Maio, o Presidente Samora Machel, vindo de Dar-es--Salam, capital da Tanzânia (em cujo solo a FRELIMO tinha implan­tados os seus principais campos militares, Bagamoyo e Nachingwea), inicia o seu regresso triunfal a Moçambique e, com ele, atravessa também o rio Rovuma um facho aceso que, transportado de mão em mão, chegará a Maputo a tempo de fazer parte da festa da Inde­pendência. Um entusiasmo crescente apodera-se do país, que o recebe em delírio ao longo de estradas e cidades. Por onde passa, o Presidente não perde tempo e aproveita a festa para descolonizar. Ficou célebre a pergunta que, logo no comício de Cabo Delgado, fez ao povo:

- Vocês conheceram alguma Amélia?

-NÃÃO!

- Então porque é que esta cidade se chama Porto Amélia?

E foi assim que a capital da província mais setentrional (onde, em 25 de Setembro de 1964, a guerra de libertação começou) se passou a chamar Pemba, em homenagem à lindíssima baía que a banha. O mesmo se veio a passar com outros locais, como as cida­des de Vila Cabral (Lichinga), António Enes (Angoche), Vila Pery (Chimoio), João Belo (Xai-Xai) e, finalmente, Lourenço Marques (Maputo), a cidade em que nasci.

Antes de o Presidente chegar à capital, iríamos ser confrontados com um desafio único: a preparação da festa da Independência. Só quem alguma vez teve o privilégio de viver a magia que envolve o nascimento de um país amado e desejado me poderá entender ao longo das próximas páginas. Acho que toda a cidade ficou de repente com os mesmos dezoito anos que eu acabara de fazer. Foi um período de intensa alegria colectiva, pois dentro de cada cabeça havia um sonho que parecia estar prestes a realizar-se. «Daqui a dez anos, Moçambique, ...!», idealizávamos.

Começou por se limpar a cidade dos símbolos do colonialismo e foi assim que os heróis depostos passaram a dormir na gale­ria do esquecimento, em que foi transformado o jardim da for­taleza, implantada pêlos portugueses junto à doca dos barcos para a Catembe. Este movimento descendente das estátuas teve como auge a queda do cavalo do Mouzinho (de Albuquerque), apeado sem cerimónias e de rabo colado à sela do animal. A verdade é que aquela empedrada personagem, que ficou com a fama de ter derrotado Gungunhana (apesar de, prova-o a Histó­ria, o último dos grandes chefes moçambicanos do período colo­nial ter sido cobardemente traído), nos cegara a vista durante todos aqueles anos, dada a sua colocação estratégica na praça fronteira à Câmara Municipal e à Catedral, situada a um nível superior ao da baixa. Sem o Mouzinho, contava quem assistiu à queda, era como se a praça estivesse vazia, e entre esta gente estava um fotógrafo nosso amigo que não se esqueceu de naciona­lizar um inédito exemplar de um parafuso para oferecer à minha irmã que, por estes dias, se metera a coleccioná-los, a par de chaves antigas.

Ao futuro governo moçambicano, a Suécia, que tal como outros países nórdicos fora desde sempre um poderoso aliado financeiro, ofereceu «Volvos» brancos mas, ainda assim, faltavam carros para fazer transportar os inúmeros convidados que em breve começa­riam a chegar. Para o efeito, foi então solicitado aos habitantes da cidade de cimento o empréstimo de carros grandes, a que muitos prontamente responderam, uma vez que se tratava de aderir à festa, e para a maioria deles o «Volvo», o «Mercedes» ou o «BMW» eram apenas um dos, pelo menos, dois carros que possuíam.

Toda a cidade foi engalanada, tiras com as cores da FRELIMO foram colocadas em todos os postes de electricidade e desfralda­dos em locais-chave, igualmente impressos em pano, os rostos dos principais heróis da luta armada, os presidentes Eduardo Chivambo Mondlane e Samora Moisés Machel, de quem viria também a ser colocada uma fotografia gigante na varanda da Câmara Municipal, defronte ao buraco do Mouzinho.

Por outro lado, é pedido aos moradores que se organizem e preparem, eles próprios, as fachadas dos respectivos prédios de habitação, de modo a que nada falhe na coreografia do cenário alu­sivo à grande noite. Lembrámo-nos então, eu e a minha irmã, que muito mais original do que estender panos nas varandas seria dis­tribuir (criteriosamente de acordo com as cores da bandeira de Moçambique) folhas de papel celofane com que todos os vizinhos pudessem envolver as luzes das assoalhadas que davam para a rua. Comprámos nós mesmas as vinte e quatro folhas verdes, ver­melhas e amarelas, na loja do grego que tantas vezes nos tinha cedido material para (des)iluminar as parties da nossa adolescên­cia, e lá fomos de porta em porta, obtendo respostas para todos os gostos, desde o convite para entrar de um cavalheiro solitário, que nos recebeu em roupão de seda, a gente borrada de medo dos dias que se seguiriam, passando por, uff!, pessoas que imediata­mente aderiram à nossa proposta e até nos deram outras ideias.

Por termos mudado de casa em vésperas da Independência e por ter tido o privilégio de ver nascer Moçambique no sítio certo, não pude avaliar, in loco, a adesão à nossa ideia. Uns tempos depois, alguém me disse que, boicotes pontuais à parte, a coisa até tinha resultado.

«Aspirante a militante» e falando as duas línguas estrangeiras principais, faço naturalmente parte do pessoal que apoiará as individualidades vindas do exterior, durante os dias do êxtase. Quis a sorte que, ao contrário dos colegas que passaram estes dias a correr do Hotel Polana para as embaixadas dos países a que pertenciam os seus convidados, eu fosse destacada para o grupo que receberia os convidados no próprio estádio onde a Independência foi declarada. Isto trouxe-me duas vantagens, primeiro, poder assistir à ceri­mónia a escassos metros da própria tribuna presidencial e, até lá, excepção feita ao dia do ensaio geral, ficar completamente livre para circular por todos os locais que marcaram esses dias, como era o caso da Avenida António Enes por onde, obrigatoriamente, passavam todas as comitivas. Seria aqui aliás que, mesmo em vésperas de 25 de Junho de 1975, fiquei a dever a vida a Charles Bronson ou Clint Eastwood, não posso precisar qual deles (me) chegou primeiro.

Voltávamos, ao fim da noite, de uma reunião de esclarecimento do Grupo Dinamizador do bairro realizada no Ateneu Grego, quando, em plena avenida e logo a seguir ao cruzamento que desce para o miradouro, rumo ao Caracol, ouvimos um estrondo. Como tínhamos acabado de ver passar um machimbombo para o Hotel Polana, pensámos que tinha rebentado um pneu, só que os estrondos con­tinuaram e cada vez mais audíveis. De repente, começámos a ver a silhueta de um homem a correr na nossa direcção e a Gena gritou «São tiros!». Eu, que tenho a mania de andar mais depressa do que os outros e por isso ia à frente do resto do grupo, parei, e sem querer saber de solidariedades, fiz o mesmo que tantas vezes vira fazer aos cowboys em iguais circunstâncias: chão. Segundos depois, passou o fugitivo, logo seguido do pistoleiro, que era um guerri­lheiro fardado e de «Kalashnikov» activamente nas mãos.

Ainda estávamos meio tontas com a cena quando, a correr, chegaram dois clientes de um café vizinho. Nem queriam acreditar que, daquele grupo de três mulheres e quatro miúdas, nenhuma estivesse ferida. Afinal, tratara-se de uma briga entre os dois mili­tares, um deles meio tocado, o que ia à civil, que se haviam pegado dentro do machimbombo. Nessa noite, dormimos já no prédio para onde nos estávamos a mudar, em casa de alguém do grupo. Aliás, o facto de termos mudado de casa tinha sido quase uma imposição dos nossos amigos, pois, se alguma coisa viesse a dar para o torto, ao menos no novo prédio estaríamos todos, senão mais seguros, pelo menos juntos para enfrentar qualquer situação mais delicada.

No dia seguinte, no liceu, perguntei à Filipa BE, que morava num prédio muito perto, se não tinha ouvido tiros durante a noite, e obtive como resposta:

- Oh, Sandra, sabes como são os boatos! Aquilo não passou do rebentar de um pneu dum machimbombo!

- Ah, sim? E se eu te disser que não levei um balázio de «Kalashnikov» porque não calhou? - e contei-lhe o que se tinha passado. Esta reacção, tão típica da minha amiga, não deixa, no entanto, de revelar bem o cuidado que tínhamos em não acreditar em boatos conducentes a acontecimentos como os que já tinham sucedido, até porque circulava, depois da rixa com os comandos na baixa, a ameaça de que o boato podia dar cadeia. E, para porcaria, já che­gava o sangue que tinha corrido.

Já estavam em Moçambique os principais líderes dos partidos irmãos das ex-colónias de língua portuguesa, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Luís Cabral, Aristides Pereira e Pedro Pires, quando chega­ram os convidados do novo poder de Lisboa: entre outros, Otelo Saraiva de Carvalho, um filho da terra, Mário Soares, Vasco Gon­çalves e Álvaro Cunhal. Tinha já visto Julius Nyerere e Kenneth Kaunda, os presidentes que me eram mais queridos, dado o seu constante apoio à nossa luta, pelo que esperava agora o homem que aos meus olhos personificava, pelas funções que desempe­nhava, África: Mohammed Siad Barre, o presidente da Organização da Unidade Africana (OUA). Que aplauso imenso lhe concedemos, mesmo à frente do local da minha cowboyadal Lembro-me que tínhamos passado o dia a cantar, a partir de um hit da altura («Sha--la-la»), «OUA, l need you!/OUA, l love you!», o que, tendo sido con­siderado um pecado pêlos mais ortodoxos, vinha mesmo a calhar.

E chegou o dia, o dia em que a cidade se engalfinhou para rece­ber no seu solo (ainda hoje me arrepio, ao recordá-lo) o Camarada Presidente. Saltei para o terreno fronteiro ao Aeroporto de Mavalane, defendido, não a sete chaves, mas por centenas de «Kalashnikov», e, sentada no chão com os meus camaradas do Grupo Dinamizador, à imagem do muito povo que ali se deslocou, esperámos ordeira mente o grande momento. Assim que o avião sobrevoou o local, desatámos a bater palmas e a cantar o tema do cancioneiro revo­lucionário da FRELIMO com que, tínhamos ouvido pela rádio, o Pre­sidente gostava de mobilizar o povo nos comícios efectuados nesta digressão. Samora Machel, pude testemunhá-lo ao vivo, tinha uma excelente voz e divertia-se a fazer várias vozes quando cantava em público. No avião presidencial viajavam também, entre outros, Marcelino dos Santos, vice-presidente do movimento de libertação, Aquino de Bragança, o intelectual que acompanhou o seu príncipe até na morte, e, se a memória não me falha, Janet Mondlane, a viúva do Presidente Eduardo Mondlane.

Claro está que quando, uma boa hora depois, se começaram a ouvir as sirenes dos batedores do carro presidencial foi o caos, ou seja, adeus povo ordeiro e organizado/olá gente louca de alegria!, que se levantou aos berros e ninguém viu nada.

Relataram-me, nessa noite, o delírio que envolveu o cortejo pre­sidencial até Maputo, desde as ruas dos bairros mais humildes até, para espanto dos próprios dirigentes moçambicanos, aos bairros mais finos (ouvi contar que, à frente do Hotel Polana, Marcelino dos Santos chegou mesmo a sair do carro para cumprimentar os moradores do bairro burguês com o mesmo nome).

Eufórica estava também a Filipa BE que, com a Sara, esperou pela comitiva na Avenida António Enes, mas já muito perto da Ponta Vermelha, em cujo palácio ficaria instalado o Presidente. Prova da euforia da minha amiga, foi o comentário que, assim que o carro passou, fez para o lado:

- Viste, Sara? Ia de branco!

Cabe-me esclarecer que o Presidente Samora Machel desembar­cou na capital de fato escuro e que quem ia ao seu lado, trajando a farda de cerimónia da Marinha Portuguesa, era o Almirante Victor Crespo, prestes a terminar funções. Mas era tanta a sua convicção que não foi fácil à minha irmã convencê-la de que estava enga­nada. Ainda hoje nos metemos com ela por causa disto.

 

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