Da   história...

Moçambique não tem história. Não tem registo de passado próprio, pelo menos de há quinhentos anos. A história de Moçambique é a história de Portugal.

Moçambique nem existia enquanto tal. Apenas existia um espaço, um território ocupado por suas etnias, suas tribos, dispersas. Era selva, era terra de ninguém. Sem lei nem rei. Esse espaço foi delimitado. Nesse espaço se formou, se definiu, se criou, Moçambique. Assim se criaram os moçambicanos.

Moçambique foi assim "inventado" por Portugal.

Até aos descobrimentos toda a África meridional e austral, com excepção da Ilha de Moçambique e áreas adjacentes, onde já se pratica algum comércio e navegação, vive na fase da pré-história, no mais atrasado paleolítico. Não tem escrita, não tem monumentos, ou quaisquer elementos materiais assinaláveis, como testemunho do passado. E só então uma parte dela entra na história pela mão de um pequeno país europeu, cristão, civilizado - Portugal.

Com efeito, foi nos fins do século XV que Vasco da Gama, a caminho da índia, aportou às terras que são hoje Moçambique. Terras da boa gente. Rio dos bons sinais. Em geral com bom acolhimento. E nas viagens seguintes. E a pouco e pouco se foram habituando as populações ribeirinhas a ver as naus portuguesas com seu símbolo nas velas, a cruz de Cristo. Que aliás, por precaução, só foi usado bastante mais tarde. Depois foram instituídas as primeiras feitorias, ou entrepostos, vieram os missionários e foram construídas as primeiras igrejas, e começou a evangelização. Por outro lado o comércio prospera. Chegam à costa os produtos do interior. Ouro, marfim e especiarias são trocados por produtos europeus, antes desconhecidos daquela população. Estabelecem-se as relações entre pessoas. Amizades e porventura ódios. Há incidentes. Estalam guerras tribais bem na sua linha de tradição entre as diversas etnias indígenas, quase sempre com grande ferocidade. Manifestam-se os inevitáveis jogos de poder locais, entre os reis ou régulos. Interesses. Rivalidades. Portugal interpõe-se e restabelece a ordem e a paz. Fixam-se forças de manutenção da ordem. Os chefes indígenas mais fracos solicitam protecção. Estabelecem-se tratados. Desenvolve-se uma política de harmonização das populações tribais a par do desenvolvimento do comércio. Alarga-se a área de acção. Ganha fama a acção dos portugueses. As trocas aumentam e os produtos chegam de mais longe, lá do interior, onde consta haver riquezas fabulosas. Novos incidentes. Comerciantes são assaltados. Há expedições para o interior em ordem à punição dos malfeitores. O prestígio redobra. Os missionários abrem mais igrejas, escolas e hospitais, e avançam mais e mais para o interior, à conquista das almas e estabelecendo largas zonas de influência. Correm os anos. Lentamente. Correm os séculos. O comércio alarga a sua área de acção. As naus, de passagem, visitam todas as numerosas feitorias e entrepostos junto à costa, não só pelo comércio mas por necessidade de aguadas, comida fresca, descanso das tripulações, cuidar de doentes, reparações de navios e o mais necessário.

Cresce a inveja e o oportunismo dos demais países europeus face à situação portuguesa. Litígios com holandeses. Questões com ingleses. Acto de Navegação. Pacto Colonial. Na Europa decidem-se as questões africanas. Tratados de Comércio e Navegação. Industrialismo. A importância das matérias-primas na Europa industrial. Contestações territoriais. A questão da baía de Lourenço Marques com os ingleses. A atitude dos régulos a favor de Portugal. Nova divisão administrativa dos territórios de África. Regime especial, na Constituição de 1838. Integração dos territórios onde se exercia efectiva soberania, no território nacional, como províncias ultramarinas.

Algumas grandes viagens pelo interior do grande continente. Livingstone. Stanley. Brazza. A corrida dos países europeus à África. A posição sempre diferente de Portugal, ali instalado de longa data. Os grandes sertanejos e viajantes exploradores portugueses: Capelo e Serpa Pinto. Ivens e Silva Porto. E outros.

A partilha da África. Conferência de Berlim, em 1884. As diversas convenções. Zonas de influência. Protecção aos indígenas. A posição e perspectiva internacional de Portugal sempre diferente da dos restantes países só agora interessados em África. O mapa cor-de-rosa, que era a manifestação do desejo dos sertanejos e de alguns políticos portugueses, de ligarem por terra, numa larga faixa territorial, Angola e Moçambique, portanto de costa a costa. O que estava em oposição ao projecto inglês, mais ambicioso, de Cecil Rhodes, de ligar por uma ferro via transcontinental, o Cabo ao Cairo e a respectiva zona de influência. E daí resultando o ultimatum inglês em 1890. A grande mobilização nacional contra os ingleses face à ofensa. Progresso económico e social dos territórios ultramarinos. António Ennes, Mouzinho de Albuquerque e Caldas Xavier. A campanha contra os vátuas, conhecida por guerra contra o Gungunhana. Tratado luso-britânico de 1891. Aparecimento de Moçambique com fronteiras delimitadas.

A 1a grande guerra. Os alemães invadem Moçambique pelo norte a partir da chamada África Oriental alemã, hoje Tanzânia. Portugal resiste, luta e defende com sucesso. Centenas de portugueses, brancos e negros, morrem conjuntamente pela mesma causa: Moçambique. Aliás o mesmo acontecendo em Angola. Campanha espinhosa e letal segundo a descrição que dela se faz, no livro da autoria do então capitão Gomes da Costa, que nela participou. O país faz pesados sacrifícios em vidas humanas e valores materiais. Os combates nas trincheiras da Flandres, com milhares de mortos, gaseados e estropiados, ainda são, principalmente, para defesa e garantia dos direitos portugueses em África, perante a comunidade internacional.

Armistício. A paz volta a Moçambique. Sociedade das Nações. Os Mandatos. As novas Convenções. Proibição do comércio de armas e munições, para evitar guerras tribais, e proibição de bebidas alcoólicas. Comissão permanente dos Mandatos na Sociedade Das Nações, em Genebra. Educação política e moral. Melhoria das condições de existência dos nativos. Defesa dos interesses das populações. Organização Internacional do Trabalho. A nova política de autonomia. Descentralização administrativa. Lei Orgânica do Ultramar. Unidade política. O Acto Colonial.

A 2a grande guerra. As Nações Unidas. O Estado Novo em Portugal. O ataque a Portugal, principalmente com as ideias de esquerda, e do chamado terceiro mundo, numa feroz e concertada propaganda, e geralmente orquestrada, directa ou indirectamente a partir de Moscovo, ou dos seus satélites, condenando a pretensa e exaltada exploração colonialista, vulgarmente designada pejorativamente por colonialismo, por acção de um pretenso opressivo regime fascista. E sugerindo uma ligação ao horror que foi a escravatura, como se esta "instituição" fosse inventada, criada, ou mais usada, pelos portugueses, do que por outros povos. Querendo-se, na ideia, na intenção, aproximá-lo na mente das pessoas menos esclarecidas, dos horrores do regime nazi, de Hitler, e fascista de Mussolini. Ignorando deliberadamente as realidades e as verdades da história. E também a propagandeada ideia da existência dos “nacionalismos” africanos, pressupondo que Portugal exercia uma feroz opressão sobre os povos nativos e da qual estes desejavam libertar-se, produto da mesma ideia de colonialismo e consequentemente com o fim de obter a condenação de Portugal, na opinião pública internacional. A acção da expansão comunista no mundo, e especialmente em África. A guerra subversiva. O terrorismo. O progresso manifesto resultante de uma nova atenção do governo português e de todo o país sobre o ultramar. O ritmo de desenvolvimento nunca antes visto.

O 25 de Abril. O Acordo de Lusaka. A grande tragédia nacional. A grande traição do governo português pró-comunista da época, que se colocou ao serviço da esquerda e dos interesses comunistas internacionais. A dação de Moçambique aos terroristas com abandono e repúdio de um passado honroso, de uma história de quase cinco séculos, onde como em toda a história há grandezas e misérias. Os efeitos dramáticos e chocantes dessa traição aos dois povos, o europeu e o africano, traduzidos na prática em guerra, fome e miséria. E sofrimento e morte.

 

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Não sofre dúvidas que os descobrimentos são um facto dos mais importantes da história universal. Nem a viagem à lua efectuada pêlos americanos, a 20 de Julho de 1969 que tanto nos impressiona, se lhe compara. Se é certo que vermos pela TV dois homens na lua, enquanto comodamente instalados no sofá da nossa sala, nos enche de espanto, e se traduz num enorme progresso técnico e científico, que consideramos grande maravilha do nosso tempo, as navegações dos secs. XV e XVI e salvas as devidas distâncias e proporções, não são menos de espantar. E além de mostrarem também um grande progresso para a época, foram essencialmente actos de coragem e fé, inexcedíveis. E foram, pode dizer-se, na linguagem desportiva, o pontapé de saída do grande desafio de alcançar todos os pontos da terra, ou o primeiro passo para, séculos mais tarde, se chegar à lua.

Os nossos navegadores estavam em comparação, menos apetrechados que os astronautas. Conheciam muito mais os astronautas da lua que os navegadores do Novo Mundo, de que aliás não conheciam nada.

Porém, a grande, a enorme diferença, está nas consequências resultantes desses factos. Os efeitos económicos, científicos e práticos em geral, das descobertas foram incomparavelmente mais importantes que a viagem à lua. Foi um abrir novos mundos ao mundo, o chegar a terras antes inteiramente desconhecidas do mundo europeu, que era então, segundo se pensava, o centro do mundo civilizado e conhecido. Pois esse mundo conhecido, a ocidente era delimitado pelo imenso oceano Atlântico, a sul pelo imenso deserto do Sahara, e a oriente pelo deserto de Arábia e pelas primeiras montanhas asiáticas. Era praticamente o espaço herdado do antigo império romano no seu apogeu.

É claro que na Europa se ignorava a existência de outras civilizações, noutros continentes, e até os próprios continentes, como seja a da China, da índia, da Birmânia, a oriente e as dos Aztecas, Inças e Maias e outros, na América, central e do sul, para só citar as mais conhecidas, e que só as navegações revelaram. Algumas reveladas de forma trágica, pois as descobertas foram-lhes fatais,

casos da civilizações americanas, cujas populações foram quase exterminadas por acção dos descobridores. Neste caso espanhóis!

Em relação às partes do oriente, o que se conhecia era através das narrações de viajantes e aventureiros, como o célebre veneziano Marco Pólo, que por terra se deslocou com a sua caravana a vários lugares desconhecidos, designadamente até à China, ao Japão e Ilhas da Malásia e índia, através da Mongólia, onde teria inclusive estado ao serviço de um poderoso Imperador o Kublai KM, aventura que foi narrada no seu célebre livro // Millionne. Mas tomadas mais como fantasia do que verdade. Outras narrações que passavam de boca em boca, de pais para filhos, simples tradição oral, umas vezes davam elementos verdadeiros, outras vezes não eram também mais que lendas e fantasias, como a existência das terras do Preste João, um suposto monarca cristão, cujo reino se localizaria no que hoje são as terras da Abissínia ou Eritreia ou, segundo outra versão, na Ásia Central. E sem esquecer ainda as lendas da fantástica e maravilhosa Rainha de Sábá; ou das fabulosas riquezas do Rei Salomão, e muitas outras.

Mas para além das lendas, objectivamente pretendia-se, além de competir no comércio com as cidades do Mediterrâneo oriental, principalmente italianas, e em especial a forte Veneza, que então detinham o quase monopólio do comércio dos produtos orientais, conhecer e estabelecer relações directas de comércio, torneando as dificuldades criadas a cada passo pelos povos orientais da Arábia, do Egipto e outros, em geral de cultura islâmica e portanto inimigos dos cristãos, e onde proliferavam os conflitos, e que constituíam um tampão difícil de transpor, entre a Europa e o oriente misterioso e designadamente a índia fabulosa. Era pois necessário descobrir outra via mais conveniente e essa via era o caminho por mar para oriente, para a lendária índia.

Ora, feita a descoberta do caminho marítimo para a índia, por Vasco da Gama, rodeando longamente a costa de África, e passando ao cabo tormentoso como o apelidara antes Bartolomeu Dias, e depois de reconhecer a costa indica, e de chegar ao Industão, não se deu a obra por terminada. Foi mais longe. Porque a partir daí, outros ousados navegadores portugueses, por largos anos e de forma sistemática e incessante, em vagas sucessivas, foram por mar à China, ao Japão, à Austrália e a todas as terras orientais, principalmente as numerosas ilhas da Malásia e da Insulindia, onde em numerosos locais deixou testemunho vivo da sua raça e da sua cultura, como em Macau e Timor, e foi um feito que revolucionou o mundo daquela época. Mexeu de forma profunda com muitos e grandes interesses. Foi uma verdadeira revolução.

Foi o conhecer novas gentes e novas culturas, e o estabelecer novas relações culturais e sobretudo comerciais. Pois era indispensável rentabilizar, como hoje diríamos, as expedições às novas terras, pelo comércio, cujos ganhos cobrissem as despesas, os custos dos empreendimentos, e dos riscos. Custos e riscos que não eram poucos nem pequenos.

E desbravado o mar tenebroso, e a par dos espanhóis, logo holandeses, ingleses e outros se lançaram na esteira desta aventura e criaram as suas próprias zonas de influência no novo mundo. Para além da pirataria, até oficial, que se lhe seguiu. Haja em vista a teoria jurídica da liberdade dos mares, o estabelecer do direito de presa, isto é, o direito de atacar navios comerciais, como princípio perverso do direito marítimo internacional. Ou o apoio oficial a piratas profissionais, sendo o mais célebre o flibusteiro inglês Francis Drake, que segundo se julga saber tinha a protecção oficial da rainha Isabel I de Inglaterra. E todo um rol de factos, muitas vezes trágicos, ocorridos ao longo de décadas, mesmo de séculos.

E da descoberta de novas terras, e para além das relações humanas, surgiram novos produtos, principalmente as especiarias, como a pimenta, a canela, o cravo, o gergelim, a noz-moscada, e muitas outras variedades, como mercadorias fundamentais, e com grande procura e valia na Europa. E o açúcar, o milho, o arroz, a batata ... E o cacau. E os metais, o ouro e a prata. E as pérolas e o marfim. E as pedras preciosas da mais diversa natureza. E as sedas. Além de produtos artesanais diversos, diferentes e exóticos, destacando-se as belas porcelanas chinesas, trabalhos delicados e preciosos em marfim, em seda, peças de mobiliário em madeiras exóticas e outras raridades.

E logo atrás veio a ciência, da zoologia e da botânica, e o mais com resultados positivos na medicina da época. Lembremo-nos do nosso famoso médico e naturalista, Garcia d’ Orta, judeu português, natural de Castelo de Vide (1500), que passou a maior parte da sua vida pelo oriente, para onde embarcou em 1534, e deu um grande impulso à medicina e às ciências naturais, tendo falecido em Goa cm 1568. E a revolução na geografia e na astronomia, pela confirmação, com a volta ao mundo por Magalhães, das teorias de Copérnico e depois Galileu, entre as quais a da esfericidade da Terra e da mecânica do sistema solar. E muitos outros casos se poderiam citar. Factos que são geralmente conhecidos. Foi uma verdadeira revolução no conhecimento. Foi um salto gigantesco em frente, depois de séculos de modorra medieval, e o começo de uma nova era de modernidade.

Isto sem esquecer a abertura que se deu igualmente para ocidente com a descoberta da América, com Colombo, de inicio como se sabe designada por índias ocidentais. Pois Colombo ao regressar da América inicialmente vinha afirmando ter chegado à índia por ocidente.

Não se deve esquecer o grande movimento cultural europeu, geralmente mais conhecido nas artes, como o Renascimento, caracterizado sobretudo pelo regresso ao elemento clássico, em recuperação das ideias, da filosofia, e da arte grega e romana. Pintura, escultura, arquitectura. Literatura.

Não deve esquecer-se também o grande movimento das ideias, que vinha trazendo inovações e contestações, pondo em causa princípios estabelecidos e causando grandes problemas à Igreja pela afectação de alguns dogmas, e que em termos globais se pode designar pela Reforma. E ainda a sua antítese, a Contra-Reforma. E os deploráveis efeitos negativos da Inquisição.

E o correspondente movimento das ideias políticas com vista a estabelecer o regime do absolutismo real.

Com tudo isto, um enorme salto foi dado para a modernidade.

          Não é necessário encarecer a importância dos descobrimentos . As pessoas cultas de todo o mundo sabem isso. Depois da primeira viagem à lua pelos astronautas americanos, ouvi um deles, numa entrevista para a televisão, declarar que o feito deles era consequência de, e nem tão importante como, a viagem de Vasco da Gama. E que a cultura americana tem plena consciência disso, mostra-o o facto de, recentemente, no lançamento da nave espacial Discovery a 31 de Maio 98, simbolicamente ser transportada uma bandeira portuguesa e um mapa mundi da época das descobertas, para, de volta do espaço, fazerem oferta à Expo, aonde os astronautas se deslocaram, tudo em homenagem e por altura da celebração dos 500 anos da viagem de Vasco da Gama.

Em todo o mundo se tem consciência da importância dos descobrimentos. Nem tanto assim cá em Portugal. Basta ver que estando o país lamentavelmente submetido a uma nova cultura de esquerda, segundo a qual e na sua expressão mais radical, Vasco da Gama teria sido o primeiro e o maior colonialista, explorador e opressor, a comemoração dos 500 anos da chamada descoberta do caminho marítimo para a índia, foi camuflada, amenizada, com a nuance da celebração dos oceanos, por serem objectivos bastante compatíveis. Felizmente, hoje, as radicalizações já não afloram com a mesma intensidade. A verdade e o bom senso, com o tempo acabam por chegar. Pois como diz o ditado, a verdade é como o azeite, acaba sempre por vir ao de cima.

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A chegada dos navegadores portugueses aos territórios africanos encontrou as populações vivendo num estado de civilização bastante primitivo, repartindo-se por grupos maiores ou menores, formados por famílias, grupos de famílias, tribos e outros grupos maiores ou etnias, dominados por um líder, um rei, chamado régulo ou soba, geralmente o mais forte ou o mais ambicioso, ou apenas o mais agressivo, o mais audaz ou talvez o mais ardiloso, ou aquele que for possuidor de muitas destas qualidades, e ocupando áreas de pastorícia e caça, porventura alguma agricultura incipiente, bens que por vezes disputavam com os vizinhos, em guerras mais ou menos ferozes e sanguinárias, como sempre aconteceu em povos primitivos. E sendo muitas dessas tribos ainda dadas ao canibalismo, não poucas vezes o pretenso inimigo acabava no espeto. No mais eram cobiçados os gados, as mulheres e outros  bens “ de interesse de ocasião.

O canibalismo em certas etnias do mais recôndito da selva, perdurou até há pouco, aos dias de hoje. Lembro-me que após a independência do antigo Congo, e da agitação e mesmo confusão que resultaram da retirada das autoridades belgas, várias etnias entraram em revolta, e as noticias que chegaram até nós davam conta que os “simbas uma tribo do Congo central, apreciava muito o fígado do inimigo, e para tanto nem se preocupavam em matar o inimigo, que até poderia ser apenas qualquer estranho à tribo, retirando o fígado à infeliz vitima, mesmo em vida.

          Por essa altura também, corria a versão de que, como tivessem sido enviados, para tentar manter a ordem e a paz, várias forças sob as ordens da ONU, e oriundas de vários países, parece que um grupo de aviadores italianos, caiu nas mãos de uma dessas etnias antropófagas, e deles não restou mais do que umas peças dos esqueletos. Mais tarde, quando houve conhecimento do facto, que foi levado à ONU, o representante oficial do novo governo agora independente do Congo, depois de suscitada com veemência a questão na Assembleia-geral, contritamente pediu desculpas à Itália pelo lamentável evento, justificando que tal aconteceu por erro, por engano. As pessoas acusadas pela Itália de canibalismo tinham pensado que se tratava de tropas ... belgas...

Com canibalismo ou não, hoje mesmo a barbárie é uma realidade em África. Basta dar um pouco de atenção aos noticiários da televisão e aos jornais, onde frequentemente vemos ou lemos os trágicos acontecimentos em países como o Congo, Zaire, Ruanda, Burundi, Nigéria, Libéria, Somália, Sudão, ou aqui bem mais perto, na Argélia, etc com ou sem canibalismo, as breves imagens de horror, onde a selvajaria dos homens mais se assemelha à animalidade das feras. Pode-se imaginar um pouco o que serão as imagens totais na realidade dos factos...

Entre os nativos, e junto ao litoral, principalmente mais a norte, e nomeadamente a partir da Ilha de Moçambique, alguns habitantes já se dedicavam ao comércio marítimo, viajavam ao longo da costa, efectuando trocas esporádicas. Haveria mesmo algumas áreas de circulação comercial, e marítima, já que os navegadores do Indico já comerciavam na costa oriental quando Vasco da Gama lá chegou, pois como se sabe foi um piloto da região que a partir de certa fase da viagem guiou a armada até Calicut, na índia.

Muitas vezes cada tribo, mesmo vizinhas, falava língua diferente, e em certos casos nem sequer se conseguiam entender. Como hoje. Excepto que entretanto se introduziu uma nova língua comum, veicular, que a todos serve, a língua portuguesa. No que toca a usos e costumes também havia bastantes diferenças entre as tribos. Mas não tantas, é claro, como as diferenças entre africanos e europeus.

O tempo decorre e as feitorias e entrepostos comerciais transformam-se em povoações e mostram serem já as bases de futuras cidades. Lançam-se os primeiros impostos. Há despesas de administração e manutenção das forças da ordem. O imposto é um meio de civilizar, é um elo de ligação ao estado, é o estabelecer de uma relação de direitos e deveres, entre governantes e governados. Embora no sentir dos governados se dispense de bom grado tal dever.

          Não há ocupação de terras. Ainda nos fins do sec. XIX Lord Salisbury, então chefe do governo britânico, e a quando da disputa do  território que foi depois o distrito de Tete, dizia que Portugal não tinha quaisquer direitos naquela área pois não a tinha ocupado. Parece de facto não ter estado no espírito dos portugueses a ocupação de terras.

Mas mais importante do que isso é o facto de tal ser impossível já que como se sabe o território e Moçambique tem uma área que é sete vezes e meia maior que a área de Portugal. Já se vê que dada a escassa população do país, era materialmente impossível efectuar uma ocupação humana razoável, com população branca. Mas estava realmente ocupado com povos indígenas, que em geral aceitavam bem a soberania portuguesa.

A razão porque os britânicos suscitavam tais questões territoriais não era inocente, já que a verdade é que tinham debaixo de olho amplas perspectivas de futuras e rendosas explorações mineiras que aquela área oferecia, e que da parte portuguesa nem hoje mesmo é conhecida, salvo a efectiva exploração do carvão mineral do Moatize, durante certo tempo, e enquanto colónia.

Portugal estava assim em África por uma fatalidade histórica. Do mesmo modo que os romanos estiveram por séculos aqui, na Península Ibérica, e antes deles os celtas, os fenícios, os gregos, os cartagineses e depois dos romanos os árabes, a partir de 711.

Assim como temos uma Língua que derivou da latina, caldeada com as línguas e dialectos locais, e recebemos uma cultura latina, e de outros povos, também nós levámos para África uma língua e uma cultura de grau muito superior. É apenas a ordem natural das coisas. São as determinantes da história...

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Lentamente ia-se desenhando uma organização administrativa, são nomeados alguns novos funcionários. Fixam-se alguns comerciantes. Continua a carreira de naus e carracas, galeões e fragatas, entre a índia e Lisboa com passagem forçosa pelas feitorias e entrepostos. Não só pelo comércio, como pela necessidade de abastecer de água e alimentos frescos os navios, descanso das tripulações, tratar doentes, reparar estragos nas naus e muitos outros objectivos.

Decorrem anos, décadas, séculos.

Condenados vão cumprir ali suas penas de desterro, acabando por se fixarem e muitas vezes acabarem por se estabelecer no comércio ou mais tarde na agricultura e darem um grande contributo no desenvolvimento da economia local.

Alguns aventureiros internam-se no mato selvagem à procura de riquezas, principalmente de marfim, em abundância, e de ouro. Procura-se junto dos pequenos rios ouro de aluvião... Mas não resulta. Há notícia de ouro na zona de Manica. Iniciam-se pesquisas e até explorações. Mas o almejado metal é quase uma miragem, casado com a rocha, por vezes com os veios a grandes profundidades, só com grandes investimentos e técnicas apuradas se conseguiria uma produção que pudesse cobrir o dispêndio. Nem a tentativa, há curtas décadas, com a melhor técnica, logrou obter sucesso. A natureza nesse ponto é madrasta...

Iniciam-se, mais tarde, pouco a pouco explorações agrícolas extensivas, de milho, de fibras industriais, como o sisal, o kenaf, o cânhamo, mais tarde o algodão, depois o chá, os produtos dos extensos palmares, como os da Zambézia, célebres e os maiores do mundo, melhorando as espécies, desenvolvendo e melhorando produtos típicos locais como o caju. E mais tarde o açúcar e o tabaco.

Muitos outros produtos foram escolhidos pela sua boa adaptação a certo clima, em certas zonas, como os citrinos, nalgumas zonas mesmo o trigo, depois a cana sacarina, de que ultimamente era um grande produtor e exportador, existindo cerca de uma dúzia de grandes empresas inteiramente dedicadas a essa produção. E o tabaco, de elevada qualidade, que nesta área de planalto estava a ser incrementado em força, e que a partir de certa altura era vendido, conjuntamente com o da Rodésia que então sofria o boicote económico britânico, no mercado internacional.

Este crescendo, ainda que lento, de produções gerava emprego, alterava formas de trabalho e de regras sociais, exigia habilitações literárias e técnicas, e dava possibilidades de melhoria aos mais aptos  e de mais iniciativa.

Enquanto o progresso ia avançando lentamente da costa para o interior, ou das cidades em direcção ao mato, as populações nativas que também iam evoluindo, iam também entrando nesse quadro de desenvolvimento, e iam nessa medida sendo influenciadas e absorvidas e solicitadas a intervir em novas formas de trabalho e de vida em geral, adaptando-se a novas e variadas tarefas. Por outro lado gerava-se uma torrente, como um rio, da nascente para a foz, das populações do mato em direcção ao litoral, ou às cidades do interior, à procura de trabalho e melhores condições de vida, ou simplesmente à procura de uma espécie de eldorado, aquela natural ambição humana de vida nova e divertida, mais segura e confortável, mais limpa e garantida, portanto muito diferente e muito mais interessante que a do mato.

E daí resultava que em volta das cidades de cimento, modernas, de predomínio do europeu, crescesse gradualmente a cidade chamada do caniço, que era toda uma enorme cintura de palhotas, ou seja, as casas tradicionais de pau a pique, cobertas a colmo, isto é, capim, agora em geral também cobertas a zinco, que se construíam de um dia para o outro, e onde se alojavam os imigrados oriundos do mato, ou do interior. Esta era uma situação típica impassível de evitar.

          Mas deve-se dizer que o desenvolvimento e o progresso visível só tiveram lugar nas últimas décadas. Pois, nos fins do século passado, e segundo o famoso relatório de António Ennes, de 1893, e a título de exemplo, a cidade da Beira, não existia enquanto tal, mas apenas como um povoado com pouco mais que um embarcadouro, umas poucas de habitações e pequenas casas de negócio, as chamadas quitandas, numa restinga ladeada por um lado pelo Indico e por outro pelo rio Chiveve, um pequeno afluente pantanoso do lamacento Pungué. Isto numa fase em que a Metrópole se endividava para ir suprindo as necessidades administrativas do imenso território. Tudo o mais, caminhos-de-ferro, porto, e as ligações ao interior só muito mais tarde, lentamente, é que foram realizadas, quando começou a desenhar-se uma colaboração com os territórios do interland e se pressentiu boa rentabilidade para tais investimentos. Mas principalmente e com um grande impulso, com a criação da companhia magestática, com poderes e competências especiais, a "Companhia da Beira" com uma concessão para o lançamento do Caminho-de-ferro da Beira, em direcção à Rodésia, e ao interior, a melhoria do porto da Beira, construção de hotéis e outras obrigações em troca da sua exploração por algumas décadas. E ainda o facto de numa certa fase ter surgido a notícia da descoberta de ouro na zona de Manica... A febre do ouro fez esquecer as febres terríveis do paludismo e da malária e a doença do sono, que na época tornavam estas paragens bastante perigosas, pela sua insalubridade.

Em qualquer caso deve dizer-se e nunca esquecer que o desenvolvimento material dependia das múltiplas condições oferecidas por cada momento histórico, condições de desenvolvimento comercial, industrial, técnico e cientifico... e também condições políticas e administrativas. E financeiras. Pois não se podem desligar umas condicionantes das demais.

A imitação é uma forma natural de aprendizagem. Nesse caso convém que os exemplos sejam bons. Os autóctones iam aprendendo com os mais evoluídos. Pela imitação e outras formas. De resto, seria desnecessário afirmar que estes povos não sejam menos inteligentes que as pessoas de outras raças, e que aprendem bem ou mal tal como quaisquer outros. Tudo dependendo da sua capacidade natural e do interesse e atenção postos em cada matéria. Muitas vezes se confundia ingenuidade natural e boa-fé, que resultava da vida simples e primária, em contraste com a malícia de alguns colonizadores, com estupidez face à presuntiva inteligência superior dos mal-intencionados.

Muitos enveredavam pelo comércio e montavam o seu pequeno negócio, geralmente de cantina ou estabeleciam um lugar no mercado da cidade. Outros mais dados à agricultura, abandonavam as formas tradicionais, mais elementares, tal como semear o milho só após as chuvas, com o terreno empapado, e as mulheres - eram as mulheres e os filhos quem tratava das sementeiras - lançavam as sementes ao chão e com o calcanhar enterravam o grão de semente, e em vez dessa forma de fracos resultados, já preparavam previamente os campos de cultivo, lavravam com bois ou mesmo com tractor, mais ou menos velho, mas funcional. Colhendo já em quantidade bastante para realizar bom dinheiro com a venda do produto.

Em resumo, uns viviam ainda em economia primitiva, recolectora e pastorícia, outros acresciam culturas com fins de subsistência, outros iniciavam já uma agricultura evoluída e extensiva segundo o modelo pode dizer-se industrial.

Esta tendência para o modelo industrial implicava já infra estruturas, novas estradas, cada vez mais longe e cada vez melhor, e outros meios de comunicação.

Implicava instrução pelo menos a elementar. E por isso houve que construir novas escolas, que cada vez mais iam avançando mato dentro, desde postos escolares com professores africanos, nas pequenas povoações, onde pouco mais se ensinava do que a ler, escrever e contar, ou as escolas primárias com professoras europeias. Em povoações mais importantes, onde podiam tirar até a quarta classe primária, ou nas cidades escolas mais avançadas, o liceu ou escolas técnicas.

Sem esquecer as escolas de missionários, fundadas sucessivamente ao longo dos tempos, dos séculos, geralmente junto da alva igrejinha, à qual se anexava em geral um pequeno hospital e as construções próprias destinadas a apoiar as actividades agrícolas, indispensáveis para a subsistência da comunidade religiosa participante. E que em muitos casos tal comunidade chegava a tomar dimensão considerável e as escolas iam muitas vezes além do ensino elementar, sem falar no ensino religioso pela criação de seminários. E podendo dizer-se terem transitado por ali muitos milhares de nativos, iniciando-se pela mão dos missionários nos mais elementares hábitos da civilização. Ali se cuidava dos corpos e das almas.

Vinham depois, nas cidades, escolas de outro nível, liceus, escolas de cursos técnicos, e ultimamente até estudos universitários, como acontecia já em Lourenço Marques. E cada vez com maior frequência de africanos. O que significa que se estava preparando uma elite africana, com a maior importância para o futuro. Que já não chegou.

Quanto mais se desenvolve o território e vão sendo criadas condições satisfatórias de vida, à europeia, para as famílias, maior atractivo exerce a colónia em pessoas que desejam emigrar. Por isso mais imigração e mais colonos. E mais movimento de populações traz mais desenvolvimento: mais transportes, mais comércio, mais indústria, mais actividades crescentes por todo o lado. E serviços, bancos e seguros. E outros.

Posso afirmar que desde a minha chegada a Vila Pery, em breves anos, se verifica que foi melhorada a estrada, de cerca de 200 quilómetros até à Beira, rectificado o traçado e colocado novo pavimento de asfalto; foi asfaltada toda a estrada que liga Vila Pery a Tete de cerca de 600 quilómetros; foi terminada a ligação a Lourenço Marques, em cerca de outros 600 quilómetros, podendo agora viajar-se da Beira a Lourenço Marques, numa extensão de cerca de 1.200 quilómetros ou de Tete a Lourenço Marques numa extensão de cerca de 1900 kms em estrada de asfalto.

Quanto a escolas, além das primárias, existia em Vila Pery apenas um colégio particular que oficializava até ao 5° ano do liceu, e uma Escola de Regentes Agrícolas. Mas durante o tempo da minha estadia, a cidade conseguiu que fosse criada e construída de novo uma Escola onde se ministrava o liceu até ao 5° ano, (da época) mas com projecto para seguir até ao sétimo, e em paralelo o Curso de Administração e Comércio, além de algumas especialidades do Curso Industrial. E a Escola de Regentes Agrícolas foi melhorada e estava já em construção um novo edifício com melhores condições.

Também tinha sido posto em serviço havia pouco tempo o novo hospital, aumentando de forma significativa a capacidade de atendimento existente na saúde.

Daqui resultava mais população africana alfabetizada, ou mesmo com habilitações médias, aumento da população escolar, crescente número de africanos solicitados a intervir cada vez mais nas diversas tarefas e em novas funções, mais exigentes e melhor remuneradas, e melhor e mais ampla assistência na saúde.

           Deve-se salientar ainda quanto a uma melhoria da urbanização e no que toca a alojamentos, que a Câmara Municipal do Chimoio disponibilizou um espaço bastante amplo na periferia, um bairro residencial, onde procedeu às infra-estruturas como arruamentos, instalação de energia eléctrica e de esgotos e agua canalizada, onde em cada talhão, cedido em determinadas condições económicas, muito acessíveis, cada interessado poderia fazer a sua casa, portanto em regime de autoconstrução, reduzindo assim o sempre grande problema da cintura do caniço e da falta de habitação condigna.

          Mutatis mutandis, pode-se referir o mesmo em relação a outras cidades e outras zonas de Moçambique, onde o desenvolvimento geral com melhorias ou obras novas em todos os sectores, foi idêntico: quer dizer, Moçambique estava progredindo em força, imparável.

Mas tal descrição do progresso geral não está no nosso projecto, que é apenas um olhar, um relance, limitado no tempo e no espaço, e sobre outras matérias.

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