VI
Chegado a Langüene (1) soube Mousinho que o Gungunhana embora
negociasse com o comandante do posto, tenente Sanches de Miranda, a entrega de
Matibejana (2), não desistia de voltar à resistência. A sua fuga
estaria longe, por conseguinte, de equivaler ao total abandono da própria
causa, a-pesar de obscurecida a estrela que por largo espaço o acompanhara,
graças à qual o império se lhe dilatara sobre as terras do Sul, havia podido
jactar-se do título insigne de «rei de Gaza» (3) e fazer-se por igual temido de
negros e brancos. Não era por enquanto um poder esfacelado e bastar-lhe-ia até
o recurso a pequenas correrias e sortidas para sustentar um resto de
prestígio, para opor à empresa de pacificação com que o génio organizador de
Mousinho sonhava ao ir governar o novo distrito, sérios obstáculos que poderiam
paralisá-la ou pelo menos retardá-la, deminuindo ao mesmo tempo a confiança
indígena nas nossas armas. Seria a desforra dos desastres sofridos em
Marracuene, em Magul, nas margens do Limpopo, — que durante muito tempo tinham
servido de vantajosos parapeitos contra os ataques da minúscula e atrevida
flotilha portuguesa, — em Coolela e por último com o incêndio do kraal em Manjacaze. Certo era que a Langüene
um grande número de chefes de terras apareciam a pegar pé e a prestar
vassalagem. O próprio facto, porém, de todos eles suplicarem em gestos e
palavras, que exprimiam suficientemente a inquietação sentida, o
aprisionamento do Gungunhana, cujos bandos não cessavam de praticar assassínios
e depredações, mostrava quanto poderiam ser precárias,
insubsistentes, aquelas adesões, enquanto sobre elas pairasse terrível a ameaça
do régulo.
Havia sido intento de Mousinho, manobrando com o que lhe restava do
esquadrão de lanceiros e com a polícia montada que ia organizar em Gaza,
castigar em constantes razias régulos
e povos que se conservassem mais ou menos fiéis ao potentado,
forçando-os deste modo a virem para o nosso lado. Assim previa uma série de
expedições um tanto aventurosas, com as quais demonstraria que mais do que
nenhuma outra, a arma de cavalaria podia e devia em África prestar grandes
serviços, o que por muitas e variadas razões, a que a sua vontade fora sempre
estranha, ainda não tinha conseguido fazer durante a campanha. Por isso
aceitara «com o maior contentamento» o convite para governar Gaza. Mal chegado
a Langüene a ideia de prender o Gungunhana, — ideia que em 1891 ao seu espírito
e ao de Caldas Xavier, em conversas na residência, acudira como indispensável,
tanto ao domínio da soberania como à instituição dum estado normal de coisas
civilizador, — impôs-se-lhe com mais força que nunca, inelutável, e ensurdecia-o
a todas as recomendações de prudência que lhe dirigiram. Ou havia que prender,
— tal o dilema que se apresentava, conforme conta no relatório do famoso
feito, — matar, se fosse preciso, o Gungunhana dentro de poucos dias, ou a
pouco e pouco todo o prestígio das nossas armas se iria obliterando no ânimo
daqueles povos e o régulo iria reunindo gente de guerra, recuperando força,
fazendo voltar à obediência -muitos dos que o tinham abandonado. Pareceu a
Mousinho que não precisava de cansar-se com sucessivos
raids. “Uma única empresa
[havia] a tentar por muito trabalhosa e arriscada que fosse: era a acção
decisiva e final da prisão do régulo”, correndo para isso a Chaimite, onde o
davam nessa altura, ocupado em cerimónias mágicas ide acordar, na sepultura, o
grande avô Manicusse, de quem esperava alcançar poderoso feitiço que o livrasse
de cair às mãos do inimigo branco...
Marchou
Mousinho imediatamente?
Não.
É que no seu
génio, frequentemente, heroísmo e reflexão se associavam, — volte a repetir-se,
— ao contrário do que as suas arremetidas levam muitas vezes a supor.
«Se tenho marchado, — reconhecia na mesma página, —
sobre Chaimite, logo que cheguei ao Langüene, talvez tivesse sido loucura, não
sei se heróica se não, mas provavelmente mal sucedida. Em dez dias, porém, tive
tempo de preparar o ânimo dos indígenas.»
De que modo?
«A mínima desobediência, — continua, — ou simples demora no cumprimento
duma ordem minha, era imediata e severa, para não dizer barbaramente castigada
a chicote de cavalo marinho, e um preto convicto de espião foi fusilado e
queimado o seu cadáver diante de 300 mabuingelas e manguni, que se haviam
reunido por minha ordem. Não se pense que goste de ver matar indígenas a sangue
frio, ou de os ver estorcer-se atagantados pelo spambock, mas percebera que o Gungunhana ainda era muito temido
e respeitado, devido em parte às mortes que todos os dias mandava fazer, e, por
isso, sem sair dos processos a que me cingia a minha qualidade de homem
civilizado, fiz o possível por inspirar um terror igual ao que espalhava em
torno de si o régulo vátua. E quando me pareceu havê-lo conseguido, marchei
sobre ele.»
Nada estava contudo disposto para a
empresa. Postos, só havia os de Inharrime, Chicomo e Langüene. Como fosse seu
intento dar à cavalaria a glória do cometimento, remate da campanha, pediu
cavalos a Chicomo. Dali, porém, responderam--Ihe que de 20 que existiam só 5
poderiam ser utilizados, e o capitão Sarsfield, comandante do posto, explicava
que semelhante estado de fraqueza geral fora produzido pela fome que sofrera o
gado na marcha para o Manjacaze, em que apenas tivera quatro dias de ração
reduzida, e pela circunstância também de 1 a 15 de Dezembro estar sem ração
alguma, visto não haver na região possibilidade de a obter!
Faria em tal
caso a marcha a pé.
Era necessário pôr termo quanto antes ao arreganho vátua, liquidando o
Gungunhana.
Mas seria possível apanhá-lo com menos de cinquenta infantes arrasados,
os únicos que havia válidos? (4)
«Seja-me lícito afirmar, — referiu Mousinho no mesmo
trabalho, — que esta resolução, calando fundo no ânimo dos oficiais e praças
que me acompanhavam, evidenciando-se aos indígenas que muito se espantaram da
exiguidade das forças de que eu dispunha para uma empresa que se lhes afigurava
tanto mais perigosa quanto era o medo que o régulo lhes inspirava, foi o
principal factor do aprisionamento deste potentado, porque incutiu nos
soldados um entusiasmo que os fez vencer fadigas e arrostar perigos com alegria
e boa vontade deveras surpreendentes, atendendo para mais ao estado de saúde da
maior parte.»
Ao valor desses soldados devia Mousinho
voltar a prestar, homenagem no seu grande livro Moçambique, pondo-o em contraste com o malfadado jogo da
política dos tempos: «Embora se diga — escreveu — que cada povo tem o governo
que merece, não há dúvida que o nosso merecia melhor. É tão trabalhador e
paciente, tão corajoso e simples! Em África, mais que em parte alguma, se
revelam estas qualidades, pela firmeza e sangue-frio que demonstram nos
combates, pela resignação alegre com que suportam as privações mais duras,
serenidade e igualdade de ânimo e a densidade das matas escondem e que, por
isso mesmo, são a maior prova por que passa a coragem e impassibilidade das
tropas.» Que palavras mais belas e eloquentes que estas, do grande capitão,
poderiam inscrever-se na base de qualquer monumento ao herói humilde," —
ao soldado que o acompanhou e a outros que, depois dele. têm
acrescentado a fama do nome português?
* * *
Rompera o dia
— dia de Natal de 1896.
Muito longe, nas aldeias de Portugal, àquela hora,
enquanto os clarins soavam no posto solitário, à formatura, cantava o galo,
repicavam sinos... Que fariam naquele momento mais, irmãs, namoradas?...
Viam-nos com olhos do pensamento saudoso, cobravam porventura ânimo com a
esperança do outro Natal a vir, em que aqueles que não tombassem sobre a terra
africana seriam, junto à lareira familiar, os cronistas singelos mas
desvanecidos daquela aventura, escutada com pasmo por toda a gente, com enlevo
principalmente por elas, as boas mulheres. Não era preciso sofrer pela glória
de Portugal? Corações ao largo, pois que na volta, colhida a vitória, tempo
haveria para cantar!...
Pouco depois, na Capelo, com
o tenente Sanches de Miranda e o médico Amaral, embarcavam os soldadinhos: rapazes da
artilharia, da infantaria, além de uma praça indígena.
No dia seguinte marchou por terra
Mousinho com o tenente graduado Couto, um soldado de cavalaria, o intérprete,
207 auxiliares e 76 carregadores, com mantimentos para dez dias, e dentro de
algumas horas chegava a Nimacaze, três milhas a montante do Chengane, onde a Capelo o aguardava. “Confesso que,
quando cheguei a bordo — diz-nos — estive um tanto perplexo. Se marchasse
naquela noite podia o régulo, avisado a tempo, fugir, e eu perder assim ocasião
de o haver às mãos, e expunha a tropa às fadigas e privações que demandava uma
perseguição demorada.» É que depois de sair de Langüene, ao atravessar certa
povoação, lhe haviam aparecido dois enviados do Gungunhana com pontas de
marfim, a pedir que esperasse a bordo pelo régulo, pois, como outros, viria
pegar pé e prestar vassalagem. Recusou-se Mousinho a receber o dinheiro mas
respondeu que esperaria e fez prisioneiro um dos emissários, o Zaba.
Por
que veio a decidir-se o governador de Gaza?
Ele próprio no-lo conta: «Um facto inesperado veio acabar com esta
indecisão. Durante a tarde tinham chegado mais guerras e à noite chegou a do Culo ou Cuio (irmão de Muzila). Às
doze horas um preto gritou de terra que queria vir a bordo; mandei-o buscar.
Era um homem do Cuio que vinha dizer que o Gungunhana aproveitara a saída da
gente de guerra daquele, para o mandar prender pelo chefe Vuiâna, cuja povoação
ficava a duas ou três horas de Zimacaze no caminho de Chaimite. Dei logo ordem
para que às três horas se efectuasse o desembarque, a despeito da chuva e
escuridão.»
Às quatro recomeçou a marcha, que se fez
sempre nas mais árduas condições. Voltara a época das chuvas e no intervalo, de
dilúvio a dilúvio, o sol rompia impiedosamente calcinante. Antes de partir
mandara Mousinho dizer às guerras que tinham ficado na margem direita que se
quisessem podiam voltar a suas casas, tendo então esta bravata que ele mesmo,
risonhamente, classsificou de espanholada:
— Bastam os brancos que vão comigo para bater
todo o Bilene!
A confiança que as armas portuguesas infundiam e as
perspectivas de saque, levaram contudo uma a uma a atravessar, durante a
madrugada, o rio, e às oito horas todas iam reunir-se à minúscula tropa. Assim
que a povoação do Vuiana estava próxima foi Mousinho juntar-se à guerra do Cuio
a-fim-de a fazer avançar contra ela. «A princípio — escreve — deixaram-me ir na
frente, a uns 20 ou 30 metros de distância, mas logo que com o grande alcance
de vista de que dispõem, perceberam que na povoação não estava gente de guerra,
correram sobre ela como galgos.» Quando lá chegou já dois homens tinham sido
azagaiados, formavam-se lotes de mulheres e crianças, um paroxismo de pilhagem
enlouquecera os assaltantes. Logo o fundo generoso de Mousinho reagiu,
impondo-se com energia à onda saquiante, que se submeteu sem compreender; e
ordenou que se desse liberdade às mulheres, às crianças, que todos os objectos
já roubados fossem repostos no chão, excepto comida; que apenas se apartassem
dez bois para o Cuio, como indemnização, e para o Governo dez vacas, como
multa. Isto feito, mandou que a guerra preta passasse outra vez para a frente
dos brancos, que entrementes haviam feito alto.
Prosseguiu a rude marcha, durante oito horas úteis, em que foi feita por
vezes a passo mais que ordinário. Toda a gente estava exausta. A miude, até às
proximidades de Chaimite, os pés afundavam-se em tremedais, houve mesmo que
atravessar com água pêlos joelhos, um vasto pântano. Quando não era isto
franqueava-se aos homens caminho sobre areia dura, que escaldava. «No bivaque
de 27, em Matacana —
informa Mousinho (5) — causava dó ver rapazes tão robustos pela maior parte,
estendidos em cima dos capotes, no chão ensopado de água, indiferentes ao sol e
à chuva, tão cansados que muitos nem para buscar o rancho se levantavam. E mais
doente que todos estava talvez o comandante da força europeia, o tenente
Miranda.» Já o Sacanaca tornara a aparecer, acompanhando Godide, filho do
régulo, que trazia 63 bois, 510 libras, 2 grandes pontas de marfim, 10 mulheres
de Matibejana e novo pedido do Gungunhana para que Mousinho não continuasse a
avançar...
"— Ficarei — respondeu o comandante da
coluna — esta noite e ainda o dia de amanhã, à espera. Mas se o régulo não
aparecer, mandarei fusilar o Godide e o Zaba!...
E por ardil acrescentou:
— Podes também
dizer que não avanço mais, mas que se o não faço é porque os brancos estão tão
cansados que não podem continuar a marchar!...
Este recado deveria tranquilizar o
Gungunhana. Na verdade que perigo teria ele a temer dum punhado de homens
naquele momento por completo arrasados pela fadiga? Não lhe seria possível entretê-los
por mais alguns dias, para surgir depois de repente com os seus mais decididos
guerreiros, a tirar com o massacre, a desforra das afrontas, dos ardimentos que
até ali tivera que suportar? Permitindo que tais esperanças embalassem o
espírito sem dúvida inquieto do Gungunhana, Mousinho conseguiria fixá-lo por
algum tempo no fojo a que ele se acoitara, sob a maga protecção do defunto
Manicusse, e graças a isto deitar-lhe a mão. Quási toda a noite caíra
incessantemente a chuva. O grande capitão de África pouco havia dormido. Cada
vez mais, contou algures, se enraizava no seu espírito a ideia de não voltar
atrás senão com o régulo aprisionado ou com a sua cabeça (6). Quando, na imensa
chã em que acampara soou nas cornetas o sinal de erguer, havia o tempo
melhorado. E foi sempre sobre terreno francamente descoberto, que a minúscula
tropa prosseguiu a marcha naquele novo dia — 28 de Dezembro — feita a espaços
em acelerado. Porque era necessário chegar depressa, devorar o caminho...
Até que às seis da manhã, a meio duma planície de areia e de morros de
muchem, se avistou Chaimite.
Chaimite!
Que corações não estremeceram naquele
momento? Nem uma hesitação. Qual deles media todo o ousio daquela façanha? A
impaciência dominava as fibras mais obscuras das almas. Reprimindo a custo a
ânsia de encher os ares com um alegre clamor, a tropa branca avançava mais
apressadamente, lançara-se depois quási a correr para a frente!... Pelo
contrário as guerras pretas iam-se deixando ficar pouco a pouco para trás. Não
era além que se encontrava, protegido pelos feitiços do grande avô Manicusse,
entre os seus fiéis mais seguros e ferozes, as suas mulheres e os seus
misteriosos tesouros, o tremendo senhor, cujo olhar nenhum deles ousaria
fixar, cujo gesto fulminava como o raio? A dez minutos da palissada, Mousinho
ordenou que elas formassem em volta, da parte de fora. Só os brancos teriam o
direito de expor-se gloriosamente, transpondo, um a um, a única entrada
estreita, de alguns centímetros
apenas, que dava acesso à povoação. Chaimite — espécie de cidade santa dos
vátuas, era um aglomerado de vinte e cinco a trinta palhotas, que uma palissada
de um pouco mais de um metro de altura, envolvia, e a
que se entrelaçavam, tornando-a mais defensiva, espessos arbustos espinhosos.
Em Chaimite, como no passado, deviam ter ocorrido ainda há pouco espantosas
carnificinas, em holocausto aos deuses e aos manes. Sobre o capim amontoavam-se
caveiras, um intenso cheiro a carne podre, de cadáveres expostos no mato às
hienas, saturava o ambiente (7). Assim que o círculo das guerras foi mais apertado,
Mousinho, de espada desembainhada, seguido dos companheiros, precipitou-se
sobre a palissada e soberbo de força, de audácia, não tardava a surgir aos
olhos da gente inimiga. Os pretos que havia armados de espingarda e que o
poderiam ter abatido à queima-roupa, nem um gesto esboçaram, de castigo.
Outros, clamorosamente, corriam à procura de refúgio. Estacando em frente da
palhota que lhe fora indicada como aposento do régulo, gritou com voz poderosa
e intimativa:
— Gungunhana! Gungunhana!...
E perante
o silêncio que, ao sentir aluir com o seu império o seu grande destino
africano, o potentado parecia apostado em manter, já Mousinho se preparava para
mandar lançar fogo à cubata, quando viu aparecer o régulo, ainda arrogante,
desdenhoso, com uma expressão inquiridora de censura.
Os lábios
iam a abrir-se-lhe, talvez numa pregunta: «Que pretendes?», mas logo dois
negros, subjugando-o, lhe prenderam os braços, atando-lhos atrás das costas.
— Senta-te! — ordenou o herói.
Dentro de Chaimite havia cerca de 300
homens!
Cioso da sua
dignidade, a-pesar-de verificar que já não podia contar com ninguém para o
defender, quis o Gungu-nhana, olhando em volta, saber onde o deveria fazer,
pois não via ali nem sequer um pedaço de esteira.
Por toda
a resposta Mousinho apenas lhe apontou, com império, o chão. Ali mesmo.
— Está sujo! — volveu, sem quebrar, o
régulo.
— Senta-te!... — insistiu Mousinho.
E como Gungunhana continuasse
a manifestar relutância, pois sentar-se sobre a terra era coisa que nunca
fizera, obrigou-o a submeter-se ao vexame que lhe inflingia.
Mousinho atirou-lhe então à face estas
palavras:
— Já não és
régulo dos Manguni, mas um matonga como qualquer outro! (8)
Uma insolente
gritaria rompeu nessa ocasião fora da palis-sada.
O Gungunhana sentado na terra!
E berrando,
apostrofando, batendo com as azagaias nas rodelas, as guerras vaiavam o régulo,
aclamavam o Vencedor.
O curto e dramático diálogo prosseguiu:
— Onde está o Queto? O Manhune? O Molungo?
O Maguiguana?
O Gungunhana
indicou os dois primeiros; estavam ao pé dele.
— Os outros?
—— Não estão aqui.
Dirigindo-se depois ao Manhune, a «alma danada», Mousinho exprobou-o de haver
sido sempre inimigo implacável e injusto dos Portugueses.
— Sabes que
sorte mereces?
— Sei. A
morte!... — respondeu o negro.
Então Mousinho mandou-o amarrar a uma estaca da palissada e fê-lo passar
pelas armas dum pelotão formado por três soldados brancos.
«Não é possível — lê-se no relatório já citado — morrer com mais
sangue-frio, altivez e verdadeira heroicidade; apenas disse, sorrindo, que era
melhor desamarrá-lo para poder cair quando lhe dessem os tiros.»
Igual sorte, à
vista também do Gungunhana, teve o Queto.
Que a alma do homem que, certa vez, a um leproso,
dera quanto amealhara para um gozo de alguns dias, devia sofrer neste instante,
dizem algumas linhas sem retoque que ele escreveu: «Estas duas execuções produziram
na guerra preta um entusiasmo indescritível, que manifestaram com ruidosos e
repetidos baietes, o que mostra bem que eles confundem perfeitamente a força
e coragem, com a crueldade, e que é absolutamente necessário destes exemplos
para os dominar e fazer-nos respeitar.»
Impincazamo,
a mãe do régulo, acudindo, trágica, as mãos agarradas à carapinha, foi
prostrar-se aos pés do Vencedor. E chorou... com os olhos levantados para ele,
exprimindo na atitude do magro corpo de azeviche, a sua alma dolorida... Pobre
Impincazamo!... Também o seu coração era branco. Então Mousinho foi brando,
compadecido, procurou tranquilizá-la:
— Volta às tuas terras, porque foste sempre amiga dos Portugueses. A
ninguém consentirei que te faça mal...
Mas não era isso que ela suplicava. E Impincazamo
teimava em ajoelhar de novo, até lhe arrancar uma promessa.
— Não os
mates! Não os mates, senhor!... Os seus olhos rasos de água, os seus braços
indicavam o filho e o neto.
— Sossega! —
tornou o Herói.
E Mousinho disse-lhe que acerca do
régulo só o Rei podia resolver, mas que o Rei era magnânimo; que Godide nada
sofreria, que acompanharia, como ela pedia, o pai na viagem.
Já o Gungunhana parecia um trapo. Entregara 1.000
libras e 8 diamantes, declarando que dava tudo que tinha consigo; depois mandou
recado ao filho Ipisota para trazer todo o gado que havia posto a recato e
expediu a Manjacaze alguns homens pelo marfim, que ali fizera enterrar.
De novo a chuva começava a cair torrencialmente. Era preciso voltar ao
Limpopo, de que tanto estavam distanciados. No meio do maior contentamento
meteu, pois, a pequenina coluna, com os seus prisioneiros, pés ao caminho e,
sempre debaixo de água, chegava na manhã de 30 a Zimacaze, onde embarcou. Ao
longo da margem direita havia formado a gente de guerra que fora a Chaimite. Já
a bordo Mousinho, num ofegante desabafo de patriotismo, soltou alguns vivas: ao
rei, a Portugal, à força armada, com igual ardor correspondidos pêlos seus
homens.
Em terra os pretos erguiam ruidosamente os seus bayetes e entoavam uma típica canção de guerra: a Incuaia.
Ouviu-se depois uma salva de vinte e um tiros. A seguir, a Capelo levantou ferro e começou
lentamente a navegar, a descer o rio... Até que ao cabo duma viagem de algumas
horas sem a peripécia, tão costumada, de qualquer encalhe, atingiu, pela tarde
Langüene.
Terminara — como escreveu
Mousinho — o predomínio do último dos três grandes povos guerreiros e
poderosos, independentes de facto, que existiam na África Central: Zulus,
Matabeles e Vatuas.
Que de espantosas coisas
a contar, — pensava agora cada soldadinho, — logo que os peitos voltassem a
respirar os ares das aldeias natais!
— E puderam vocês, sendo tão poucos, fazer
tudo isso! — exclamariam com pasmo velhos e novos, ouvindo a rude crónica do feito.
A alma poética da arraia-miuda portuguesa sonhava já...
Embora por outras palavras, cada qual
explicaria como o personagem do auto vicentino:
Que na guerra
com razão
Anda Deus por
capitão!
E Mousinho?
Esse deveria escrever mais
tarde, singela, sinceramente: “Ainda hoje me causa espanto a maneira como
aquilo se passou!» (9)
(1) Posto na margem direita do rio Limpopo, a 70
milhas da barra. Apreciando a sua situação, escreveu Mousinho no relatório
sobre Chaimite: «Sendo o objectivo principal de quaisquer operações
empreendidas pela guarnição militar de Gaza aprisionar, ou pelo menos afugentar
para fora do território do distrito, o régulo Gungunhana, o qual se achava ao
norte do Limpopo, não se pode perceber que se colocasse o posto na margem
direita, não sendo de mais a mais o rio navegável senão a bastante distância,
e isso mesmo só na época da máxima estiagem».
(2) No dia 13 de Dezembro dois enviados do Gungunhana
apresentavam-se ao tenente Sanches de Miranda. Traziam o Matibetjna com duas
mulheres para assistirem à morte do marido! Não atendeu o governador do posto à
cruel recomendação, transmitida sob a forma categórica de ordem. Sanches de
Miranda despedindo os emissários, mandou dizer ao régulo que entregasse também
o Mahazul e todas as mulheres, gado e dinheiro dos chefes que se haviam
levantado contra nós.
(3) Referiu Mousinho na Conferência realizada no
Centro Comercial do Porto, em Janeiro de 1898. «Todas as considerações eram
prestadas ao misterioso potentado, cujas boas graças se desejava conquistar, e
de tal modo eram impostas, que, quando governador de Lourenço Marques, eu
cheguei a mandar preguntar para Lisboa se devia subscrever as ordens que tinha
a ditar, «por graça de S. M. El-Rei de Portugal» ou «por graça de S. M. El-Rei
Gungunhana». Os abusos e imposições do régulo aumentavam com esta
subserviência, ao passo que progrediam as suas maquinações e conspirações.»
(4) «Levando só 47 praças brancas (2 tinham
adoecido), dispus a força da forma seguinte: 6 praças da 1." fileira e 6
da 2.", quando se formasse quadrado, formavam a face da frente; 12 praças
da 1." fileira a face da esquerda, e 12 da 2." fileira a da direita;
da 1." e da 2.' fileiras formavam a face da retaguarda.» (Mousinho, Relatório do Cons.° Lança, gov. geral int.
de Moçambique). Teve razão Campos Júnior em escrever que Mousinho é
nesta circunstância «bem o emulo de Duarte Pacheco nas páginas de ouro do
esforço português».
(5) Chaimíte.
Capítulo de A campanha das
tropas portuguesas em Lourenço Marques e Inhambane, em que colaboraram
também Aires de Orneias e Paiva Couceiro. Edição da Livraria Gomes. Lisboa,
1897.
(6) Relatório anteriormente
citado, ao cons." Lança, governador geral interino de Moçambique.
(7) Descrição decalcada
sobre o que Mousinho
fez no relatório
ao cons.° Lança.
(8) Matonga — define o sr. Julião Quintinha
no seu trabalho A. derrocada do
Império Vátua, em que teve por colaborador o sr. F. Toscano, combatente
e pioneiro de África, — é um indivíduo vulgar nas tríbus negras do sul de
Moçambique.
(9)No capítulo de A. campanha das tropas portuguesas, atrás citado