VI

 

     Chegado a Langüene (1) soube Mousinho que o Gungunhana embora negociasse com o comandante do posto, tenente Sanches de Miranda, a entrega de Matibejana (2), não desistia de voltar à resistência. A sua fuga estaria longe, por conseguinte, de equivaler ao total abandono da própria causa, a-pesar de obscurecida a estrela que por largo espaço o acompanhara, graças à qual o império se lhe dilatara sobre as terras do Sul, havia podido jactar-se do título insigne de «rei de Gaza» (3) e fazer-se por igual temido de negros e brancos. Não era por enquanto um poder esfacelado e bastar-lhe-ia até o recurso a pequenas correrias e sortidas para sus­tentar um resto de prestígio, para opor à empresa de pacifi­cação com que o génio organizador de Mousinho sonhava ao ir governar o novo distrito, sérios obstáculos que poderiam para­lisá-la ou pelo menos retardá-la, deminuindo ao mesmo tempo a confiança indígena nas nossas armas. Seria a desforra dos desastres sofridos em Marracuene, em Magul, nas margens do Limpopo, — que durante muito tempo tinham servido de van­tajosos parapeitos contra os ataques da minúscula e atrevida flotilha portuguesa, — em Coolela e por último com o incêndio do kraal em Manjacaze. Certo era que a Langüene um grande número de chefes de terras apareciam a pegar pé e a prestar vassalagem. O próprio facto, porém, de todos eles suplicarem em gestos e palavras, que exprimiam suficientemente a inquie­tação sentida, o aprisionamento do Gungunhana, cujos bandos não cessavam de praticar assassínios e depredações, mostrava quanto poderiam ser precárias, insubsistentes, aquelas adesões, enquanto sobre elas pairasse terrível a ameaça do régulo.

      Havia sido intento de Mousinho, manobrando com o que lhe restava do esquadrão de lanceiros e com a polícia montada que ia organizar em Gaza, castigar em constantes razias régulos e povos que se conservassem mais ou menos fiéis ao potentado, forçando-os deste modo a virem para o nosso lado. Assim previa uma série de expedições um tanto aventurosas, com as quais demonstraria que mais do que nenhuma outra, a arma de cavalaria podia e devia em África prestar grandes serviços, o que por muitas e variadas razões, a que a sua von­tade fora sempre estranha, ainda não tinha conseguido fazer durante a campanha. Por isso aceitara «com o maior contenta­mento» o convite para governar Gaza. Mal chegado a Langüene a ideia de prender o Gungunhana, — ideia que em 1891 ao seu espírito e ao de Caldas Xavier, em conversas na residência, acudira como indispensável, tanto ao domínio da soberania como à instituição dum estado normal de coisas civilizador, — impôs-se-lhe com mais força que nunca, inelutável, e ensurde­cia-o a todas as recomendações de prudência que lhe dirigiram. Ou havia que prender, — tal o dilema que se apresentava, con­forme conta no relatório do famoso feito, — matar, se fosse pre­ciso, o Gungunhana dentro de poucos dias, ou a pouco e pouco todo o prestígio das nossas armas se iria obliterando no ânimo daqueles povos e o régulo iria reunindo gente de guerra, recupe­rando força, fazendo voltar à obediência -muitos dos que o tinham abandonado. Pareceu a Mousinho que não precisava de cansar-se com sucessivos raids. “Uma única empresa [havia] a tentar por muito trabalhosa e arriscada que fosse: era a acção decisiva e final da prisão do régulo”, correndo para isso a Chaimite, onde o davam nessa altura, ocupado em cerimónias mágicas ide acordar, na sepultura, o grande avô Manicusse, de quem esperava alcançar poderoso feitiço que o livrasse de cair às mãos do inimigo branco...

Marchou Mousinho imediatamente?

Não.

É que no seu génio, frequentemente, heroísmo e reflexão se associavam, — volte a repetir-se, — ao contrário do que as suas arremetidas levam muitas vezes a supor.

«Se tenho marchado, — reconhecia na mesma página, — sobre Chaimite, logo que cheguei ao Langüene, talvez tivesse sido loucura, não sei se heróica se não, mas provavelmente mal sucedida. Em dez dias, porém, tive tempo de preparar o ânimo dos indígenas.»

De que modo?

«A mínima desobediência, — continua, — ou simples de­mora no cumprimento duma ordem minha, era imediata e severa, para não dizer barbaramente castigada a chicote de cavalo marinho, e um preto convicto de espião foi fusilado e queimado o seu cadáver diante de 300 mabuingelas e manguni, que se haviam reunido por minha ordem. Não se pense que goste de ver matar indígenas a sangue frio, ou de os ver estorcer-se atagantados pelo spambock, mas percebera que o Gungunhana ainda era muito temido e respeitado, devido em parte às mortes que todos os dias mandava fazer, e, por isso, sem sair dos processos a que me cingia a minha qualidade de homem civilizado, fiz o possível por inspirar um terror igual ao que espalhava em torno de si o régulo vátua. E quando me pareceu havê-lo conseguido, marchei sobre ele.»

      Nada estava contudo disposto para a empresa. Postos, só havia os de Inharrime, Chicomo e Langüene. Como fosse seu intento dar à cavalaria a glória do cometimento, remate da cam­panha, pediu cavalos a Chicomo. Dali, porém, responderam--Ihe que de 20 que existiam só 5 poderiam ser utilizados, e o capitão Sarsfield, comandante do posto, explicava que seme­lhante estado de fraqueza geral fora produzido pela fome que sofrera o gado na marcha para o Manjacaze, em que apenas tivera quatro dias de ração reduzida, e pela circunstância também de 1 a 15 de Dezembro estar sem ração alguma, visto não haver na região possibilidade de a obter!

Faria em tal caso a marcha a pé.

Era necessário pôr termo quanto antes ao arreganho vátua, liquidando o Gungunhana.

Mas seria possível apanhá-lo com menos de cinquenta infantes arrasados, os únicos que havia válidos? (4)

«Seja-me lícito afirmar, — referiu Mousinho no mesmo tra­balho, — que esta resolução, calando fundo no ânimo dos ofi­ciais e praças que me acompanhavam, evidenciando-se aos indí­genas que muito se espantaram da exiguidade das forças de que eu dispunha para uma empresa que se lhes afigurava tanto mais perigosa quanto era o medo que o régulo lhes inspirava, foi o principal factor do aprisionamento deste potentado, por­que incutiu nos soldados um entusiasmo que os fez vencer fadigas e arrostar perigos com alegria e boa vontade deveras surpreendentes, atendendo para mais ao estado de saúde da maior parte.»

      Ao valor desses soldados devia Mousinho voltar a prestar, homenagem no seu grande livro Moçambique, pondo-o em con­traste com o malfadado jogo da política dos tempos: «Embora se diga — escreveu — que cada povo tem o governo que merece, não há dúvida que o nosso merecia melhor. É tão trabalhador e paciente, tão corajoso e simples! Em África, mais que em parte alguma, se revelam estas qualidades, pela firmeza e sangue-frio que demonstram nos combates, pela resignação alegre com que suportam as privações mais duras, serenidade e igualdade de ânimo e a densidade das matas escondem e que, por isso mesmo, são a maior prova por que passa a coragem e impassibilidade das tropas.» Que palavras mais belas e eloquentes que estas, do grande capitão, poderiam ins­crever-se na base de qualquer monumento ao herói humilde," — ao soldado que o acompanhou e a outros que, depois dele. têm acrescentado a fama do nome português?

* *        *

Rompera o dia — dia de Natal de 1896.

Muito longe, nas aldeias de Portugal, àquela hora, enquanto os clarins soavam no posto solitário, à formatura, cantava o galo, repicavam sinos... Que fariam naquele momento mais, irmãs, namoradas?... Viam-nos com olhos do pensamento sau­doso, cobravam porventura ânimo com a esperança do outro Natal a vir, em que aqueles que não tombassem sobre a terra africana seriam, junto à lareira familiar, os cronistas singelos mas desvanecidos daquela aventura, escutada com pasmo por toda a gente, com enlevo principalmente por elas, as boas mu­lheres. Não era preciso sofrer pela glória de Portugal? Corações ao largo, pois que na volta, colhida a vitória, tempo haveria para cantar!...

Pouco depois, na Capelo, com o tenente Sanches de Miranda e o médico Amaral, embarcavam os soldadinhos: rapazes da artilharia, da infantaria, além de uma praça indígena.

       No dia seguinte marchou por terra Mousinho com o tenente graduado Couto, um soldado de cavalaria, o intérprete, 207 auxiliares e 76 carregadores, com mantimentos para dez dias, e dentro de algumas horas chegava a Nimacaze, três milhas a montante do Chengane, onde a Capelo o aguardava. “Con­fesso que, quando cheguei a bordo — diz-nos — estive um tanto perplexo. Se marchasse naquela noite podia o régulo, avisado a tempo, fugir, e eu perder assim ocasião de o haver às mãos, e expunha a tropa às fadigas e privações que deman­dava uma perseguição demorada.» É que depois de sair de Langüene, ao atravessar certa povoação, lhe haviam aparecido dois enviados do Gungunhana com pontas de marfim, a pedir que esperasse a bordo pelo régulo, pois, como outros, viria pegar pé e prestar vassalagem. Recusou-se Mousinho a rece­ber o dinheiro mas respondeu que esperaria e fez prisioneiro um dos emissários, o Zaba.

Por que veio a decidir-se o governador de Gaza?

Ele próprio no-lo conta: «Um facto inesperado veio acabar com esta indecisão. Durante a tarde tinham chegado mais guerras e à noite chegou a do Culo ou Cuio (irmão de Muzila). Às doze horas um preto gritou de terra que queria vir a bordo; mandei-o buscar. Era um homem do Cuio que vinha dizer que o Gungunhana aproveitara a saída da gente de guerra daquele, para o mandar prender pelo chefe Vuiâna, cuja po­voação ficava a duas ou três horas de Zimacaze no caminho de Chaimite. Dei logo ordem para que às três horas se efectuasse o desembarque, a despeito da chuva e escuridão.»

       Às quatro recomeçou a marcha, que se fez sempre nas mais árduas condições. Voltara a época das chuvas e no intervalo, de dilúvio a dilúvio, o sol rompia impiedosamente calcinante. Antes de partir mandara Mousinho dizer às guerras que tinham ficado na margem direita que se quisessem podiam voltar a suas casas, tendo então esta bravata que ele mesmo, risonhamente, classsificou de espanholada:

Bastam os brancos que vão comigo para bater todo o Bilene!

A confiança que as armas portuguesas infundiam e as perspectivas de saque, levaram contudo uma a uma a atra­vessar, durante a madrugada, o rio, e às oito horas todas iam reunir-se à minúscula tropa. Assim que a povoação do Vuiana estava próxima foi Mousinho juntar-se à guerra do Cuio a-fim-de a fazer avançar contra ela. «A princípio — escreve — deixaram-me ir na frente, a uns 20 ou 30 metros de distância, mas logo que com o grande alcance de vista de que dispõem, perceberam que na povoação não estava gente de guerra, cor­reram sobre ela como galgos.» Quando lá chegou já dois homens tinham sido azagaiados, formavam-se lotes de mulheres e crian­ças, um paroxismo de pilhagem enlouquecera os assaltantes. Logo o fundo generoso de Mousinho reagiu, impondo-se com energia à onda saquiante, que se submeteu sem compreender; e ordenou que se desse liberdade às mulheres, às crianças, que todos os objectos já roubados fossem repostos no chão, excepto comida; que apenas se apartassem dez bois para o Cuio, como indemnização, e para o Governo dez vacas, como multa. Isto feito, mandou que a guerra preta passasse outra vez para a frente dos brancos, que entrementes haviam feito alto.

      Prosseguiu a rude marcha, durante oito horas úteis, em que foi feita por vezes a passo mais que ordinário. Toda a gente estava exausta. A miude, até às proximidades de Chaimite, os pés afundavam-se em tremedais, houve mesmo que atravessar com água pêlos joelhos, um vasto pântano. Quando não era isto franqueava-se aos homens caminho sobre areia dura, que escaldava. «No bivaque de 27, em Matacana — informa Mousinho (5) — causava dó ver rapazes tão ro­bustos pela maior parte, estendidos em cima dos capotes, no chão ensopado de água, indiferentes ao sol e à chuva, tão cansados que muitos nem para buscar o rancho se levantavam. E mais doente que todos estava talvez o comandante da força europeia, o tenente Miranda.» Já o Sacanaca tornara a apa­recer, acompanhando Godide, filho do régulo, que trazia 63 bois, 510 libras, 2 grandes pontas de marfim, 10 mulheres de Matibejana e novo pedido do Gungunhana para que Mou­sinho não continuasse a avançar...

  "— Ficarei — respondeu o comandante da coluna — esta noite e ainda o dia de amanhã, à espera. Mas se o régulo não aparecer, mandarei fusilar o Godide e o Zaba!...

E por ardil acrescentou:

— Podes também dizer que não avanço mais, mas que se o não faço é porque os brancos estão tão cansados que não podem continuar a marchar!...

        Este recado deveria tranquilizar o Gungunhana. Na ver­dade que perigo teria ele a temer dum punhado de homens naquele momento por completo arrasados pela fadiga? Não lhe seria possível entretê-los por mais alguns dias, para surgir de­pois de repente com os seus mais decididos guerreiros, a tirar com o massacre, a desforra das afrontas, dos ardimentos que até ali tivera que suportar? Permitindo que tais esperanças emba­lassem o espírito sem dúvida inquieto do Gungunhana, Mou­sinho conseguiria fixá-lo por algum tempo no fojo a que ele se acoitara, sob a maga protecção do defunto Manicusse, e graças a isto deitar-lhe a mão. Quási toda a noite caíra incessantemente a chuva. O grande capitão de África pouco havia dormido. Cada vez mais, contou algures, se enraizava no seu espírito a ideia de não voltar atrás senão com o régulo aprisionado ou com a sua cabeça (6). Quando, na imensa chã em que acam­para soou nas cornetas o sinal de erguer, havia o tempo melhorado. E foi sempre sobre terreno francamente desco­berto, que a minúscula tropa prosseguiu a marcha naquele novo dia — 28 de Dezembro — feita a espaços em acelerado. Porque era necessário chegar depressa, devorar o caminho...

Até que às seis da manhã, a meio duma planície de areia e de morros de muchem, se avistou Chaimite.

Chaimite!

       Que corações não estremeceram naquele momento? Nem uma hesitação. Qual deles media todo o ousio daquela faça­nha? A impaciência dominava as fibras mais obscuras das almas. Reprimindo a custo a ânsia de encher os ares com um alegre clamor, a tropa branca avançava mais apressadamente, lançara-se depois quási a correr para a frente!... Pelo contrário as guerras pretas iam-se deixando ficar pouco a pouco para trás. Não era além que se encontrava, protegido pelos feitiços do grande avô Manicusse, entre os seus fiéis mais seguros e ferozes, as suas mulheres e os seus misteriosos tesouros, o tre­mendo senhor, cujo olhar nenhum deles ousaria fixar, cujo gesto fulminava como o raio? A dez minutos da palissada, Mousinho ordenou que elas formassem em volta, da parte de fora. Só os brancos teriam o direito de expor-se gloriosamente, trans­pondo, um a um, a única entrada estreita, de alguns centímetros apenas, que dava acesso à povoação. Chaimite — espécie de cidade santa dos vátuas, era um aglomerado de vinte e cinco a trinta palhotas, que uma palissada de um pouco mais de um metro de altura, envolvia, e a que se entrelaçavam, tornando-a mais defensiva, espessos arbustos espinhosos. Em Chaimite, como no passado, deviam ter ocorrido ainda há pouco espantosas carnificinas, em holocausto aos deuses e aos manes. Sobre o capim amontoavam-se caveiras, um intenso cheiro a carne podre, de cadáveres expostos no mato às hienas, saturava o ambiente (7). Assim que o círculo das guerras foi mais aper­tado, Mousinho, de espada desembainhada, seguido dos com­panheiros, precipitou-se sobre a palissada e soberbo de força, de audácia, não tardava a surgir aos olhos da gente inimiga. Os pretos que havia armados de espingarda e que o poderiam ter abatido à queima-roupa, nem um gesto esboçaram, de cas­tigo. Outros, clamorosamente, corriam à procura de refúgio. Estacando em frente da palhota que lhe fora indicada como aposento do régulo, gritou com voz poderosa e intimativa:

— Gungunhana! Gungunhana!...

E perante o silêncio que, ao sentir aluir com o seu império o seu grande destino africano, o potentado parecia apostado em manter, já Mousinho se preparava para mandar lançar fogo à cubata, quando viu aparecer o régulo, ainda arrogante, desde­nhoso, com uma expressão inquiridora de censura.

Os lábios iam a abrir-se-lhe, talvez numa pregunta: «Que pretendes?», mas logo dois negros, subjugando-o, lhe prenderam os braços, atando-lhos atrás das costas.

— Senta-te! — ordenou o herói.

Dentro de Chaimite havia cerca de 300 homens!

Cioso da sua dignidade, a-pesar-de verificar que já não podia contar com ninguém para o defender, quis o Gungu-nhana, olhando em volta, saber onde o deveria fazer, pois não via ali nem sequer um pedaço de esteira.

Por toda a resposta Mousinho apenas lhe apontou, com império, o chão. Ali mesmo.

— Está sujo! — volveu, sem quebrar, o régulo.

— Senta-te!... — insistiu Mousinho.

E como Gungunhana continuasse a manifestar relutância, pois sentar-se sobre a terra era coisa que nunca fizera, obrigou-o a submeter-se ao vexame que lhe inflingia.

Mousinho atirou-lhe então à face estas palavras:

— Já não és régulo dos Manguni, mas um matonga como qualquer outro! (8)

Uma insolente gritaria rompeu nessa ocasião fora da palis-sada.

O Gungunhana sentado na terra!

E berrando, apostrofando, batendo com as azagaias nas rodelas, as guerras vaiavam o régulo, aclamavam o Vencedor.

O curto e dramático diálogo prosseguiu: — Onde está o Queto?  O Manhune?  O Molungo?  O Maguiguana?

O Gungunhana indicou os dois primeiros; estavam ao pé dele.

— Os outros?

—— Não estão aqui.

 

Dirigindo-se depois ao Manhune, a «alma danada», Mousinho exprobou-o de haver sido sempre inimigo implacável e injusto dos Portugueses.

— Sabes que sorte mereces?

— Sei. A morte!... — respondeu o negro.

Então Mousinho mandou-o amarrar a uma estaca da palissada e fê-lo passar pelas armas dum pelotão formado por três soldados brancos.

«Não é possível — lê-se no relatório já citado — morrer com mais sangue-frio, altivez e verdadeira heroicidade; apenas disse, sorrindo, que era melhor desamarrá-lo para poder cair quando lhe dessem os tiros.»

Igual sorte, à vista também do Gungunhana, teve o Queto.

Que a alma do homem que, certa vez, a um leproso, dera quanto amealhara para um gozo de alguns dias, devia sofrer neste instante, dizem algumas linhas sem retoque que ele escre­veu: «Estas duas execuções produziram na guerra preta um entusiasmo indescritível, que manifestaram com ruidosos e repe­tidos baietes, o que mostra bem que eles confundem perfeita­mente a força e coragem, com a crueldade, e que é absoluta­mente necessário destes exemplos para os dominar e fazer-nos respeitar.»

Impincazamo, a mãe do régulo, acudindo, trágica, as mãos agarradas à carapinha, foi prostrar-se aos pés do Vencedor. E chorou... com os olhos levantados para ele, exprimindo na atitude do magro corpo de azeviche, a sua alma dolorida... Pobre Impincazamo!... Também o seu coração era branco. Então Mousinho foi brando, compadecido, procurou tranqui­lizá-la:

— Volta às tuas terras, porque foste sempre amiga dos Portugueses. A ninguém consentirei que te faça mal...

Mas não era isso que ela suplicava. E Impincazamo teimava em ajoelhar de novo, até lhe arrancar uma promessa.

— Não os mates! Não os mates, senhor!... Os seus olhos rasos de água, os seus braços indicavam o filho e o neto.

— Sossega! — tornou o Herói.

 E Mousinho disse-lhe que acerca do régulo só o Rei podia resolver, mas que o Rei era magnânimo; que Godide nada sofreria, que acompanharia, como ela pedia, o pai na viagem.

Já o Gungunhana parecia um trapo. Entregara 1.000 libras e 8 diamantes, declarando que dava tudo que tinha consigo; depois mandou recado ao filho Ipisota para trazer todo o gado que havia posto a recato e expediu a Manjacaze alguns homens pelo marfim, que ali fizera enterrar.

De novo a chuva começava a cair torrencialmente. Era preciso voltar ao Limpopo, de que tanto estavam distanciados. No meio do maior contentamento meteu, pois, a pequenina coluna, com os seus prisioneiros, pés ao caminho e, sempre debaixo de água, chegava na manhã de 30 a Zimacaze, onde embarcou. Ao longo da margem direita havia formado a gente de guerra que fora a Chaimite. Já a bordo Mousinho, num ofegante desabafo de patriotismo, soltou alguns vivas: ao rei, a Portugal, à força armada, com igual ardor correspondidos pêlos seus homens.

Em terra os pretos erguiam ruidosamente os seus bayetes e entoavam uma típica canção de guerra: a Incuaia.

Ouviu-se depois uma salva de vinte e um tiros. A seguir, a Capelo levantou ferro e começou lentamente a navegar, a descer o rio... Até que ao cabo duma viagem de algumas horas sem a peripécia, tão costumada, de qualquer encalhe, atingiu, pela tarde Langüene.

Terminara — como escreveu Mousinho — o predomínio do último dos três grandes povos guerreiros e poderosos, indepen­dentes de facto, que existiam na África Central: Zulus, Matabeles e Vatuas.

Que de espantosas coisas a contar, — pensava agora cada soldadinho, — logo que os peitos voltassem a respirar os ares das aldeias natais!

— E puderam vocês, sendo tão poucos, fazer tudo isso! — exclamariam com pasmo velhos e novos, ouvindo a rude cró­nica do feito.

A alma poética da arraia-miuda portuguesa sonhava já...

Embora por outras palavras, cada qual explicaria como o personagem do auto vicentino:

 

Que na guerra com razão

Anda Deus por capitão!

 

E Mousinho?

Esse deveria escrever mais tarde, singela, sinceramente: “Ainda hoje me causa espanto a maneira como aquilo se passou!» (9)

 

 

(1) Posto na margem direita do rio Limpopo, a 70 milhas da barra. Apreciando a sua situação, escreveu Mousinho no relatório sobre Chaimite: «Sendo o objectivo principal de quaisquer operações empreendidas pela guarnição militar de Gaza aprisionar, ou pelo menos afugentar para fora do território do distrito, o régulo Gungunhana, o qual se achava ao norte do Limpopo, não se pode perceber que se colocasse o posto na margem direita, não sendo de mais a mais o rio navegável senão a bas­tante distância, e isso mesmo só na época da máxima estiagem».

(2) No dia 13 de Dezembro dois enviados do Gungunhana apresen­tavam-se ao tenente Sanches de Miranda. Traziam o Matibetjna com duas mulheres para assistirem à morte do marido! Não atendeu o governador do posto à cruel recomendação, transmitida sob a forma categórica de ordem. Sanches de Miranda despedindo os emissários, mandou dizer ao régulo que entregasse também o Mahazul e todas as mulheres, gado e dinheiro dos chefes que se haviam levantado contra nós.

(3) Referiu Mousinho na Conferência realizada no Centro Comercial do Porto, em Janeiro de 1898. «Todas as considerações eram prestadas ao misterioso potentado, cujas boas graças se desejava conquistar, e de tal modo eram impostas, que, quando governador de Lourenço Marques, eu cheguei a mandar preguntar para Lisboa se devia subscrever as ordens que tinha a ditar, «por graça de S. M. El-Rei de Portugal» ou «por graça de S. M. El-Rei Gungunhana». Os abusos e imposições do régulo aumen­tavam com esta subserviência, ao passo que progrediam as suas maqui­nações e conspirações.»

(4) «Levando só 47 praças brancas (2 tinham adoecido), dispus a força da forma seguinte: 6 praças da 1." fileira e 6 da 2.", quando se for­masse quadrado, formavam a face da frente; 12 praças da 1." fileira a face da esquerda, e 12 da 2." fileira a da direita; da 1." e da 2.' fileiras formavam a face da retaguarda.» (Mousinho, Relatório do Cons.° Lança, gov. geral int. de Moçambique). Teve razão Campos Júnior em escrever que Mousinho é nesta circunstância «bem o emulo de Duarte Pacheco nas páginas de ouro do esforço português».

(5) Chaimíte. Capítulo de A campanha das tropas portuguesas em Lourenço Marques e Inhambane, em que colaboraram também Aires de Orneias e Paiva Couceiro. Edição da Livraria Gomes. Lisboa, 1897.

(6)    Relatório anteriormente citado, ao cons." Lança, governador geral interino de Moçambique.

(7)    Descrição   decalcada   sobre   o que   Mousinho   fez   no   relatório  ao cons.° Lança.

(8) Matonga — define o sr. Julião Quintinha no seu trabalho A. der­rocada do Império Vátua, em que teve por colaborador o sr. F. Toscano, combatente e pioneiro de África, — é um indivíduo vulgar nas tríbus ne­gras do sul de Moçambique.

(9)No capítulo de A. campanha das tropas portuguesas, atrás citado

 

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