V

 

O Comissário Régio esperava o milagre e o milagre pro­duziu-se.

Na verdade, para que o reconheçamos, bastará ter em conta, conforme no-lo refere António Enes, que nunca numa campanha africana os recursos foram mais desproporcionados ao êxito.

Desembarcando em Inhambane (1) as forças e outros ele­mentos destinados a formar a coluna do Norte, não encontra­vam preparados nem quartéis, nem armazéns, nem abrigos de qualquer sorte e por isso sobre o areal tudo teve que acomo­dar-se, à ardência do sol e à cacimba das noites: homens, animais, fardos de mantimentos, carros, bagagens, toda a vária impedimenta duma tropa a caminho. E como se isto não bastasse a tolher os preparativos da marcha, não tardavam as autoridades locais a sentir-se, pelas decisões de Galhardo, deminuídas, incomodadas na amolentada burocracia em que até ali haviam vegetado, a envolverem-se com ele na eterna briga das competências. Viu-se o Comissário Régio obrigado a inter­vir, e aparecendo um dia tratou de desfazer desde logo todos os ressentimentos, quantos atritos tinham resultado de regulamen­tos muitas vezes tomados demasiado à letra, e, por sua vez, regulamentou para a circunstância, tudo subordinando ao Comando da expedição. E tendo, por último, criado uma direc­ção de serviços de etapas, que confiou a Caldas Xavier, ordenou que se procedesse à ocupação de Chicomo. (2)

Seria oportuna a determinação?

      Não faltou quem respeitosamente lhe fizesse ver a conve­niência dum adiamento e, segundo ele próprio conta, foi Mou-sinho um dos oficiais que mais instaram nesse sentido, — por­menor que interessa principalmente por revelar-nos uma faceta do seu carácter, à primeira vista difícil de conciliar com a ima­gem formada ao explendor das horas de Chaimite, a «clássica» imagem dum Mousinho de irresistível ímpeto, a quem a bra­vura, o atrevimento pareciam cegar... E neste azo Mousinho aparece-nos com a feição dum homem reflectido, que sabe determinar-se em circunstâncias difíceis... A sua relutância com efeito justificava-se. Os cavalos de Durban não estavam em condições de servir, eram na maior parte sendeiros, manhosos, gastos no tiro de carroças. Havia, é certo, rece­bido em Inhambane mais cerca de cem, mas além de não terem igualmente ensino, pareciam franzinos, sem resistência. Como podia ele então demonstrar com tais azêmolas o valor, a eficácia da cavalaria na guerra sertaneja? Por isso pedia que lhe per­mitissem pôr, antes da coluna largar, em boas condições o esqua­drão que comandava. O esforço que até ali tivera de despen­der para que a sua tropa se apresentasse convenientemente mon­tada fora admirável, tão grande que “a curto trecho já nas ruas de Inhambane perpassavam em passeios ou galopadas pelotões de aguerrido aspecto, cujas manobras os negros espreitavam pávidos, protegendo-se com as esquinas das ruas. Na opinião desses espectadores boquiabertos, aquela tropa de zagaias gran­des, que corria como o vento, e podia saltar por cima das árvo­res, havia de agarrar o Gungunhana, se ele não mergulhasse nos pântanos como rã, ou não alteasse no ar como águia; mas o seu comandante não a julgava ainda feita. “Faz vista, dizia ele, mas qualquer homem do ofício descobre-lhe logo os fracos.” (3)

De nada haviam valido as razões que aduzira, e a 4 de Julho, porque o Comando se mostrava inflexível, teve o esquadrão de avançar para Cabane.

Seguiram-se-lhe outros elementos: a 4-a companhia de infan­taria 2, engenharia, etc. E, conforme o que fora prescrito, no dia 15 de Agosto, as tropas tomavam posições no Chicomo, tendo realizado uma extenuante marcha de mais de cem qui­lómetros sempre em som de guerra.

Constava nessa ocasião que o Matibejana estivera no Manjacaze e que ali aos pés do Gungunhana que, entretanto pre­tendia fazer crer na impossibilidade de deitar-lhe a mão, reno­vara preito de vassalagem, dirigindo-se depois para o Magul.

* *        *

      Ao conselheiro José de Almeida, a quem acompanhavam o tenente Aires de Orneias e uma força de lanceiros, fora come­tida a missão de levar a Gungunhana, junto de quem até há pouco exercera funções de residente, o ultimatum para a en­trega dos régulos rebeldes aliados e por ele protegidos. Prece­dido dum pitoresco cortejo de guerreiros emplumados, reves­tidos de «peles» de ferozes animais da selva, que executaram depois, em «honra» dos recem-chegados, a grande manobra dum envolvimento, viera o Gungunhana ao Manguanhana para recebê-lo e para conferenciar. Era «um homem alto que sem ter as magníficas feições de tantos dos seus, tinha-as sem dú­vida belas, testa ampla, olhos castanhos e um certo ar de grandeza, de superioridade.” (4) As discussões arrastaram-se. Além de dois grandes indunas na qualidade de reféns da en­trega do Mahazul e do Mabitejana, exigia-se-lhe a sujeição de todas as terras ao imposto de palhota, o reconhecimento do direito que o Governo tinha de estabelecer nelas postos militares; que o Gungunhana não tornasse a fazer guerra aos régulos e povos que se houvessem declarado vassalos da Coroa; o reconhecimento e o acatamento de todas as autoridades que entendêssemos dever estabelecer, o cumprimento de todas as ordens e instruções que delas dimanassem, etc. Gaza deixaria de ser — conforme Enes observou — um país estrangeiro. Quanto ao Gungunhana, que Almeida supunha naquele momento achar-se absolutamente preparado para uma séria resistência, continuava a protestar a sua amizade, tergiversava, apenas pretendia iludir... As suas habilidades, há muito notórias, es­tavam previstas, a ninguém surpreendiam.

O prazo do ultimatum expirou em 15 de Agosto sem que o vátua houvesse entregado qualquer dos rebeldes reclamados.

Começara mal aquele dia...

A bandeira ao ser içada, como de costume no mastro gran­de da residência, esfarrapara-se. Deveria ver Enes naquilo uma advertência, um agoiro? Recordando o pormenor e a coinci­dência de então fazer anos, confessou na narrativa dos aconte­cimentos: «Nunca tive e espero que não terei um aniversário mais desassossegado. Teria paz ou guerra? Devia de querer a guerra ou a paz? A guerra seria talvez a glória, talvez a ver­gonha e a ruína...».

       Já havia caído a noite quando lhe entregaram, expedida da estação de Mocumbi, pelo antigo residente, um telegrama datado do Manguanhana, 12. Abriu-o nervosamente. Daquele bocado de papel ia talvez depender agora tudo. À medida que o lia o sobrecenho descaía-lhe franzido sobre a luneta; a testa enrugava-se-lhe, e não é inverosímil supor que, terminada a leitura, da boca lhe houvessem saído num borbotão de cólera, estas palavras que ele próprio escreveu: «Retirar as forças? Nunca!». (5) O telegrama comunicava a resposta do Gungunhana. Achava-se o potentado de Gaza resolvido a entregar os reféns, pegaria pé, acederia mesmo a outras condições que lhe eram impostas mas com a condição de o Governo mandar reti­rar as tropas que se tinham adiantado até às terras fronteiriças dos seus domínios. “Retirá-las quando já se ouvia no Manjacaze o estampido dos canhões, fazê-las retirar trazendo apenas por únicos troféus uma mancheia de libras, e por única segu­rança do futuro, dois pretos cativos, nunca!»

Era contudo necessário proceder com cautela a-fim-de não expor a represálias certas Almeida, Orneias e os homens da pequena escolta que os acompanhara. A última palavra do Comissário Régio não deveria ser pois transmitida do Manguanhana. O que o bom senso aconselhava é que ela o fosse es­tando todos a salvo, e por isso, no dia imediato, muito cedo, o telégrafo levou aos seus emissários ordem para recolherem a Chicomo.

A-fim-de assistir tanto à partida da coluna do Sul que de­veria ocupar a Cossine e atacar Magul, como à largada da flotilha do Limpopo, a que se reuniria depois o rebocador Fox, embarcou Enes na Diu, para Lourenço Marques, onde o esperavam novas informações do antigo residente em Gaza. Uma delas referia que o Gungunhana fizera saber que uma vez que o rei de Portugal não o queria para súbdito, resolvia colocar-se sob a protecção da bandeira de outro branco. Agi­tava, pois, o papão britânico, a-fim-de atemorizar-nos. A res­posta, porém, não tardaria a tê-la.

E telegrafando ao conselheiro Almeida para Chicomo, o Comissário Régio ordenou-lhe que comunicasse ao régulo que o Governo passaria dali por diante a tratá-los como a qual­quer outro rebelde.

Era o rompimento.

*

*       *

Dias depois a laboriosa Diu trazia a Lourenço Marques o comandante da coluna que se apresentou ao Comissário Régio «tão correcto no seu uniforme, tão cuidado na sua pessoa, tão irrepreensível na sua farda, tão garboso como se tivesse estado de guarnição no Chiado”. Vinha conferenciar acerca da marcha ao Manjacaze.

Entendia Galhardo que as forças não podiam por enquanto executá-la visto carecerem, para isso, até de muitas coisas essen­ciais, — de transportes sobretudo.

Patético deverá ter sido por vezes o diálogo travado entre ambos.

Porque se era preciso partir, não demorar a marcha, o pró­prio Comissário Régio acabara por reconhecer a impossibi­lidade dela se efectuar desde logo.

Mas a verdade também é que desta imobilidade, desta pre­cária situação o nosso prestígio de nação não poderia sair senão deminuído. «Enquanto o coronel falava — contou Enes — e eu meditava, chegavam para ele telegramas de Chicomo, todos com más notícias.» Continuava a mortandade entre os cavalos do esquadrão e as muares de artilharia. Em Amba havia setenta e três homens doentes. Faltavam socorros mé­dicos. De Inharrime anunciavam que o Gungunhana concen­trava para as bandas de Pene seis poderosas “mangas”. A re­cordação duma carta, recebida havia pouco, de Mousinho, mais pungente tornava aqueles instantes. A-pesar de arder por me­ter-se com os seus homens às terras de Gaza, não lhe havia ele referido os riscos da empresa, estando o esquadrão tão mal montado? E Mousinho não dizia aquilo por desânimo ou medo, nem porque o impressionassem as descrições que o conselheiro Almeida fazia do poder do Gungunhana; mas sentia-se já arre­pendido de ter contribuído para que fosse à África cavalaria. A própria infantaria estava arrazada, devido principalmente a. mesquinhas condições de estacionamento. A situação, numa palavra, não inspirava confiança. (6)

Como correr neste caso ao Manjacaze?

Mas se isso era impossível, alguma coisa urgia que se fizesse para salvar o prestígio do exército e a honra da bandeira.

Que entendia fazer neste caso o coronel? — perguntava Enes, inquieto.

Ambos acabaram por decidir, enquanto as circunstâncias, não consentissem um procedimento mais enérgico e deci­sivo, se voltasse à ideia, que fora também a de Mousinho, a de Caldas Xavier, de envolver o potentado vátua numa rede de postos fortificados que se iria apertando cada vez mais.

A coluna do Sul ocuparia a Cossine e uma fracção sua ou da coluna do Norte estabelecer-se-ia em Chibutze. Com a linha de Inharrime-Chicômo a norte e a sul, se limitaria o domínio do régulo e novos investimentos poderiam ser preparados. A oeste — tomar-se-iam igualmente posições e do mesmo modo nas terras de Zavala e da Inhabube a este.

Alimentara o Comissário Régio, a-pesar-de ser um ho­mem prudente, durante algum tempo o desejo dum imediato-desforço, mas bem depressa tivera de o reconhecer impraticável.. Então, resignando-se à evidência das circunstâncias, pen­sou: «A realidade triste era que com tantas espadas afiadas não conseguiríamos sequer aparar uma unha ao Gungunhana!».

Obtivera em dado momento o comandante informações so­bre o inimigo. O avanço da coluna, não obstante as muitas deficiências que ainda na sua organização faziam sentir-se, pareceu menos temerário. «Cobrei ânimo!» — diz-nos Enes que, dali por diante confiado na influência duma mais benigna es­trela, deixou de interessar-se pela criação de mais postos para só tratar de apressar os preparativos para o ataque ao kraal.

Entrementes enviava o régulo de Gaza a Galhardo emissá­rios com diversos presentes que seriam recusados — libras, bois, pontas de marfim, — e novas queixas acerca das nossas tropas que andavam a falar-lhe os domínios. Pela boca deles propunha então capciosamente condições para um entendimento defini­tivo subordinado à retirada de toda a gente preta que nos acom­panhava e que ocupava as suas terras; e mais uma vez protes­tava que se esforçaria por apanhar o Matibejana e o Mahazul, conquanto isso lhe fosse difícil senão impossível, visto ambos estarem tanto no conhecimento das ciladas que lhes armava, que a todas elas haviam conseguido escapar até ali — protesto tão sincero que ainda na véspera do combate de Magul com um deles se havia avistado.

7 de Setembro.

Apenas o dia rompeu, uma coluna constituída por 308 ho­mens, entre brancos e angolas, comandado pelo capitão Freire de Andrade, começou a atravessar o Incoluane, operação que se prolongou durante seis horas. E contudo os pequeninos esca­leres da lancha-canhoneira Lacerda não haviam tido que trans­portar nem comboios de víveres nem serviços de saúde, pois sem eles ia a força realizar o seu objectivo, — reduzido todo o trem de marcha a 1 carro, 8 burros e 4 bois. (7)

A princípio sobre a areia que escaldava, depois rompendo caminho em terreno íngreme, de floresta, a marcha tornara-se cada vez mais trabalhosa, parecia quási sem fim, quando numa clareira que entrava de alargar-se, a tropa divisou de súbito para além de desmesurados charcos, sugestão de imobilidade e de morte, o inimigo.

       Logo um toque de sentido soltou as suas notas na imen­sidão do espaço adormecido. Imediatamente em torno do qua­drado se tratou de desenrolar uma linha de arame e de assen­tar a cada um dos ângulos uma metralhadora. Soube-se mais tarde que eram treze as «mangas» que ao ataque se haviam lançado. Fazendo o confronto dos adversários, — devia Enes escrever um dia, no jeito de folhetinista a que tantas vezes se lhe abandonava a pena: «Se aquilo era poder que afrontasse o Gungunhana! A horda nem teve pressa da segura carnagem, quedava parada, agachada como um gato, com o focinho repou­sado nas patas.)) Nem um gesto, nem uma apóstrofe, nem um tiro. Apenas um espantoso aro de corpos de ébano cujos olhos se fixavam, no antegôsto dum regalo, sobre o pequeno qua­drado. Que significava esta atitude? Que esperava o vátua? De­pois duma parte do inimigo haver-se escoado imperceptivelmente entre o capim alto, a tentar o envolvimento dos nossos até cortar-lhes a retirada para o Incoluane, aguardava talvez os efeitos desmoralizadores do sol e da sede para, ao assomar das estrelas, ao rubro clarão de fogueiras festivas, ao radiante clamor da vindicta certa, cair sobre o atrevido e já extenuado punhado de brancos... Seria então o massacre, um lauto festim de canibais em honra de manes e deuses vingadores!...

Passava da uma da tarde quando no quadrado soou a voz de fogo. O vátua saíra da sua enervante impassibilidade, agitava-se, e como um felino preparava agora o salto... Pouco depois estoirava contra três faces do reduto uma violenta fuzi­laria. Devido à direcção do vento por que manifestamente havia, esperado, viam-se os nossos envoltos em densos vulcões de fumo» que lhes ocultavam por completo o campo... Mas tão vigorosa e tenaz foi a nossa resposta que, descrevendo-a, Enes compa­rou nessa ocasião o quadrado a uma nuvem de tempestade que rastejasse a desfazer-se em raios. A-pesar da raiva com que fora acometido, às duas e vinte voltava a reinar em todo o es­paço o silêncio. O inimigo havia sofrido pesadíssimas perdas, dei­xando, ao retirar, para sempre estendidos no mato, centenas de homens, entre os quais, a menos de cinquenta metros, o Pene, com as suas insígnias, os seus adereços, a sua expressão ainda minaz... Dos nossos apenas seis haviam tombado mortalmente feridos.

Tão imprevisto fora o êxito desta vitória em Magul, que até ao fundo do Maputo os povos estremeceram receosos de castigo e começaram a abalar, num precipitado êxodo em direcção às montanhas...

«Perdeu o Gungunhana, mas se da acção tivéssemos saído derrotados, haveríamos perdido todo o distrito de Lourenço Marques», — ponderava Enes.

A perseguição ao Matibejana (Zichacha) e ao Mahazulo ia prosseguir.

Circulava entretanto pelas brenhas do sertão o boato de que no Bilene se preparava nova concentração, ainda mais nume­rosa, de aguerridas «impis». Na verdade, para os lados do rio Mauzimechope pressentiam-se certos suspeitos movimentos. Como se tinha feito no Sabi, onde se acabara por montar um posto fortificado, procedeu-se à organização duma coluna cuja marcha se conta entre as mais extenuantes da campanha, pois teve de cobrir entre 30 a 40 quilómetros por dia. Mas no fojo do Zichacha não se encontrara vivalma. Contudo, para que as gentes que naquelas paragens andavam levantadas con­tra nós não esquecessem depressa a nossa passagem por elas, tanto essa povoação como outras que lhe eram cercas foram arrazadas pelos 3.000 auxiliares que nos seguiam e que já seguros da nossa boa estrela, em 26 de Outubro, atravessavam a ponte sobre o Incomati em Chinavane, lançando-se depois, como um verdadeiro vendaval, em razias até às proximidades do Limpopo.

Tinham entrado ao mesmo tempo as operações neste rio numa fase de excepcional e vigorosa actividade. Uma e outra margem até Langüene, a 70 milhas da embocadura, estavam a ser pelas intrépidas casquinhas-de-nós da flotilha furiosamente castigadas. De quando em quando operavam-se desembarques, faziam-se prisioneiros e uma ou outra aldeia era incendiada. A gente de Chaichai vinha declarar vassalagem. Assim o Lim­popo não demorara a achar-se submetido.

       Caldas Xavier insistia, insistia... «É preciso que a coluna do Norte avance». «Então não marchamos?» A verdade é que a crise dos transportes, que desde a primeira hora a angus­tiava, não fora até ali a bem dizer resolvida e que continuavam a ser precisos, sem que aparecessem, mais bois, mais carros, mais muares. Como se não bastasse a imobilidade — no grande hotel das estrelas, (8) conforme no seu calão as tropas diziam do insalubre acampamento de Chicomo, não fazia senão deminuir o número dos homens aptos a marchar... «Oficiais e soldados davam a perceber, embora resignadamente e sem a mínima quebra de obediência, que seria preferível ir morrer para a frente, fosse como fosse, mas ao menos combatendo, a perder ali a saúde, a vida, naquela inglória inactividade.» (9) Entrou enfim de mover-se a coluna, ainda com inúmeras deficiências, a 4 de Novembro. No intento de evitar surpresas como sucedera em Marracuene, onde pela calada da noite o inimigo conseguira acercar-se da face mais vulnerável do qua­drado, a dos angolas, havia Caldas Xavier adaptado a alguns carrinhos uma espécie de faróis com um poder iluminante de sessenta metros. A Mousinho e aos seus pelotões, então bas­tante reduzidos, estava confiado o serviço de exploração. Suces­sivas perdas de animais iam marcando sinistramente o avanço até que atingida a lagoa do Coolela, as forças acamparam. O kraal do potentado de Gaza distava agora apenas cerca de meia dúzia de quilómetros... A noite havia decorrido sem novi­dade de maior, embora ao clarão dos holofotes não passasse despercebida a actividade dos espiões que o próprio grasnar dos patos, acordando amedrontados, de quando em quando igualmente denunciavam.

    Com o nascer do dia preparava-se a coluna para de novo pôr-se em marcha; já em direcção aos profundos maciços da floresta em frente, os auxiliares, gente, conforme escrevia Enes, sempre disposta à fuga se encontrava o inimigo, calcurriava o terreno, e a breve trote avançavam os pelotões de Mousinho, que de vez em quando, voltando-se na sela, fazia ouvir a voz de comando clara, incomparavelmente quente, comunicativa nestas ocasiões, capaz de sacudir as fibras mais ocultas e duras dos seus «rapazes»; começava a artelharia a rodar e os do Estado-Maior metiam o pé ao estribo, — quando entre os pretos do Spandanhana se produziu um desvairado alvoroço, um irreprimivel movimento de recuo. Além, do lado oposto da enorme langua, as «impis» do Gungunhana estendiam-se em linha de atira­dores. E o seu ataque não se fez esperar muito. O quadrado for­mara-se com a calma dum simples exercício. Cada vez mais os vátuas acentuavam o círculo em que procuravam apertar os nossos. De parte a parte sustentava-se fogo rijo. No meio do quadrado, além do comandante e doutros, o major Sousa Machado. Mousinho, descrevendo numa carta o combate, com a graça desataviada dum cavaco entre cadetes à porta do Gelo, refere: “Uma beleza! [Machado] estava a cavalo quando foi ferido. Tinha passado ao pé de mim e disse--me: «Oh! Mousinho, veja os meus rapazes como estão bem!» Daí a pouco torna a passar, a pé; pergunto-lhe eu: “Então mor­reu a sua gata? — como ele chamava ao cavalo que montava. Respondeu-me: “Não, uma coisa num braço!» e continuou até ao fim a animar os soldados, indo só depois tratar-se». (10) A mon­tada de Mousinho é que não tardaria a erguer-se num pinote e a cair, depois, como uma massa, inerte, derrubada por um pro­jéctil vátua. Quanto a Galhardo, «uma perfeição, — prosse­gue a mesma epístola, — de sossego e serenidade. Ficou sem­pre a cavalo. Uma bala roçou-lhe na garupa do cavalo e ele nem pestanejou, sempre de charuto na boca, percorrendo as faces, recomendando firmeza e sossego, dizendo a sua graça a um e a outro. Muito, muito bem!” A artilharia não cessava de bramir. A-pesar disso uma imponente linha de guerreiros destacava-se e aos saltos avançava de encontro à reduzida hoste portuguesa, a que assistia, já gloriosa, uma bandeira de lã, duma existência de algumas horas apenas. (11) Poucos porém dentre esses negros audaciosos ousaram transpor a lagoa e os que diante do fogo do quadrado não recuaram, continuando a adiantar-se aos saltos, a poucos metros dele, alguns a menos de dez, morderam para sempre o pó. O ataque em que Gungunhana havia empenhado 12.000 homens, às seis horas estava domi­nado. «Fora um rápido duelo — observou Enes — do moderno armamento europeu com a força bruta do número, em que ven­cera facilmente o armamento porque o manejaram as tropas com imperturbável sangue-frio.» Havíamos tido 41 baixas — mortos e feridos; o inimigo cerca de 900.

Ao fim da tarde «fêz-se o enterro dos cinco soldados mor­tos — conta Mousinho com comovida singeleza. Arranjámos um cemitério no bosque, debaixo das árvores, cercado de fio de arame e abatizes por causa das hienas. Quando se enterra­ram, o coronel fez uma breve alocução, lembrando que tinham morrido como soldados portugueses ao serviço de El-Rei. Ajoe­lhou tudo de chapéu na mão, deram-se as três descargas do es­tilo, tocaram as cornetas a marcha dos estandartes e levantámo--nos. Há exéquias ou enterros pomposos que valham isto? Che­ga-se a ter inveja dos mortos. (12) A primeira mancheia de terra foi deitada sobre cada um pelo seu capitão respectivo.»

Então, antes da coluna prosseguir na marcha para o kraal, teve Mousinho de ir com a sua cavalaria a Chicomo por mantimentos, forragens e carregadores, diligência que ficou notável pela precisão com que foi cumprida no espaço de três dias, conforme o determinado, a-pesar-de tratar-se dum per­curso de sessenta quilómetros. Enes, para quem até ali um ho­mem nos brejos do sertão era mais ágil e veloz que um cavalo, não hesitava mais tarde em afirmar que ela representava de facto uma façanha surpreendente.

Recomeçada a marcha para o Manjacaze, atravessado o vau do Manguanhana, não tardou que a coluna notasse a pre­sença de gente vátua, cujo propósito de defender o acesso ao kraal não resistiu a alguns disparos com que a haviam alvejado.

Rangia o edifício do império do Gungunhana...

Diante dos nossos apresentava-se agora uma rude encosta a escalar. Junto à langua, guardada por uma parte de força, estacionava o comboio. Subindo sempre, quási a cortar mato, ao cabo de uma hora, entrava finalmente a coluna no Manja­caze. Era — segundo Mousinho descreve — uma enorme po­voação de cerca de 600 a 700 palhotas, rodeada dum cercado de paus muito altos, ao meio do qual estava a palhota do régulo. (13) Então o coronel Galhardo mandou deitar fogo a esta. As restantes, dentro de pouco, tornavam-se igualmente pasto das chamas formando assim uma fogueira imensa que atirava para o espaço os seus rolos de fumo e as suas laba­redas, — uma pira imponente no caixilho da floresta sombria e silenciosa.

      Aludindo   ao   desapontamento   de   verem   abandonado   o kraal, escreve ainda Mousinho: “Todos à uma lamentavam não haver quarenta ou cinquenta cavalos em estado de fazer a per­seguição, porque [o régulo] teria sido apanhado.» (14)

*

*

Fazendo o ligeiro balanço das primeiras vitórias dizia. Aires de Orneias numa carta para Lisboa, aos seus: «O Chaichai já se avassalou, assim como todos os régulos chopes. O Bilene quer submeter-se e se o Punda o fizer fica realizado o que eu dizia: o país entre o Save, Chengane e o Limpopo está português.» (15)

Entrava-se na época das chuvas e esta circunstância acon­selhava a suspensão temporária das operações, estando demais todas as tropas fisicamente exaustas.

No Cabo, no Transvaal, pela Europa fora, em toda a parte aonde a notícia da vitória de Coolela havia chegado, não se ocultava a admiração pelas armas portuguesas.

Ia largar para Lisboa o Zaire com o Comissário Régio, o coronel Galhardo, o grosso da expedição.

Poucos dias antes de embarcar criara Enes o distrito militar de Gaza e nomeara seu governador o capitão Mousinho.

Ao assinar o decreto desta nomeação, aos seus ouvidos soa­ram sem dúvida, como um sinal, aquelas palavras em que ele, antes da tomada de Manjacaze, lhe havia afirmado, numa irre­primível confidência, o ardente propósito de surpreender, um dia, com o seu pelotão, o régulo e, depois de o ter agarrado, de o atirar fortemente atado, para cima dum cavalo, o trazer como um troféu a Chicomo.

Das profundidades do sertão chegavam rumores da fuga arquejante do Gungunhana, a caminho da fronteira.

Alimentaria ainda Mousinho, a-pesar disso, a ideia de al­cançar, de surpreender, de fazer rolar no pó, sob as patas da montada, o dragão vátua?

 

 

(1)            O Ambaco com caçadores 3 e o Estado Maior da coluna chegava a Inhambane a 3 de Junho; doze dias depois desembarcava do Gene­ral, a cavalaria com 90 cavalos e 11 muares; a 26, largava ferro outro barco com bois para talho e tracção.

(2)            Na vila de Inhambane instalou o comissário régio «o melhor que pôde um hospital central». «Em meu auxilio foram, felizmente—escre­veu—três irmãs de S. José de Cluny, as que por telegrama pedira, reco­mendando-me à intervenção de S. M. a Rainha D. Amélia para as obter. Com elas entraram no novo hospital, não só a caridade senão também a ordem, a disciplina, a economia e... até a alegria. Especialmente a supe­riora, uma juvenil alsaciana, era a piedade mais prazenteira, a devoção mais afável, a austeridade mais cariciosa que podem sonhar os que dese­jam, como eu, que a virtude cative e a religião seduza. O que elas fize­ram! Até aviaram receitas na botica, urna vez que faltou o boticário. Até cortaram e coseram bandeiras portuguesas que não tinha já para os postos militares. Os soldados da campanha de 1895 não tiveram ao serviço do seu bem estar os providos recursos com que as potências militares civi­lizadas abrandam e suavizam os trabalhos da guerra; mas tiveram sempre solicitudes paternas a velar por eles, — e a chorar por eles quando não podiam mais!».

(3)            Enes,  ob.  cit.

(4)            Aires de Orneias, ob cit..

(5)            Enes,  ob.  cit.

(6)    Passos do resumo  da carta feito por Enes na Guerra  de África

(7)    Campos Júnior,  Vitórias de África. Lisboa, 1896.

(8)    Campos Júnior,  ob. cit.

         (9)     Campos Júnior, ob. cit.

(10) Carta de Mousinho publicada nas Novidades e que aparece repro­duzida no I vol. da Colectânea dos escritos de Aires de Orneias, editada pela Agência Geral das Colónias.

(11) Por costume, a bandeira de um regimento acompanhava sempre a 1.ª companhia. Por isso o coronel Galhardo resolvera — e muito bem — que a 2." companhia empenhada no combate, tivesse também bandeira durante a campanha.

(12)    Carta de Mousinho atrás citada.

(13)    Carta atrás já citada.

(14)    Carta    citada,  de  Mousinho.

(15)    Aires  de  Ornelas,  ob.  cit.

 

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