COMO ACONTECE UM DESASTRE

Nele, eu tiraria todo o partido que a prática me tinha dado através de tantos anos. Vejam bem! Todo o partido.

Foi num “Piper Comanche”, de que eu gostava muito. É um tipo de avião já com uma velocidade de cruzeiro interessante, cento e sessenta milhas por hora e um avião normalmente, quanto mais depressa voa, a maior velocidade aterra. É um dos tais que fazem lembrar um caça e, por vezes, nós até brincávamos com ele.

Naquele dia eu teria de o levar a tal velocidade mínima e quase entrar pela terra dentro.

Logo de manhã comecei a fazer umas viagens do Gurué ao Tacuane, a fim de trazer uns técnicos de barragens que andavam a fazer estudos para uma represa gigante, que se pretendia fazer e que envolvia dois rios, o Lugela e o Luo.

Há um ditado que diz que a cantarinha tantas vezes vai à fonte até que parte a asa: eu tantas vezes fui à fonte, que parti as duas asas, a cabeça, o nariz, o peito e no fim tive muita sorte!

A princípio, tinha muita gasolina no avião e nada teria sucedido, talvez, se eu não fosse um tanto poeta e amante da natureza.

De cada vez que trazia um grupo de técnicos, eles pediam para nos desviarmos um bocadinho, porque do ar abrangia-se a bela área onde iria ficar a barragem.

Eu, com todo o gosto, fazia o desvio, que não me roubava mais que dez minutos e que no fim significou muito.

A última viagem fi-la com três geólogos franceses, um dos quais, segundo me diziam, era dos maiores técnicos de França e do Mundo, em barragens - os Engenheiros Geólogos Rivoiard, Magnin e Madoux.

Os dois primeiros eram altos e fortes, sendo o Rivoiard muito simpático, pois lá procurava entender-se comigo no meu francês de Liceu, do qual já tinha pouca prática, mas entendíamo-nos muito bem.

O Magnin tinha um nariz comprido e dava-me a impressão que era destes tipos género galã. O Madoux, a tal fera em geologia, era também forte, mas menos que os outros. Como inteligente que devia ser, era a simplicidade e a simpatia em pessoa.

E lá fomos sobrevoar a malfadada barragem em perspectiva.

Quando chegámos ao Gurué, procurei pôr o trem de aterragem em baixo e não consegui. Havia avaria! Saiu um bocado e ficou empanado.

E agora vou procurar contar, mostrando todas as minhas reacções, aquilo por que passei moral e fisicamente: no maior desastre de avião que tive na minha vida e do qual, como verão, me saí bem.

E porque é que não me havia de sair bem? Pois se eu, através de tantos anos, m tinha treinado para estas emergências!

Mas eu teria de puxar ali por toda a gama de conhecimentos adquiridos.

As características do avião eram muito especiais - todo metálico e, por isso, bastante pesado e, ainda por cima ia bem carregado, com quatro pessoas e todas bem robustas, além da bagagem.

Depois, o ladrão do motor parou-me quando ia já ultrapassando a pista, deixando-a para trás. Eu procurava dar a curva e sobrevoá-la novamente. Parou por falta de gasolina. Pêlos meus cálculos não gastaria mais que quatro horas para fazer todas aquelas viagens ao Tacuane mas, com tais voltinhas viria a ultrapassá-las e o que é mais grave, com o entusiasmo com que andava a voar nem dei por ela. Os ponteiros dos mostradores também me enganaram um pouco, mas não há dúvida nenhuma que a culpa foi minha.

Depois de verificar que o trem estava avariado, comecei a dar voltas à pista e a tentar pô-lo cá fora. Andei nisto cerca de quinze minutos. Não o consegui e, por último, o motor parou.

Mesmo à minha frente havia um eucaliptal imenso, mas aí está uma árvore que não dá para a gente pousar o avião. Não tem copa e o aparelho esbandalhar--se-ia e estatelar-se-ia não sei como. E então eu fiz o que um piloto raríssimas vezes pode fazer. Procurei voltar com o avião para trás, e fi-lo porque antes desses eucaliptos havia como que um grande buraco, uma depressão de terreno e eu, afocinhando-o sabia que ele adquiriria velocidade capaz para o poder manobrar até ao choque.

Os meus cinco sentidos estavam a trabalhar como um relógio bem afinado.

Com o trem naquela posição, fui prevendo que qualquer coisa de grave podia acontecer, pois até levando-o para a pista poderia haver uma prisão instantânea logo no primeiro contacto, que talvez provocasse uma cambalhota que nos podia ser fatal.

E então pensei rapidamente a maneira de avisar aqueles homens para eles se defenderem tanto quanto possível no momento supremo.

Não tive que raciocinar muito para compor uma frase, que muito bem serviria para a ocasião.

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