IV

 

«O português, — escreveu Fialho, — está vinculado às toiradas por uma ininterrupta tradição de muitos séculos, onde colaboramos todos, reis, fidalgos, povo, saltando à praça a lidar rezes selvagens.» (1)

Ainda pelo gosto da arte taurina que nutriu, Mousinho não degenerou nem da grei nem do tipo atávico da nobreza. Quási a resvalar na saudade escrevia uma vez a um amigo, o vis­conde de Meireles: «As corridas de toiros estão decaídas, senão em quantidade, em qualidade pelo menos», lástima que este brado do panfletário dos Gatos poderia completar: «Não se deixe morrer a paixão toural dos portugueses!».

       Ora em fins de Novembro de 1894, houve na praça do Campo Pequeno, ainda recente sobre os seus alicerces, uma tourada extraordinária que está tão longe de ser nesta história um episódio ínfimo, que Aires de Orneias devia, escrevendo, associá-la à memória dos acontecimentos de que ela se ocupa. Marca um dia, uma hora, e quantas vezes isso sucede em gran­des factos, com as mais pequenas, humildes e até desapropria das coisas? No espectáculo (2) encontraram-se Aires de Orneias e Mousinho. A tarde fora mais que benigna, estivera quási quente. Depois, ao debandarem tipóias guisalhantes, cavaleiros e peões, ambos mandaram bater para o Leão de Ouro. Uma fria aragem de outono prenunciava-se. Escurecia, — e quando as primeiras carruagens que rodavam na alegre e estouvada des­cida para a Baixa, alcançaram o termo da Avenida, o obelisco, o Rossio, já a iluminação dos «cafés» e dos restaurantes deslum­brava. À pequena mesa a que se sentaram para jantar, desa­tentos por fim aos risos e à sonoridade das conversas que se derramavam pela sala, discretearam sobre as coisas de África, os perigos que lá seriamente ameaçavam a soberania por­tuguesa e a propósito confiaram um ao outro o que sabiam, mas que era por ora segredo para toda a gente. Uma nova expedição ia partir e como estava decidido que dela fizesse parte uma força montada, Mousinho deixaria em breve Ca­valaria n.° 4, a-fim-de tomar o comando do 1.° esquadrão de lanceiros n.° 1, que embarcava. Contou Aires por sua vez o que se passara pouco antes com ele. Eduardo Costa encon­trando-o no serviço, dissera-lhe que de facto a situação de Lourenço Marques exigia remédio mais forte que o já aplicado. (3)

      A expedição que se preparava seria mais numerosa, mais cui­dadosamente organizada. E acrescentara que tendo-o convi­dado o ministro da Guerra (4) para chefe do Estado-Maior, ele havia aceitado, impondo, porém, uma condição, que não lhe fora recusada: a de escolher para adjunto um oficial da sua absoluta confiança.

— E quem é que escolheste? — havia perguntado Aires.

— Escolhi-te a ti. Queres ir? Aires de Orneias volvera logo:

— Está claro que quero!

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*        *

      Iam respirar ares mais puros, mais largos... Mousinho sabia por experiência, como nos dias a bordo parece que se vão pro­gressivamente ampliando os horizontes... (5) E com eles o pen­samento, uma espiritualidade mais ávida de dilatar-se. Inadaptável ao ambiente da ocasião, em que simples fórmulas e pragmáticas supriam a falta dum sentido idealista no espírito das classes preponderantes, insensíveis até à acumulação da tempestade que se formava, — Mousinho pensava heroica­mente... E porque era preciso reafirmar a vontade, a capaci­dade da gente portuguesa, mostrar que ela se conservava fiel à sua vocação histórica, o «serviço» em África afigurava-se-lhe o mais belo que às suas honradas ambições se apresentava. Se tanta coisa no país parecia votada ao desaparecimento, porque não seria a empresa africana uma empresa redimidora, e de resgate?... Que as portas da Havanesa continuassem, pois, a ser logradoiro de Acácio e dos janotas; que o Chiado continuasse a reunir na estreiteza dos seus passeios, o mundanismo alfacinha, aquela «mocidade dourada» que ele pitorescamente descreve, e cuja única ambição consistia em ver o nome entre os que, com uma monotonia de roda de alcatruzes, os jornais repetiam e tor­navam a repetir, referindo-se a qualquer concerto, a um baile, a uma soirée, à frequência, em dias especiais, na Avenida ou no Campo Grande, às récitas em S. Carlos, às toiradas no Campo Pequeno, a tudo enfim com que naqueles tempos se pretendia dar a nota de distinção lisboeta. (6) O que em Mousinho havia de portuguesismo, em vigor de inteligência e de carácter, leva­va-o, confiado, à tradicional e gloriosa tarefa de um Portugal maior de que D. Sebastião havia dado o ditame nesta pas­sagem da célebre carta ao vice-rei da índia: “Fazei muita cristandade. Fazei justiça. Conquistai tudo quando puder­des». Oficiais da mesma arma, para quem ela se nimbava do halo duma nobre antiguidade, porque a cavalo, em fos­sados começara a esboçar-se o reino e do mesmo modo ele fora dilatado até ao mar do Algarve, ambos, nesse jantar que rematava uma tarde de toiros, ventilaram, sem dúvida, o pro­blema — que particularmente os interessava, — do emprego das forcas montadas nas próximas campanhas de Moçambique. Sustentava ao tempo Mousinho na imprensa a tese do valor e da eficácia dessas forças na guerra africana, mas essa tese esbarrava com opiniões já feitas, irredutíveis. António Enes que guardara na pasta o plano que Pimentel Pinto lhe havia con­fiado, devia confessar mais tarde que não só não pedira cavala­ria mas que não compreendia para que seria boa em plena selva, onde se não penetra muitas vezes senão rompendo a cada passo caminho através de obstáculos da floresta, de vege­tação espinhosa. E transportando-se à época, deixou no livro em que nos fala da guerra, este reparo e remoque: «Mandar es­coltar os carregadores por cavalaria, servia só para provar que no mato um homem é mais ágil e veloz que um cavalo.» A tal conceito devia, porém, infligir Mousinho o mais formal desmen­tido, como há de ver-se com a marcha do seu pelotão, após a acção de Coolela, a Chicomo, a-fim-de conduzir dali carrega­dores e mantimentos. Em Moçambique, como nos relatórios que precederam aquele notável livro, que estava destinado a ser o seu testamento militar e colonial, ele ventilou ainda a questão e por essas páginas fácil nos será fazer ideia do que naquele jantar, a uma mesa do Leão de Ouro, ambos teriam dito, ilustrando largamente o seu modo de ver com exemplos como o do aprisionamento do Katchivaio, em 1879, pelos in­gleses em Chartered.

* *        *

Quando em 8 de Abril a nova expedição começou a embar­car no paquete Zaire, com o 2.° batalhão de Infantaria n.° 2, indo esses soldados com os que depois se lhes seguiram, de uni­forme de brim e largo chapéu de feltro, mole — o novo «modelo» criado para as tropas coloniais — já a vitória de Marracuene chegara ao conhecimento de todo o país. Para os que partiam representava isso uma mensagem de esperança. Os contingentes chamados da província a completar os efectivos expedicionários, abandonavam as pequeninas cidades e vilas a cujas guarnições pertenciam, desfilando ao longo das ruas entre «vivas» e acenos de lenços, música à frente, a caminho da estacão próxima... No dia 15 levantava ferro o Peninsular com o esquadrão de Lanceiros n.° 1, que acabava de receber em Mafra aturada instrução no manejo da carabina «Kropatschek», com a qual o armamento de cada homem fora reforçado. A 22 largava o Ambaca, que transportava Caçadores n.° 3. Assal­tado, porém, por um temporal que o ia metendo a pique, proeza talvez dos mesmos deuses que, nos Lusíadas, haviam tramado contra o valor dos portugueses, o Peninsular, no fim de contas quási um chaveco, teve de regressar avariado, ao Tejo, a re­boque do primeiro barco que se lhe deparou à proa. Foi então aproveitado para levar ao seu destino o esquadrão, certo vapor de nome Vega, que sem novidade fundeou em Lourenço Mar­ques, algumas semanas depois de ali ter tocado o Ambaca.

Enfim, estava-se em África!

      Aconselhara Enes, vivamente, em Lisboa, que se procurasse iludir o verdadeiro objectivo das tropas. Para todo o efeito a nova expedição ia render as forças que se encontravam em Moçambique e que regressariam ao reino. Pouca gente ou mesmo ninguém acreditou na versão posta a circular e até no Popular, Mariano de Carvalho, fazendo desta vez política sem humorismo, escrevia, como escreveria o velho do Restelo. se tivesse sido jornalista: «Que temeridade o que se vai fazer com uma expedição que representa um décimo das forças do Gungunhana!». Por outro lado, pessoas graves, ponderadas chegavam a afirmar que para bater o famoso régulo se tornariam neces­sários efectivos pelo menos iguais aos que a Grã-Bretanha man­dara contra Katchivaio. Havia até quem avaliasse as «mangas» vátuas em 200.000 homens de guerra, e ninguém as computava em menos de 60.000 (1). Uma trágica aventura! — asseguravam jornais de várias línguas, e a South África não hesitava em vaticinar que as tropas portuguesas, depois do primeiro ímpeto, em que se lhes havia de tornar possível levar de ven­cida os rebeldes, não tardariam a ser aniquiladas pela mofina acção do clima... Seria esse o momento ardilosamente aguar­dado pelo Gungunhana, — para cair sobre elas com a formi­dável tromba dos seus guerreiros. Assim o mundo previa o desfecho da nossa atrevida empresa — que, a cumprirem-se tão sinistros fados, poria fecho à nossa antiga e gloriosa tra­dição ultramarina.

A-pesar-de apeado, o aspecto marcial do esquadrão, desfi­lando na Praça 7 de Março, a seguir ao desembarque, maravi­lhou a multidão, segundo o testemunho de Enes, que acres­centa: «O capitão Mousinho tinha sabido, em pouco tempo, comunicar o garbo da sua altivez, o desempeno da sua ener­gia, a correcção do seu porte militar aos soldados que capita­neava, todos eles de elavada estatura, secos e musculosos como costuma a ser a força ágil, esmerados no fardamento, firmes e precisos na manobra. A marcha pelas ruas laterais da praça, clarins à frente, e a continência ao Comissário Régio, arranca­ram aos espectadores uma exclamação uníssona: Bela tropa! Por pouco não estrondeavam aplausos.” (8) .

Finalmente, a 15 de Junho o paquete alemão General levan­tava ferro com diversas forças destinadas à coluna que ia ope­rar no Norte, fazendo parte delas três pelotões de cavalaria: 110 homens sob o comando do capitão Mousinho. Em Lourenço Marques ficara, a-fim-de ser encorporado na coluna do Sul, o 4.° pelotão. (9)

Previa o plano a organização ainda doutra coluna que teria por objectivo no vale do Limpopo servir de elo entre as tropas de Gaza e as do Incomati. Mas as baixas determinadas pelas febres eram já em tão considerável número que houve que de­sistir dela. A importante função que lhe competiria veio por isso a caber à flotilha constituída pelo vapor Neves Fer­reira, com uma folha de serviços já brilhante, e pela lancha Capelo, rival em glória da pequenina e ensanguentada Baca­marte.

E agora, parafraseando Enes: «Por todos os caminhos que levam à fronteira de Gaza e podem levar ao Manjacaze!»

 

(1)Fialho de Almeida, Os Gatos, 6.° vol., 1920.

(2) Fora uma corrida capaz de satisfazer a mais exigente aficion, com rezes das mais afamadas ganaderias ribatejanas e uma lide cometida a Tinoco, a Fernando de Oliveira, de qualquer dos quais se poderia dizer o que Rebelo da Silva, em certo famoso conto, disse do Conde dos Arcos, filho de Marialva: «ele e o corcel, corno que ajustados em uma só peça, realizavam a imagem do centauro antigo»; e a outra exímia gente de pé, como os velhos irmãos Robertos.

O futebol torna hoje ainda mais afastadas e remotas estas figuras e a sua arte tão portuguesa...

(3) Aires de Orneias, ob. cit. Alusão à expedição comandada pelo major José Ribeiro Júnior e que em 20 de Outubro de 1894 havia dei­xado Lisboa, no paquete Cazengo, da Companhia Nacional de Navegação. Onze dias antes tinha :sido nomeado Enes comissário régio.

(4)    O coronel Pimentel Pinto.

(5)    Carta ao Visconde de Meireles, escrita em Sintra, em 1901

(6)    Carta anteriormente citada.

 

(7)    Nota em Moçambique   na qual ainda Mousinho acrescentou:   «Ora em Coelela o exército que atacava não excedia a 15.000 guerreiros».

(8)    Enes,  ob.  cit. (9)    Enes, ob cit.

 

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