III

     Havendo o Governador da província (1) embarcado para Lisboa a 10 de Janeiro, Enes deixou a Afonso de Albuquerque, à qual passara do paquete das Méssageries, e porque os acon­tecimentos fossem de natureza a justificar impaciências, pressas, inquietações, a sua vinda para terra fizera-se sem a mínima observância de protocolo. Nem as suas mãos haviam tomado por instantes duma almofada de veludo as chaves douradas da velha fortaleza nem nos baluartes para a salva do estilo se inter­rompera o remanso das batarias. Nem cumprimentos, nem dis­cursos, nem ofício de acção de graças. Como qualquer vulgar passageiro que acabasse de chegar, ansioso de alcançar o hotel, o Comissário Régio dirigira-se logo, a passos largos, para o Pa­lácio de S. Paulo.       Era ainda muito cedo; naturalmente só em poucas habitações se deixava naquele momento o leito e corria ao chuveiro refrigerante. No largo fronteiro apenas um baneane quási nu e três vadias negras, de quadril premido a berrantes panos, poderiam tê-lo notado, seguido por alguns moleques com as malas. António Enes, uma vez no Palácio do Governo, demorou pouco, — apenas o tempo necessário para despa­char, para resolver alguns assuntos mais instantes, para re­ceber acerca do que acontecia informações mais exactas e re­centes, porque logo a 12 tornava a embarcar na corveta.

Era na verdade extremamente grave a situação em Lourenço Marques.

Desde que em Outubro estivera prestes a ser tomada de assalto pelas hordas selvagens da Zichacha e da Magaia, não mais a cidade havia deixado de sentir-se ameaçada de novos perigos e, movendo-se entre o mar e uma frágil linha de block houses, a população vivia uma vida que sentia precária, cheia de incerteza. O rebelde senhoreara-se do sertão próximo e até na Ma tola, porque o régulo hesitava entre nós e os vátuas, nu­merosos indígenas, mulheres, crianças e velhos, haviam sido passados a golpes de machete. Ao menor alarme, logo nas pá­vidas imaginações irrompia a imagem téctrica das trincheiras ainda há pouco levantadas, febrilmente, para uma provável de­fesa desesperada do terreno... Há alguns dias ainda, nas tábuas da lancha Bacamarte correra o sangue do 1.° tenente Filipe Nu­nes, mortalmente ferido. Andava na ocasião o barquinho com um vapor de alguns palmos também, o Neves Ferreira, a ex­plorar o Incomati, de que o inimigo dominava ambas as mar­gens. A primeira coisa que os mais timoratos faziam ao acor­dar, era correr à janela a verificar se além, nas tranquilas águas da baía, ainda se balançava a Rainha de Portugal, a sal­vação derradeira... O que entretanto se dizia e o que se escrevia acerca da situação, por esse mundo fora!... Os portugueses iam ser atirados ao mar! Mas a verdade é que a continuar este es­tado de coisas «Portugal ver-se-ia obrigado, — conforme Enes escreveu mais tarde, —a reconquistar palmo a palmo os dis­tritos de Lourenço Marques e de Inhambane». Tornava-se por conseguinte indispensável tirar quanto antes aos alarmes e aos boatos espalhados, que nada tinham de desinteressados, todo o carácter de possibilidade.

Que fazer?

Aos oficias da coluna que veio a organizar-se, observou o Comissário Régio que ou se faria um milagre ou não se faria nada.

Depois de fortemente batida por um vendaval que a ia des­fazendo, entrava a pobre Afonso de Albuquerque, na manhã de 18, nas águas de Lourenço Marques, onde, além da Rainha de Portugal, havia também a presença de alguns barcos de guerra estrangeiros, como a canhoneira Trush, da qual em Outubro um destacamento havia desembarcado a fim de proteger o Con­sulado Britânico.

À chegada de António Enes toda a gente experimentou uma sensação de alívio. Não reunia ele nas suas mãos as mais exten­sas faculdades de Executivo? Além disso atrás dele viriam mais tropas. Nem os poderes de que estava revestido seriam com­preensíveis se não lhe tivessem assegurado os necessários instru­mentos de acção, — um aparelho militar suficientemente forte. Grande foi, contudo, o desapontamento quando, à noite, o viram, com Andrade e Couceiro, seus companheiros de via­gem, desde Lisboa, transpor a cavalo a linha de precaução e meter-se a caminho da Ponta Vermelha, um dos sítios por onde o Mahazul tentara investir a cidade. Que revés estaria reservado à população se além, numa possível e fácil sortida, os rebeldes qualquer noite os massacrassem?

       Conforme os hábitos que mantinha em Lisboa, Enes er­gueu-se, no outro dia, muito cedo. Quanto estavam distantes a velha banca de trabalho, as estantes dos livros, a janela que, rasgada sobre a rua, àquela hora sem pregões, lhe dava a luz... Agora tinha diante de si um mar que até há pouco nunca vira. Os seus pés poisavam sobre o chão duma típica varanda corrida como ponte de navio, em torno da residência. Com o binóculo devassou o horizonte... A algumas milhas adivinhava-se, envolta em véus de névoa, o vulto da Inhaca. Deu alguns passos. Vol­tou à contemplação do mar. Distraía-se, reflectia. Dificílima era a missão que a instâncias de Carlos Lobo de Ávila havia acei­tado e de que chegou a sentir medo, nitidamente medo — por ele, pelos que teriam de receber as suas ordens, pelo país.

      A 21 de Janeiro, na tarde do próprio dia em que o major Caldas Xavier operara um reconhecimento até Guavá, desem­barcavam do Greck os oficiais do Estado-Maior por ele requi­sitados — o capitão Eduardo Costa e o tenente Aires de Or­neias, que iam formar com o capitão de engenharia Freire de Andrade e o tenente de artilharia Paiva Couceiro, a reparti­ção de gabinete do Comissariado Régio. Nenhum dos recem-chegados conhecia a África e por isso ambos, aceito o convite, procuraram fornecer-se dum grande número de livros especia­listas: franceses, ingleses, italianos. «Como se deveria comba­ter?», “Como combatia o adversário?». «Não fazíamos de tudo isto a mais pequena ideia, — devia um deles referir depois. A bordo, fomos dando corpo a tanta leitura e desse trabalho saíram as Instruções para o serviço de campanha, que afinal se pode afirmar garantiram a nossa vitória desde Marracuene em diante. Os mais preciosos elementos dessas instruções, total­mente novas entre nós, tinham sido colhidas na Tactique au Soudan, de Péroz, no Soldiers Pocket Book, do general Walsley, e ainda no Downfall of Lobengula, comprado já no Cabo da Boa Esperança. E não era só a técnica que ali aprendêramos, mas sobretudo o espírito da tão especial guerra africana, em que íamos de facto iniciar o Exército Português.» (2)

Constituída a repartição de gabinete, quis o Comissário ré­gio saber se todos estavam dispostos a trabalhar.

Todos à uma responderam que não estavam ali para outra coisa.

Na manhã seguinte o «gabinete» reunia com o Comissário Régio no quintal, à sombra duma grande mafurreira, debaixo da qual muitos anos depois gostava de sentar-se Brito Cama­cho, sendo Alto Comissário da República, a ouvir-lhe as suas memórias». Ele no-lo conta numa bela página de impressionismo, de A caminho de África. Discutiu-se a ideia de atacar Marracuene e assentou-se na elaboração dum plano de operações a apresentar dali a dias, o que com uma rigorosa pontualidade aconteceu. Mas o plano, de que fora principal autor Caldas Xavier, previa já a passagem do Incomati. Enes sobressaltou-se. Porque a «margem esquerda era toda um charco» e não havia pontes nem embarca­ções em que uma numerosa força, com o seu trem de artilharia e a sua complicada impedimenta, pudesse atravessar depressa no caso dum revés. O melhor seria a coluna guardar as posi­ções tomadas, — e a tantos argumentos neste sentido se apoiou a sua prudência, que houve que atender-lhe o alvitre. Por seu turno, Enes transigiu em deixar no plano a passagem do rio; simplesmente não seriam empreendidas quaisquer opera­ções após a ocupação de Marracuene, sem instruções especiais, «acomodadas aos resultados da nova marcha e aos aconteci­mentos eventuais que se lhe seguissem.» (3) Quanto à forma­ção a adoptar para a coluna, resolveu-se aceitar a que pro­punham Caldas Xavier e Eduardo Costa: ela marcharia, acam­paria sempre em quadrado, formação que tinha a ilustrar-lhe a eficiência um grande número de exemplos, tanto nos campos de batalha da Europa em que sustentou muitas vezes na ponta das baionetas, o ímpeto da cavalaria, como em África, em recentes recontros com formidáveis massas negras.

* *

Seis dias após a conferência à sombra da mafurreira, o Ne­ves Ferreira, a Bacamarte e outra lancha, a Xefina, levanta­vam ferro para nova batida às margens do Incomati, e punha--se a coluna em marcha para Marracuene.

Estava-se a 28 de Janeiro.

Daí a horas desencadeava-se um formidável temporal. Pa­reciam precipitar-se em cataratas os espaços que o relâmpago incandescia. A floresta, a chana, tudo era com fúria sacudido pelo vendaval, — um espectáculo que jamais Enes presen­ciara.

A 1 de Janeiro ainda o dilúvio não havia cessado de desa­bar sobre a terra.

Então o Comissário Régio começou de inquietar-se, tor­nou-se por fim sombrio, os lábios cerraram-se-lhe num mutismo hostil. Sobre a residência parecia pairar a asa dum funesto presságio. Não havia notícias. Que teria acontecido àqueles ho­mens sem piedade fustigados pêlos elementos? Imagens pavo­rosas atravessam-lhe a imaginação. E se o inimigo se tivesse aproveitado da tempestade para surpreender a pobre coluna? E para aquilo havia acedido às instâncias de Carlos Valbom!... A cada momento esperava ver entrar alguém, enlouquecido, com a má nova!... Já o telégrafo do Cabo fazia crer ao mundo no desastre... E o desastre seria o afundamento de tudo...

      2 de Fevereiro. Enes lembra-se de súbito que é dia da Puri­ficação de Nossa Senhora. Amanhecera claro, o céu voltara a azular-se, as águas da baía espreguiçavam-se sob a carícia da luz. Atingido pela dúvida do século, Enes experimentou a nos­talgia da fé encetada... «Felizes — pensava — dos que crêem!» E ao lembrar mais tarde a circunstância, acrescentava: «Tam­bém desejei crer que as tropas estavam entregues a uma pro­tecção divina.» Conservara-se de binóculo apontado ao mar, impaciente de descobrir no horizonte a plumazinha de fumo da Bacamarte, em cujas tábuas ainda há pouco empoçara o sangue do tenente Nunes. Mas a mensagem não surgiu — e às dez da noite, quando se deitou, estava desolado, nervoso, talvez com febre... Pouco havia que ajeitara a cabeça no travesseiro quando sentiu um ruído de passos apressados, de vozes altas que se aproximavam. Que seria? Que seria? A derrota?... Sal­tando da cama, acudiu logo à porta e, ainda no escuro, a sua mão trémula recebeu, — de quem? nem ele sabia! — um mo­lho de papéis molhados pela chuva torrencial que havia caído. Que acontecera? Disseram-lho então, quási em frases soltas, agitadamente. Um combate! Travara-se de madrugada um combate em Marracuene e durante algum tempo tudo pare­cera perdido. A Lourenço Marques vinham já chegando os primeiros feridos. Enes correu a vestir-se à pressa e dali a nada, com o médico Rodrigues Braga, calcurriava os quatro quilómetros de areia que separam a Ponta Vermelha da ci­dade. «Pela Praça 7 de Março, mal iluminada, — contou no seu livro, — cheia de sombras negras movediças e de poças de água, tremeluzentes, perpassavam macas que exalavam gemidos.» Na residência escutou depois as primeiras narra­tivas do milagre. Porque fora mais que uma vitória do he­roísmo, — fora verdadeiramente um milagre o que em Mar-racuene se havia dado.

Os postos avançados tinham sido num momento acometidos à azagaia por negros que, em seguida a terem rastejado até junto deles, imperceptivelmente, cosidos à terra e à escuridão, se er­gueram de subido, num ímpeto. A surpresa fizera recuar, to­mada de pavor, a ala direita do quadrado, formada apenas por angolas. Quanto às outras, compostas pêlos nossos minhotos, pêlos nossos estremenhos, pêlos nossos beirões, pêlos nossos trasmontanos, por gente portuguesa enfim, haviam-se mantido fir­mes à semelhança de panos de muralha, e no entanto por detrás delas um furioso corpo-a-corpo se travava; gritava-se com raiva, disparavam-se tiros, atiravam-se golpes, novos demó­nios negros iam penetrando sempre pela brecha produzida, cla­morosamente, de ferro ao alto. Só à força dum formidável destemor conseguira reconstituir-se a face aluída, levar os aterra­dos angolas a ocupá-la de novo. Recompusera-se o quadrado! — façanha única nos anais da tropa. O fogo crepitava depois de todos os lados com tanto vigor que ao clarear da manhã o ini­migo retirava, deixando no mato um grande número de baixas.

Como acabara lindo aquele dia da Purificação de Nossa Senhora!

Colhidos os louros duma tão inverosímil vitória — devia a coluna prosseguir na marcha, para além Incomati?

Avançar com tropas fisicamente exaustas equivaleria, po­rém, a correr voluntariamente ao encontro dum desastre.

Enes ordenou que as tropas retirassem para Lourenço Mar­ques.

Tornava-se contudo indispensável que, executando-se a ope­ração, não ficasse no espírito dos rebeldes a impressão de que nos era impossível aguentar a posição.

O Comissário Régio contentava-se com a prova de força, de valor e de disciplina que as nossas armas tinham dado.

Isto contudo representava pouco para o Estado-Maior, que respeitosamente fez ver a inconveniência do abandono de Mar-racuene.

Prudente, Enes não levantou as instruções já dadas mas nem por isso deixava de sentir abalada a confiança em si pró­prio. As razões do Estado-Maior eram com efeito duma evi­dência que não lhe escapava. Como não dar ao inimigo a im­pressão de impossibilidade, sobretudo depois dele teimar em atacar, como fizera, chegando duma das vezes a acercar-se do quadrado sessenta metros?

Não obstante...

— É preciso regressar! — insistia o Comissário Régio.

De Marracuene, Caldas Xavier, cada vez mais angustiada-mente, não cessava de acentuar o deplorável efeito moral que a retirada produziria, — e informava que ainda na noite de 3 para 4 ninguém tivera um minuto de repouso...

Não se tratava já de atravessar o Incomati.

Nem mesmo de não regressar a Lourenço Marques.

O nosso brio e o interesse da nossa política exigiam que em Marracuene ficasse ao menos uma guarnição.

Mas não podia ser, — retorquia o Comissário Régio, — a carência absoluta de condições sanitárias, o estado de esgota-mento das tropas, a escassez de víveres que só a muito custo e com enorme atraso poderia atenuar-se, aconselhavam, impu­nham até, que se desistisse de permanecer, mesmo por alguns dias, ali. Que embarcação lograria subir incólume até lá, com os abastecimentos de que a guarnição não tardaria a sentir urgente necessidade?

O major Caldas Xavier e os seus camaradas tiveram de in­clinar a cabeça ao rigor das circunstâncias.

E a 6 a coluna entrou em Lourenço Marques.

Adivinhava-se já a distância a cidade quando, voltando-se para os soldados, Caldas Xavier, que parecia como qualquer deles quási um espectro, advertiu com o olhar incendido pela febre, pelo entusiasmo:

— Rapazes! Vamos ser vistos por estrangeiros!...

«Não foi preciso mais, — contou Enes, fazendo do caso uma colorida e patética reportagem, — para que as fileiras se unissem e alinhassem por si, aprumando-os os corpos verga­dos, alçando-se as frontes abatidas, aligeirando-se os passos tardos, e a pequena coluna tomava de repente um tom garboso e altivo. A bataria de montanha, caçadores 2, a cavalaria e a infantaria da polícia, desfilavam pelas vias principais, por entre alas de espectadores curiosos e espantados, clarins e cornetas tangendo, bocas de fogo rodando estrondosamente entre linhas de serventes altos e desempenados, oficiais dando ordens com voz segura e vibrante... E contudo quem via de perto aqueles bravos compungia-se. Em que estado vinham todos, santo Deus!». Em frente da residência do Mahé, onde o Comissário Régio se encontrava, Caldas Xavier estendeu em linha a tropa, abriu fileiras, fez a continência. O capitão Eduardo Costa me­tendo o cavalo a galope, dirigiu-se a Enes a pedir ordens. De­pois foi o destroçar com o mesmo garbo.

Estava terminado um acto do drama militar, cujo desenlace havia de ser a jornada de Chaimite.

*

*        *

“O movimento da cidade é já bem outro do que quando aqui cheguei, — escrevia Aires de Orneias dali a algumas se­manas, para Lisboa, à mãi, — quási se não via um preto e hoje são às centenas. De facto a revolta até Incomati está bem terminada, graças à nossa campanha.» As linhas por detrás das quais a população se habituara a julgar-se mais protegida, ti­nham desaparecido quási inteiramente e para isso o Comissá­rio Régio nem sequer esperara por Marracuene. A população inquietara-se mas não tardava a confiar no novo sistema de vi­gilância e defesa, — composto por três postos, cada um deles com a sua guarnição, uma peça, algumas ordenanças montadas, e por dois block-houses, restos das linhas que tinham sido im­provisadas sob a ameaça da invasão iminente. Pequenas colu­nas, além disso, saíam às vezes no comboio até à Matola e daqui alcançavam, a pé, as proximidades da povoação do régulo.

Era tudo.

O inimigo voltara a Marracuene.

Para continuar a campanha faltavam transportes, cavalos/ embarcações. Faltava também gente, muita gente, gente fresca, para combater, para construir postos à medida que a penetra­ção se acentuasse, para os guarnecer, para apoiar a marcha... Desde Muhata à Manhissa, na margem direita e na esquerda, desde a foz até ao Magul, o rio achava-se nas mãos dos Vátuas e de seus aliados. Corria pelo sertão que no Magul assen­tavam, além do Matibejana, o Mohazulo, o Finish.

Entretanto o Terreiro do Paço palpitava o Comissário Régio.

Mas Enes respondia, invariavelmente, que não podia desis­tir de nenhuma das condições em que a sua missão à África ficara combinada.

Concebe-se que o seu espírito sofresse ao tempo a forte pressão dos brilhantes elementos militares de que se rodeara, impacientes de liquidarem o Vátua.

Para Freire de Andrade o que os portugueses tinham pela frente não era um exército mas um povo em armas, — e isto tornava mais fácil a luta pela ocupação.

E se uma vez ocupadas as duas Xefinas se aproveitasse o Incomati para o estabelecimento numa e noutra margem, de postos convenientemente fortificados, de um dos quais se par­tiria depois ao ataque a povoações mais internadas?

O actual efectivo das tropas não o permitia, porém. Se a elas se fosse procurar as respectivas guarnições imediatamente desapareceria toda a possibilidade de desenvolvimento das ope­rações que o plano previa. “Este inconveniente, — pon­derou Enes, — agravar-se-ia ainda se as guarnições fossem nu­merosas. Se o não fossem, espreitá-las-ia um desastre certo — a chacina.» Se se organizassem então colunas ligeiras que as lanchas e os vapores transportariam, que regressariam à base, no final de cada missão, apoiadas nos pontos mais afastados do rio, por outras colunas partidas para o efeito de Lourenço Mar­ques e de Inhambane?

Conta António Enes que a princípio se inclinara para este sistema. Tendo porém pensado algum tempo, pô-lo de parte e voltou à ideia de ocupações sucessivas. “Adoptado o princípio, estudou-se a sua aplicação pormenorizada...»

Da reflexão do problema da política militar a seguir resul­tou assentar-se no plano de 3 de Abril, cujos objectivos eram:

1.° — Fazer uma grande demonstração de força capaz de convencer os indígenas de toda a província e até os estrangei- ros — que tinham os portugueses por impotentes para gover­nar na África Oriental.

2.° — Ocupar posições estratégicas e estabelecer postos for­tificados nas fronteiras e dentro do território do Gungunhana, para o manter em respeito e para inspirar confiança aos povos e régulos que alimentassem o desejo de se libertarem do seu jugo.

3.° — Sendo possível, atacar e aniquilar o potentado ou pelo menos sujeitar à autoridade da Coroa o país situado entre o Incomati e o Limpopo.

Daí a pouco, efectivamente, as Xefinas eram ocupadas quási. sem oposição.

O terceiro posto montado foi o de Marracuene, ainda em Abril.

Restava passar à outra margem.

Com ardente impaciência se aguardava o momento de ct fazer. Sempre cauteloso, Enes, considerando que dispunha de pouca gente, não se apressava a autorizar a passagem. Mas o “major Caldas Xavier, — referiu, — que a projectara e dese­java desde muito com a pertinácia toda do seu carácter, apro­veitou o ensejo de estar comandando o posto de Marracuene, para lhe dar um princípio de execução”.

Todos estes factos e as discussões que importavam eram de molde a convencer o Comissário Régio da necessidade duma autoridade técnica de que não dispunha. Que competência, na verdade, podiam nele reconhecer para comandar? Porque de facto comandava. E porque a este respeito nunca deixara de comunicar para Lisboa as suas apreensões, nos primeiros dias de Março chegava-lhe a notícia de que ia seguir com o primeiro troço da nova expedição, que estava a ser organizada, o coronel Eduardo Galhardo. Galhardo comandava infantaria 18, no Porto, e também nunca fora à África. Enes não o conhecia. Sabia apenas, por lho terem dito, que era um homem de pulso rijo. «Melhor, — escrevia, recordando mais tarde as suas impressões da ocasião — era assim mesmo que eu o queria.» Com efeito, no dia 13 de Abril, o vapor Portugal entrava na baía de Lourenço Marques com as forças de artilharia e enge­nharia, e o esperado comandante da expedição.

Finalmente, em 9 de Maio, dava-se começo à construção duma ponte no Incanine, sobre o Incomati, ao norte de Mar-racuene, e sem esperar mesmo a conclusão dos trabalhos, uma reduzida tropa transpunha um belo dia a vau o rio, e passava à margem esquerda. Enquanto a obra prosseguia dum e doutro lado, operavam-se saídas, praticavam-se marchas de reconheci­mento e os angolas raziavam, incendiavam palhotas. A 17 avançava-se para a Mapunga, kraal do Mahazulo, — mar­cha notável pela inexcedível regularidade da formatura, através de terrenos dificilmente praticáveis, visto a face direita ter de fir­mar-se quási sempre, penosamente, na areia, ao passo que a esquerda se atolava em paúes. Ao cabo de todos estes traba­lhos, porém, apenas pôde encontrar-se abandonado o kraal.

O que restava fazer para que a margem esquerda, aquém dos limites do Gungunhana, ficasse tão limpa como estava a direita, era atacar a Maçaneta, a montante das Xefinas, aldeia de Finish, e assim se fez, encontrando-se igualmente deserta a povoação.

Era evidente a táctica do inimigo: atrair ainda mais aden­tro do sertão as nossas forças.

Por outro lado, o avanço destas, embora a cada passo demi-nuídas pela doença, progredia, com o objectivo da Cossine, que não seria desta vez atingido. A seguir ao posto da Cherinda, outro posto, o da Manhissa, era a breve trecho estabelecido no vale do Incomati, que continuava a ser batido e passava pouco a pouco ao nosso domínio.

Por esta forma a revolta ia ficando não desarmada, mas, por assim dizer, expulsa do território sujeito à Coroa Por­tuguesa, pois que na parte da margem direita não ocupada militarmente já ela não poderia ter senão adeptos dispersos e dissimulados. (4)

Porque não entrou então a coluna as terras do régulo de Gaza?

Carecia de ordens nesse sentido.

E porque não surgiam elas?

Ë que penetrar naqueles domínios o mesmo seria que pro­vocar um rompimento com o Gungunhana, e Enes curava por enquanto de o evitar — visto tratar-se de operações a enorme distância da base, que exigiam, além de tudo, preparação es­pecial... e gente.

Da Metrópole estavam prestes a chegar mais tropas.

 

 

 

 

 

 

(1)      O general Fernando de Magalhãis.

(2)      «É certo que ninguém mais que nós tinha, ou tem ainda, tão longa e gloriosa tradição de empresas e façanhas além-mar». Aires de Or­neias, Colectânea das suas principais obras, I to!., edição da Agência Geral das Colónias.

        (3)    A. Enes, A Guerra de África em 1895.

       (4)    Enes, ob.cit.

 

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