II
Corriam naquela época agitadas as coisas em Portugal por motivo do ultimatum.
Os comícios sucediam-se cheios de veemência; dia a dia os jornais renovavam as suas parangonas violentas como apóstrofes; circulava por toda a parte o panfleto; a caricatura sangrava e a própria arte descia da sua nuvem a misturar-se ao tumulto, ao nervosismo da rua. Era um ambiente sedicioso. A revolta não tardaria a deflagrar. Da sua remansada vila de Neully, onde com regularidade ou pequeno atraso o correio entregava, cintadas, as Novidades, Eça, a quem «esses gritos, esses crepes sobre a face de Camões, toda essa barafunda sentimental e verbosa» inquietavam, sugeria a Oliveira Martins, cujo pensamento renovador começava a divorciá-lo de fórmulas políticas correntes e não tardaria a fazer dele, naquela época, uma solitária voz a clamar no deserto, — que falasse, que fosse aquele espírito «de bom senso e de verdade» que era urgente que se fizesse ouvir...
Teria Mousinho a grande distância
da fogueira, chegado igualmente a inquietar-se?
Algumas alusões aos perigos e aos sustos daquele período bastam para que quaisquer dúvidas a este respeito se dissipem.
A sedição militar do Porto, por uma álgida manhã, mas ardente de discursos e de entusiásticos clamores, haviam-na dominado, do alto da escadaria duma igreja, algumas forças da Guarda, a princípio irresolutas... Como se, porém, ela representasse apenas um caso esporádico, simplesmente um tumor que rebentara, deixando ilesos o resto dos tecidos do organismo — os costumes políticos do país não se modificaram. Por outro lado, — à medida que a decadência se acentuava, — a palavra Revolução acudia aos lábios com a significação dum miraculoso fiat... Esmorecida a confiança nos princípios, as instituições entravam no plano inclinado em que por fim deviam sumir-se...
Mousinho que manteve sempre a sua qualidade de português inseparável da fidelidade àqueles princípios tradicionais de que, no seu pensamento, era depositário o Rei, e que por esse motivo nunca enfileirou entre os cépticos que formavam o grande número dos seus contemporâneos, reagia diversamente contra o aviltamento em que tudo caía. Por isso, para além de perigos e de ameaças, a sua fé previa possibilidades de renascimento... «A cobiça da Europa dera-nos o conhecimento vago do tesouro que ainda possuíamos.» (1) Sobre os destroços do mapa cor de rosa, que tão numerosas e profundas decepções custara, a nossa vocação ultramarina poderia de novo explêndidamente aplicar-se, operar o resgate dos erros, reconstituir o prestígio abalado da monarquia, congraçar, facto que tantas vezes no decurso duma história extensa se havia repetido, o Povo e o Rei, criar o exemplo duma nova «partida» de bons e esforçados servidores. Que sentido alto da Pátria, que alta finalidade em todos os seus trabalhos, vicissitudes e glórias africanas animavam a ala que Mousinho comandou, revelam-no as seguintes passagens duma carta de Aires de Orneias escrita em 1897: «Também se a gente não acabar por levantar o País já não sei o que pode a vontade. Quando penso no que era o Exército quando sentei praça, na sua negra obscuridade, no seu marasmo, no nada que era considerado, e olho para o dia de hoje e penso, não posso deixar de dizer que alguma coisa temos feito; e se a minha geração, à qual força é dizê-lo, se deve isso especialmente, o tem podido conseguir, foi ainda por que nos soubemos unir, e pela palavra, pelo escrito e finalmente, mercê de Deus, pelas obras temos mostrado que se pode contar com a tropa. Não posso portanto deixar de ter esperança no futuro, que só vejo auspicioso. Hoje não é o País inteiro que para aqui olha como um auspicium melioris alvi? Há de ser o orgulho da minha vida ter já hoje o meu nome ligado a esse ressurgimento nacional», (2)
Chegara, pois, o momento de, como nos bons tempos da conquista, falarem por suas obras portugueses de ouro — ex-pressão que Mousinho recolheu nas leituras das Décadas de Couto— para a aplicar um dia a um irmão de armas, Caldas Xavier.
Das qualidades da grei não havia que duvidar, embora «sessenta e quatro anos de rotações partidárias, das quais quarenta e sete de pretendido fomento mascarando a corrupção», a houvessem desiludido «por forma a desinteressá-la de toda a política, em que [via] não a competência dos que melhor podem governar mas apenas a rivalidade mesquinha de interêsses pessoais ou partidários». “Um país com uma tal gente não podia morrer vítima duma pequena minoria.» (3).
Em Portugal os governos haviam atentado tarde nas coisas da África.
E contudo estava-se num século em que um imenso movimento de interesse pêlos segredos desse vasto continente se desenhava. A princípio timidamente, a pretexto de resolver umas vezes certos antigos problemas geográficos, sobretudo de carácter hidrográfico, — onde nascia o Zambeze? onde tinha o Nilo as suas fontes? — outras a coberto de denunciarem centros de esclavagismo ainda existentes, e até por veemências de proselitismo puritano. Depois afirmando já insofismavelmente os verdadeiros propósitos que o animavam, pela anexação, pela conquista, pela instituição de protectorados.
O activo colonial da nossa governação pouco mais contava do que o resultado de alguns clarividentes esforços isolados.
Terá sido isto fruto da própria época?
Talvez, em parte.
Porque também a Inglaterra, nos meados do século, padeceu as consequências duma política de little Englanders, para a qual as colónias representavam quási exclusivamente encargos pesados sem remuneração no futuro.
Não acabariam elas mais dias menos
dia por separar-se do tronco que as sustentava?
Certo é que com a aparição de Disraëli em 1876 tudo devia mudar.
Homem de génio dotado de penetrante visão, um dos seus primeiros actos de governo consistiu em ajustar, com o título de Imperatriz, ao diadema de Sua Graciosa Majestade, o diamante das índias, até então obscuramente conservado no estojo em que o legara uma famosa companhia ao desaparecer do mundo... E a nova soberania tornou-se um programa que conseguiu, afinal, acordar depressa no espírito britânico a consciência do Império.
Assim fora necessário.
Porque outros países iam aparecendo na cena sertaneja. Já os seus exploradores não estavam seguros de não encontrar numa qualquer volta competidores, como acontecera a Stanley, acolhido onde hoje é Stanleyville, por outros brancos de falar diferente do seu. À roda de 1834, com efeito, cest une véntable course vers l'intérieur, expressão com que o sr. Jacques Weulerose (4) designa a sofreguidão de África que se apoderou então de alguns povos. Ao passo que a Inglaterra reservava para si a vastidão hinterland e adquiria Zanzibar, os alemãis instalavam-se no Togo, no Camarão, na Damara, no Este Africano. «No meio das rivalidades das potências, a vantagem viria a caber àquele que pudesse rapidamente ocupar a maior porção de território», — pondera ao tratar do fenómeno o historiógrafo flamengo sr. Adrien de Meeüs, para quem os portugueses ao tempo viviam na convicção de estarem ainda no século XV... (5) Quando De Brazza apareceu na margem esquerda do Zaire, dentre os belgas que procuravam também em África o seu lugar ao sol, um clamor de protesto se ergueu contra o que eles diziam representar uma “usurpação”.
Assim sobre o piso de Livingstone, de Stanley, de Brazza, de C. Rhodes mais tarde, iam-se delimitando futuros países, às vezes um pouco aos encontrões.
Assim, entrementes, se chegou à Conferência de Berlim que estabeleceu as normas duma partilha jurídica.
E a-pesar-de tudo isto, os portugueses até há poucos anos haviam sido os únicos a percorrer os sertões de Angola e Moçambique, traficando e influindo dum modo sério na vida dos povos centrais do grande continente (6).
Notáveis foram para o reconhecimento deste entre outras as explorações de Capelo e Ivens, de Serpa Pinto, cujos itinerários se desenham sobre vastíssimos territórios que antes deles nenhum outro europeu havia palmilhado. Nem no ponto de vista da devassa científica do centro de África se ficava atrás dos demais povos curiosos. Somente a acção política e diplomática que a esse movimento veio a corresponder, fora quási frouxa, mole de interesse. A prioridade dos descobrimentos pêlos portugueses, — diz por sua vez o sertanejo Silva Porto, num escrito sobre as viagens de Livingstone, postumamente publicado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, — é um facto demonstrado até à saciedade; apenas os governos não corresponderam ao que deles era de esperar, enviando homens competentes, conhecedores dos diferentes ramos de ciência humana, que explorassem, investigassem, descrevessem. E tão tardiamente eles haviam acordado que ao chegarmos à região dos Lagos, — conforme Pinheiro Chagas refere, — já lá se encontravam missionários protestantes que à nossa estranheza e à intimativa que lhes fizemos para que se fossem, retorquiram senhores de si: C'est a vous d'en sortir! Coisas nossas, — escrevia em 1890, ainda Silva Porto, nas páginas testamentárias do seu Diário, — pretender realizar quando já o círculo de ferro dos estranhos nos apertava, o que deveríamos ter feito há vinte anos!
Salisbury no poder reatava a política tradicional das grandes Companhias.
Depois veio o ultimatum, — e logo a liquidação dos falazes «direitos históricos» com que nos embalávamos, como antigos senhores do Universo, o naufrágio duma grande ilusão...
Que ocupávamos de facto na África Oriental?
Duma das vezes em que se lhe ofereceu tratar do assunto, referiu Mousinho: “Dominávamos na capital da província a ilha de Moçambique, dominávamos também em todo o distrito de Inhambane, ocupávamos Lourenço Marques e exercíamos domínio mais nominal do que efectivo nas terras limítrofes assenhoreados pêlos régulos vassalos da Coroa; tínhamos presídios ou fortes militares em vários pontos da província, em Sofala, Tete, Sena, Quelimane, Ibo, Tungue, e pouco mais. A isto se reduzia o nosso domínio real na África Oriental Portuguesa; no resto das nossas possessões desta parte de África não tínhamos domínio real de espécie alguma.» (7) Noutra ocasião, com uma impressionante precisão, descreve-nos o invariável tipo desses postos a que se apoiava a nossa soberania: a lamentável palhota ao lado a qual havia sempre plantado um grosseiro mastro para a bandeira e cuja guarnição consistia em três ou quatro soldados pretos comandados por um oficial branco exposto, pela desolada monotonia duma permanência na inércia, a todos os ardis do mato, da natureza primitiva, subtilmente corrosiva...
Tal era o momento em que Mousinho estabelecia o seu primeiro contacto com a África, que ele até ali apenas conhecia dos livros estudados, do desenho das cartas e da amurada do navio que o levara à índia.
Começava então Lourenço Marques a estender-se para fora do perímetro do velho presídio em que até há pouco coubera. A despeito da febril exalação dos pântanos, lojas, habitações de madeira e zinco tinham-se tornado mais numerosas e, reservadas a novas edificações que não tardariam talvez a ser procuradas, algumas avenidas iam-se rasgando um pouco à aventura sobre a areia solta e a vegetação desértica de cactus e mimosas, em direcção às saudáveis eminências de Machacüene, do Mahé, do deslumbrante belveder da Ponta Vermelha, onde um solitário farolim conversava com a navegação de largo. Neste aglomerado a ensaiar gestos de alargamento, a praça 7 de Março, com a «residência» quási sem vulto, algumas feitorias estrangeiras, armazéns, casas principais, «bars», uma paródia de jardim público provinciano ao meio, onde uns canteiros definhavam e escassos aloés tristemente floriam, frequentada de brancos, de monhés, de mestiços e que uma vez por outra aventureiros de pele rosada e cabelo louro, largados pelo paquete que acabava de fundear, atravessavam a caminho de terras auríferas — constituía o panorama urbano por excelência característico. Ali, com efeito, durante o dia lavrava a imaginação dos negócios e à viração das noites, como nas pequeninas vilas da metrópole, à volta do chafariz ou na botica, praticava-se a má língua, cada qual besbilhotava indiscreto. Vivendo, então, ombro a ombro, dificilmente as intimidades escapavam ao cáustico da anedota. E o facto de, — como referiu Enes, —bastarem alguns passos fora de casa, para logo se encontrar o puro campo africano, povoado unicamente de palhotas, sem outras culturas além das machambas dos indígenas, — ainda mais acentuava a balda, o acanhamento do meio.
À chegada de Mousinho, a população vira, havia pouco mais dum mês, correr sobre o rail para a fronteira o primeiro comboio.
Como uma arca de peito sôfrega de ar, Lourenço Marques começava, a-pesar-de tudo, a respirar melhor, — novos e mais largos interesses...
Esse governo de Mousinho que foi curto, valeu principalmente pela experiência e pela fecunda meditação que proporcionou, embora quási sempre seja nas biografias, quando o não omitem, um simples pormenor de carreira.
Efeito do súbito e maravilhoso explendor de Chaimite.
Um dos mais interessantes episódios que o assinalaram foi o aprisionamento do Countess of Carnarvon, quando o flibusteiro subia as águas do Limpopo com o presente de armas da Chartered para o Gungunhana.
Outro foi a desafronta de
Macequece, que traz à mente os feitos dos nossos fronteiros e alcaides-mores de
castelos de que reza a crónica do solo pátrio.
Havia a gente de Chartered em território nosso capturado um oficial português — Paiva de Andrade.
A afronta exigia pronto castigo.
Imediatamente Mousinho tratou de organizar uma coluna composta dos polícias que tinha à mão e de alguns voluntários. Caldas Xavier, que voltara de novo às suas explorações no vale do Limpopo, interrompeu-as logo e foi apresentar-se ao governador do distrito. Assim, a 10 de Janeiro (8), sob o seu comando, embarcava a coluna em Lourenço Marques, saía na Beira e ao cabo duma exaustiva marcha de quatro meses, durante a qual amiúde tivera de abrir trilho entre a vegetação espessa que de todos os lados a envolvia, chegava a Macequece ocupada pelo adversário. Uma hora durou a refrega com perdas de parte a parte. Um combate duro e desigual. De Lisboa, alarmado, o Governo mandava depois que os nossos retirassem. Estavam em marcha as negociações para o tratado que definiria os limites da Província. Houve, pois, que retirar. O tratado foi, com efeito, assinado. “Mas, — ponderava Mousinho, ao lembrar a ocorrência e aquele convénio, — houvera, ao menos, um protesto a tiro».
Se os nossos
competidores já não procuravam dissimular os seus propósitos de expansão, —
tanto que ainda em Abril de 1891, as canhoneiras portuguesas haviam tido que
opôr-se pela força a uma expedição da South
África, que pretendia penetrar na Beira, — a grande sombra do Gungunhana
continuava a alastrar pelas «terras da Coroa», — aqueles territórios distritais,
— explicava Enes, — cujos régulos se consideravam vassalos imediatos de
Portugal, cumpriam os deveres de vassalagem, especialmente os do pagamento do
imposto e da prestacão de gente para guerra ou trabalho. Para além das «terras da Coroa»
nunca se tinham estendido as mais ligeiras realidades do nosso domínio (9). E,
a propósito, o antigo comissário régio alude à recusa que fizemos, só para não
descontentar o Gungunhana, da vassalagem que desejava prestar a Cossine, vasto
e populoso país da margem esquerda do Incomati. A sombra do régulo ia, pois,
dilatando-se, obscurecendo, apagando a nossa soberania. Gungunhana levantava
gente, cobrava tributos onde e como lhe aprazia, e para negociarem ou
atravessarem os seus domínios, não só monhés ou baneanes tiveram muitas vezes
de solicitar-lhe autorização, mas até brancos, até portugueses. E tudo isto se
passava a dois dias e menos dos nossos portos de mar! (10) Para não irritar o potentado, acedia-se às
suas mais duras imposições. E contudo a sua atitude era bifronte. Dele, em
1893, escrevia Mariano de Carvalho que, como comissário régio de Moçambique,
se encontrou com Mousinho governador do distrito de Lourenço Marques: «Aquele
honrado traficante tão cantado pêlos periódicos de Lisboa, poucos meses antes
havia enviado emissários ao Natal para se entregar aos ingleses e logo depois
ao Transvaal para se entender com os bóers contra nós. Servia para a retórica
oficial, para as declamações patrióticas dos jornais, para justificar grossos
dispêndios com intendências e subintendências famosas e ridículas, para nos
extorquir presentes, para se emborrachar com vinho moscatel e na sua falta com
aguardente, para tratar e assolar grande parte da província ao sul do Zambeze».
(11) Mas que opor à extensão do mal?
Uma nota ao fundo de certa página de Moçambique é a este respeito bastante elucidativa.
«Logo que fui para a África e vi o estado de coisas no distrito de Lourenço Marques de que era governador, convenci-me da imprescindível necessidade de bater os vátuas. O major Caldas Xavier que no seu reconhecimento do Limpopo tivera ocasião de atravessar as terras do Gungunhana, apoiava muito esta opinião, e afirmava que a empresa não era tão difícil nem tão arriscada como a muitos se afigurava. Rara era entretanto a pessoa que ouvindo falar em tal, nos não taxasse de visionários».
Ora com efeito em Lisboa não se pensava daquele modo. E durante muito tempo se hesitou e manteve a política de libras e presentes, preço do direito que o régulo concedia ao nosso país de ter hasteada a bandeira no seu kraal... A nossa autoridade não tardaria, pois, — como muito bem previa Enes, no caso de não mudarem as coisas em África, — a reduzir-se ao terreno que os pés cobriam.
Entre Caldas Xavier e Mousinho, sempre que se encontraram, foi este angustioso problema debatido. Absurdo seria supor o contrário.
À varanda da «residência», na solidão e na mudez profunda das noites de África, de ardente e vibrante irradiação, enquanto à velada claridade do candieiro, percebido através das persianas, a sr.a D. Maria José Mousinho de Albuquerque, numa sala perto, escrevia aos seus, — se se anunciara para dali a poucas horas o vapor da carreira, — ou se ocupava em trabalhos para o lar, ambos, nesses encontros, apreciaram sem dúvida todos os aspectos da situação, calcularam a extensão de esforço, de inteligência, de alma heróica que se tornavam indispensáveis. “Moçambique era uma província a conquistar em grande parte e a organizar»—devia Mousinho escrever mais tarde, reportando-se àqueles tempos. E é também da mesma época a advertência do major Caldas Xavier: «Quanto mais tarde nos resolvermos a bater o Gungunhana, maiores serão as dificuldades». Que as ideias dum e doutro se encontraram, confirma-o a nota a que se aludiu há pouco, — ou pelo menos nunca essencialmente divergiram. Material de guerra, emprego de forças brancas, emprego de forças negras, das gentes dos régulos avassalados, ocupação de pontos tácticos e construção de postos fortificados, uma vasta rede de estreita malha que devia acabar por manter imobilizado e impotente na margem esquerda do Limpopo o potentado vátua, — raids de cavalaria: «se se me deparasse ocasião num [deles], prendê-lo-ia, [ao Gungunhana], pensaria já Mousinho (12):—a função daquele rio como linha de defesa, explorado por lanchas-canhoneiras; o armamento da cavalaria com lança ou carabina como infantaria montada (13), que Caldas Xavier preferia aos lanceiros, que poderia igualmente desempenhar pequenas operações em que a carabina teria melhor emprego do que a lança e o sabre; e por último o complemento, a justificação da acção militar, — a organização do país que seria necessário empreender desde logo, indo dos fundamentos da administração até ao aproveitamento económico das suas riquezas, à sua colonização, a par duma política indígena generosa, -eficiente, civilizadora, — todos estes problemas seguramente passaram nessas conversas quási casuais em horas de aparente repouso, debatidos com exuberância de recursos de ciência militar, de visão política, com uma igual e mal contida ansiedade de realizar...
Desinteligências administrativas?
Provavelmente. Porque em dado momento Mousinho resolvia em 1892 deixar o governo do distrito, onde, não obstante a precariedade das condições, fizera cobrar o imposto de palhota.
O seu tirocínio africano estava feito.
Mousinho durante esse curto governo não tinha unicamente servindo, mas observara com uma absoluta objectividade o meio, as gentes, os factos, o ambiente político e internacional em que os problemas se apresentavam.
Resultado das suas
experiências e duma penetrante meditação era sem dúvida aquele «plano» de
operações que entregara ao ministro da Guerra, coronel Pimentel Pinto, e que
este entendeu dever confiar à atenção de António Enes, na altura prestes a
seguir para Marselha, donde partia o barco das Messageries que o levaria ao seu destino. Dias depois, curioso
de conhecer a impressão que a leitura pudesse ter produzido, interrogou o
comissário régio. «Acha-o viável?» Mas Enes que preferia orientar-se no local,
pelo exame directo da situação, evitou comprometer-se de antemão, e respondeu
apenas que o trabalho do capitão Mousinho não se afastava muito das ideias que
ele tinha sobre o assunto, — e que por isso o tomaria em consideração.
Recordando depois o episódio, explicava na Guerra de África:
«A semelhança deste projecto com o meu, provinha de que ambos tinham sido baseados em informações e alvitres do major Caldas Xavier, que visitara o Gungunhana e percorrera boa parte do decantado império vátua».
Quais eram as ideias de Caldas Xavier?
Certo passo do Reconhecimento do Limpopo resume-as nestes termos:
«Não se devia atacar abertamente o Gungunhana, que dispunha de enormes recursos para a resistência, sendo preferível rodeá-lo com uma cinta de postos fortificados, que a pouco e pouco se fossem apertando até garrotá-lo. Se ele, compreendendo a ameaça, quisesse reagir, tanto melhor, por isso que os vátuas só na defensiva eram formidáveis. Convinha até provocá-los». Caldas Xavier recomendava até que se construíssem os postos de tal arte que, sendo fortes parecessem fracos, para que o inimigo se arremessasse sobre eles com cega confiança. «Nada, porém, de ir procurá-los nas suas florestas, nos seus pântanos, em sertões sem água ou alagados, onde o soldado branco seria vencido sem combater».
Do plano de Mousinho que o coronel Pimentel Pinto lhe havia recomendado, referiu Enes em A Guerra de África:
«Não propunha uma campanha
aberta contra o régulo de Gaza, nem um ataque ao Manjacaze: aconselhava apenas
que duas colunas de tropas europeias, de cerca de 1.200 homens cada uma,
auxiliadas por indígenas, operassem ao norte do distrito de Lourenço Marques e
ao sul do de Inhambane, e nessas regiões estabelecessem postos militares
fortificados em posições estratégicas como Chicomo, Magul, etc. Marcava essas
posições, que deveriam ficar ocupadas e em estado de resistência.»
Já nesse trabalho Mousinho, — que era quási o único oficial que insistia pelo emprego da sua arma em África, — a ela devia atribuir o papel que ardentemente lhe apetecia.
Talvez por influência sua o ministro da Guerra decidira empregá-la nas próximas campanhas, — e ao comissário régio anunciou que ia mandar fazer parte da expedição dois esquadrões de cavalaria.
Enes não o contrariou, “conquanto, — conforme depois confessou, — não tivesse ideias assentes sobre a vantagem do emprego da arma em guerras sertanejas”, mas pediu e conseguiu que embarcasse apenas um esquadrão.
A grande hora de Mousinho ainda não havia chegado.
Mas não tardaria a soar.
(1) Mousinho, Moçambique.
(2)
Ornelas, ob. cit
(3)
Mousinho, ob. cit
(4) L’Afrique Noir.
(5) Histoire
de Belgique, Plon, 1928.
(6)
H. Capelo & R. Ivens, De
Angola à Contra Costa, 1886.
(7)
Conferência realizada na noite de
19 de Janeiro de 1898 no Centro
Comercial do Porto.
(8)
1891
(9) Enes, A Guerra de África.
(10) Enes, ob. cit.
(11) Planos financeiros, Lisboa,
1893.
(12) Mousinho em A Campanha das tropas portuguesas em
Lourenço Marques e Inhambane, Lisboa, 1897.
(13) O efeito de uma carga de cavalaria, — escreveu Caldas Xavier, 110 Reconhecimento do Limpopo, — sobre os nossos inimigos, inteiramente estranhos ao combate desta arma, deve ser esplêndido e terá a vantagem de entusiasmar as massas da guerra-preta dos nossos régulos armados de escudos e azagaias.