I
Segundo rezam os linhagistas, mergulha no século XIII suas raízes a árvore dos Mousinhos, que entra a definir o seu porte com Afonso Sanches, bastardo e filho predilecto de El-Rei D. Deniz.
Como o pai, este Afonso Sanches, que dorme o derradeiro sono numa arca que o figura jacente, em Santa Clara de Vila do Conde, à beira de um rio de bucólica, o Ave, que ainda corre talvez conforme os seus olhos o conheceram, distraído, ameno, entre verdes campos de milho, aqui, além ajudando azenhas e num fácil vau a mansos gados matando a sede, — fez de seus amorosos queixumes deliciosas trovas.
Vedes, amigos, que de perdas ey,
des que perdi por meu mal mha senhor;
perdi ela, que ffoy a rren milhor
das que Deus fez, e quanto servia'ey
perdi por em e perdi o riir,
perdi o ssem e perdi o dormir,
perdi sseu bem, que non attenderey.
E foi por ventura nesta inclinação para as cantigas, em que a morfologia e a música da Língua andavam a ensaiar-se, que El-Rei achou a razão de todas as preferências e favores que veio a dispensar-lhe, acendendo assim o ciúme do infante herdeiro.
Depois, crescendo e bracejando sempre, a árvore não desmereceu do princípio. Continuou a dar excelentes frutos à Cavalaria e ao Espírito, — e até não poucas vezes num só da linhagem uma e outra propensão convergiram com lustre.
Entre os que pelejando mais se altearam, divisa-se sobre o fundo da batalha de Toro, travada em 1476, certo Fernão Gil de Albuquerque que se bateu ao lado do príncipe D. João, com quem lidava, conforme narra Damião de Gois, «ha milhor gente que havia no exercito».
No número dos “intelectuais” — passe o termo, de recente cunho, — deparam-se, entre outros, Pedro António Mousinho de Albuquerque, que teve a honra de corresponder-se com Voltaire; João Mousinho, a quem Inocêncio não se esqueceu de incluir no seu Dicionário bibliográfico, e diversos institutos estrangeiros acolheram por mérito das obras que compôs.
Avulta como um dos exemplares em que mais notavelmente se operou esta fusão o avô do nosso Mousinho, Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, soldado expedicionário à Terceira, diplomata, ministro no dealbar do Constitucionalismo, e que foi, em 1834, na Câmara, uma das nobres e solitárias atitudes de protesto contra o festim dos bens nacionais. Engenheiro, arqueólogo, autor de uma preciosa memória sobre o monumento da Batalha, cultivou ainda as musas, à semelhança do seu antepassado Afonso Sanches (1), teve assento na Academia Real das Ciências e foi sócio do Instituto de França. Aos quarenta e cinco anos, porém, perdia a vida no recontro de Torres Vedras de 1846, triste episódio das frequentes lutas intestinas desencadeadas desde os primeiros dias do regime com que depois de ter soltado o famoso grito do Ipiranga, D. Pedro IV desembarcou certa manhã de Julho de 1832, no areal de Pam-pelido e entrou no Porto, por Cedofeita (2). Morrera alguém nesse episódio — e tanto foi de sentir a perda que Oliveira Martins com lástima a regista no Portugal Contemporâneo.
Em 11 de Novembro de 1855, — pouco havia que fora aclamado rei D. Pedro V — nasceu na quinta da Várzea, concelho da Batalha, o futuro capitão de África, filho do major José Díogo Mousinho de Albuquerque, oficial de Engenharia, arma que andava como a Cavalaria nas tradições da família, e de D. Maria Emília Pereira da Silva de Bourbon. Paraninfado pela avó, D. Ana de Mascarenhas de Atai de, viúva de Luiz Mousinho, e pelo tio Fernando Luiz, outro Mousinho soldado e «intelectual», foi ainda com poucos dias de berço, levado a baptizar ao glorioso templo a que assiste na qualidade de orago, Nossa Senhora da Vitória.
Não podia a sua predestinação revelar-se num cenáriomais evocativo... Cada mísula, cada pilastra, cada janelão, os pórticos, as naves, os vitrais, as capelas, os túmulos, as ábsides, tudo ali entoava com efeito um nibelungo canto heróico.
Educado num desses lares em que as mulheres, no seu apego às mais sólidas e nobres noções duma lição antiga, representam muitas vezes um suave e convincente correctivo aos entusiasmos innovadores e iconoclastas dos homens da família, — e era esse o caso dos Mousinhos, — com a mãi e uma avó absolutamente aplicadas a formarem-lhe o carácter, cedo devia ter sido instruído acerca da honra e do dever de fidelidade aos exemplos (3) de que se iluminava a linhagem ao serviço da Grei, na suma da experiência das gerações passadas: o respeito do nome usado (4), o serviço do rei, ,o amor do torrão pátrio, o não renegar jamais a fé em Deus. Uma espécie de ancestral presença dir-se-ia velar nesse lar pela inalterabilidade de certos ditames. Longe de valer unicamente como desvanecente nomenclatura, o memorial da família significava antes o que quer que fosse de vivo, de palpitante. Tudo entre aquelas paredes parecia concorrer para o efeito, para a ilusão dessa presença, — desde a crónica oral acrescida de pais a filhos, que uma ou outra anedota iluminava por vezes com a graça duma miniatura, e os retratos que o tempo ia escurecendo, até às alfaias do modesto recheio duma riqueza já parcelada. Não terá sido sob a influencia dos preceitos que lhe orientaram a educação, que Mousinho, redigindo um dos seus relatórios de campanha para o ministro, ao ocupar-se da carga de cavalaria que Aires de Ornelas, no combate da Mojenga, havia comandado, resumia nestas palavras todos os títulos por que aquele oficial se impunha ao elogio? “Dizendo a V. Ex.a que se mostrou sempre digno do apelido que herdou de seus avós, nada mais precisaria acrescentar».
Do lar, por fim emudecido, lhe advieram ainda os germes da piedade que guardou numa época em que tantos espíritos selectos se mostravam apostados a travar o “último» combate contra a fé ou quando muito assumiam uma atitude apenas respeitosa mas inteiramente vasia de adesão, perante o que eles consideravam o crepúsculo dos grandes dias da Igreja e do seu glorioso império sobre o orbe e as almas... Sem constrangimento algum, Mousinho afirmou-se sempre católico e jamais hesitou em denunciar a educação religiosa que havia recebido. E a África não lhe fez senão compreender ainda melhor o sentido civilizador do Catolicismo, tão intimamente, pelos laços da história, associado ao esforço construtor da nossa gente. Mostram-no nos seus escritos reflexões como esta: “Quem viveu na África Oriental, quem teve ensejo de fazer a comparação do que se passa nas colónias estrangeiras com o que sucede em Moçambique, não pode deixar de lamentar profundamente que a intransigência partidária houvesse privado uma Nação como Portugal, a que não sobram os recursos e aptidões para se manter na posse daquela província, de usar dum meio tão eficaz de nacionalidade e nacionalização do Ultramar. Quando se conhecem os serviços que as ordens religiosas têm prestado à expansão do domínio colonial e influência da França republicana, quando se observa como a Inglaterra e a Alemanha, embora protestantes, protegem essas ordens e as aproveitam nas suas colónias, pasma-se da nossa cegueira e da lamentável obliteração do sentimento verdadeiramente nacional e patriótico que resulta do doutrinarismo partidário. Porque, em que pese ao jacobinismo corrente, do facto de ser Portugal a única nação católica que possue uma colónia na costa oriental, desde o Cabo Guardafui ao da Boa Esperança, resulta não menos do que da história passada, um laço íntimo, uma solidariedade irrecusável naquela costa entre a propagação da fé católica e o domínio português».
Neste passo, como noutros, Mousinho criticou o sistema dos governos parlamentares. Frequentemente se sente em seus escritos a «nostalgia» da autoridade. Chefe predestinado, amou sem dúvida o comando, o poder, compreendidos, porém, como os mais duros instrumentos só dignos de ser manejados em proveito e para o bem da Grei. Que admira, pois, que na mente de alguns dos seus companheiros, já em 1896 surgisse a possibilidade dele ser ainda um dia um novo Mestre de Aviz ou Nunálvares, o defensor do Reino? (5). Dir-se-ia que o oráculo de Delfos lhe houvera também ensinado, como a Licurgo, que as leis que mais convêm aos povos são as que obrigam uns a mandar bem, outros a bem obedecer. Certo dia, oficiando a propósito das dificuldades com que deparava a sua acção em África, observou: «Força moral e prestígio em Portugal só tiveram os governos anteriores à revolução de 1820». Nas páginas de Moçambique abundam conceitos como estes: (Sessenta e quatro anos de rotações partidárias, das quais quarenta e sete de pretendido fomento, mascarando a corrupção, têm desiludido o povo português de forma a desinteressá-lo de todo da política, em que vê não a competência dos melhores que podem governar mas apenas a rivalidade mesquinha de interesses pessoais ou partidários».
Tinha Mousinho apenas seis anos quando os seus tomaram luto pela morte de D. Pedro V, que havia sido um monarca «sábio e justo». Foi isso um grande acontecimento cujos comovidos ecos ainda alguns anos após subsistiam num imenso número de almas. Mas os reis paternais eram já então um anacronismo e D. Pedro V — observou com gravidade Júlio de Vilhena no estudo daquele soberano, (6) «se vivesse mais tempo, teria necessariamente de abdicar». Quantas vezes — quem sabe? — durante essas longas semanas de dó, nos serões de família, ele teria seguido, como se ouvisse um conto, o que diziam acerca do efémero rei desaparecido para entrar desde logo na lenda, depois de ter vivido exemplarmente, escrupulosamente a vida, exercido o seu ofício com espírito de autoridade, inacessível a aduladores e a despeitados que mal lhe sofriam o ascendente moral, corajoso como revela o curioso episódio da luva descalçada ao visitar nos hospitais os atacados de cólera morbus, dispensador de justiça, atento aos fracos, aos pequenos! Sob o encanto desta imagem de iluminura gótica o espírito cavalheiresco e generoso de Mousinho compôs a sua figura ideal dum «rei» desembaraçado das peias do sistema, capaz de “acção directa», a quem «se dirige a súplica do aflito, quer ele seja um órfão faminto que pede pão, quer um povo inteiro que pede que o salvem», (7).
Adivinha-se, lendo Mousinho, que jamais uma intenção literária o aproximou do papel.
Escrevendo ou manejando a espada, apenas servia.
Qualificar-se-á Mousinho aquém do que deve ser um homem de letras? É de crer que sim. Nunca escreveu por escrever, por afeição à prosa-artística. Isso seria, no seu tempo, no livro, a glória dum Eça, dum Martins; nos jornais, a dum Navarro, dum Carlos Lobo de Ávila. E contudo ter-lhe-ia sido fácil realizar aquele tipo de soldado-letrado que André Maurois tão bem estudou e documentou em Lyautey.
Embora sempre a remota distância de toda a preocupação literária, Mousinho teve um estilo.
Mesmo quando a espontaneidade reveste nele uma expressão artisticamente bela, quem poderia razoavelmente explicá-la como deliberados resultados de agulha aplicada?...
Quantas vezes ele foi esteticamente eloquente, imaginoso, vibrante!
Assim nas glosas daquela carta de D. Sebastião que serviu de epígrafe a Moçambique. Assim quando com jubilosa altaneria, em certo estudo, ao referir-se ao efeito moral que a campanha de 1895 produzira fora e dentro do país, lançou ao papel estas palavras que provocam à recitação: “Foi realmente imenso! Para todos os ingleses, — ver os poor poltry slaves de Byron levar a cabo esta campanha por forma que deixa a perder de vista quantas eles aqui têm feito, foi a maior e a mais inesperada das surpresas. Para nós, portugueses, em África pelo menos, foi o retemperar da alma nacional, o hierro, despierta-te! gravado numa folha de Toledo». Assim" ainda no relatório da campanha dos Namarrais, quando a propósito do baptismo de fogo do guarda-marinha Ferrão (8) à mente lhe acodem reminiscências talvez das crónicas de Froissart e, dentre a sua flamejante imaginária, irrompe a figura de Eduardo III de Inglaterra, com certo donairoso dizer no episódio de Poitiers...
Se o estilo é o homem, como pretendeu Bouffon, ainda desta vez isso se verifica. Afinal o estilo de Mousinho distingue-se por qualidades que estão na lógica do seu carácter, do seu temperamento (9). A própria fluência da sua elocução faz--nos pensar naquele fácil poder de decidir-se, que é um dos traços por que se define o seu dinamismo nervoso. E pouco importa que se trate dum relatório, dum artigo ou simplesmente duma carta: esse estilo, é sempre «conciso, simples, viril, sem espalhafato nem retórica».
Assentando praça no regimento de cavalaria n.° 4, em 1871, Mousinho determinava-se conforme uma lei do próprio sangue.
Era militar pelo coração e por herança de família, — afirmava um dia em que viera a propósito justificar a sua vocação, — e «o simples facto, acrescentou, de pertencer ao Exército», representava para ele «uma honra superior a todas». Mais tarde, noutra página de Moçambique, voltando ao tema, explica: «Se tanto me orgulho de ser oficial do Exército, título que considero muito acima de todas as veneras e honras que me têm dado e possam vir a dar, é por ter a certeza de que na corporação militar, nessa grande família, a despeito das influências deletérias do meio em que vivemos, ainda predominam os sentimentos de brio e de dignidade, prontos a patentear-se desde de que para isso se lhes ofereça ensejo».
Até 1879, — a primeira divisa que lhe doirou a manga do uniforme datava de 1876, — decorrera-lhe a vida entre obrigações do serviço de guarnição e um mínimo de relações na sociedade.
Que livros terão ocupado espaço no seu quarto de rapaz solteiro e sido distracção durante algumas horas do seu dia no quartel? A erudição tomando-o à sua conta como um dos maiores portugueses de todos os tempos, se encarregará talvez de um dia no-lo dizer. Concentrado, foram sempre reduzidos os círculos que frequentou e ainda mais limitada a «roda» dos seus íntimos. Não se dispersava. Procurava ser simplesmente soldado. Pôde, por isso, reflectir, meditar, compreender por fim o sentido, assimilar até à exaltação a ideia de sacrifício, — a prodigiosa tara da nobreza militar (10) — e então em lampejos entrever porventura para a Cavalaria, — que no seu espírito parecia continuar a ser uma Ordem, — novas glórias que logrou realizar na guerra de África.
Solicitado talvez por nostalgias de escolar, senão apenas por apetência intelectual, em 1879, matriculou-se na Universidade de Coimbra, nas faculdades de Matemática e Filosofia. Três anos de estudos que não continuou por motivo de doença. E não deixa de ser curioso este aspecto médico de Mousinho. Quem, com efeito, apreciando-o através dos rudes trabalhos e sofrimentos de campanha, poderá supor esta interrupção, que durou muito, causada por um mal que já em criança fizera correr-lhe o risco de amputação duma perna? (11) Da vida que Joaquim Mousinho então levou, tudo ou quási tudo também se ignora, e seria todavia interessante conhecer ao menos de que modo reagiu no seu espírito aquele prestigioso meio. Ali o encontrou o sr. dr. Jaime de Magalhãis Lima, que o via “habitualmente fardado, pouco propenso a trocar o rigor militar pelas liberdades de estudante [com] o mesmo sorriso, a mesma altivez provocadora para a adversidade do mundo, associação estranha de ousadia e repulsão da derrota, viesse donde viesse, da vontade dos homens ou dos destinos fatais».
- Na cidade universitária se enamorou de sua prima a sr.a D. Maria José Mascarenhas de Mendonça Gaivão, com quem veio a casar no próprio ano em que em Coimbra voltara ' a ser estudante.
Nela encontrou Mousinho uma edificante companheira que o seu grande destino devia pôr à prova.
Basta ouvir quantos se honram de haver tido com ela em África, convivência.
A «sr.a D. Maria José» — conforme ainda hoje a tratam os últimos veteranos da gloriosa epopeia da Ocupação — exerceu uma complexa função em África.
Em primeiro lugar ela foi para todos como que uma projecção da imagem do lar longínquo, figuração das esposas e das irmãs, das santas-mulheres, para tudo dizer, que além, em Portugal, os amparavam pelo fervor das preces que rezavam. Nas campanhas de Gaza, com as Irmãs de S. José de Cluny, de quem seu marido devia dizer: «Ou eu não sei o que é caridade ou o que [elas] estão fazendo na província de Moçambique é a sua manifestação mais elevada e comovedora», partilhou todas as canseiras dum hospital de sangue em que embora muitas coisas faltassem, a dedicação feminina e religiosa se excedeu».
Aires de Ornelas escrevendo do acampamento do Chibuto à mãi, não ocultava o seu pasmo. «O Mousinho — dizia ele então — para em tudo ter sorte, teve-a sobretudo em encontrar uma mulher como aquela, a quem, todos nós que andamos com ele, tanta fineza devemos. E a sensação civilizadora que dá a presença duma senhora no sertão de África só a pode compreender quem como eu por ele tem andado.» Noutra carta em que faz a descrição do combate de Macontene, que foi «o golpe decisivo na revolta», dá esta grande novidade: «A sr.a D. Maria José é que se pode gabar de ter visto o que nunca senhora portuguesa sonhou ver. Esteve até às duas horas da manhã connosco, antes de montarmos a cavalo para começar a marcha, ouviu distintamente o troar do combate, depois desde muito longe o canto de guerra triunfal dos cipaios auxiliares e viu--nos finalmente voltar cheios de alegria e entusiasmo do mais bonito combate em todo o sentido». Curioso cronista a miúdo, da vida do casal, na mesma correspondência, Aires de Ornelas põe, noutro passo, em confronto o valor físico e moral da ilustre dama que acabava de vencer duma vez 180 quilómetros a cavalo e outro tanto em barco, “sem uma dor de cabeça nem uma febre”, — com o que dela se dizia em Lisboa, onde de quando em quando a julgavam morta e até enterrada.
No desconfortável e velho palácio de S. Paulo, na capital da província, a sua feminilidade, o seu génio lareiro realizaram surpreendentes prodígios de bem-estar, que tornavam fácil, apetecível a sociabilidade das suas salas. Vencendo docemente as resistências do marido, um homem em extremo sóbrio para quem não era desdouro a pobreza, conseguiu restaurar algumas peças do mobiliário que se desconjuntavam, e encomendar, dentro das parcimoniosas regras em que tinha de mover-se, outros novos, vindos do Natal. Graças sobretudo a ela, restabeleceu-se a tradição de bons velhos tempos, — das recepções a portugueses e estrangeiros, e até de bailes em certas ocasiões solenes. À mesa, uma vez por semana, sentavam-se as mais salientes individualidades da colónia, como os dois irmãos Cohen, — circunstância esta que não impediu Mousinho de retirar a um deles uma concessão, — C. Bleck, Paulo Regaleira, Ivens Ferraz, que é hoje almirante, Augusto Cardoso, etc. O seu exemplo de «pioneiro» frutificava. Em Lisboa como lá, começava a criar entusiasmo, e a imaginação entrevia já perspectivas duma nova e minúscula — mas selecta sociedade, com outras senhoras idas daqui. «O João Coutinho — contava Aires — que vai governar a Zambézia, logo que acabem as operações vai mandar buscar, ou melhor, mandar vir a mulher. Daqui a pouco a fina flor de Portugal deve cá estar e fazer aqui um Império bem superior a essa pepineira em que aí se vive.» (12)
Tudo isto é belo sem dúvida.
Retomando, porém, o fio perdido da narrativa biográfica: restabelecido ao cabo de dois anos, o futuro herói que nada por enquanto em Mousinho fazia adivinhar, entrou para o Real Colégio Militar, como regente de estudos em 1884, sendo já tenente.
Com a promoção coincide um episódio deveras edificante da admirável formação cristã do casal.
A Mousinho, como a quási todo o
português daquela época, poucas vezes aconteceu ter de viajar. Seria que ao português
de então acudisse a lembrança ainda recente dos incómodos daquela “diligência»
em que se percorrera todo o país, ou porque a ((aventura)) não se compadecia
com as posses da maior parte da gente?
Ora vendo-se Mousinho com mais um galão e afigurando-se-Ihe
desde logo possíveis certas pequenas e assim mesmo heróicas economias, — a
ideia duma digressão pelo norte do país surgiu no modesto lar. Isso teria toda
a sedução duma verdadeira “gazeta” de escolares. Formaram-se itinerários de
comboio e mala-posta, fizeram-se sobretudo cálculos... Poupou o mais que pôde o
casal. Até que, chegada a ocasião, radiantes como se se tratasse duma viagem de
núpcias, ambos se meteram à jornada que ia revelar-lhes as ásperas serranias
beiroas, — lar de Viriato e teatro da sua maravilhosa acção, — o remansado
Minho, onde
Por
faminto que venhais
Morto
de sede e frio,
Fogo onde quer o
achais,
Dá-vos da sua água
o rio,
E às vezes de que
comais
conforme Sá de Miranda ainda devia murmurar ao ouvido de Mousinho, entre reminiscências de poetas lidos e vindos a propósito; Trás-os-Montes, ciclópico país de vinhas, cimos e abismos profundos... Chegados a Coimbra, tendo recebido a alvoroçada hospitalidade de parentes, souberam, nos acasos de uma conversa, que na cidade se encontrava certo leproso, vindo de muito longe, para ir consultar ao Porto o médico Urbino de Freitas, afamado no tratamento daquela enfermidade. Mas todos os recursos se lhe haviam esgotado e procurava-se agora fazê-lo regressar à terra. Pobre lázaro! Discorreu-se na ocasião acerca da sorte de certas almas fadadas só para o sofrimento e das desigualdades que Deus quere, porque Deus sabe porque as manda, — da beleza, do consolo de benfazer. A conversa mudou depois de rumo, como é natural. A mesa foi, como nos dias anteriores, comunicativa. Fêz-se o habitual serão, os homens jogaram, as senhoras entretiveram-se com pequeninos trabalhos de agulha à doce luz do azeite... Chegada a hora de se separarem, trocaram-se as «boas--noites» e cada um recolheu aos seus aposentos para descansar. Mousinho e sua mulher tomaram, então, a sós, a resolução de voltar para Lisboa. E assim fizeram, deixando ao leproso o dinheiro tão animosamente poupado para a encantadora «extravagância» com que tinham sonhado durante alguns meses. Deste modo o homem que se pretendeu fazer passar por um rude acutilador de pretos, nos aparece a exemplificar a difícil virtude da caridade cristã!
Só em 1886 devia Mousinho começar, por assim dizer, a sua carreira colonial, embarcando para a índia a-fim-de ir servir na fiscalização do Caminho de Ferro de Mormugão, lugar que em 1888 largou para desempenhar as funções de secretário geral da província.
Estabelecia-se o seu primeiro contacto com negócios de administração pública.
Em
1887 Caldas Xavier, já mestre consumado em matéria de africanismo, por uma
larga série de explorações realizadas entre 1877 e 1886, tendo sido colocado no
mesmo caminho de ferro, encontrava-se com Mousinho. Ardendo por abalançar-se a
novos trabalhos e reatar as suas aventuras sertanejas, não é inadmissível a
suposição de que o seu entusiasmo, a sua ciência, as suas obras e até os seus
sonhos houvessem influído no espírito de Mousinho, orientando-o para as
empresas e as glórias africanas.
Pouco depois do ultimatum de 1890, tornando-se necessário colocar à frente do governo do distrito de Lourenço Marques, onde a nossa soberania corria graves riscos, alguém capaz de exercê-lo com uma excepcional firmeza, energia e os sentidos a toda a hora vigilantes, foi o nome de Mousinho lançado um dia em conselho de ministros, por quem decerto lhe conhecia a têmpera do ânimo, indicação essa que obteve aceitação unânime.
Acertava com o seu norte, a bússola até ali inquieta...
A
África ia revelar Mousinho.
(1) Emérito latinista, inspirado em Vergílio escreveu um poema a que deu o sugestivo título de Georgicás portuguesas.
(2) Conta Alberto Pimentel cm A Corte de D. Pedro IV que em Cedofeita,
durante o cerco, instalou o imperador o domicilio, depois de ter deixado o
palácio das Carrancas, por ser muito alvejado das batarias inimigas. Aquela rua
tornou-se então o centro de toda a vida oficial, e nela estiveram instalados os
«ministérios» e outras repartições do improvisado Estadozinho liberal.
(3) Conta-se que D. Ana Mascarenhas de Ataíde, tempos antes de falecer, chamara o neto a contemplar as insígnias da Tôrre-e-Espada que haviam pertencido ao marido Luiz Mousinho. Dispunha-se o jovem Mou-sinho, ao cabo de alguns instantes, a devolver a venera às mãos que até ali haviam sido suas piedosas depositárias, quando viu o gesto que apenas esboçava, atalhado pela avó: «— Não! Não! Guarda-a! É para ti...». «Para mim, minha avó?—exclamou, surpreendido — Mas eu não posso usá-la!...». Ao que a veneranda senhora apenas retorquiu: «Faz por ganhá-la!... És Mousinho e és soldado!». A vocação heróica do neto deveria delinear-se, como se vê, ao clarão do exemplo magnífico.
(4) Dos Mousinhos se dizia: «Muí valentes e muito nobres, muito inteligentes
e muito pobres.» A anedota que se refere a seguir, passada com o pai de
Mousinho, José Diogo, quando no Porto se encontrava à frente da direcção de
determinados serviços públicos, ilustra aquele dístico. Um dia recolhendo dos
seus afazeres a casa, encontrou no gabinete uma aparatosa caixa que alguém
conseguira fazer chegar até ali. Abrindo-a, deu com uma bacia e um gomil de
prata. Sentando-se à mesa imediatamente, com destino a uma instituição de
caridade escreveu algumas linhas a remeter as duas peças, a-fim-de que a
benefício dela fossem postas em almoeda. Assim a «tribu dos negreiros
enriquecidos da cidade», ficou sabendo que a honra do nome dos Mousinhos mesmo
pobres, não se vendia nem cedia a sugestões ou a amáveis mas suspeitas
liberalidades.
(5)
Aires de Ornelas, Colectânea, edição da Agência Geral
das Colónias, vol. I.
(6) Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu reinado.
(7)
Carta dedicatória ao rei, em Moçambique.
(8)
O actual Conde
da Ponte.
(9) Informa
o sr. Julião Quintinha no livro A
derrocada do Império Vátua, que Mousinho no último período da vida,
preparava um estudo sobre o avô, Luiz Mousinho.
(10)
Sem esta aceitação do
sacrifício não há verdadeiramente
soldados e a estes
chamou o filósofo Moniz
Barreto, «padres da
religião do Civismo», acerto que
Mousinho em Moçambique, perfilha
nestes termos: «Em ambas as carreiras (de sacerdote e de soldado), se exige,
mais que em outra qualquer, a abnegação levada a ponto de se sacrificar sempre
o indivíduo à colectividade em que se tenha fundido, o esquecimento completo
dos mais caros interesses pessoais pelo fim comum que se tem em vista. E para
se conseguir isto, não basta a instrução profissional e a disciplina, é
necessário o conjunto de qualidades, inactas umas, outras resultantes de
influências estranhas, que se chama vocação». O mesmo ideal de mister se afirma
num interessante e recente ensaio de filosofia militar, Lê fil de 1'epée. Escreve numa das páginas, Charles Lê Gaulle,
o autor: «Ceife destination de misère,
cette vocation de sacrifice, depuis que le monde est le monde, la.Tmée en
procede, y trouve sa raison d'étre, en tire sa delectation.»
(11) A seu irmão
mais velho, em virtude da mesma enfermidade, havia sido amputado o braço direito.
«Ceifado na flor da mocidade» — conta o sr. Fernando de Sousa, num velho artigo
—: «era um espírito vivo, entusiasta, irrequieto, inteligência
lúcida e perspicaz, imaginação ardente, sensibilidade artística, bondade e
franqueza ingénua de carácter». E o mesmo biógrafo acrescenta: «Luiz Mousinho
encarou esta desgraça (a amputação) com a mais serena resignação. Apenas só
lamentou não poder cultivar como dantes a música, que adorava. Essa mutilação
não o impediu, porém, de concluir o curso de engenharia e de iniciar uma
carreira auspiciosa a que uma doença contraída no desempenho da sua profissão
veio pôr termo subitamente.»
(12) Aires
de Orneias, Colectânea
das suas
principais obras, I vol., edição da Agência Geral das
Colónias.