Até sempre
A 4 de Dezembro, dirigimo-nos ao aeroporto para partir. Logo no check in, o agente que nos inspeccionou as malas lembrou-se que ainda não tinha prenda de Natal para a sua tombazana8 e ficámos imediatamente sem a máquina de costura portátil que a minha mãe tinha comprado em Nampula, antes da guerra colonial começar (a lei apenas proibia a saída de bens com menos de um ano). Como sabíamos que protestar podia significar nem sequer chegarmos a partir, limitamo-nos a ser roubadas em silêncio. Quando chegámos ao balcão, para lá do qual se era sujeito a uma vistoria completa, fomos informadas que o avião estava completo e que, portanto, ainda não tinha chegado a nossa vez, talvez três dias depois (Já com o Berto tinha sucedido o mesmo). Serviu, a ida a Mavalane, para nos despedirmos do meu pai que, nesse mesmo dia e para aliviar o sofrimento da separação, voou para Madagáscar de férias.
Três dias depois, também não partimos. Desta vez, já nem a maior parte dos nossos amigos foi ao aeroporto, mas acabámos por ir jantar todos ao «Mini-golfe», onde vi o Zeca Russo, o mais famoso ladrão da minha infância. Acho mesmo que este texto não ficava completo sem ele.
Comecei a ouvir falar deste ruivo gigante a primeira vez que conseguiu fugir de uma prisão sul-africana. Andou a monte uns tempos, passado os quais foi apanhado e metido noutra cadeia, de alta segurança, de onde voltaria a provar às autoridades do país vizinho que podiam ter construído melhor. Estas notícias encheram os jornais da altura, o que lhe granjeou fama a até alguma simpatia entre muitos dos seus compatriotas, como foi o meu caso, para quem a definição de «herói» passava também pela capacidade de fintar os chuis. Lembro-me que uma amiga, da Académica, dizia que ele devia ser um grande matemático, pois era preciso mais do que esperteza para se raspar de uma cela situada a alguns andares abaixo do chão, mesmo nas barbas dos boers. Depois, perdi-lhe o rasto até que, quando no 7 de Setembro os reaças abriram as portas da Cadeia da Machava, um recluso houve que não quis ser solto, permanecendo durante todo este período à porta do estabelecimento prisional. Este seu gesto foi tomado como um apoio à causa revolucionária e, depois da intentona, o mais famoso ladrão moçambicano foi promovido a chefe de caça ao banditismo. Pessoalmente, ainda que polémica e hilariante, achei esta reviravolta de génio, pois se havia alguém que tinha a obrigação de conhecer bem a cabeça dos ladrões era o Zeca Russo.
Corria a cidade de beach-buggy e, tendo boa figura, era frequentemente visto na companhia de mulheres, como acontecia agora na sala de jantar do «Mini-golfe».
Decidimos não nos preocupar com a ida para Portugal, quando fosse, era, e a minha mãe até voltou para a empresa, enquanto eu e a Sara, de férias, deambulávamos entre o miradouro e o Hotel Polana, em cuja piscina encontrei pela última vez o Fernando Silva, acompanhado da filha. Estava apreensivo com o desenrolar da situação e, a certa altura, bateu energicamente com a palma da mão na superfície da água e disse-me:
- Mas, sabes, eu preciso disto, África faz-me falta para viver!
Ficou até aos seus limites de homem livre, tenho a certeza.
Uma semana antes do Natal, também a minha avó seguiu para Portugal, para passar a quadra com o resto da família, após a qual voltaria. Faltava-lhe ainda um ano para a reforma e, sem ela, não teria direito a trazer para Lisboa os seus (e os nossos) haveres.
Fora ela quem, no fatídico ano em que Hitler subiu ao poder, chegara à Zambézia de navio, sozinha e com a minha mãe na barriga. Viria a ser ela, também, a fechar as luzes da presença da família em Moçambique. Daí o imenso respeito que a sua memória inspira a todos os netos. A mim, ensinou-me a soletrar a palavra «perspectiva», ao mesmo tempo que me mostrava o caminho da lua sobre a baía. Preferia isto a contar-me histórias para adormecer.
A 23 de Dezembro, o telefone tocou. Do outro lado, alguém perguntava se estaríamos dispostas a partir na noite de Natal, num voo da «Sabena» expressamente fretado para levar pessoas para Lisboa. Desde que houvesse lugar garantido para as três, respondeu a minha mãe.
No dia seguinte, jantámos cedo e fomos para o aeroporto. Estão quarenta graus em Maputo e eu tenho dezanove anos, sete meses e nove dias. Assim que obtivemos a confirmação do voo, despedimo--nos rapidamente do amigo que nos foi levar e avançámos para a inspecção militar. Mulheres para um lado, homens para outro. Fui à frente e, como ia de calças, deixaram-me passar, depois de me pedirem para abrir o saco onde iam os livros, forrados, e a cassette. Ao contrário, a Sara teve que levantar as saias de pano indiano para mostrar a medida das pernas às guerrilheiras. Após o interior da carteira da minha mãe ter sido minuciosamente observado, reunimo-nos as três na sala de embarque, donde, noventa minutos depois, partimos em silêncio para as escadas de acesso ao avião. Uns degraus antes da porta de entrada, a fila parou e eu, instintivamente, olhei para o relógio, eram vinte para a meia noite. A seguir, girei a cabeça para trás: pior asneira não podia ter feito porque, assim que os meus olhos se encontraram com os neons da placa do aeroporto, caí num pranto que nem o cinto de segurança do avião conseguiu estancar.
Inadvertidamente, devo ter metido a mão no bolso onde, seis meses antes, tinha escondido o coração.
8. Flausina.