A profissão
Exonerado da função pública,
a meu pedido, logo me foi oferecido local para montar o escritório de advogado.
E entrei a funcionar. Com tempo limitado, pois como disse, uma boa parte do dia
estava ocupado como professor, para cujas funções fui logo convidado por não
haver no meio muitas pessoas disponíveis nem qualificadas para o ensino em
algumas matérias curriculares especializadas, tais como direito comercial,
economia política, noções de comércio, geografia económica, Organização
política, na Escola de Regentes Agrícolas, e até a disciplina de Português. Era
um professor provisório, eventual, a prazo.
E o serviço no escritório
começou a aparecer. Tive ofertas de colaboração permanente, mediante uma
pequena avença, de alguns comerciantes e mesmo instituições como a Câmara
Municipal. E diversos outros, avulsos. Como acontece com qualquer outro
advogado, cá ou lá. Além do serviço de defesas oficiosas, para que o juiz
nomeava por escala, quando os acusados não constituíam advogado próprio, o que
geralmente acontecia com quase todos os pretos por carência económica. E
participávamos e colaborávamos na defesa dessas pessoas, sem qualquer proveito
material. Era nossa obrigação moral e mesmo legal.
Ao exercer esta actividade ocorreram casos que não
mais esquecerei. Um dia um nativo ainda jovem, bem apresentado, e falando já
bastante bem o português, apresentou-me um problema fora do comum, e muito
difícil, pois se tratava de uma questão administrativa e que as autoridades não
conseguiam ou não desejavam resolver.
Tratava-se do caso de
uma grande empresa que tinha obtido a concessão de uma enorme área de terras,
alguns milhares de hectares, destinada à plantação de eucaliptos para vir mais
tarde a abastecer uma futura fábrica de pasta de papel a localizar perto do
Dondo, a caminho da Beira. As máquinas que preparavam o terreno para a
plantação arrasavam tudo, não respeitando as áreas de ocupação de uma pequena
povoação, que por lei estavam salvaguardadas, e derrubavam as mangueiras
(árvore produtora de mangas, fruto) pertencentes à povoação e também
destruíam as plantações de bananeiras e o resto das machambas destas
populações. Era um caso de abuso de direito e violação da lei da concessão de terras.
Era difícil a solução por falta de instrumentos legais de actuação efectiva com
resultados no terreno. Era apenas, ao que supunha, malevolência ou ignorância
dos empregados que manobravam as máquinas, e não ordens estritas da
Administração da empresa.
Mas era preciso fazer alguma coisa. Precisava ver
com meus olhos a extensão do problema, dos estragos, para avaliar da relevância
deste abuso. E combinei com o meu cliente ir ao local, no próximo sábado, para
ir com mais tempo disponível. E lá fui, com o meu filho, o Fausto, cerca de 3
anos, mas que gostava de andar por todo o lado comigo. A picada estava
arranjada de novo e o carro circulava muito bem e lá dei com a povoação onde me
aguardava o meu cliente e quase toda a gente que ali morava. Cumprimentaram,
trocámos impressões sobre o assunto e lá vamos para o local das machambas a pé,
para verificar os estragos feitos pelas máquinas.
O Fausto que já falava muito bem e embora não lhe
conhecesse o significado falava muitas palavras do dialecto local, as piores,
os palavrões, que lhe foram ensinadas por empregados que se fartavam de rir ao
ouvi-lo, estava muito à vontade no meio da pequenada da aldeia indígena e na
sua inocência a dizer disparates e com grande gáudio até das mulheres que o
escutavam. O Fausto até era conhecido de alguns deles que trabalhavam na
cidade, como moanas ou mainatos. E lá ficou todo feliz dando o
seu inocente show no meio do pessoal e a cargo das mulheres e da
criançada. E eu tranquilo pois sabia que estava em segurança e nada lhe ia
acontecer.
Quando já circulávamos pelo meio das bananeiras e junto das colimas,
plantações bem viçosas, com diversos produtos, com hortas ou machambas,
muito bem cuidadas, surge urna figura inesperada e para mim surpreendente, pelo
seu aspecto exótico. À sua vista julguei estar perante uma daquelas gravuras
desenhadas nos livros de aventuras que eu lera noutros tempos na minha
juventude, e que vinham com a legenda de cafres, bosquimanes, ou outra
designação da época.
Era um nativo, de pele
castanha, estatura meã, meia-idade, carapinha bastante branca, bastante
entroncado, vigoroso, olhos muito vivos, e uma expressão que revelava um
carácter forte, um ar descontraído, um Tarzan, e à minha vista, de testa
enrugada, tão surpreendido como eu. Parecendo interrogar-se como um branco se
passeia pelo meio daqueles matos!
Descalço, vestia unicamente uma tanga, e ao ombro
cruzando sobre o peito, trazia o que parecia ser um arco e uma pequena saca de
flechas, e à cinta presa com um pequeno cordel uma grande faca, e apoiava-se
numa vara que tinha espetada numa ponta uma lamina, e que seria uma zagaia.
Interrogou o meu jovem cliente, que deu mostras de conhecer, na sua língua de
que eu não entendi nada, e depois das explicações olhou para mim e, mais à
vontade, sorriu, de um modo tão agradável e amistoso que não esquecerei, e
seria o prenúncio de uma boa relação de simpatia e respeito, se as
circunstâncias que tanto nos distanciava, o viessem a permitir. Se bem que não
tivesse medo, afinal era um homem, não uma fera, depois disto fiquei bem mais à
vontade. Ele, provavelmente poucos brancos teria visto na sua vida. Ofereci um
cigarro, que lhe acendi e aspirou o fumo com visível agrado, e lá seguiu depois
de um gesto de cumprimento de despedida amigável.
Foi de facto a figura mais típica e mais autêntica
da África primitiva que então vira. E coisa interessante, coexistindo com um
projecto dos mais avançados, que ali se estava iniciando, para a produção do
papel, que pode dizer-se é o símbolo da civilização e perante pessoas oriundas
das áreas mais civilizadas do mundo, a Europa cristã.
E já agora não deixa de ser
curioso o modelo de pagamento de honorários por essa minha intervenção: dois
frangos,... garnizés!
Ao escritório de um advogado vai parar toda a mazela social, como os
crimes, que aqui eram geralmente de pretos, raramente de brancos, e destes
quase apenas casos de acidentes de viação. E eram muitos. Mas também casos
melindrosos de carácter social, como divórcios, o que não acontecia entre
pretos. E ainda entre brancos, questões principalmente de matéria económica.
Isto quanto a trabalho forense. Fora do Tribunal, o
advogado intervinha em múltiplas actividades, nomeadamente, quando pessoas
decidiam criar uma sociedade para qualquer ramo de actividade, os primeiros
passos eram para o escritório do advogado, para com ele estudarem formalidades
e os problemas da sua constituição e em seguida as condições gerais de
funcionamento.
Casos houve em que me foi
solicitada a participação na sociedade, como sócio, dispensando-me de desde
logo fazer entrada de capital que aliás não tinha, amortizando a quota mais
tarde. E assim me vi envolvido em uma pequena empresa de construção civil, sem
grande vontade nem vocação para empresário. Nem experiência de tais funções.
Mas que era visível não só o interesse da mesma para o incremento da construção
civil, contribuindo assim para resolver em parte o problema da escassez de
habitação como a sua gestão se revelava rentável.
Também a certa altura, um grupo dos principais industriais,
comerciantes e agricultores da cidade, me solicitou um estudo de projecto de
pacto social para a constituição de uma empresa mais ampla, apoiada pelo
Estado, tal era o seu interesse geral, como contributo para o desenvolvimento,
com o objectivo de industrializar e comercializar a produção agrícola e
pecuária em três ramos: fruta, leite e carne. Pretendendo-se que nela
participassem o maior número de produtores, na qual teriam o maior interesse
pela valorização dos seus produtos. Ligando deste modo a produção da
matéria-prima à sua industrialização e comercialização. E assim se fez. E a
certa altura e mais uma vez, os principais lideres do grupo, lá me empurravam
para também nela participar. O meu capital seria o correspondente aos meus
honorários. Não pelo meu interesse, mas pelo fim em vista, mais uma vez aderi.
Era mais uma vez o espírito
de pioneiro em acção, neste caso em acções.
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Em face destas situações que
venho descrevendo e que são reais, pelo menos na minha perspectiva e segundo a
minha experiência vivida, e não foi pouca, uma questão gostava de deixar aqui
esclarecida: e que é a questão de saber se todos nós que vivíamos em Moçambique
explorávamos, oprimíamos, roubávamos e escravizávamos os nativos. Ideia forte
que estava em circulação em força no tráfego da intensa propaganda
internacional socialista e comunista. E que evidentemente impressionava as
pessoas que ignoravam a realidade africana, que acabavam por acreditar que o
branco emigrava para África para enriquecer à custa do preto. Era uma visão
simplista, grosseira e falsa. Mas impressionava. E deixou marcas, pois ainda
hoje muita gente está convencida de que tal atoarda era um facto verdadeiro.
É certo que para a esquerda, todo o patrão é
explorador. Vemos, ouvimos e sentimos isso mesmo, hoje e agora, nas
intervenções da Intersindical e nas intervenções do PCP, que é a mesma coisa, e
outras esquerdas similares. E outros.
Portanto, segundo tal
propaganda, os pretos, que em termos de relações de trabalho estavam quase
sempre na situação de empregados, fatalmente estavam em situação de serem
explorados. E claro, havendo exploração havia opressão.
Esta era a
sua lógica. Mas falsa.
Quanto a roubar os pretos era mais difícil de causar
impressão e de acreditar.
Porque se
punha mais claramente a questão de saber:
- roubar o quê? E se percebia que tal não
fazia sentido, por os nativos em geral nada possuírem.
Quanto a escravizar seria ainda mais difícil de
fazer acreditar, visto que a escravatura em termos reais já fora abolida há
mais de um século, e na prática estava já longe do espírito das pessoas tal
ideia. E portanto estas últimas acusações já não surtiam o mesmo efeito que as primeiras.
Tendo eu estado nos dois
lados da justiça, como juiz e como advogado, posso assegurar que os abusos
sobre os nativos existiam. Tal como existem abusos entre pessoas em Portugal. E
em toda a parte do mundo, como resultado da maldade dos mais fortes sobre os
mais fracos, ou dos desonestos sobre os honestos. E assim será por todo o
sempre. Mas essa não era a regra. Era a excepção. Se com isso se quer
significar que em termos gerais se pagavam baixos salários, também era verdade.
Por um lado como resultado do excesso de oferta de mão-de-obra; por outro,
porque em geral se tratava de mão-de-obra não qualificada ou até abaixo disso,
e portanto de pouco préstimo. E ainda porque estando eles, nativos, acostumados
a uma vida parca e frugal, própria da vida do mato, com pouco se contentavam,
pouco exigiam e com pouco sobreviviam. Isto apenas nas situações de trabalhos
mais elementares. Porque as coisas mudavam quando assumiam funções de outro
nível nos quadros de organizações ou serviços, públicos ou privados, com
salários e outras condições pré-estabelecidas. Ou outras em que o nativo tenha
dado provas inequívocas da sua capacidade e competência. E muitas outras
situações.
O que não seria de admirar
em um país de economia livre, de livre concorrência, onde a formação dos preços
resulta em geral do encontro da oferta e da procura, e onde o elemento
trabalho, como factor de produção, era avaliado unicamente segundo a sua
produtividade.
Mas deve dizer-se que havia legislação, havia regras
de protecção aos nativos e aos trabalhadores em geral sobre tal matéria, e as
autoridades estavam atentas aos casos e situações de abusos, que, verificados,
seriam sanados pelo Tribunal.
Em matéria de salários e
outras condições de trabalho, ou noutros casos, por via administrativa,
fazendo-se cumprir a legislação.
E quanto ao emigrante europeu enriquecer em África,
extintas as árvores das patacas, como na lenda se dizia, a realidade era
que os emigrantes tinham de empreender, investir e trabalhar muito arduamente
para conseguir bons resultados.
E quando se trabalhava no duro, os bons resultados
apareciam, porque naquelas terras onde tudo, ou quase tudo, estava por fazer,
onde havia falta de toda a sorte de mão d’obra qualificada em todos os sectores
de actividade, era por isso fácil conseguir um bom emprego, e principalmente
quando havia maiores exigências e maiores riscos, o sucesso era quase certo.
Houvesse trabalho e produção!
E não deve esquecer-se ainda que muitos dos
residentes que nas colónias enriqueceram, e nem todos o conseguiram,
trabalharam duro por largos anos ou décadas, ou vidas inteiras, ou até
gerações, por conta própria ou doutrem, e muitas vezes venderam na Metrópole os
seus bens para investir nas colónias, onde a rentabilidade era quase garantida.
Porque a vida não era fácil. Apenas as condições naturais do território
propiciavam grandes oportunidades. Sorte dos que as sabiam aproveitar. Embora,
ao final, nem isso valeu a pena!
E por fim, e para resumir, se não tivesse havido colonização,
com esta nossa gente, capaz dos maiores sacrifícios e de enfrentar os
maiores perigos, para alcançar os objectivos, não teria havido estradas, nem
portos, nem escolas, nem hospitais, nem desenvolvimento, nem progresso, e os
nativos continuariam a viver no paleolítico... Seriam ainda uns glabros
trogloditas.
E se a colonização não
tivesse sido realizada por portugueses, outros a teriam realizado. Mas não
teriam feito nem mais nem melhor que nós!
Por isso não posso deixar de
declarar, sem receio, e sem complexos, de que me considerei de algum modo um colonizador,
no melhor sentido da palavra, tendo dado pelo meu trabalho e a minha acção,
a minha restrita quota-parte de cultura e civilização a quem dela precisava. E
muitos outros deram muito mais. E por isso repudio veementemente o rótulo de colonialista,
no mau sentido da insidiosa propaganda da esquerda.