A prisão
Interrompida a série de objecções por mim colocadas,
com o imperativo "cale-se" do Negrão, fez-se silêncio na sala.
Nada transparecia daqueles rostos imóveis, esfíngicos, que evitarem olhar-me de
frente. O Cunhaliua chamou o frelimo que se encontrava nas i minhas costas e
que eu perdera de vista, a quem deu algumas instruções ao ouvido, e logo sai
trazendo de seguida alguns guardas da polícia que certamente já me aguardavam,
pois tudo devia estar já previamente cozinhado, e me escoltam para a rua em
direcção a um jeep.
Em frente, no edifício do outro lado da Avenida, na
varanda do apartamento onde morava, o meu filho não estava lá. Ainda bem.
Estava preocupado que me visse no meio da escolta, e se me visse que confusão
poderia gerar na sua infantil cabecinha de cinco anos.
Chegados ao quartel da polícia fui entregue ao
graduado de serviço, um guarda branco, um cooperante português, que
conhecendo-me, cumpriu o seu dever, sem uma palavra. Completamente
constrangido, revistou-me, retirou-me todos os objectos que transportava
comigo: carteira, documentos, dinheiro, chaves, cinto, etc, que ficaram em
poder da esquadra, como era do Regulamento. Restou-me a roupa que vestia e um
lenço de assoar. E ainda bastante dignidade.
E sem outras
formalidades fui levado para o calabouço.
A prisão era um grande caixote de cimento, um bunker, uma jaula
de betão, com uma única abertura utilizável, a porta, em grade, que dava
directamente para o terreiro, a parada do quartel, e ainda duas pequenas
aberturas por cima da porta e junto ao tecto que em tempos teriam sido janelas,
e também em grade. Teria internamente menos de três metros de largura e menos
de seis de comprimento, o equivalente ao comprimento de três camas militares,
colocadas topo a topo. À altura não seria superior a dois metros e quarenta. Na
parede do lado direito existia um desvão, uma reentrância, com cerca de oitenta
centímetros de fundo, e ao longo de cerca de metro e meio, e que teria sido em
tempos uma pequena instalação sanitária, provavelmente equipada com sanita,
bacia e chuveiro, mas que agora já só restavam os respectivos buracos, quer na
parede quer no chão, o esgoto. Tinha ao alto uma bica, um cano sem torneira,
donde jorrava água permanentemente, e onde alguém colocou um pedaço de
mangueira, que depois de dirigida ao buraco do esgoto para evitar espalhar-se
pelo pavimento, mantinha um serviço de água corrente e com a qual se conseguia
dar um certo grau de higiene ao local. Podia ser pior. Quanto a segurança, era
total. Nada de evasões. Entrar e sair só pela porta. A simplicidade era
sinónima de eficácia.
Estava equipada com oito velhas camas tipo militar,
sendo algumas arrumadas em beliche, e uns tantos colchões velhos de espuma de
borracha, e meia dúzia de mantas baratas, sujas, velhas e a desfiarem-se, e
também uma dúzia de discos bastante irregulares, de alumínio, que em tempos
atrás podiam ter sido pratos. Não tinha luz. E muitas vezes à noite usava-se
uma lata da cerveja cheia de diesel (gasóleo), com um pedaço de trapo que
servia de pavio. Mas a
fumarada era demasiada, enegrecia as paredes, provocava
cheiros desagradáveis, e outros efeitos não aconselháveis, pelo que em regra se
preferia a suave tranquilidade da obscuridade... Em vez disso, por vezes, e se
necessário, usávamos, principalmente à hora do jantar, algumas ... velas de estearina. Um luxo. Clandestino.
Quando cheguei encontrei a "casa"
cheia, repleta. Uns seis brancos e cerca de vinte negros. Uma densidade de
ocupação difícil de conceber. Cederam-me um bocadinho de espaço numa cama, ao
lado da porta, para me poder sentar. A solidariedade humana existe. Em qualquer
parte. Procuraram animar-me. Eu estava calmo, por fora, isto é, controlado.
Perguntaram-me quem era, e porquê. Que motivos. Contei-lhes. Não acreditavam.
Pensavam que brincava. Mas minutos depois um outro branco entrou - o Fernandes, um comerciante conhecido na cidade. Era a
dura realidade.
Ali fiquei sentado, imóvel, até à hora do almoço. Veio o almoço, os
doze pseudo-pratos servidos. Doze presos apanharam a sua dose. Comeram as
batatas guisadas, à mão, pois não eram permitidos garfos ou colheres. Terminada
a refeição dos doze, os pratos são lavados e nova séria de doses. Depois os
restantes. Não almocei. Não conseguiria engolir nada. E durante quase dois dias
nada consegui comer. Depois, menos tenso, sempre controlado, aceitei
a clausura como os outros e integrei-me no ambiente. Nada mais havia a fazer.
De fora, começaram a fazer-me chegar comida,
fruta, água fresca numa pequena vasilha isotérmica de campismo, e até . whisky, e em certos casos,
enviados por pessoas que nem conhecia, para tentarem minorar a minha situação e
mostrarem a sua solidariedade. E também prato, faca, garfo e colher,
...clandestinos, pois tais ferramentas eram proibidos naquele local. Se
bem que me tivessem sido trazidos por polícias. Mas procurando não ferir
susceptibilidades, fui evitando aquelas boas-vontades, sobretudo para que
ninguém se comprometesse e eventualmente arranjasse sarilhos com a Frelimo por
minha causa, com tais actos que eu muito agradecia. E por outro lado também não
queria dar pretexto à Frelimo para que me acusasse de desfrutar de privilégios
e assim acusarem-me de ser orgulhoso, classista, etc, e pretender ser
diferente, ou pretender ser pessoa superior, e por consequência, burguês,
pequeno-burguês, “faxista” e todos os demais “istas” de uso corrente na época
para desclassificar qualquer pessoa. E pode dizer-se que nesta matéria, alguns
elementos fanáticos da Frelimo estavam sempre muito atentos. Era já a fase
aguda da vigilância. Em qualquer caso eu distribuía os bens que me chegavam,
comida, fruta, água fresca, etc, pêlos elementos do meu grupo, o grupo de
brancos, que aliás já estava formado quando cheguei, e que logo me admitiu, e
em certos casos alguns negros beneficiaram também.
E não posso deixar de referir e destacar, que uma senhora que eu nem conhecia,
que, segundo soube mais tarde, ainda exercia a actividade de pequena hotelaria
com uma pensão, onde também se hospedavam alguns polícias portugueses,
cooperantes ainda em serviço, ali naquela mesma esquadra, me enviava, por um
deles, a todas as refeições, um prego no pão, e outros mimos, e que um polícia,
hóspede e amigo, discretamente me passava, ou a algum dos brancos que estivesse junto à grade, o
respectivo embrulho secreto. E estes pequenos gestos, que tanto
me comoveram, nem pude agradecer. Mas mesmo hoje, ao recordá-lo, não
posso deixar de aqui e agora, render-lhes, a toda essa gente, a minha homenagem
e reiterar a minha eterna gratidão, não só pelo que fizeram por mim como pelos
meus companheiros, mas mais ainda pelo gesto generoso de solidariedade.
Também minha mulher, que não me podia visitar, me
fez chegar logo no primeiro dia, roupa de vestir, lençol, manta, toalha,
sabonete, meio saco de laranjas, lâmina para a barba, e arranjei um velho
espelho, onde mal me via, para poder fazer a barba, todos os dias, como era meu
hábito, mas ... clandestinamente.
A ilegalidade monstruosa que exerciam sobre nós,
obrigava-nos à prática das pequenas clandestinidades...
Na primeira noite, os meus companheiros mais
próximos, e mais recentes no local, e que já não apanharam cama nem manta, - as demais, existentes, estavam já tomadas - prioridades !
- Estenderam os colchões excedentes no chão, já pudemos colocar um lençol sobre
os colchões e cobrir-nos com uma manta limpa, e que deu para cobrir dois ou
três de nós. Não foi mau. Afinal não estava frio.
Mas no dia seguinte, quando pessoas amigas souberam
que uma manta tapava vários de nós, fizeram chegar ao local mais mantas ou
cobertores. E chegariam muitas mais se fosse preciso, pois não só os amigos da
cidade como os amigos e colegas da fábrica, onde se produziam cobertores aos
milhares, não desejavam outra coisa senão ajudar-nos. Tudo porém tinha que ser
feito sem alarde e com o máximo recato para evitar correr mais riscos para quem
ainda não tinha chegado a sua vez de ser preso, mas podia sê-lo de um momento
para outro sob qualquer pretexto, ou sem pretexto nenhum.
Essa noite não foi apenas de insónia. Foi de ansiedade e preocupação,
principalmente pêlos riscos que corria, e pela família, pela incerteza e insegurança
totais quanto ao que se iria seguir. Tudo, mas tudo, me poderia acontecer, e
sem mim como é que a mulher e o filho se poderiam arranjar? O que iria ser
deles? Pelo menos já tinha a sorte de ter a salvo a Teresa, que tinha ficado em
Portugal, depois da viagem de férias, por não lhe terem permitido o regresso
sem visto prévio.
Tardou
longamente a amanhecer.
A situação adivinhava-se
monótona. Mas muitos pequenos eventos que foram ocorrendo animaram a estadia e
ajudaram em parte a aliviar as tensões.
No segundo dia descobrimos que alguns presos
transportavam uma carga de piolhos e talvez outros parasitas, o que era
preocupante para nós, brancos. E também para alguns dos pretos, é claro. Presos
sim, mas limpos... A partir daí tudo estava a coçar-se, uns com os parasitas,
outros com a sugestão... Demos a conhecer o facto ao nosso zeloso carcereiro, o
comandante Langa, um sujeito pateta, fanático, que era incapaz de entender o
que fazia, e incapaz de tomar iniciativas. Não deu solução ao caso.
Mas como dois dos presos brancos andavam em
tratamento no hospital, aonde se deslocavam à consulta externa, sob escolta, é
claro, levaram de nós a incumbência de comunicarem ao Delegado de Saúde, e
médico no hospital, um tal Dr. Fernandes, portanto também responsável pela
sanidade da prisão, a situação, que era de solução urgente, como pode logo
verificar pelos piolhos que já se encontravam no corpo desses dois brancos. O
comandante Langa ficou ultrapassado, quando viu dali a pouco chegarem do
hospital elementos da sanidade, mandarem abrir a prisão e colocar-nos no
terreiro, e entretanto lançar doses de insecticida e desinfectante no recinto,
nas paredes, nos colchões e no mais, dando nós as
indicações e tomando as medidas convenientes.
Foi uma bela jornada. Limpámos a parasitagem por
completo, acabaram também (por um tempo) as baratas
monstruosas que pela noite se passeavam por todo o lado, por onde lhes apetecia
e até por cima de nós. E tivemos duas horas de recreio na parada, guardados é
certo por várias G-3, mas deu para descomprimir, ao sol, e respirar o bom ar
mais ou menos puro...
A partir daí, cada preso que chegava tinha de submeter-se
a uma operação de desparasitação. Era o nosso regulamento interno, bastante
interno, já se vê. E ninguém recusava. E se hesitasse, a nossa capacidade de
argumentação era suficiente para o convencer. E além disso, passámos a ter uma
regra de limpeza diária do recinto, por escala. Já que tínhamos a água em
abundância, nada custava manter a mínima higiene que era do interesse de todos.
E os mesmos cuidados na utilização do sanitário, o buraco do esgoto, que após
utilização deveria ser lavado à mangueirada. A situação permitia-nos tomar
banho de chuveiro, sem limites ou restrições. Todo o pessoal, sem excepção
aderiu de bom grado às regras estabelecidas. E chegámos mesmo a pedir
autorização para pintar as paredes internas do bunker, tornando o
ambiente mais suportável... O que não nos foi consentido. Na verdade, devem ter
raciocinado que para desprezíveis presos colonialistas e reaccionários a prisão
até estava boa demais. Coisa que, soubemos depois, amigos nossos na cadeia da
Beira, em situação idêntica, conseguiu fazer. E foi até um gesto apreciado
muito favoravelmente pelos camaradas carcereiros! Enfim, critérios!
Como pode ver-se pelo nosso comportamento, nossos
hábitos e costumes, nós éramos realmente diferentes ...
pelo menos na cultura. Mesmo nas condições mais
desfavoráveis e adversas impúnhamos a nossa cultura, nossos hábitos, nossa
maneira diferente de ser e viver, nossa formação, nossa educação. E impúnhamos
essa nossa cultura, pela nossa natural autoridade, pela razão, pela lógica das
coisas, sem pressão, sem violência. E acho que isso era um dos dados que
exasperava muitas vezes os camaradas da Frelimo. E mantinham ou aumentavam
mesmo os seus complexos de inferioridade. E aumentavam também as suas raivas
contra nós.
Um dia abre-se a grade da jaula e um rapazinho nativo, de cerca de doze
anos é atirado para o interior. Crime: furtara laranjas no mercado. Motivo:
fome. Mas quando nos preparávamos para a operação de desinfestação, de lavagem
e higienização do adolescente, verificámos que o jovem tinha umas feridas sob
as roupas imundas, pústulas e arranhões que não soubemos diagnosticar, mas nos
pareceu grave, sarna ou outra doença de pele merecedora de atenção e
tratamento. Gritámos pelo chefe Langa e fizemos algum barulho que obrigou um
guarda a comparecer. Explicámos-lhe a situação. O guarda compreendeu,
retirou-se e algum tempo depois voltou e fingindo levar o rapazinho ao
hospital, mandaram-no simplesmente em liberdade. Que se arranjasse! Que o
sentimento de caridade ou ao menos de humanidade não morava ali.
Pouco tempo depois, caso semelhante, agora com três
outros jovens entre os dez e doze anos, foram trazidos à noite, e ficaram. Mas
na manhã seguinte mais uma vez chamámos o comandante Langa. Finalmente chegou.
Fizemos-lhe ver a ilegalidade. - Pois não sabia que as crianças com menos de
dezasseis anos não podiam ser presas? Não sabia que a Constituição manda e
obriga a todos a respeitar as leis? - Não, o comandante Langa não sabia.
Pareceu envergonhado. Mandou soltar os rapazinhos. Nada mais
soubemos. Não voltaram a trazer menores para junto de nós.
As noites de sábado e domingo eram agitadas por
demais. Um inferno. De meia em meia hora entravam presos, um só ou por vezes
grupos. A maior parte das vezes embriagados, apanhados nas mais diversas
circunstâncias. Como dormíamos no chão a maior parte de nós, já que as camas
não chegavam para todos, e não havia luz para se arrumarem em algum espaço
vago, embora alguns fossem frequentadores assíduos do local, andavam às cegas,
às apalpadelas, pisavam-nos e muitas vezes caíam em
cima de nós. Por isso muitas vezes algum comensal, em regra o que estivesse
mais perto, tomava a iniciativa de encaminhar o intruso até um espaço onde
pudesse ao menos ficar de pé até as coisas se ajustarem naturalmente e
finalmente poder sentar-se ou mesmo deitar-se se arranjasse espaço suficiente.
Mas o grande problema era os bêbados faladores que ficavam a falar a protestar,
de forma mais ou menos delirante, por sua conta, horas a fio num monólogo
insuportável. Ou, se os deixassem, toda a noite. E desse modo ninguém podia
dormir. Mas também havia solução para tais casos, embora só se usasse, por
razões de dignidade, em casos extremos: uma regadela de água fria do chuveiro.
Resultava.
O comandante Langa deve ter aprendido que aos presos se deve facultar a
sua reabilitação pelo trabalho, e a partir dessa ideia de base primária, e
partindo do princípio de que éramos delinquentes, talvez até habituais ou por
tendência, portanto pessoas transviadas dos normais
comportamentos sociais, o
trabalho era de
todo aconselhado para a reeducação. É claro que não alcançou que género de trabalho ou
outros dados da matéria. Trabalho é
trabalho, é esforço, é suor,
logo, trabalho manual. Pelo que decidiu enviar uns tantos de nós, uma ou
duas vezes por semana, a uma machamba abandonada (uma pequena quinta), nos
arredores da cidade, com enxadas e catanas, cortar capim e limpar as folhas
velhas das bananeiras. Os guardas não faziam grande questão de nos obrigar a
trabalhar, - ao contrário, perante nós até se
mostravam bastante constrangidos - mas
nós trabalhávamos de vontade - isto, se àquilo se pode chamar de trabalho - mas
pelo exercício físico, ao sol, ar livre e puro, que tanto necessitávamos depois
de passarmos dias e dias enlatados, ou
antes, encaixotados na enxovia. Porém, quando seguíamos no jeep da
polícia, pela avenida central e passávamos junto ao prédio onde eu morava, eu esperava por um
lado ver na varanda o meu filho de quem tinha muitas saudades, mas por outro
escondia-me atrás dos companheiros para ele não me poder ver. Mas meu filho não
estava lá.
Como a minha mulher não podia visitar-me, por não
lhe ser permitido, ela ia todos os dias ao quartel levar a roupa lavada e
outras coisas que necessitasse, mas eram os guardas que mas entregavam. Ordens
superiores. Provavelmente do Cunhaliua ou do Langa. Visitas só ao domingo!
Aparentemente eu devia estar incomunicável! Não só porque os meus supostos
crimes eram graves, como porque eu deveria ser considerado um preso perigoso.
Eram menos comandantes, incompetentes, da polícia que zelosos carcereiros de
uma suposta cadeia. Que pretendiam socorrer-se dos piores métodos de que as
piores polícias têm lançado mão.
Visitas porém, é que não me
faltavam, todos os dias e a todas as horas. De múltiplas pessoas, que
arranjavam sempre uma cunha de um guarda conhecido para passar à vontade
no portão de entrada do quartel, e depois dentro era só chegar até à grade do bunker.
E ali conversar à vontade. Como se estivesse na rua.
Desta minha
situação decorria uma outra, exterior, de enorme relevo e que não era possível
contornar. Na ocasião em que fui preso, na qualidade de juiz, e só nessa, estávamos
presentes na empresa, na Textáfrica, em Vila Pery apenas dois Directores, assim
designadas as pessoas que tinham procurações com poderes gerais de
administração passadas pela Administração da empresa, cuja sede era então no
Porto. E em documentos que obrigassem a empresa, quaisquer que eles fossem,
Letras, Livranças, Cheques, e outros, era obrigatório, para validar o
documento, que este tivesse sempre duas assinaturas, de pessoas habilitadas com
os respectivos poderes. E então, estando eu preso, logo impossibilitado de
estar no escritório e assinar os documentos necessários ao giro normal, à
gestão corrente da empresa, tudo parava. E quase parou. E a situação
agravava-se por se aproximar o fim de mês (Outubro/75) e não haver documento
(Livrança) para levantar dinheiro no banco (BNU) para pagamento dos salários de
cerca de quatro mil empregados. E outros casos graves e urgentes. Até que o dr.
Flores, o único Director presente, livre e disponível, reclamou no Governo,
contra a situação, resultando que embora não me devolvendo à liberdade, como
ele julgava ser possível, autorizaram-me a despachar a papelada
...na prisão, no caixote, na jaula. Mas vendo o guarda presente que
através da grade a coisa não funcionava bem, organizou a sessão de autógrafos,
isto é, de assinaturas, de despacho do expediente, logo ali ao lado, no bar da
polícia.
O pior, porém, foi que, na primeira vez, por
ter vindo a despacho o dr. Flores, um homem de coração de oiro, emotivo,
sensível, que chorava abertamente por me ver naquela situação, ter de ser eu a
consolá-lo e acalmá-lo, receando mesmo que lhe acontecesse algo desagradável.
Mas depois, nos dias seguintes, foi o Correia, o imperturbável chefe de pessoal
que habitualmente colaborava comigo na sua área, o portador dos documentos, e
que também por sua conta e risco, extra serviço, me fez algumas visitas, como
amigo. Tal como outros colegas da fábrica e vizinhos arriscaram a pele e
visitaram-me, alguns por várias vezes. E algumas vezes vinham pessoas para
tratar de assuntos que dependiam de mim noutras matérias. E até do tribunal, em
certo momento tive de assinar papeis urgentes, mas depois ficou a indicação de
que um juiz preso
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