A liberdade
Não há nada que um preso
mais anseie do que a liberdade. E talvez por ser a liberdade um bem tão
desejado, a sua privação é o maior castigo. E para mais no nosso caso, quando a
prisão era totalmente arbitrária, gratuita, não causada por acto de
responsabilidade, por ofensa legal ou moral. Ao contrário, a nossa prisão é que
era uma monstruosidade ilegal, e imoral, e portanto a liberdade era nosso
legitimo direito. Mas é claro, argumentos lógicos ali, não colhiam, não tinham
cabimento.
Segundo os critérios legais normais, à europeia, à civilizada, de
acordo com a suposta ordem jurídica existente, no quadro das normas
constitucionais e normas penais comuns, a nossa prisão não era prisão. A prisão
é um conceito jurídico próprio, e só o é enquanto tal, quando obedece a regras
próprias. Era por esse motivo que qualquer preso, ou detido, só poderia sê-lo
em circunstâncias pré-fixadas na lei, e que era obrigatório apresentá-lo ao
juiz, dentro de curto prazo, máximo de cinco dias, e a demora se a houver devidamente
justificada, para que este, com autoridade própria, isenta, neutra, imparcial,
fora do sistema policial e administrativo, pudesse verificar se a prisão, face
aos indícios, às circunstâncias conhecidas, tinha sido legal, obedecendo às
respectivas normas, e se o arguido deveria ou não continuar preso ou sair em
liberdade, eventualmente mediante caução. Estamos a tratar de prisão
preventiva, antes pois do julgamento e de uma condenação judicial transitada em
julgado, antes de uma pena efectiva de prisão, no final do processo,
definitiva, salvo o direito de recurso para o tribunal superior. Como se vê,
trata-se de duas situações distintas. Ora, qualquer prisão fora deste quadro,
era portanto ilegal, e sendo ilegal, era crime, aliás podendo configurar diversos
crimes, desde abuso de autoridade, sob diversas modalidades, tais como a prisão
ilegal, irregularidades formais de captura, ou mesmo sequestro, cativeiro,
cárcere privado, etc, previstos e punidos pelo Código Penal, e para cada crime,
a lei cominando as respectivas penas, nestes casos dadas as circunstâncias,
deveriam ser bastante agravadas, aplicáveis certamente pela bitola máxima. E
como estes crimes eram cometidos pelas autoridades administrativas ou
policiais, ou militares, eram por assim dizer “crimes oficiais “, uma
espécie de banditismo oficial. Se tudo isto se conjugar com a pseudo-apreensão legal de bens, mas que acabava por ser
roubo, os crimes eram em maior quantidade, em acumulação, e as penalidades, ao
final, ainda seriam mais pesadas e mais gravosas. Parece ficção, mas era a dura
realidade...
Logo que fui preso, por vias que iam surgindo,
polícias, auxiliares, ou civis, a quem eu podia entregar um recado, enviei
bilhetes a minha mulher, que não sabia do se passava comigo, e pedindo-lhe entre
outras coisas, para enviar logo três telegramas: um para o Ministro da Justiça,
outro para o Presidente da Relação, em Lourenço Marques, e outro para um
advogado amigo, na Beira, com quem trabalhei em conjunto em alguns processos, e
era pessoa muito prestigiada. E enviados os telegramas que procurasse também
telefonar, para confirmar, para o caso de os telegramas serem interceptados ou
nem sequer seguirem a seu destino por outra qualquer razão, e explicando-lhes a
minha situação.
O efeito foi grande. Logo correu por todo o
lado, principalmente em Lourenço Marques e Beira, que o juiz de Vila Pery
estava preso. Os juizes que ainda permaneciam em
Moçambique, e poucos eram além de um ou outro na Beira e alguns mais em
Lourenço Marques, agora já Maputo, tremeram. Como era possível? Noutra situação
ainda se perguntariam que crimes teria o juiz
cometido. Mas nesta altura, face aos factos, já ninguém perguntava porquê. Eles
já sabiam que apenas tinha sido apanhado na onda... das prisões. Ilegais.
Maior foi o efeito da minha
prisão na própria cidade de Vila Pery. Todos se perguntavam porquê. Mas não
havia resposta. Todos perceberam, que se até o juiz foi preso, então já ninguém
tem a menor segurança. O pânico era geral. O tribunal deixou de o ser. Já não
há mais nem lei nem ordem ... nem
justiça!
A minha mulher ia
enviando-me nos bolsos das camisas lavadas que diariamente me fazia chegar, as
noticias possíveis, e eu, de volta ao enviar-lhe a roupa suja, colocava nos
mesmos bolsos os bilhetes com as minhas indicações, tudo isto porque era suposto eu estar incomunicável, e a minha mulher não
estar autorizada a fazer-me visitas, e até, vigiada, com um guarda à porta, e
sujeita a ser presa também.
Para o Presidente da Relação o facto foi surpresa, mas
não tanta, visto que eu já pessoalmente o informara cerca de um mês antes do
que se passava em Vila Pery e do risco que eu corria no exercício das minhas
funções.
Já com o Ministro da Justiça, a surpresa foi total
visto que não esperava tal ocorrência que o colocava completamente em cheque
perante a classe e todos os serviços de Justiça. E segundo informações
posteriores, teria logo mandado averiguar os factos. E face ao facto consumado
teria dado ordens para me soltarem, tendo os frelimos
de Vila Pery respondido que ali mandavam eles. Até que, depois de muita
insistência, depois da remessa de numerosas comunicações, em que o ministro
teria requisitado a minha presença para averiguações no ministério, no Maputo,
na qualidade de seu subordinado directo, e então, a muito custo, os frelimos de Vila Pery acederam, mas foi preciso decorrerem
quinze dias de cativeiro ...
O Chefe Langa soltou-me, a
contra gosto, como era manifesto, e permitiu-me regressar a casa, para no dia
seguinte seguir para a Beira e daqui de avião para Lourenço Marques.
Em Lourenço Marques, na minha presença, o Presidente da Relação estava
completamente embatucado, constrangido. Não sabia que dizer e que fazer.
Percebi que não tinha acreditado inteiramente nas indicações que lhe tinha
fornecido cerca de um mês antes. Talvez tivesse pensado que o quadro que lhe
pintei fosse exagerado e que eu fosse demasiado temeroso. Mas também percebi
que não tinha poderes para nada. Para agravar o mal-estar, o ambiente de
constrangimento, estavam presentes alguns juizes de
carreira, e logo apareceram outros, dos poucos que ainda não tinham regressado
a Portugal, e a quem tive, face às insistências e normal curiosidade, de contar o que
acontecera comigo e o que se passava, no tribunal, na cadeia e na polícia e o
ambiente geral. A estupefacção era total. E o medo também.
É claro que na capital,
junto das autoridades máximas da Frelimo, não se davam conta, nem faziam a
correcta avaliação do que se passava por essa enormidade de território, agora
sem informação, sem organização, sem ordem, sem rei nem lei. Os factos
apresentados não eram compatíveis com o teor da propaganda estafada da Frelimo,
de toda conhecida. Era-lhes difícil acreditar...
Insisti com o Presidente da Relação para me levar
junto do ministro: ele tinha de saber o que realmente se passava. Um ministro
da Justiça, mesmo que fosse revolucionário, comunista, maoista,
o que eu duvidava, fosse enfim o que fosse, mas que estudou nos mesmo livros
que eu, com a mesma formação jurídica, formado na Faculdade de Direito de
Lisboa ou Coimbra, certamente também humanista que eu, pois como já referi, era
advogado, embora pudesse ter ideias políticas diferentes, não podia ficar,
pensava eu ingenuamente, insensível a estas arbitrariedades, a estes abusos, a
estas ilegalidades, a estes crimes oficiais hediondos. Pois a situação vivida
agora em Moçambique, era um escândalo, era a subversão total do direito. Era o
regresso à barbárie...
O ministro recebeu-me contrafeito. Descrevi-lhe o
quadro geral da situação. Falei, falei, com convicção, com veemência,
indignado. E continuavam lá os companheiros de quinze dias de sequestro, de
cativeiro. Presos inocentes de qualquer crime. E ao que constava, o mesmo se
dava na Beira, cuja cadeia estava a abarrotar, e em todo o Moçambique. E
segundo se dizia também nos quartéis da Frelimo. Como era possível a Frelimo
fazer coisas destas? Depois de tanta propaganda sobre a luta a favor da suposta
justiça e da suposta liberdade do povo, contra uma suposta opressão
colonialista...
O ministro deixou-me falar o que eu quis. Ouviu tudo, sem perguntar,
sem comentar, sem responder. Calei-me. Não tinha opositor. Perguntou-me o que
pretendia fazer. Pois ir embora de Moçambique, com a família, para nunca mais
voltar. E declarar ao mundo, por toda a parte, conforme eu pudesse, o que era
realmente a Frelimo.
E que desejava que os meus companheiros de cadeia fossem libertados... mas para
já desejava ir a Vila Pery fazer as malas, despedir-me dos amigos e com a
família apanhar o primeiro avião para fora de Moçambique...
Então o ministro falou, de novo, e disse que
era aconselhável eu não
voltar a Vila Pery, pois não me podia garantir ali a minha segurança...
Era a confissão de total impotência, da inoperância,
da incapacidade, da total falta de poder, de força política. Era lastimável.
Era um papel que eu nunca me prestaria a desempenhar. Era uma vergonha. Um
ministro de fachada. Sem dignidade. Que circo era aquele? Quem alinhava naquela
palhaçada?
Nada mais havia a fazer. Naquele caos, tudo podia
acontecer. Era preciso sair de Moçambique o mais rápido possível.
Regressei à Beira onde tinha ficado a minha mulher
com o meu filho, o Fausto, no hotel. Uns amigos deram-lhe boleia nesse mesmo
dia à noite para Vila Pery. Fez as malas de noite, com as roupas mais
necessárias e poucas coisas mais. Outros amigos, na noite seguinte, pela
madrugada, tiveram a coragem de correrem os riscos inerentes de a transportarem
de volta à Beira, onde eu e o Fausto a esperávamos.
Da fábrica, que seguiam a minha situação
atentamente, enviaram-me, feitas as contas e determinados os
meus direitos, os salários que me cabiam, e com o advogado amigo, na Beira,
acertámos contas atrasadas, de serviços que prestámos em conjunto, e com essas
importâncias comprei os bilhetes de avião para Lisboa.
Já não voltei
a Vila Pery como esperava e desejava.
Lá ficou a casa, os móveis, os livros, o recheio, as
recordações...
Também o carro, o terreno, a machamba, o
Xavier, os amigos presos... e toda aquela boa gente da cidade completamente
desprotegida!
Tive sorte. Na agência de
viagens ao ser referido que era o juiz de Vila Pery, cujo caso era já por
demais conhecido, conseguiram-me três lugares, dos diversos que tinham
reservado, para um dos
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