A guerra...

Enquanto nos ocupávamos de nossas funções, chegavam até nós ecos da guerra, de factos que ocorriam distantes nas zonas de Cabo Delgado e Tete, isto é, junto às fronteiras da Tanzânia e da Zâmbia, países que como se sabe, pelos seus presidentes de então, Julius Nyerere e Kenneth Kaunda, figuras mais ou menos destacadas do grupo de terceiro mundo e também da OUA, de tendência de esquerda, apoiavam os terroristas e a partir desses países faziam as suas surtidas em Moçambique. Pelo menos no início, enquanto não conseguiram estabelecer bases no território.

Do pouco que sabíamos, já que notícias da guerra pouco chegavam aos jornais, tínhamos a noção de que a princípio os incidentes não passavam de algumas surtidas, flagelações às tropas portuguesas, mas à distância, e as traiçoeiras minas nas picadas. Havia um incidente ou outro, esporádicos. Raramente uma emboscada. De vez em quando uma viatura voava pêlos ares. Havia mortos ou feridos. Depois tudo se aquietava de novo por largo tempo. Os anos decorrem pacatos, salvo estes incidentes.

Passa largo tempo. As tropas foram ficando saturadas. Principalmente os graduados que vão fazendo sucessivas comissões. A comissão torna-se muitas vezes um negócio. As remunerações são bastante interessantes e na quase totalidade recebidas em Lisboa. Dá para amealhar, comprar um andar, participar em negócios. O graduado muitas vezes leva consigo a mulher e o resto da família. E uma guerra muito suportável. Todos desejam ser colocados nas repartições, no ar condicionado, nas cidades. Aí o graduado pode obter ainda para si um emprego a tempo parcial. Ou também para a mulher. Ou para outras pessoas da família. Outros colocados em outras funções, geralmente em funções administrativas ou logísticas, sofrem a tentação do dinheiro fácil, e alguns enveredam por negociatas escuras, principalmente em casos de serviços de fornecimentos, de bens de alimentação, ou de equipamentos de transporte, combustíveis, pneus, sobresselentes, ou quaisquer outros, desde que tal seja possível. E também nas compras. Por vezes eram comprados bens aos fornecedores que aceitassem a condição de o preço ser sobrevalorizado na respectiva factura... A corrupção alastra de forma assustadora. E nós, residentes, vamos assistindo a esse descalabro moral.

Devendo prestar-se homenagem à maioria das praças, sargentos e oficiais subalternos, a maior parte milicianos, que eram afinal o substrato do povo português, quer provenientes da metrópole quer da própria colónia, de comportamento em geral decente e educado.

Acontecia porém que muitas praças perderam o aprumo, a disciplina, e a até a decência. E não me refiro àqueles que acabam de chegar do mato, perturbados, de missões mais ou menos perigosas. E sim aos que estão aquartelados nas cidades, que nada fazem a não ser má figura perante a população trabalhadora. Concluindo nós que tal procedimento só poderia resultar do mau exemplo de muitos graduados e da perda consequente da sua autoridade que já não lhes permite fazerem cumprir a disciplina regulamentar.

Contam-se casos. Uns de corrupção. Outros de incidentes da guerra. Recordo um facto que por um lado provocou uma grande consternação, mas por outro também uma enorme indignação, e até revolta, contra o estado de coisas. Foi o que ocorreu no rio Zambeze, na passagem do distrito da Beira para o de Quelimane. A passagem era feita em batelão, com uma capacidade considerável. Pois bem, uma coluna militar, com efectivo superior a companhia, com várias viaturas e muito equipamento, comandada por um aspirante a oficial, sofreu, por imperícia, negligência, ou simplesmente, por inexperiência do comandante, ou talvez até por mero acaso, um acidente na passagem, em que o batelão se voltou e jogou ao rio, que tem largas centenas de metros de largura, muita profundidade e forte corrente, diversas viaturas e equipamento e também dezenas desses homens, muitos dos quais morreram afogados, outros foram pasto de crocodilos ou simplesmente desapareceram levados pela corrente.

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