A derrocada

Samora Machel que mesmo depois do Acordo de Lusaka se mantinha, aparentemente, fora de Moçambique de onde comandava os acontecimentos respeitantes à Frelimo, com a independência entrou triunfal em Moçambique, pelo norte, vindo da Tanzânia, onde ao que parece se acoitava, como um deus da guerra vitorioso. Vinha guardado por tropas da Tanzânia, cedidas pelo amigo Nyerere, que o acompanharam sempre no seu périplo, e parecendo revelar com isso ou não ter frelimos suficientes para o protegerem, ou talvez por não confiar de todo nos seus camaradas, nem no "seu  povo".

E iniciou logo um programa de comícios por toda a parte onde podia reunir uma multidão satisfatória, mas principalmente nas capitais de distrito, com discursos inflamados, revolucionários, fazendo ataque cerrado ao colonialismo, ao capitalismo, com os slogans conhecidos da exploração do homem pelo homem, da opressão, do imperialismo, e os mais tão caros aos comunistas, iniciando e terminando sempre com vivas à Frelimo dez vezes, vinte vezes, talvez para fazer entrar no ouvido daquelas gentes inocentes que a Frelimo existe e está ali para lhes dar tudo do bom e do melhor. Que aliás é o que sempre se espera de mudanças e do cumprimento de promessas. Mas o discurso tornava-se grave e perigoso. Umas vezes o discurso era contra o colonialismo... Mas quem, ou o quê, era o colonialismo? Entidade abstracta que o preto não entendia? - Não. O que ele entendia era a existência de brancos ali mesmo a seu lado.. Ou quando sugeria, senão mesmo declarava abertamente, que a exploração era do branco que era rico e era talvez o seu patrão... ou o seu vizinho... Já se vê as voltas que fazia dar a muitas cabeças e a cobiça que gerava em muitos dos assistentes. Outras vezes era contra a exploração, o colonialismo das empresas.. enfim, a propaganda habitual. Além de ataques, e declarações caluniosas, e ofensivas da dignidade nacional de Portugal, à nossa tropa e ao país. Para já não falar nas ofensas aos residentes nacionais. Mas é claro que estes já nem cidadãos de segunda eram considerados, nem no seu próprio país, mas antes uns párias abjectos geradores de todos os males. E não consta que o governo português então comunista, tenha exigido, como deveria, reparações da ofensa ou sequer explicações sobre tais tropelias. Antes pelo contrário, parecia concordar inteiramente com elas apoiando o discurso de Machel!...

Machel era o rei absoluto, o Hitler da Frelimo, bem na linha de Staline, de Mao, de Pol Pot e de outros monstros criminosos da história. Sem esquecer ainda e em especial Kim Il Il Sung, Ho Chi Min, Fidel, Idi Amin ou Bokassa, Átila ou Gengis Kan. Ou mais no nosso tempo Khadafi, Sadam Hussein, os ayatolas fundamentalistas do Irão. E mais recentemente Milosevic...

Dono e senhor dos bens e das vidas de quantos habitavam Moçambique, Machel, tal como esses tiranos, ousou tornar-se um deus, senhor do poder, da verdade e da sabedoria. Como todos os ditadores. Como eles foi endeusado. Ninguém o contestava nem era suposto que houvesse quem o pudesse contradizer. Ou enfrentar. Quem ousaria?

Como eles, hoje é considerado um monstro. Staline fez perecer milhões de pessoas, nos seus gulags, na Sibéria; Mao provocou a morte a mais de quarenta e cinco milhões, entre a guerra civil contra os nacionalistas, e depois com a sua trágica e estúpida revolução cultural. Machel por seu lado, provocou com a sua política, a morte de milhões de inocentes moçambicanos com a guerra, primeiro subversiva e terrorista contra Portugal, mas e sobretudo depois a guerra civil contra a Renamo, e ... pela fome.

E era detentor de tanta arrogância, de tal poder de subjugação, que numa visita que fez a Portugal, como todos sabem, e se ainda tem memória para tal facto, toda a plêiade política, inclusive dos mais altos cargos da Nação, se lhe submeteu, se lhe rendeu, subjugada, complexada, bajulando o pequeno demónio, num vergonhoso acto de humilhação nunca antes praticado, neste pais orgulhoso do seu passado e dos seus maiores.

Nunca Portugal foi tão humilhado por um só homem.

           Sendo o presidente da Frelimo tornou-se, com a independência,  o presidente de Moçambique. "Democraticamente" já se vê.

Um deus deve ser adorado, se o crente tiver fé. Mas se não tem fé o deus será um deus menor, bajulado, adulado até cair do pedestal a que se elevou sem mérito. Então o deus será renegado. E este deus de pés de barro, acabou por ser morto, porventura assassinado pêlos seus aduladores, ou por obra da divina providencia, materializada em acidente de aviação.

Mas o mal maior já estava feito!

A sementeira de ódios já estava a dar frutos. Moçambique já estava afundando. Já nada, nem ninguém, o podia salvar.

Por isso tal morte, justa mas tardia, já nada resolveu.

Além de ter ouvido alguns discursos pela rádio ou de ter lido resumos de discursos nos jornais, tive o "privilégio" de ter assistido em Vila Pery a um desses momentos altos da oratória macheliana. Que a meu ver, segundo a minha modesta formação estética, literário-política, ia do caricato-humorístico ao tristemente-dramático. E prognosticando efeitos trágicos. Infelizmente confirmados.

Deve fazer-se uma menção ao show de Machel perante aquele povo simples que mal era capaz de entender todo o seu palavreado. Não só porque a maior parte das pessoas arrebanhadas lá no mato distante e trazidas para o comício, não sabia ou sabia mal o português, como Machel falava mal o português, como tal povo não percebia nada do conteúdo do discurso.

Importante era a própria figura do tiranete, a principio vestindo a farda militar de guerrilheiro, mais adequada a impressionar e a condizer com aura do guerreiro vencedor, do herói, farda que mais tarde substituiu pelo fato cinzento-escuro com risca, à diplomata, encomendado em Paris, etiqueta de alta-costura. Era o discurso teatral do político eufórico, impante, em transe, olhos brilhantes, febris, gestos de braços largos e exuberantes, rodando ora para a direita ora para a esquerda, numa pose formal estudada, mas caricata e grotesca, que me faziam lembrar dos meus tempos de jovem os filmes do “Cantinflas”. Era mesmo isso que tais gestos me sugeriam. Era assim, pois, o discurso, duplamente humorístico, pela forma e  pelo conteúdo. Era o pleno do grotesco!

E de tal forma que mais tarde surgiu uma emissora de rádio, pirata, clandestina, anti-frelimo, que tratava Machel de macaco, lhe surpreendia os tiques e ditos caricatos e o metia ao ridículo. Com grande gáudio das populações que captavam estas emissões e que nunca gostaram da Frelimo. E muito menos de Machel.

Em todo o caso, os jeitos e trejeitos eram do agrado de muitos, sobretudo o pessoal feminino mais atrasado, que em geral, e mercê de organização apropriada, acorria aos comícios com desfiles e com grandes cantorias. E antes das discursatas, para animar os assistentes, já que os comícios eram antecipadamente preparados, e isso já sabiam eles fazer, havia sempre umas cantorias. Pelas mulheres. E deve dizer-se que cantavam canções em coros muito bonitos, já que, como é sabido, parece existir uma capacidade natural excepcional entre aquelas pessoas para este género de canto, mostrando ter um ouvido afinadíssimo, e que eu até gostava muito de escutar. Do conteúdo literal das canções é que não entendíamos nada por serem em dialectos nativos. Mas sabíamos que tinham um sentido ou saudosista e tradicional, ou revolucionário, e neste caso ao gosto e sob a batuta da Frelimo.

Também a criançada era seduzida para comparecer a actos solenes, comícios ou festas e muitas vezes chegavam a formá-los em colunas à militar e a darem-lhes armas simuladas feitas de toscos paus, armas que mesmo a fingir, uma espécie de brinquedo, são objectos de que as crianças sempre gostam, e talvez para os interessar, como futuros combatentes, pela nova ordem revolucionária. E a criançada gostava e divertia-se. E desfilando depois em formação pelas avenidas da cidade com algum aplauso de populares. Era uma grosseira imitação da Mocidade Portuguesa. Mas agora descalça, suja e maltrapilha. Que metia dó. E era o começo de uma lavagem ao cérebro, para os tornar a todos revolucionários, segundo as regras comunistas.

Lembramo-nos da chamada Juventude Hitleriana, e muito mais recentemente dos tristemente famosos guardas vermelhos de Mao. De má memória.

Em qualquer caso não há qualquer semelhança entre as juventudes hitleriana ou comunista, guardas vermelhos, etc, com a Mocidade Portuguesa, tão vilipendiada pela esquerda, mas que para nós estudantes, na época, não passava de uma pequena chatice de nos tomar algum tempo aos sábados... mas em compensação tinha coisas boas como desporto, acampar, etc E em localidades como Lisboa, o desporto abrangia, para quem quisesse, actividades náuticas como vela, em várias classes conforme as idades, remo ou outras como equitação ou tiro.

Felizmente não havia a menor semelhança...

Mas os homens, os adultos, sensatos e experientes da vida, na sua maior parte não embarcavam naqueles programas que em nada lhes agradavam por tão disparatados. Talvez por isso muitos tivessem sofrido mais tarde o quase-cativeiro nas pseudo-machambas colectivas, sempre à imitação dos chineses e soviéticos, pois era essa a linha aprendida e portanto devendo ser a seguida, a todo o custo, na pureza da ideologia!

Os efeitos imediatos dos comícios no que restava da população branca foram arrasadores. Já ninguém mais acreditava que se pudesse continuar a viver e trabalhar tranquilamente naquela terra. E eis que sai mais uma revoada de pessoas. Muitas delas abandonando todos os seus bens ou quase todos.

Com a nova ordem revolucionária, todos os valores subjacentes da cultura do europeu foram postos em causa. Gerou-se a confusão na mente das pessoas em geral. Muitos eram incitados a fazer pública autocrítica, ao estilo comunista. Processo tão usado por essa altura na China, na fase da revolução cultural, em conformidade com os mandamentos do célebre livrinho vermelho dos pensamentos de Mao, na realidade um chorrilho de disparates, mas que tanto influenciou a juventude menos sensata em todo o mundo e até, inclusive, aqui em Portugal. Era preciso substituir a arrogância pela humildade. Os luxos pela simplicidade. O espírito burguês pelo espírito revolucionário... Vi algumas pessoas que antes eram ou pretendiam ser socialmente socialite, gente "muito bem cheios de "nove horas “ portanto preconceituosas e com espírito de classe, andarem mais tarde, quais condenados, voluntários, em auto-punição, a limpar e varrer as ruas da cidade. Entre outras acções ridículas e hipócritas. O que mostra a que ponto a confusão tinha tomado conta de muitas cabeças e se tinha perdido de todo o senso comum.

É bem verdade que em ambiente de tal pressão era muito difícil manter a lucidez e o bom senso. E eu sei bem o que isso representa. Imagine-se quanto custa uma pessoa tentar manter o bom senso, a lucidez, procedendo em conformidade e por isso sentir-se a destoar no ambiente, rodeado de uma espécie de loucura colectiva, surrealista, paranóica. Então ou se adapta e se integra no sistema, ou destoa do geral e passa a reaccionário e portanto a inimigo do povo. Com as conhecidas fatais consequências.

Aliás o mesmo aconteceu aqui em Portugal por essa época, e se bem se lembram.

Mudando o nome às coisas, destruindo documentos ou quaisquer elementos materiais que testemunhassem o dito faxismo, aqui o colonialismo, apeando estátuas, destruindo monumentos, etc, numa sanha estúpida, irracional, selvagem, como que a tentar apagar o passado, a história...

Por outro lado, nos comícios e actos públicos, as condenações aos brancos, expressas ou implícitas, as referências à exploração, à riqueza, etc, constituía uma acusação, como se de um crime se tratasse, e por outro, um incitamento, mais ou menos expresso, à actuação dos africanos contra os brancos. O racismo antes nunca relevante, passou agora a ter o máximo significado mas no sentido contrário.

E de tal modo se tomou o ambiente de animosidade contra o branco, de uma certa facção radical da Frelimo e de muitos aderentes de última hora, principalmente jovens, mais ou menos escolarizados, gerado após os discursos de Machel, que chegavam a imputar-nos a responsabilidade da escravatura, e se não o diziam abertamente, sugeriam tal facto histórico, e se não era a nós, era pêlos menos aos nossos antepassados. Em qualquer caso sempre éramos culpados.

E quando se mostrava o erro e nada mais nos podiam imputar, acusavam-nos, no mínimo, de paternalismo para com os nativos. O que consideravam um procedimento muito mau da nossa parte.

Não interessava saber, é claro, que a escravatura não foi exclusiva da África, nem sequer exclusiva da época do grande tráfico principalmente da parte central da África, na costa atlântica, para o Brasil e para a zona das Caraíbas ou o sul dos Estados Unidos. E nem sequer efectuado por portugueses mais do que quaisquer outros. Ac contrário, esta triste "instituição" da humanidade, remonta aos povos mais antigos, em que das lutas tribais resultava o inimigo ou morto ou escravizado. E por isso todas as civilizações da antiguidade revelam a existência de escravos; e em Roma existiam as leis que regiam a escravatura - não dos escravos, considerados res nullius, ou simples coisas, portanto nem eram considerados pessoas - mas dos libertos, aqueles que tinham deixado essa situação, e a quem eram concedidos direitos menores de cidadania. Nem interessava saber que muitos portugueses sempre combateram a escravatura, nem que os maiores responsáveis pela escravatura em África eram os próprios régulos que punham os seus homens de confiança à caça de outros homens, seus irmãos, no mato para depois os venderem aos negreiros, aos traficantes, nos portos da costa. E o mais, muito mais que se poderia dizer sobre esta vergonhosa "instituição “ da humanidade, até à sua proibição pêlos governos dos povos europeus, ditos civilizados.

Mas a ideia de nos acusarem a nós, ali, concretamente, surtia o efeito desejado. Impressionava. Colocava-nos na posição de autênticos vilãos aos olhos mais ou menos ignorantes de toda a população negra. E do mundo. E mesmo que não acreditassem de todo sempre ficava, no mínimo, no ar, a dúvida ...

Um dos incitamentos em concreto de Machel era: trabalho e vigilância.

O trabalho não era coisa que fosse muito bem aceite pelos aderentes. Apesar de ser o que mais se precisava, face a tanta falta que era necessário suprir, a tantos bens que era necessário produzir, pelo trabalho. Pois segundo o ditado, pelo trabalho se vence.

Vigilância sim, isso interessava. Aos oportunistas.

Por vigilância entendia-se o estar atento a todos os brancos em  benefício da revolução, não fossem os brancos prejudicar o bom andamento das coisas. E ainda, depois de terem sido criados os crimes contra a economia, pela sabotagem ou por meio de outros actos prejudiciais, era objecto de vigilância impedir tais actos.

E daí o terem-se gerado comités de vigilância por toda a parte, mais frequentemente nas estradas, a ponto de por exemplo, para se viajar de, e para a Beira, ao longo dos cerca de duzentos quilómetros se ter de parar em uma vintena de barricadas, cada uma com um comité, apoiado em geral por forças avulsas da Frelimo, e que revistavam os carros ou quaisquer outros veículos, as pessoas, as mulheres, as malas e retiravam tudo o que representasse uma manifestação burguesa, contrária portanto à linha pura da Frelimo. Tudo bem ao estilo maoista e comunista em geral. Mas é claro, na teoria. Na realidade roubavam tudo quanto fosse anel, pulseira, corrente, relógio, brincos, ou vestuário, ou quaisquer outros valores que fossem do agrado de algum dos elementos do comité, em geral mais rigoroso por parte das mulheres. A ponto de mandarem despir as burguesas para um melhor exame, até das partes mais íntimas. Os homens do comité em geral contentavam-se com o dinheiro e cigarros.

Esta situação de pretensa vigilância, gerava múltiplas questões entre alguns empregados e os patrões, muito embora a maioria do pessoal se mantivesse fiel, respeitadora e leal, conservando o bom senso natural e não alinhando com os desmandos da Frelimo. Pois compreendiam que o mais importante era preservar os seus empregos. Mas bastava que um ou dois "revolucionários" entrassem em acção para tudo se modificar. E daí que pequenas e médias empresas que ainda resistiam acabassem por fechar causando enormes problemas de desemprego, e tudo o mais que é suposto presumir como consequência.

E até nas grandes empresas os grupos de vigilância faziam das suas. Recordo o dia em que me vieram avisar, no escritório da empresa, que um tal Chibata, o mais activo revolucionário vigilante da empresa, da Textáfrica, se preparava para prender o Administrador-Delegado exibindo a indispensável corda que

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