A
SITUAÇÃO MOÇAMBICANA NO MOMENTO DA INDEPENDÊNCIA
Uma breve
caracterização da situação moçambicana no momento da independência ajuda a
compreender o contexto em que se introduz o projecto de mudança da FRELIMO e se
realizam as reformas da Educação.
Alguns indicadores económicos e sociais
dão uma visão geral do atraso do país e ajudam a entender a complexidade da
realidade cultural.
A complexidade do universo cultural
Destacam-se apenas aqueles indicadores que
ilustram a complexidade do universo cultural moçambicano e subsidiam a reflexão
sobre o seu impacto na construção da historicidade, da identidade nacional e,
particularmente, no processo educativo.
O País compreende, na sua composição
social, contrastes de tipo demográfico, económico, linguístico e religioso.
Demograficamente, existem províncias muito
extensas e menos populosas. A província do Niassa, por exemplo, é a maior em
extensão, é a menos populosa, com uma densidade de 4,3 hab./km2, contra 1.501 hab./km2
da cidade de Maputo com estatuto de província (CNP, 1985: 20). No contexto
nacional, a Zambézia seria relativamente a mais equilibrada, ao mesmo tempo
extensa e populosa.
Em relação às fontes de rendimento
económico, por um lado estão regiões onde, pela fertilidade de suas terras, as
populações se dedicam mais à agricultura, enquanto noutras se dedicam mais à
criação de gado ou à pesca. Em zonas de economia baseada na agricultura e gado,
a participação de crianças em actividades agrícolas e de pastagem de gado
começa muito cedo, aos sete anos de idade. A essa participação está ligada a
prática de ritos de iniciação à vida, mais rigorosa numas zonas que noutras. Há
regiões não favoráveis à actividade agrícola extensiva, mas com
potencialidades turísticas, pelas suas praias, como a província de Inhambane.
Outro contraste resulta da política de
desenvolvimento colonial. Há províncias e, dentro da mesma província,
distritos com mais infraestruturas económicas (grandes cidades com fábricas,
caminhos-de-ferro, etc.) e sociais (grandes escolas e hospitais, etc.),
geralmente no litoral e Sul do país, que serviam também de muralha de defesa à
penetração dos árabes do litoral para o interior, nos séculos XV a XVII e da
expansão de ingleses e holandeses do Sul para o Norte, no século XIX,
respectivamente.
Tomando por base as línguas faladas,
verifica-se que o universo cultural é predominantemente bantu.
No censo de 1980 foram identificados 16
grupos étnicos e 24 línguas. Sete línguas são faladas por 3/4 da população:
makhuwa (27,8%), tsonga (12,4%), sena-nyanja (9,3%), lomwe (7,8%), shona
(6,5%), tswa (6,0%), chuabo (5,7%), e outras, incluindo as línguas portuguesa,
hindu e árabe (24,4%). A língua portuguesa, adoptada como língua oficial,
ocupa o décimo lugar. Apenas 24,4% da população fala português e 1,1% tem-na
como língua materna. A percentagem maior da população (47,5%) que fala
português situa-se na faixa dos 15 e 24 anos de idade; e é pequena a percentagem
de alunos entre os 7 e os 14 anos que ingressa no Ensino Primário falando
português (32,0%).
O mapa de distribuição da população por
língua materna (Mapa 2) não apenas ilustra a diversidade linguística, mas
também revela a complexidade da realidade cultural, e, inclusive, usando a
expressão de Edgar Morin, a complexidade da própria unidade nacional.
Trabalhos antropológicos e linguísticos de António Ribeiro,
Pires de Prata (1960), G.M.M. Cupen (1974), Francisco Lerma (1987), Iraé
Baptista Lundin (1986), etc., e, sobretudo, os de Rita-Ferreira (1975) e C.
Geffray (1987) confirmam esta complexidade. Iraé Baptista Lundin verifica
ainda que, nos cinco grupos étnicos pesquisados, tanto são diferentes os usos
e os hábitos alimentares, a organização social, o sistema de produção, a
circulação de produtos e o consumo de bens, como variam de um grupo para outro
as formas de educação dos filhos, a estrutura política do grupo. As gramáticas
changana e macua, de António Ribeiro e Pires Prata, respectivamente, põem-nos
diante, não apenas de estruturas gramaticais diferentes, mas também da
especificidade do meio cultural em que cada língua é falada.
Vemos em Rita-Ferreira que a própria concepção de vida e de
mundo varia por vezes de nihimo^"1 para nihimo no
grupo makhuwa, de lukosyo para lukosyo no grupo Yao, de Xibongo
para Xibongo entre os tsonga (RITA-FERREIRA, 1975: 59/91, p. 210/227
e p. 239/243). Apesar de ser um subgrupo makhuwa, Cuppen salienta a
especificidade da religiosidade dos metos48. Francisco Lerma
Martinez analisa, em sua tese de doutoramento, as especificidades culturais do
grupo makhuwa do distrito de Maúa, na Província do Niassa49. Yohanna
Abdallah, na sua obra WaYao'We, em 1919, ressalta as especificidades
culturais no interior da própria etnia Yao, quanto à organização do trabalho,
ao modo de viver, ao comportamento, ao julgamento de questões e em outros
aspectos (ABDALLAH, 1959: 3).
Pesquisa recente de C. Geffray sobre o
processo de socialização do campo no distrito de Eráti-Nampula mostra como a
não consideração das diferenças culturais pelas autoridades oficiais
constitui, ela própria, a primeira dificuldade da organização social.
Outro indicador significativo é o da religião.
De 1970 a 1990, a presença das religiões evoluiu da seguinte maneira:
quadro 6
Distribuição da População por Religião Em percentagem: %
|
Ano |
Populares |
Católicos |
Protestantes |
Muçulmanos |
R. Tradicionais |
Outras |
|
1970 |
9.407.700 |
16,9 |
4,26 |
12,67 |
_ |
_ |
|
1980 |
12.130.000 |
-<- 13,0 ->- |
13,0 |
48,0 |
8,0 |
|
|
1984 |
13.284.174 |
13,0 |
11,0 |
13,0 |
63,0 |
- |
|
1990 |
15.730.900 |
38,9 |
31,4 |
13,0 |
47,8 |
- |
Continuam predominantes as religiões
tradicionais, após quase oito séculos de presença do islamismo (do século XII)
e de cinco séculos de cristianismo que coincide com os da penetração do
colonialismo português, no século XV.
Há um ligeiro crescimento do número de
adeptos em todas as religões, nos anos 70 e 80. Em 1990, o número de católicos
e protestantes quase duplicou em relação a 1970. O islamismo manteve-se
estável. A imprecisão dos dados referentes a religiões locais mostra que ainda
se está num campo de difícil controlo e que, pela evolução de outras religiões,
não se pode concluir necessariamente pela diminuição do número de praticantes
das religiões tradicionais. Na prática, face aos problemas da vida e da morte,
cristãos católicos e protestantes, os «assimilados» (do tempo colonial), e
mesmo dirigentes políticos, recorrem ainda «às escondidas»50,
aos rituais das religiões locais à busca daquilo a que Tempels chama, mesmo que
ironicamente, «solução prática», assimilável e capaz de se tornar «natural»
(TEMPELS, 1962: 13). Para os muçulmanos, em muitos casos, trata-se de
convivência ou de coexistência pacífica, como mostra Peirone na sua pesquisa
sobre a vida do povo Yao, no norte de Moçambique51.
Estas religiões distribuem-se
diferentemente pelo território nacional, de acordo com o período da sua
penetração e com facilidades ou dificuldades de relacionamento político com o
Governo.
O Islamismo, pela sua origem histórica,
ligada à penetração dos árabes, estendeu-se mais pelas zonas do litoral, entre
os séculos XII e XVII. Não avançou muito para o interior, devido ao bloqueio
da presença dos portugueses que pleiteavam as mesmas terras e riquezas.
Regista-se a presença significativa no planalto de Lichinga, na Província do
Niassa, aí introduzido através do comércio a longa distância estabelecido com a
costa pêlos comerciantes Yao, nos
séculos XVI-XIX. A rápida islamização das suas populações deve-se também a
alianças que soube estabelecer com os chefes locais, o que permitiu, por um
lado, o fortalecimento do poder aristocrático dos soberanos locais, como o
poder de Mataca, Mtalika, no Niassa, facilitando, ao mesmo tempo, a unidade
étnica do grupo, e, por outro lado, o maior enraizamento da religião islâmica,
o que não aconteceu com o cristianismo. Construiu verdadeiros reinos
afro-islâmicos no litoral norte, como o xeicado de Quitangoma e Sancul, nos
séculos XVI-XIX, de Sangage no século XIX e o sultanato de Angoxe, nos séculos
XVII-XIX (MEDEIROS, 1988: 122/134). Apesar de todos eles serem dominados
militarmente pelo exército português, no âmbito da política de «ocupação
efectiva» nos anos vinte deste século, continuou sempre marcante a sua
influência moral e cultural na vida das populações. Em algumas regiões, o
islamismo conseguiu estabelecer escolas corânicas, que funcionaram ao lado das
grandes mesquitas, ensinando o Alcorão e, provavelmente, com um sistema de
ensino em árabe. Sabe-se que, na reorganização do ensino de 1868 para as
Colónias, empreendida por Rebelo da Silva, então Ministro da Marinha e
Ultramar, constava o árabe entre as três línguas optativas nas escolas
principais de instrução secundária (ISCSPU, 1965: 5).
No cristianismo é nítida a diferença entre
a Igreja Católica e as Igrejas Protestantes. A Igreja Católica, pela sua
ligação estreita com o Governo Colonial de ocupação, espalhou-se mais por todo
o território; no entanto mais no interior que no litoral, ocupado pelo
islamismo, mais no Centro e Sul do que no Norte. A sua expansão fez-se graças à
facilidade de abertura de escolas, centros educacionais, hospitais. Pelo
processo de «assimilação», atingia os funcionários do Aparelho de Estado
Colonial. Com a independência nacional, perdeu a sua hegemonia religiosa,
devido à laicização do Estado, adoptada pela Frelimo.
As Igrejas Protestantes, sobretudo as
principais como a Anglicana, a Presbiteriana e a
Metodista, actuam mais nas províncias do Sul e, em pequena escala, no Centro e
Norte. Mesmo sem grande apoio do Governo Português, desenvolveram-se com a
criação de escolas e estabelecimentos de saúde, apoiadas pelas Igrejas
matrizes.
Com a crise económica, a recessão e a
guerra, começaram, a partir, sobretudo, de 1982, a proliferar nas grandes
cidades de Maputo, Beira e Quelimane, novas seitas, geralmente provenientes da
África do Sul e subsidiadas por instituições congéneres dos Estados Unidos da
América.
Como não é
objectivo desta tese desenvolver o tema da religião, interessa apenas: 1)
apercebermo-nos que a complexidade da própria realidade moçambicana envolve o
nível religioso; 2) apercebermo-nos do impacto das grandes religiões do
cristianismo e do islamismo sobre as culturas locais e a resistência das
religiões locais; 3) estarmos conscientes de que o conhecimento da realidade é
também mediado pelo factor religião, na medida em que uma religião veicula uma
concepção do homem, de vida, uma leitura específica da realidade e pode
representar um desafio para o sistema educativo a nível nacional; 4) constituindo,
então, a religião uma mediação para a compreensão da realidade moçambicana,
reflectir sobre o seu real significado, sobretudo no contexto das sociedades
de oralidade, depositório da sabedoria do povo, e reconhecer a acção
conscientizadora desenvolvida pelas comunidades cristãs católicas, através de
alfabetização nos anos 70, antes da independência; 5) reconhecer que a
religião se constitui parte integrante da sociedade e, por isso, não se pode,
de uma forma simplista, ignorá-la ou reduzi-la ao obscurantismo, à superstição
e às sobre-vivencias de arcaísmos, como observa Geffray (GEFFRAY, 1987: 31); e
6) importa não confundir Religião (crença e fé num valor considerado Alto),
Igreja (comunidade de fé) e Hierarquia eclesiástica duma Igreja. No seu
relacionamento com as igrejas e, particularmente, com a Igreja Católica,
muitas vezes a FRELIMO identifica, nos seus discursos, religião, Igreja
Católica e sua Hierarquia com a Igreja, e esta com a religião (REIS, 1975:
398/399 e p. 510) e a partir dessa confusão não consegue, por exemplo,
distinguir a convivência da Hierarquia Católica com o Governo Português e o
movimento cristão de repúdio e de revolta contra o colonialismo português, nos
anos setenta; daí, marginaliza as Igrejas da participação no processo de
reconstrução nacional. Apenas em Dezembro de 1982, já num contexto de fome,
seca, guerra e de degradação económica, a Direcção da Frelimo reuniu os
Representantes das várias Confissões Religiosas, apelando para a unidade
nacional, sob o lema «Consolidemos
aquilo que nos une»-*2. Ora, Sartre
adverte-nos que também nessa matéria há que ultrapassar o «marxismo
preguiçoso» que não inclui na análise da realidade sócio--cultural a
«hierarquia de mediações» (SARTRE, 1978: 135/136).
Duas questões merecem atenção particular
quando se estuda a Frelimo: 1) a questão sobre o feudalismo e 2) a questão da tradição, como opositora da modernidade.
A FRELIMO sustentou sempre a tese da
existência de uma sociedade tradicional-feudal em Moçambique. Em consequência
dessa tese tomou umas vezes posição de hostilidade e outras vezes posição de
ambiguidade face à questão cultural. Não poucas vezes e quase de maneira
ostensiva, sobretudo no processo de construção de aldeias comunais, procurou
combater, sem conseguir destruir, as estruturas e instituições julgadas
feudais, porque considerou-as incompatíveis com o projecto
de modernização da economia e da sociedade. Teria, então, tolerado algumas
delas, durante a luta armada, apenas por razões estratégicas?
A questão é: qual é o alcance científico
dessa caracterização? A adopção do modelo feudal ocidental, cuja referência é o
capitalismo, não teria induzido a Frelimo a alguns equívocos, distorções de
análise e preconceitos, sobretudo na área da cultura? Em que medida essa
postura não contribuiu, também, para distanciar o partido Frelimo do Povo e
instaurar um Sistema de Educação sem fundamento cultural? Embora se possa
compreender que a premência da guerra não permitisse uma análise profunda das
formações económico-sociais moçambicanas, essa caracterização não teria
contribuído para a formação de uma mentalidade que acabou por fazer da FRELIMO
o único agente de transformação
social, reduzindo as populações a mero objecto dessa transformação?
O debate entre historiadores e antropólogos quanto à
existência de feudalismo em África não está terminado. Georges Balandier faz
um estudo mais circunstanciado desse debate. Marc Bloch (La société feodale, 1949) é dos
poucos que, em todo o seu estudo, aplica o «modelo feudal» à sociedade Bunyoro
do Uganda. Mais tarde, J. Beattie, a partir de pesquisas realizadas na mesma
sociedade, desmentirá a tese de Bloch no artigo «Bunyoro: an African feudalityl», publicado em 1964. Um grupo de
estudiosos parte da articulação do sistema de
desigualdades e de regime político em várias sociedades ditas «feudais» (BLOCH,
Marc, p. 101) para admitir a existência de feudalismo ou de
«pseudo-feudalismos» (estes porque estariam muito distanciados dos «verdadeiros
feudalismos medievais na Europa»). Para isso, J. Maquet (Une hypothèse pour Vétude dês féodalités
africaines, 19613-5) esvazia o feudalismo como
«modo de produção» para acentuar «o laço interpessoal entre duas pessoas
desiguais em poder»; redu-lo a uma categoria analítica, a um «tipo ideal», no
sentido weberiano. O feudalismo seria, então, «um regime político», «uma
maneira de definir os papéis de governante e governado». Pois «as instituições
feudais organizam, entre duas pessoas desiguais em poder, relações de produção,
por um lado de fidelidade, de serviço por outro» (BALANDIER, 1987: 101). J.
Goody (Feudalism in África?,
1963) admite-o somente de maneira aproximativa e mediocremente, «no
sentido geral», enquanto define «as formas dominantes da organização política
e social, ao longo de determinados séculos da Idade Média europeia». Não o admite
«no sentido específico», enquanto pressupõe «uma relação de dependência
(senhor/vassalo) e a existência do feudo - suporte
dessa relação», uma vez que o feudo, em África, «não adquire um carácter
permanente» como na Europa, a partir dos fins do século XI (ibidem, p. 102).
Outros, como R. Lemarchand (Power and
Stratification in Rwanda: a Reconsideration, 1966), aproximam o sistema
político monárquico ruandês ao «feudalismo do Japão» e não ao da Europa
medieval. A. Troubworst (L'Organisation
politique et d'accord de clientèle au Burundi, 1962) mostra que «a
relação dita 'feudal' na sociedade rundi intervém enquanto meio posto ao
serviço de uma estratégia, que visa a conservação, por uma aristocracia
reduzida e seus dependentes, do poder e do ter». Portanto, quando muito, seria
«uma nova modalidade do feudalismo africano» (idem, p. 103).
Hoje, tende a haver um consenso entre
historiadores e antropólogos africanos e africanistas, que essas sociedades são
sociedades sui generis^. Defendem
que seriam sociedades marcadas por «771 modo
de produção sui generis, semelhante aos outros tipos de comunidades
'primitivas', mas com diferenças fundamentais, especialmente uma espécie de
aversão à propriedade privada ou estatal» (I HGA: 757).
O professor Ki-Zerbo observa que essa
aversão «não está relacionada com um específico estado inato, nem com uma
'natureza' diferente, mas com um meio histórico original» (ibidem). Para o
mesmo historiador, não se registam, nessas sociedades, «apropriação, nem
atribuição privada de terras» e, «portanto, não há feudo». «O solo é um bem
comunitário e inalienável, a tal ponto que o grupo de conquistadores que se
apropria do poder político deixa com frequência a responsabilidade das terras
da comunidade ao dirigente autocrático». Por outro lado, salienta que «a
autoridade da aristocracia era exercida sobre os bens e os homens sem atingir a
propriedade fundiária em si, prerrogativa dos autóctones»55.
Ainda segundo o mesmo autor, a própria «nobreza
africana não entrou para o comércio. Continuava a ser sempre um atributo
do nascimento, do qual ninguém podia privar o titular» (KI-ZERBO, 1980: 755).
Analisando as próprias instituições sociais, verifica que: 1) o papel da mulher
é bem «marcante tanto na herança de bens materiais como dos direitos à sucessão
real»; 2) a organização em clãs e aldeias ainda existente, que não admite «a
apropriação privada da terra (um bem tão vasto e tão precioso, mas também tão
gratuito quanto o ar)», 3) impediu «a aquisição de terras como fontes de
conflitos entre grupos sociais» (idem, p. 756).
Na ausência dessas condições, Ki-Zerbo
conclui pela não existência do modo de produção feudal em África, sobretudo dos
séculos XVIII e XIX, como no Ocidente. Mais, nega que se possa considerar «os
modos africanos» como sendo «modalidades desses sistemas sócio-económicos»
(esclavagismo e feudalismo), porque faltam com frequência «elementos
constitutivos essenciais». No entanto, isso não subtrai a África da evolução da
espécie humana.
Ki-Zerbo admite que «o essencial das
categorias metodológicas gerais do materialismo histórico seja universalmente
aplicável» também para analisar as realidades africanas, como «recurso» e não
como «retorno» a Karl Marx (idem, p. 757). Por isso ele acha que ao falar-se de
«um eventual modo de produção africano» se deve referir também às «instituições
sociológicas, políticas e ideológicas, na acepção de Gramsci e de Poulantzas»
(idem, p. 757).
Segundo Jean-Pierre Chrétien, «a história incita-nos, com
bastante frequência, a desconfiarmos de uma lógica formal meramente verbal.
Todo o problema consiste em sabermos redescobrir por detrás desses termos, de
que nos servimos na nossa língua, um certo estilo de relações sociais
leste-africanas e em procurarmos aprender, para além da especificidade dos
nossos valores, a dinâmica própria de certas antigas colectividades que são, a
vários títulos, totalmente estranhas ao nosso mundo contemporâneo» (CHRÉTIEN,
1978: 45). Depois de apresentar «os elementos essenciais do regime feudal
ocidental», conclui pela «inadequação deste modelo para caracterizar as
relações sociais e económicas entre os leste-africanos dos Grandes Lagos»
(idem, p. 47/55).
O feudalismo em Moçambique foi um fenómeno
restrito às companhias majestáticas e aos prazos 56, instituições económicas mantidas pelo
sistema colonial para sustentação da sua economia. Naqueles lotes de terras,
autênticos feudos dos senhores ou prazeiros,
os negros eram simples força de trabalho
escrava.
As lutas de resistência, ocorridas,
sobretudo, nos séculos XVIII e XIX foram, no nosso entender, uma forma de
«oposição» a esse sistema de exploração e dominação feudal colonial. Não
obstante toda a sua violência, o colonialismo não conseguiu introduzi-lo no
sistema da vida económica e social das populações locais37. Neste
aspecto, as populações souberam, efectivamente, preservar a sua cultura,
transformando-a num escudo impenetrável ao colonialismo.
Resta somente uma hipótese: que, ao
adoptar o feudalismo como modelo de classificação das sociedades moçambicanas ditas
«tradicionais-feudais», a Frelimo tinha em vista assegurar o seu poder,
estender a sua hegemonia58, assegurar a mobilização de todas as
populações para a luta, ao mesmo tempo, que se mostrava temerosa59
que outras forças internas, como os régulos, os chefes locais, alguns dos quais
descendentes de autênticos estados60,
constituídos no período pré-colonial, fossem ameaça à sua hegemonia. Por
isso, tudo devia fazer para impedir que eles se transformassem, no futuro, em
poder real e chegassem à burguesia. Houve um deslocamento do problema. Apesar
de as culturas nacionais ditas «tradicionais» serem também autoritárias, pelo
seu carácter conservador (= conservar para
preservar, em face de ameaça
constante de genocídio cultural), elas não tendiam à hegemonia nacional, mas
somente exigiam o reconhecimento oficial da sua identidade.
Sérgio Vieira aventa a hipótese de uma
evolução linear do feudalismo para o capitalismo, se o colonialismo não tivesse
truncado «o processo normal de desenvolvimento histórico»:
«Provavelmente
a nossa sociedade, se não tivesse sido colonizada, teria chegado à sociedade
capitalista dentro do processo do seu desenvolvimento histórico. Mas o facto é
que o capitalismo surge como imposição da nossa sociedade, através da conquista
colonial. Isto é um fenómeno específico do processo de desenvolvimento da
sociedade, no caso de Moçambique, tal como no caso de quase todos os países que
foram submetidos ao colonialismo, que foram privados do seu processo normal de
desenvolvimento histórico» (idem,
p. 9).
Esta visão evolucionista da História é
enviesada de eurocentrismo, que se pode explicar pela formação europeia dos
intelectuais orgânicos do Partido, nos anos 50 e 60. Agnes Heller rebate esta
visão mostrando que a História não é um «processo finalista, um processo
objectivamente teleológico» (HELLER, 1989: 15.). Nada indicava que fosse obrigatório que o desenvolvimento
dessas sociedades seguisse o mesmo caminho do feudalismo ao capitalismo. Não
raras vezes se confunde o carácter contínuo da História com linearidade. Ora «a história é contínua» e não linear.
A continuidade da História baseia-se na «invencibilidade da substância» e no
«desenvolvimento dos valores», que «constituem a essência da História» (idem,
p. 14. Grifos da Autora).
Este pressuposto teórico da vigência do
feudalismo pode explicar porque é que a Frelimo, cujo discurso político
considerou a Cultura essencial para a Revolução, não teria incentivado, durante
muito tempo, estudos aprofundados sobre a cultura das ditas sociedades
tradicionais-feudais, para um enraizamento antropológico sólido da própria
Revolução e para a revolucionarização das culturas locais.
O mesmo discurso fecha-se em si mesmo,
negando-se ao diálogo cultural com tais sociedades, que são o Povo. Perante o
encerramento e o radicalismo do Partido, as populações foram reagindo no
silêncio, buscando formas de se refigurarem nesse silêncio e na falta de
alternativas viáveis do Partido/Estado. Facilmente as populações retomam a
tradição da resistência passiva, como forma de preservar as suas culturas.
Esta atitude prática da Frelimo leva
alguns analistas, como Michel Cahen (CAHEN, 1978: 4) a concluir que o discurso
revolucionário sobre a valorização da cultura visou apenas manter uma certa
«coerência» com os princípios ideológicos ditados. Pode-se contestar Michel
Cahen, mas, ao menos, leva-nos a reflectir sobre as dificuldades da Frelimo
para implementar o seu projecto de desenvolvimento. A Frelimo construiu um
discurso racionalista, fechado nos objectivos voluntaristas que a conduziram,
procurando realizar o seu projecto político, mesmo com a violência para todos
os programas.
A Frelimo não teria sabido, também na área
cultural, estabelecer uma ponte entre o discurso e a prática, de maneira a
conduzir dialecticamente o processo de criação de uma cultura revolucionária.
A segunda questão refere-se ao conflito
entre a Tradição e a Modernidade, na
Frelimo. De que tradição se
trata? De facto, a tradição e a modernidade opõem-se? E em que medida esse
conflito se repercute na educação?
O uso indiscriminado desses termos
confunde mais do que ajuda. Quando se adjectivam as sociedades africanas de
«tradicionais», o termo tradição tanto
pode encobrir um sentido ideológico pejorativo como reabilitar ingenuamente a
«primitividade», no sentido dado por Clastres (ROGNON, 1991: 24).
De qualquer forma, faz-se necessário um aprofundamento
científico, até para desfazer a confusão entre tradição, usos e costumes, cultura. Consegue-se percorrendo o
seu uso e sentido entre alguns pensadores, cientistas, políticos.
Ouve-se dizer no seio da população, em
geral, frases como comer «njima»,
«etxima», «upsa», «ugali» com a mão («kulya ugali ni makono»)61: é nossa tradição, é nossa cultura,
porque foi sempre assim desde os nossos bisavôs e pais. Podemos
perguntar por que razão, então, se deixou de comer o arroz («futali») com «cikoinbe»62 e se come hoje com «supuni»63?
Nesse caso, rompeu-se a tradição, perdeu-se a cultura? Afinal, o que se
entende por tradição e cultura? Aqui, a tradição apela para o conservadorismo.
Trata-se do «tradicionalismo fundamental»
referido por Balandier, que «tenta assegurar a salvaguarda dos valores,
das ordenações sociais e culturais mais caucionadas pelo passado» (BL: 1747
/l75. Grifos do Autor).
Esta tradição conservadora estaria, por
hipótese, na origem dos atritos entre os nossos governos e as populações, entre
o Estado e a Sociedade, ou seja, na origem dos atritos entre a Tradição e a
Modernidade? O conflito não se teria agudizado com a visão maniqueísta
geralmente contida nas teorias da modernidade, que liga a Tradição ao passado,
ao Mal, à decadência, à a-historicidade, ao «sistema antigo de referências», e
a Modernidade ao presente, ao Bem, ao novo sistema de valores e de referências
(ROGNON, 1991: 73)? Dentro deste maniqueismo, organizou-se e caminhou a
antropologia por longos anos.
O termo tradição seria aplicado mais às sociedades ainda vivendo e
organizando-se em tribos, no sentido morganiano. Morgan entende por tribo «um
grupo caracterizado por sua homogeneidade, que alguns chegarão até a imaginar
completa, não diferenciada, entre todos os membros» e relativamente autónoma
(AUZIAS, 1978: 86. Grifos do Autor). O conceito de tribo é associado a um modo de vida não-civilizado, levando o
colonizado a introjectar a desvalorização histórica a que o colonizador o
submeteu (idem, p. 87). No dizer de Levi-Strauss, são sociedades que
«escapariam à história», porque «produzem pouquíssima desordem» (BL: 173) e o
seu funcionamento interior é mecânico. No fundo, recusa-se a historicidade
dessas sociedades. O termo «historicidade» é retirado do sociólogo Alain
Touraine, que define historicidade como «capacidade que uma sociedade tem de
produzir a sua própria transformação» (TOURAINE, 1973:36).
O termo tradição estaria associado à ausência de «arquivos e monumentos
duráveis», segundo Nader; por isso, os seus fenómenos sociais teriam apenas uma
dimensão micro-temporal, de curta duração, reduzindo-se a objectos de História
Arqueológica. O mais que se pode admitir é o seu carácter pseudo-histórico,
segundo os funcionalistas. As sociedades tradicionais são, então, sociedades
arcaicas, encontrando-se no nível de necessidades e de funções correlatas. A
sua cultura não é senão resposta a essas necessidades. Entretanto, autores como
Mayer Fortes, Max Gluckman e E. Leach, impulsionados pela pesquisa
teórica e por estudos de Evans-Pritchard,
admitiram alguma historicidade, na medida em que «o tempo está incorporado na
sua estrutura social» e existem «forças actuantes no interior do sistema, que
contribuem para a sua definição, senão também para a sua transformação» (M.
Fortes), sendo, no entanto, a natureza da sua história «pendular, que oscila
entre formas igualitárias e formas não--igualitárias da vida social» (BL:
176/178).
Em síntese, segundo Balandier, este
discurso antropológico qualifica as «sociedades ditas primitivas» como: I)
sociedades conformadas aos modelos implicados pela carta mítica das «tradições»64; II) sociedades de conformismo e de consenso, que não dão lugar (ou
pouco) à divergência de opiniões e, portanto, à contestação; III) sociedades
repetitivas, que reproduzem a sua estrutura de geração em geração e sem
variações significativas; IV) sociedades situadas fora da história ou à margem
dela, «sociedades frias» permanecidas a zero graus de temperatura histórica,
segundo Lévi-Strauss.
Ora, para justificar o seu discurso
modernista, novos Estados africanos independentes adoptam, na prática
quotidiana, a definição tradicionalista de tradição como o «conjunto dos
hábitos, das práticas, das crenças, dos valores e das referências herdadas dos
ancestrais» (ROGNON, 1992: 72), definição que parece incluir a cultura na
tradição.
Fora da antropologia, mas ainda no âmbito
das ciências sociais, encontramos outras reflexões sobre tradição, tomada no
sentido geral, isto é, não tendo em conta especificamente este ou aquele povo.
Destacamos a reflexão de John Dewey, Emile Durkheim (1858-1917), Max Weber
(1864-1920) e W. W. Rostow.
Max Weber encontra, na «tradição
primitiva», a explicação do atraso do desenvolvimento das ideias capitalistas
na China e na Europa da transição da Idade Média para a Era Moderna. Com a
introdução das ferrovias na Idade Moderna, os «interesses dos funcionários,
senhores territoriais, comerciantes, etc., colaboravam com o tradicionalismo para impedir o fácil
desenvolvimento da racionalização». Weber refere-se ao tradicionalismo como a
santificação («a santidade»65) da tradição
de todas as «actividades e negócios herdados de seus avoengos», e que,
geralmente, é mantido por «certos interesses
materiais» (WEBER, 1980: 169. Grifos do Autor).
Conforme o «conceito de racionalização»,
de Max Weber, ligado ao processo técnico-científico, distinguir-se-iam, na
análise de Habermas, «culturas superiores» («civilizations») e «formas sociais mais
primitivas». A tradição estaria ligada a estas últimas, que traduzem o «modo
da produção pré-capitalista», a «técnica pré-industrial» e a «ciência
pré-moderna», enquanto as «culturas superiores» se estabelecem «sobre a base de
uma técnica relativamente desenvolvida e de uma organização do processo de
produção social, mediante a divisão do trabalho, que torna possíveis produtos
adicionais, por conseguinte, um excedente de bens para além da satisfação das
necessidades imediatas e elementares» (I HB: 61).
Este conceito weberiano de tradição ajuda-nos, por sua vez, a
entender em parte a noção de tradição de W. W. Rostow (The Stages of Economic Growth. A Non-Communist Manifesí. Cambridge
University Press, 1960, & Industria-lization
and Economic Growth, 1960), deduzida das várias definições que dá à
«sociedade tradicional», a partir do contexto anglo-saxónico. Rostow estabelece
critérios económicos de «desenvolvimento» para qualificar as sociedades «tradicionais»,
como «não (...) dotadas de
espírito científico; não mantém
um desenvolvimento 'auto-sustentado' (self-sustained);
a sua natureza não comporta
'interesses compostos'» (VILAR, [1982]: 142. Grifos do Autor). Assim, sob o
ponto de vista económico, social e psicológico, a tradição pressupõe,
respectivamente, 1) «produção limitada, (...) instável, dependente dos
caprichos metereológicos», ou seja, duma «agricultura empírica»; 2) «uma
sociedade muito hierarquizada, de débil 'mobilidade vertical', derivando,
sobretudo, a autoridade da propriedade da terra e mantendo-se a organização
ligada a formas primitivas (alargadas) da família; politicamente, os poderes
centrais impõem-se com dificuldade aos poderes locais»; 3) finalmente,
significa «ausência de mentalidade científica, e mais ainda, de ligação entre
ciência e aplicação»; geralmente, atitude «fatalista» com a natureza e a vida
(idem, p. 142). Contrariamente, «o desenvolvimento define-se com base na
produção forte, na indústria dominante, na atitude científica» (idem, p. 143).
Portanto, uma sociedade tradicional é uma sociedade definida sempre pela
negativa, não industrializada, não fortemente produtiva e a-científica.
Pierre Vilar levanta várias objecções a essa definição de Rostow, que diz o que
«a sociedade tradicional 'não é'» e não diz o que ela é, e muito menos «o que
pode nascer dela» (ibidem). No colóquio da UNESCO, de Maio de 1961, muitos
estudiosos, incluindo Raymond Aron, criticaram Rostow por ter «colocado sob a
mesma categoria todas as sociedades que não estão desenvolvidas» e pela
imprecisão da própria expressão (VILAR, 1982: 143).
Descobre-se uma certa influência destas
visões maniqueísta e positivista nos discursos oficiais da Frelimo. Em mensagem
à Conferência do Departamento e Cultura, realizada durante a luta armada, em
1970 (DEC, 1970: 15/24), Samora Machel nega qualquer
racionalidade à educação e à cultura tradicionais, porque se baseiam num
«conhecimento superficial da natureza», esta concebida como «uma série de
forças66 de origem sobrenatural, mais ou menos hostis ao homem» e
porque, nelas, «a superstição ocupa o lugar da ciência» (MACHEL, 1970: 2). Para
a Frelimo, a tradição e a modernidade são conceitos e processos disjuntos e
excludentes.
Estudos recentes de Jan Vansina (De Ia Tradition orale: Essai de méthode, 1961; e Once upon a time: oral traditions as history
in África, 1971), de Amadou Hampaté Ba (A Tradição Viva, in IHGA, 1980), de F. Eboussi-Boulaga (Lê bantou problématique 1968), de
Georges Balandier («Antropologia Política, 2a ed., 1987),
de Frédéric Rognon (Os Primitivos,
nossos Contemporâneos, 1991), de Honorat Aguessy (Visões e Percepções Tradicionais, 1977) convidam--nos a repensar
as nossas categorias «tradicionais» de análise da tradição em África e a mudar de mentalidade: deixar de ver a tradição em África como algo do
passado, fixo, para vê-la como «dinâmica», não obstante certas resistências à
mudança e à inovação (Balandier). Esses estudos não só ultrapassam de longe a
noção tempelsiana de tradição (TPS:
p. 13; cf. tb. II HTJ: p. 175), mas são também uma advertência contra a fácil
tendência cientificista de transpor categorias analíticas de um contexto para
outro e passar para a generalização rostowiana.
Para Vansina, os equívocos e preconceitos
começam quando se confundem «informação verbal» e tradição, tradição oral e
boato. Ora, «nem toda informação verbal é uma tradição» e o boato baseia-se no
«ouvir-dizer», enquanto «a tradição
propriamente dita» é «uma mensagem» que «transmite evidências para as
gerações futuras» e baseia-se «somente (...) em narrativas de testemunhos
oculares (...), realmente válidas». A sua única limitação é o «verbalismo e a transmissão
oral». Não obstante essa limitação, ela é «fonte importante para a história das
ideias e dos valores e da habilidade oral». Vansina conclui que «as tradições
são também obra literária», na medida em que o conteúdo da sua mensagem é
influenciado por: 1) uma «forma estabelecida» (poema e epopeia), forma «livre» (fórmula e narrativa); 2) determinados
«critérios literários de géneros e, sobretudo, da sua ligação com o meio
social, o que se torna na tradição um «facto social»; 3) uma «estruturamento/»67
específica, cujas representações colectivas mais influentes são «uma série de
categorias de base» de «tempo, de
espaço, de verdade histórica, de causalidade»^, «que precedem a
experiência dos sentidos» (VANSINA, 1980: 158/171). Portanto, é insubstituível
o valor das tradições (idem, p. 179).
Para Hampaté Ba, é pela tradição (oral) que se penetra na
história e no espírito dos povos africanos, uma vez que ela é uma «herança de
conhecimentos de toda a espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido,
de mestre a discípulo, ao longo dos séculos». Ela «reside na memória viva da
África» (BA, Hampaté 1980: 181). Isto torna a tradição oral «a grande escola da
vida». Ela «baseia-se em uma certa concepção do homem, do seu lugar e do seu
papel no seio do universo» (idem, p. 183). Samora Machel costumava dizer que um
velho que morre é uma biblioteca que se perde, precisamente por ele ser um
acervo mais vivo da «nossa história».
Segundo Eboussi-Boulaga, a tradição é, para os Bantu, a
história, entendida como síntese da vida humana no tempo, transmitindo sempre a
verdade. Esta visão situa-se também na linha de Hampaté Ba, para quem, «na
África, tudo é História» (BA, Hampaté 1980: 195).
Pode-se dizer que a tradição é a história do povo, guardada com
cuidado e estima na memória e transmitida oralmente. A tradição assume um valor
pedagógico, na medida em que ela deve ser transmitida às jovens gerações, de
modo a reconhecer nela só a «verdade histórica», que «está sempre estritamente
ligada à fidelidade de registo oral transmitido» (VANSINA, 1980: 170).
Georges Balandier começa por observar que,
«embora haja nela (na sociedade tradicional) processos que possam desempenhar
o papel de freio da mudança e a inovação deva operar ligada a formas
existentes a valores estabelecidos, essa sociedade não está condenada a ficar
presa do passado» (BALANDIER, 1976: 174).
Embora continue a controvérsia em volta do
sentido de tradição, é pertinente
a conclusão de Frédéric Rognon, hoje aceite por africanólogos, e que assumimos
como ponto de referência, de que a expressão «sociedade tradicional», isto é,
sociedade baseada na tradição, em sentido pejorativo, é um mito (ocidental)
criado para ocultar, ideologicamente, interesses de dominação (ROGNON, 1991:
17/54), ou seja, «pura construção intelectual, a priori, (...) forjada antes mesmo da experiência do contacto,
e que determinou em seguida todas as observações e todos os discursos mantidos
sobre (...) alternidade» (idem, p. 28). Prossegue Rognon que, no mesmo sentido
pejorativo, as «sociedades tradicionais» foram definidas sempre como
«sociedades sem história», basicamente homogéneas pela sua imobilidade e
harmonia, simples, elementares nos seus sistemas de valores tecnológicos e
materiais (preconceito evolucionista e funcionalista); «sociedades sem Estado e
sem escrita». Em suma, sociedades mais conforme a
seus próprios modelos, e criticamente menos reflexivas sobre si mesmas (idem,
p. 27). Em consequência desses mitos e preconceitos, caiu-se no paradoxo de
excluir do debate os próprios interessados, que são reduzidos ao «silêncio»
(idem, p. 28).
Rognon mostra que não basta proclamar uma «mea culpa» (p.
20), reconhecendo, hoje, que essas sociedades têm história como todo o grupo
humano, porque «toda a sociedade é adulta, mesmo que», como diz Lévi-Strauss,
«algumas não tenham deixado por escrito os factos da sua infância e
adolescência» (idem, p. 20), e que a sua diferença com as sociedades modernas
industrializadas é apenas de «nível de vida» (idem, p. 21). Também não se deve
cair no mito oposto da «pureza primitiva e do paraíso perdido», de Pierre
Clastres, para quem «a primitividade não é (...) a infância da humanidade, como
dizem os evolucionistas e com eles os marxistas, mas a recusa consciente da
divisão social, das desigualdades e do Estado» (ROGNON, 1991: 14). Dado que «o
poder é em essência coerção, (...) essas sociedades pressentiram muito cedo que
a transcendência do poder detém para o grupo risco mortal» (CLASTRES)69.
Rognon acha que essa sociedade primitiva, «paramentada de todas as virtudes,
entre as quais a de ter sabido preservar relações sociais harmoniosas e de
convívio», não existe. Temos que buscar outros parâmetros sócio-antropológicos
de análise, para não «ceder à tentação do etnocetrismo», classificando todas as
sociedades em função de uma história «cumulativa», feita à base do «aumento
contínuo da produção». Pois, conclui Rognon, «um grupo que preservou um nível
tecnológico rudimentar, talvez possa investir na produção artística ou na
elaboração de sistemas políticos cada vez mais sofisticados. E será essa a sua
história» (ROGNON, 1991: 21).
Retomando o conceito de Hampaté Ba, a tradição bantu africana gira em torno
de dois eixos que dão significação70 ao conhecimento: o eixo da historicidade e o eixo das
relações sociais, da sociabilidade (I HGA: 195). A articulação dos dois
eixos permite-nos ultrapassar as análises e reflexões antropológicas e
politológicas, como as de Lévi-Strauss e de Rostow, que vêem as sociedades
bantu profundamente hierarquizadas, isto é, organizadas à volta do seu eixo vertical
de poder.
A tradição
é, também, conhecimento que se constitui e se realiza num permanente
movimento dos dois eixos. Esse movimento, que, por natureza, é dialéctico,
porque acarreta consigo contradições e conflitos, realiza-se em espiral, trabalhando
os dois eixos num determinado espaço cultural. Esse movimento é aberto e não
fechado, como Kabwisa o imaginou na sua teoria de «ciclo vital»71.
Na lógica do movimento giratório em espiral, a história é construção de relações sociais. A tradição, no seu sentido concreto e
real, é o processo permanente dessa construção. Portanto, a tradição é dinâmica
e não a «ideia fixista que se tem dela» (AGUESSY, 1980: 105). A cultura é resultado ou património
desse processo de construção. Por isso, os povos Bantu definem cultura como
nossa vida («umoyo watu», em cinyanja; «umi wetu», em ciyao),
distinguindo-se muito bem de usos e costumes («swiyentxa-yentxa», em ronga).
Destas três dimensões da tradição como conhecimento, história e cultura,
podemos concluir, utilizando a expressão de Habermas, que qualquer
comunidade (sociedade) acumula, no seu caminhar histórico-temporal, «um saber potencial de saber disponível», de
natureza «técnico-organizativa» proveniente quer da sua relação dialéctica
intracomunitária quer do seu contacto com outras culturas, quer enfim, do seu
impacto permanente com a Natureza, ou seja, do aumento qualitativo das forças
produtivas (III HB: 141). Se admitirmos, por conseguinte, que as
comunidades moçambicanas acumulam hoje, na sua tradição, o conhecimento das vantagens e limitações da
experência do capitalismo colonial, da vida nas zonas libertadas e do
socialismo almejado, também teremos que admitir que, por «processo evolutivo de
aprendizagem», a sua história tem uma direcção que importa descobrir a cada
momento.
Esse saber acumula-se independentemente da possibilidade de
sua implementação (III HB: 127). Porém, a não-implementação
desse saber, por longo tempo, cria situações favoráveis ao liberalismo
ideológico, que se configura na ordem da convivência não dinâmica. Teríamos,
por exemplo, a situação de convivência entre um poder que, ao mesmo tempo, se
institui na base de relações de parentesco, de militância
partidário-revolucionária, de competência técnica, de mérito; entre um direito
consuetudinário da «tradição», direito administrativo e penal do regime
colonial português e do direito alemão da RDA, além de interferências do direito
islâmico. Quando o Estado não se mune de estudos histórico-antropológicos para
definir «princípios de organização» social e não se integra seriamente no
espaço cultural comunitário tende, em geral, a assumir uma postura ideológica.
Exemplo de um caso aparentemente
insignificante ajuda a compreender o que acabamos de dizer. A norma de
afectação de graduados da 6a, 9a e 11a classes
priorizava a orientação dos alunos com melhores notas finais para o professorado.
Porém, na prática, o sector de afectação de Graduados do Ministério da Educação
via-se, não poucas vezes, confrontado com filhos de dirigentes e de certas
elites conceituadas, que se recusavam a ingressar nos cursos de magistério e
acabavam impondo, por força da intervenção dos próprios pais, dirigentes, a sua
orientação para prosseguir nos cursos gerais ou ingressar nos cursos universitários
de medicina, engenharias e direito. No fim, a afectação para o professorado sobrava, na maioria dos casos, quase
única e exclusivamente, para filhos de camponeses e de operários sem grande
ascendente social ou para alunos de algumas regiões. Este conflito entre o
cumprimento da norma e a recusa desses filhos de dirigentes traduzia-se em
conflito entre a «racionalidade técnica» da norma e o «nível convencional» da
solução, recorrendo ao esquema de classificação de níveis de consciência
moral, de Kohlberg, mencionado por Habermas, e que se enquadra no sistema de
parentesco (III HB: 57 e 137), prevalecendo este último como solução viável que
assegura a lei e a ordem, em conflitos julgados de pequena monta. Assim se
estabeleceu, a partir da Educação, o conflito entre as instituições gerais de
acção ou o sistema operativo e as normas centrais de direcção e consequente
redução de credibilidade da Educação.
Segundo Habermas, o crescimento endógeno
deste saber, ou seja, deste «potencial cognoscitivo acumulado», é uma condição
necessária da evolução social (III HB: 127). Isto significa que ele deve ser
levado em conta em todo o projecto social, como o educativo. Não terá sido esta
a falha principal do sistema educativo colonial e que hoje paira no Sistema Nacional de Educação']
Este quadro complexo leva-me a considerar
o universo cultural como mediação do conhecimento da realidade moçambicana e a
perceber porquê e como a cultura é também elemento conflitivo e desafiador na
construção interna dessa mesma realidade, quando, por exemplo, intervém como
elemento de resistência à penetração árabe com o seu islamismo, à penetração
colonial com o cristianismo e a todo o projecto modernizante que não tome em conta a cultura do Povo.
A questão é como, nessas condições, construir uma sociedade nova,
um Estado-Nação forte, frente ao atraso generalizado, à complexidade cultural e
ao desafio da dita sociedade tradicional, ainda hoje organizada em comunidades
linhageiras de práticas e instituições domésticas (Balandier, Meillassoux,
Geffray), ou em «comunidades etno-culturais», na expressão do africano Mbargane
Guissé (GUISSÉ, 1981: 68). É possível fazê-las participar na elaboração de um projecto de desenvolvimento ou
basta mobilizá-las para a sua execução?
Indicadores do âmbito do campo da historicidade
O campo de historicidade constrói-se num
território determinado, Moçambique, de 799.380 km2 de superfície,
com uma população de cerca de 15 milhões de habitantes, dividido em onze
províncias. O país alcançou a sua independência de Portugal em 25 de Junho de
1975, após dez anos de luta armada sob a liderança da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).
Exceptuando as zonas libertadas, sob
controlo directo da FRELIMO, a sociedade continuava, praticamente,
identificando-se em base de raça, de etnias, de línguas maternas e de religião,
como consequência até da própria política do colonialismo português que se
apropriara do campo da historicidade. Moçambique não constituía, nem política
nem culturalmente, uma Nação-Estado. Em todos os sectores da vida económica e
social o atraso era generalizado.
No capítulo sobre a educação colonial,
caracterizei economicamente esse atraso. No âmbito social: ambiente de discriminação social na forma de desigualdades
na distribuição de renda; acesso restrito ao emprego e a posições
administrativas; ausência de facilidades de educação básica e de saúde (WORLD BANK, 1986: 1/1);
uma taxa de analfabetismo da ordem de 93% em 1975 (CNP, 1985: 76),
analfabetismo mais concentrado nas populações escolarizáveis, como se pode ver
no quadro a seguir; 171 médicos, numa relação de mais de 28.500 pessoas por
médico72; mais de 70% da população vivendo fora do alcance de
quaisquer cuidados de saúde; taxa de mortalidade infantil elevadíssima; falta
de quadros moçambicanos capazes e suficientes para preencher os diversos
sectores económicos e sociais, situação agravada com a saída de cerca de 900
técnicos portugueses e outros estrangeiros existentes na altura da independência
(WORLD BANK, 1986: 1/1). Do relatório da UNICEF consta que, de 250.000
estrangeiros, permaneceram apenas 15.000 (UNICEF, 1987: 16/17).
Segundo dados do Demographic Yearbook das Nações Unidas (1970), referentes ao
período de 1965 a 1970, a taxa de natalidade é de 45%o, superior à taxa mundial
de 34%o, mas inferior à média da África, de 46%o. A taxa de mortalidade é de
23%o, superior à média mundial de 14%o e à da África que é de 20%o. O mesmo
período regista a taxa média de 150%o de mortalidade infantil73.
Essas taxas apontam a população moçambicana como sendo das mais jovens do continente.
Em relação à população de menos de quinze anos de idade, o ano de 1960 regista
um pouco mais de 40% do total da população: passou para 45%, em 1970, e cerca
de 50% em 1980.
A incidência maior do analfabetismo nos
primeiros grupos etários explica que, até 1978, ano de lançamento da Campanha
Nacional de Alfabetização, muitos alunos com idade superior a 10 anos
encontravam-se ainda a frequentar as la-4a classes do
Ensino Primário formal, impedindo o atendimento de crianças de menor idade.
quadro 7
Taxas de analfabetismo por grupo etário e sexo, segundo o censo de 1980 em percentagem, em relação à população com 7 anos e mais de idade.
|
Grupo etário |
Total país |
7-9 |
10-14 |
15-19 |
20-24 |
25-39 |
40-59 |
>60 |
Desc* |
|
P/sexo |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
HM |
72,2 |
88,1 |
58,5 |
49,2 |
64,9 |
74,4 |
84,1 |
92,3 |
89,9 |
|
H |
59,0 |
86,9 |
52,3 |
32,6 |
40,9 |
53,8 |
72,0 |
85,6 |
83,3 |
|
M |
84,6 |
89,4 |
65,7 |
66,7 |
83,2 |
91,0 |
95,9 |
98,6 |
96,4 |
* Desc.= Desconhecido
Fonte: Conselho Coordenador de Recenseamento. Maputo. 1983, p. 21.
Não se devem tomar estes dados como
absolutos, uma vez que os próprios conceitos de referência variam de um censo
para outro, de governo colonial para o Governo da Frelimo e, por vezes, dentro
do mesmo período do Governo. Por exemplo, dentro do conceito urbano adoptado pelo governo
colonial, em 1970, apenas 3,16% da população total era urbana e 96,84% era
considerada rural. Com o Diploma Legislativo de Maio do mesmo ano, a população
urbana passou para 9,3%. Para o recenseamento de 1970, o Governo Colonial
Português considerou como centro urbano: 1) as sedes dos concelhos
administrativos (actuais sedes distritais), 2) cujos aglomerados populacionais
fossem superiores a 2.000 habitantes, 3) contadas apenas pessoas que viviam em
casas definitivas (de carácter permanente). Aquele Diploma Legislativo já
considerou população urbana apenas a que vivia em sedes administrativas com
mais de 2.000 habitantes.
Já no conceito mais restrito adoptado no
censo de 1980 pelo Governo da Frelimo, que considera urbana «somente a
população das doze principais cidades do País, a população urbana corresponde
a 13,2% do total, contra 86,8% para a rural» (CCR, 1983: 9). Em qualquer dos
casos todos os dados confirmam que «é no campo que vive a grande maioria do
(...) Povo» (MACHEL, 1981)74.
Esses indicadores já permitem mostrar a
magnitude dos desafios actuais da construção da historicidade. Mas até que
ponto eles ajudaram a Frelimo a definir as linhas gerais de desenvolvimento?