A PERDA DE UM GRANDE COMPANHEIRO E A VIDA
A PROSSEGUIR
Esta foi a causa
próxima: era extraordinariamente honesto em todos os pormenores da sua vida,
até com mulheres! Começámos a vê-lo um tanto acabrunhado e desinteressado.
Fomos sabendo que ele estava de facto apaixonado. A rapariga, da nossa roda,
não era nenhuma beleza excepcional, mas exótica, desportiva e de uma simpatia
rara. Mais tarde, ele dizia-me: "Há mulheres cuja pele parece feita de
seda". E aquela era das tais. O seu modo de falar era tão meigo, o seu
porte tão distinto, o seu sorriso tão brejeiro, que enfeitiçou por completo o
nosso camarada, que pensou em casar. Mas o destino foi cruel. A bela rapariga,
que conseguia ter todos os predicados para o fazer feliz, era, por sua vez,
galanteada por outro, também da nossa roda, e ela inclinava-se para ele. Mas o
Fernando não admitia derrotas!
Víamo-lo cada vez mais
triste e desiludido da vida. Nem a nossa querida aviação o interessava mais.
Começou a tornar-se irritadiço, por vezes antipático para nós, camaradas sempre
prontos a animá-lo e a fazer tudo para que ele voltasse a ser o folgazão que
sempre conhecemos. Aproximava-se o Carnaval e impunha-se gozar a vida.
Começaram os assaltos às casas de raparigas amigas, uso naquele tempo: uma
alegria pegada! Surge a noite fatídica de 31 de Janeiro: a última noite do
Fernando! Transbordava
de alegria (assim nos parecia) e pôde dançar quase toda a noite com a sua
amada.
O eleito dela não estava. Mais tarde, soubemos que as conversas
giravam à volta da grande paixão que lhe dedicava. Ela, que era uma rapariga
bastante inteligente, nessa noite falhou. A páginas tantas, ter-lhe-ia dito: "Fernando, eu gosto de si,
gosto mesmo muito de si, mas é mais uma amizade de irmã, do que propriamente
amor". Toda aquela rapaziada que tinha passado a noite a bailaricar já
sabia onde tinha que estar no dia seguinte, lá para o meio da manhã. O Fernando
sabia de gingeira essa praxe, mas "apertou" com a sua querida, e com
uma insistência de louco! "Você amanhã vai à praia"? "Vou",
dizia-lhe ela. "Primeiro vamos à missa e depois vamos à praia".
"Então se você vai à missa, reze por mim. Eu amanhã não devo existir. Mas
acredite que morro a pensar em si. Você foi a única mulher na vida com quem
pensei seriamente casar. O destino nada quis comigo, foi-me desfavorável, mas
eu sei como hei-de proceder". Nós ouvimos uma gargalhada da rapariga que
não acreditava no que ele lhe dizia e lhe ia chamando maluco por brincar
daquela maneira. Ele também se ria e, quando chegou a altura de abrirem umas
garrafas de champanhe, pegou numa e a pouco e pouco foi-a despejando na cabeça
dos amigos e depois nos cabelos da sua querida, dizendo: "Adeus e
felicidades". Todos nos ríamos, porque nesse fim de noite ele estava
endiabrado. A festa acabou às quatro horas da manhã e cada um foi para sua
casa. Troava uma trovoada de respeito sobre a cidade. Pelas dez horas estávamos
todos presentes na praia, excepto o Fernando. A rapariga começou a preocupar-se
e nós também.
A
nosso pedido ela foi ao posto telefónico e chamou para
casa dele. "Ainda está a dormir” - disseram-lhe.
Dali a meia hora, já com mau pressentimento, outro telefonema. "Mesmo que
esteja a dormir, acordem-no e digam-lhe para vir ao telefone! “ Bateram à porta
e nada. Forçaram-na e depararam com o nosso Fernando estendido em cima da cama,
com um “cardigan” de cabedal vestido, uma pistola perto da mão direita e um
sorriso nos lábios, como sempre tivera em vida. Tinha-se suicidado. Como
trovejara muito naquela madrugada, ninguém dera pela detonação. Assim era o
Fernando e assim se foi o Fernando. Que desgosto terrível ele deu aos seus
camaradas! Faltava-nos alguma coisa. Continuou a faltar-nos alguma coisa e
ainda hoje é com muita amargura que recordamos aquela trágica noite de 31 de
Janeiro. Mas a vida tinha de continuar. Ver o nosso amigo que ainda ontem nos
enchia de alegria com as suas "partes gagas", com a sua bela maneira
de viver, de nós todos o que mais projectos tinha para o futuro, metido num
caixão, já inchado, com umas manchas roxas a invadir-lhe o rosto, muitas velas
acesas à volta, muitas raparigas e rapazes da nossa idade também à volta, mudos
e com um sofrimento imenso estampado na cara, é uma coisa horrível!
E a vida continuou, de facto, para nós dois.
Começaram a aparecer
nuvens negras pêlos céus da Europa. Estava eminente uma nova e terrível guerra. Nós desconfiávamos que se ela
rebentasse, o nosso País também teria de entrar. A acrobacia preenchia parte
dos nossos treinos. Quanto mais acrobata é um piloto, mais "safa" tem
num combate aéreo - o lema desse tempo! Se nós
fôssemos mobilizados, queríamos aviões. Nesse tempo já tínhamos dois “Tigers”.
Nós falávamos-lhe e eles pareciam que nos respondiam. Era assim: dirigíamo-nos
para o motor e abraçávamo-lo tal como o cavaleiro afaga o pescoço do seu
cavalo. Passávamos um minuto em meditação. Depois levantávamos a blindagem dum
lado para verificar e dizíamos: "Não me lixes, hhem! Não te engasgues !Vê lá!" Accionávamos manualmente a bomba de
gasolina e saíam umas gotas. Pronto! Estava a chorar!
Dizia-nos que fôssemos à confiança. E
então nós íamos. A acrobacia vulgar já pouco interessava. O que interessava era
o simulacro do combate aéreo. Os aviões levantavam cada um para seu lado,
ganhavam altura e, quando estavam a dois mil metros de altitude e se
encontravam, começava a dança. Primeiro um contra o outro, de frente para ver
se a metralhadora abatia o adversário. Passávamos rés-vés, quase a tocar.
Imediatamente, um descrevia um “looping”, tentando surpreender o outro no
picanço. O outro numa curva muito apertada, via o perigo e deixava-se entrar em
parafuso para se safar. O que saía primeiro dessa
figura, começava a fugir para subir ou para tentar apanhar o outro, fosse ele
para onde fosse. Se o "inimigo" subia também a querer persegui-lo,
então, sim, o que ia mais alto ia diminuindo a potência e quando estavam
novamente a dois mil metros, travava-se o combate a sério.
"Loopings", “Tooneaux”, voltas de “Hillmelman”, viranços e
reviranços, enfim, uma série de doidices com os aviões muito juntos que faziam
arrepiar quem lá de baixo assistia aos treinos. Aquilo acabava sempre com uma
entrada em parafuso lá das alturas, que ia quase até ao chão, fingindo-se
atingido. O outro vinha em voo picado para ver o resultado, terminando os dois
com uma séria de “loopings” a rasar a pista. Era um espectáculo. Enfim! Já
possuíamos o nosso primeiro “brevet”, não o comercial, que era o objectivo.
Tínhamos também uma larguíssima experiência e no íntimo desejávamos que
houvesse, de facto, guerra. Talvez para vermos como aquilo era na realidade,
talvez por estupidez da nossa louca juventude. Mas tudo isto se passa numa
terra de sonho.
Numa terra em que a Natureza
ofereceu de mão beijada rios com abundância, planícies imensas, solos
admiráveis, florestas sem fim, mares com os melhores peixes mariscos do mundo,
minérios naturalmente escondidos que era só preciso descobrir e explorar: é em
Moçambique.
Precisamente na capital
desta grande terra - Lourenço Marques! Nesse tempo só
havia praticamente uma cidade em todo este imenso território que é maior que
toda a Península Ibérica: Lourenço Marques. O resto era mato. Havia uma outra
cidadezita, a Beira, que nesse tempo era considerada quase estrangeira. E
outras bem mais pequenas: Quelimane, Inhambane, Moçambique, Nampula, Tete e
Porto Amélia, Vila Cabral estava a começar. Através de tudo isto havia umas
escassas centenas de milhares de europeus e uns oito milhões de indígenas. Dos
europeus, metade estava em Lourenço Marques e a outra metade ocupava todo esse
mundo.
Em breve eu e o Luís
iríamos correr tim-tim, por tim-tim, toda esta fantástica terra. Mas primeiro
vamos dar um salto a Port-Elizabeth, cidade da África do Sul já próxima do Cabo
e que fica a uns mil e quinhentos quilómetros da nossa capital.
O Aero-Clube de Moçambique
tinha sido convidado para tomar parte no grande rally Aeronáutico de
Port-Elizabeth e eu e o Luís escolhidos para o representar. Ficámos contentes,
mas reconhecemos todo o peso da responsabilidade. Teríamos que voar
praticamente três mil quilómetros e no fim apresentar o avião nas mesmas
condições em que nos tinha sido entregue. E isso aconteceu. Fizemos todos os
nossos planos,
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