DA D.E.T.A.
Resolvemos, com a
aprovação dos dirigentes, fazer um voo de observação e estudo, aterrando em
todos os aeródromos que existissem em todo aquele território.
E que terras e que possibilidades se nos
haviam de deparar!
O voo foi efectuado num avião
Hornet Moth que era já um aparelho de cabine fechada, ao contrário do Tiger em
que voávamos de cabeça ao vento. Poderia chover, poderiam as condições meteorológicas
ser desfavoráveis que nós prosseguiríamos. Sentíamo-nos já pilotos comerciais,
pilotos já com responsabilidades.
Saímos rumo ao norte:
Magude, Xai-Xai, Manjacaze, Inharrime, nenhum
e, enfim, toda essa região ao sul do Save foi observada. Colhíamos
elementos. Que áreas soberbas para laranjais, bananais, arrozais,
cana-de-açúcar e tudo o que o homem quisesse lançar à terra!
Nada daquilo era inferior às proximidades
de Durban. Que planícies imensas para a criação de gado! Reconhecíamos que tudo
aquilo estava mal aproveitado. Do lado do mar, que ricos mariscos! Mexilhões,
amêijoas, ostras, lagostas, camarões e belo peixe. Comemos boas petisqueiras e
bebemos o saboroso café de Inhambane. Para o norte vimos ilhas de sonho num mar
azul e sereno, que só muito mais tarde viriam a ser conhecidas e exploradas,
graças ao entusiasmo de um grande entusiasta que nelas gastou uma fortuna ganha
na fronteira. Eram as terras do sul que confinavam com um território que esteve
durante muitas dezenas de anos entregue a uma companhia a que chamavam a
"Companhia de Moçambique". A capital era a cidade da Beira. Um porto
livre. Aí compravam-se malas de cânfora lindíssimas a uma libra, sedas, robes e
couvre-pieds a dez réis de mel coado. Tudo vinha do Oriente. O território era imenso
mas estava atrasadíssimo.
Daí sairiam mais tarde para todo o mundo
madeiras riquíssimas. Imensas florestas cobriam a região. O planalto, óptimo
para a agricultura, tinha uma percentagem mínima de aproveitamento. Seguimos
para Tete mas antes quisemos passar por Mutarara onde estava a ser construída
uma ponte considerada uma das maiores do Mundo, sobre o Rio Zambeze. Fomos,
ainda, ver mais abaixo, entre o mar e Mutarara, deslumbrados, planícies que se
perdiam de vista, pastagens imensas. A Natureza é fantástica nas suas ofertas!
Haja quem as saiba aproveitar com cabeça.
Naquelas planícies vimos, desde o crocodilo e o
hipopótamo, às centenas, até aos grandes elefantes e antílopes em manadas
impossíveis de calcular. Nós voávamos muito baixo pois prendia-nos o espectáculo
maravilhoso. Manadas de centenas de elefantes que ao pressentirem o avião se
juntavam em grupos, fizeram com que as volteássemos
várias vezes. As fêmeas metiam as suas crias debaixo da barriga e os machos
enfrentavam o avião levantando-se nas patas traseiras e procurando, com as
trombas, derrubá-lo. Nós delirávamos! Zebras eram também às centenas, pastando
lado a lado com os belos bois-cavalos. Vimos oito leões a banquetearem-se com
duas zebras que deviam ter sido abatidas pouco antes. Os leões agarravam-se com
uma pata à sua presa e com a outra queriam dar uma sapatada no avião. O mais impressionante, contudo, eram as imensas manadas de
búfalos. Sem exagero, sobrevoámos várias manadas com mais de dez mil animais.
Era um espectáculo único. Mais tarde saberíamos que essas manadas estavam
calculadas em mais de cem mil cabeças. Continuámos a nossa viagem e fomos até à
região de Tete. Passámos primeiro pela célebre ponte de Mutarara que é, de
facto, um monumento. Tínhamos ouvido sempre falar em importantíssimas minas em
Tete, mas não vimos nenhuma. Se as havia, onde estava a sua exploração, o seu
desenvolvimento? Dali subimos ao Zumbo, Marávia e Angónia. Claro que isto são nomes praticamente desconhecidos para a grande maioria.
Havia um punhado de agricultores e comerciantes que se fixou lá. Poucos, muito
poucos. Outro punhado, de funcionários, que por dever de ofício, por lá passou.
Mais nada. As terras de Angónia são das melhores de todo o Moçambique para
adaptação do europeu. É uma zona planáltica. A sua altitude ronda pelos mil e
trezentos metros. Batata, milho, feijão, trigo, hortaliças, mesmo assim, saem
de lá na casa dos milhares de toneladas por ano. Bois, porcos e cabritos é um
assombro pela quantidade e pela maneira como se reproduzem. Contaram-nos que as
oitenta mil cabeças de bovino, que se calcula lá existirem nas mãos dos
indígenas e que estão um tanto degeneradas, são oriundas de um gado levado para
ali no tempo das guerras do Gungunhana. Um grupo de landins, escorraçado,
foi-se dirigindo para o norte e fixou-se ali com o seu gado. A verdade é que o
clima é de tal ordem que, quando uma bacia de água fica fora de casa, na manhã
seguinte é preciso partir a camada de gelo que se forma à superfície. Dali
saltámos a Vila Cabral, região famosa também pelo seu clima e condições para a
agricultura. Não vimos nada. Em boa verdade, para voarmos de Angónia para Vila
Cabral tivemos que atravessar uma parte da Niassalândia, para fugirmos à
travessia do Lago Niassa. Aproveitámos e entrámos bem no interior deste país. O
atraso daquelas regiões era impressionante. Mais tarde eu sobrevoava o
Tanganica de ponta a ponta e verificaria o mesmo atraso. No Quénia, a mesma
coisa, íamos ganhando um espírito de observação muito especial. O Luís
sobrevoaria a seguir os Congos, francês e belga, e uns tantos países já ao
norte do Equador e na troca de impressões chegaríamos à conclusão de que, de
facto, a África do Sul era uma excepção. De Vila Cabral ao mar são umas boas
centenas de quilómetros. Nesse voo passámos por regiões soberbas para toda a
qualidade de culturas. As mais evidentes eram o algodão e o tabaco. Para o lado
esquerdo ficava o Rio Rovuma com bicharada quase tão abundante como a que
tínhamos visto nas planícies do delta do Zambeze. A meio caminho tínhamos
Nampula, uma vilória já a querer mostrar-se e que viria a ser uma cidade
bastante linda. Daí até ao mar pudemos ver grandes plantações de sisal, de
sumaúma e palmeiras (cocos). Havia também os cajueiros que representavam na
economia daquela terra um dos primeiros lugares. Mas também nos disseram que
foi a natureza que propagou o cajueiro. Esta planta é, a bem dizer, uma espécie
de praga. As terras são esplêndidas. Havia um cajueiro. Deixava cair sementes
aqui e acolá e novas árvores surgiam. Através dos tempos foram-se formando como
que florestas de cajueiros e é o que se vê: uma das principais culturas de
Moçambique.
Chegámos a Porto Amélia. Aí a
natureza, sempre a natureza, ofereceu-nos uma das baías maiores, mais belas e
melhores do mundo. Era um encanto sobrevoar aquilo! É como que uma bacia muito
redondinha, de tamanho descomunal com um canalzinho a ligá-la ao oceano. Diziam
nesse tempo que cabiam lá as maiores esquadras do mundo. Ainda fomos mais
acima, a Mocímboa da Praia. Atingimos todos os pontos que mais tarde viriam a
ser a nossa rotina.
No regresso
sobrevoámos o porto de Nacala, que nos diziam ser um porto de mar natural com
óptimas condições para o futuro. E depois Moçambique, que é uma relíquia
histórica e uma cidade muito curiosa. Dava-nos a impressão de que estávamos a
sobrevoar uma cidade da Arábia. É tudo tipicamente oriental, à excepção do
Forte de S.Sebastião que ali está a atestar a época dos descobrimentos e que é,
na verdade, um monumento grandioso.
Daí rumámos para a Zambézia
onde estavam instaladas as seis maiores fontes de receita das que directamente
são tiradas da terra: a copra, que vem dos palmares, o algodão, o açúcar, o
chá, o sisal, os minérios e onde ainda há muito caju. Era, de facto, uma terra
aparte. Que belas terras de regadio! Há água por todos os lados.
A delimitá-la tem a
sul o fabuloso Rio Zambeze, um dos mais volumosos do Mundo, com as suas
plantações de cana-de-açúcar, que produziam mais de cem mil toneladas por ano e
por onde, ao longo da margem esquerda, na desaguante, pastavam mais de cem mil
cabeças de gado bovino. Do outro lado, a norte, o Rio Ligonha. Esse também
viria a ser fabuloso, por causa dos riquíssimos minérios que ia pondo a
descoberto. Entre esses dois rios limítrofes, vêem-se muitos outros e uma
infinidade de linhas de água. No litoral, é a planície imensa. Além dos
coqueiros, riqueza número um, que espécie de Ucrânia se podia fazer ali! Quanto
arroz se podia produzir!...
Sobe-se um pouco e começámos a ver a terra das
frutas, do algodão e das madeiras. Dos melhores abacaxis do mundo, encontram-se
aí. As citrinas são maravilhosas. Os algodões do vale do Rio Chire têm uma
fibra comparada com a dos melhores algodões do Egipto. As madeiras são
apreciadíssimas e, nessa altura, já se explorava alguma coisa que, de uma maneira
geral, era absorvida pela África do Sul. Existe também a castanha do caju, mas
as terras para o amendoim, mandioca, milho, feijão e tabaco oferecem-se às
centenas de milhar de hectares. Continuando, chega-se à região das serras, à
região do chá por excelência.
Dentro da Zambézia há quatro
regiões produtoras de chá: Milange, Tacuane, Socone e
Guiné. Só vamos falar desta última para se fazer uma ideia geral sobre tal
cultura. Muita pouca gente
conhece esta região. É uma pena! E acontece quase sempre que, quando chegava
algum visitante ilustre, mesmo desses que iam da Metrópole e que de cá
governavam, esse mesmo se mostrava deslumbrado e ao mesmo tempo triste por não
ter tido oportunidade de há mais tempo conhecer uma tal região. Nessa altura
reflecti que um comandante de um barco nunca o poderá comandar sem lhe conhecer
todos os segredos e sem estar dentro dele. Parece-me que não há português
nenhum que não tenha ouvido falar na fabulosa Ilha da Madeira, a Pérola do
Atlântico! No entanto, muito poucos portugueses terão ouvido falar deste
fabuloso Gurué que abafa debaixo de muitos aspectos a Ilha da Madeira e se
tornou o exemplo mais flagrante do espírito empreendedor de um povo. Este
Gurué?... Vamos ter na ideia um jardim com mais de sessenta quilómetros de
extensão, com água a jorrar por todos os lados e a ser tratado diariamente por
uns vinte mil jardineiros. O jardim consiste principalmente num atapetado verde
e sem fim - o chá!
O chá é um arbusto
que se não deixa crescer muito acima de um metro. A planta que pertence à
família das camélias tem uma vida que ronda os cem anos. É plantada ao compasso
de cerca de um metro.
Como a raíz se vai
desenvolvendo para as entranhas da terra e chega a atingir cinco metros, o
arbusto procura a toda a força elevar-se para ser uma grande árvore. Mas o
homem não o permite. Poda-a à altura de um metro, mais ou menos. A planta vai
alargando e, como está próxima uma da outra, forma um tapete de beleza
excepcional. Uma plantação de cem hectares pode ter mais de um milhão de plantas.
Pelo meio das plantações usa-se muito uma planta
ornamental, a hortense, que na época da floração faz um contraste fantástico
entre a sua cor azul e a folha verde, muito brilhante, do chá. Há também os
jacarandás, muito usados que, com o seu lilás, tornam este espectáculo da
natureza ainda mais encantador. As serras, que estão praticamente em cima das
plantações, emprestam, com a sua altura descomunal (o monte Namúli tem 2.419
m), um aspecto de esmagadora grandiosidade. Na época das trovoadas o espectáculo
é tão belo, tão grandioso que chega a meter medo. Eu, como tenho uma costela de
agricultor, apaixonei-me por aquilo. E disse cá para mim: - Aqui está uma terra
onde gostaria de viver. Nestes confins, eu, com um aviãozito, havia de prestar
grandes serviços a estas gentes. Se houvesse retribuição, a coisa seria
possível. Seis anos depois lá estava eu com armas, bagagens e avião!
O Cardeal Cerejeira
que penso ser o homem que melhor definiu o Gurué e mais tarde, já num avião
Junker 152, visitou comigo o Norte de Moçambique, dizia-me encantado: Que belo!
Isto é um mar sem fim todo plantado com manjericos gigantes!
Mas tivemos que
regressar à base. Em três etapas alcançámos facilmente Lourenço Marques.
Submetidos aos exames finais, vencemos todos os obstáculos. Nós estávamos, de
facto, largamente preparados, quer em teoria, quer em prática. Torná-mo-nos
finalmente pilotos comerciais.
Havia na Companhia, a
D.E.T.A., formada pouco tempo antes, cinco pilotos que faziam as carreiras já
estabelecidas através de Moçambique. Nós agora íamos ser os novatos. Logo de
entrada tivemos sorte: estavam a abrir o novo aeródromo de Porto Amélia, bem lá
ao norte e aviões de um certo peso não podiam lá ir.
Todas as
semanas havia uma ligação aérea com o Lumbo, que era um belo aeródromo,
duzentos quilómetros ao sul de Porto Amélia. A ligação era feita com o Hornet. Saía de Lourenço Marques e voltava três dias depois, fazendo
quase uns quatro mil quilómetros, ida e volta. Uma semana,
ia o Luís, outra semana, ia eu.
Levávamos correio para
outros pontos intermediários e passageiros, quando os havia. Por vezes o tempo
era esplêndido, mas outras vezes era terrível. Isto durou vários meses e nós
fomos adquirindo cada vez mais prática. Pode parecer que deve ser desagradável
um piloto voar milhares e milhares de quilómetros sozinho, mas não. Eu adorava
aquelas viagens. Quando havia mau tempo, procurava subir muito para passar por
cima da tormenta. Em baixo apareciam os cabeços negros das nuvens, que
compunham figuras bizarras.
Assemelhavam-se a
dragões de bocarra aberta ou a adamastores de braços também abertos a quererem
abraçar o avião. Eu ia cantando, sozinho, armado em maluco, o
"Balance", quando a turbulência era grande, pois essa música dava
para isso. Se a turbulência era mais mansinha, então tinha aquela canção
“Cielito lindo" (mexicana) que casava muito bem "Ai, ai, ai, ai,
ai... Devagarinho..." e lá ia entrando e saindo nuvem após nuvem, lá me ia
entretendo, o avião sempre a avançar, até que chegava ao destino. A verdade é
que o avião dançava ao som da música. Na aviação há muita camaradagem. Talvez
por ser a vida que é, os homens sentem-se na necessidade de se apoiarem
mutuamente. Registe-se: o piloto veterano ajuda sempre o novato a elevar-se.
Nós sentimos isso. Voaríamos depois durante algum tempo como segundos pilotos e
muito depressa éramos senhores absolutos desses aviões bem maiores em que
tínhamos de continuar as nossas vidas. Para se ser piloto de 1a.
classe exigia-se ter, pelo menos, mil horas de voo. Para comandante de aeronave,
além de mais de mil horas, impunha-se também as qualificações de radiotelegrafista
(ainda não havia rádio-telefonia) e navegador. Ao fim de três anos, nós os
dois, éramos Comandantes de aeronaves. Dragon-Fly, Dragon-Rapide, Junker 52, Loockeed, tudo
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