A
LUTA ARMADA COMEÇOU
EM MANICA E SOFALA *
Camaradas,
Vimos anunciar-vos um acontecimento de extrema
importância no processo de desenvolvimento do nosso combate. A nossa luta
armada de libertação nacional acaba de estender-se para mais uma Província.
Cumprindo a palavra de ordem da mensagem de
25 de Setembro do ano passado, as Forças Populares de Libertação de Moçambique
iniciaram operações militares na Província de Manica e Sofala. A luta prossegue
de acordo com o plano traçado: no dia 25 de Julho atacámos diversos objectivos
estratégicos nesta província.
A luta armada acaba pois de se instalar em
mais uma frente, uma nova Província começa a libertar-se da opressão colonial.
Pouco a pouco vão nascendo os frutos do esforço gigantesco e unido de todo o
Povo moçambicano, do Rovuma ao Maputo. Os sacrifícios, as marchas, as vidas
oferecidas generosamente, começam a transformar-se em liberdade para novas
gentes.
O desencadeamento da luta em Manica e
Sofala certamente que resulta da determinação, da coragem, do patriotismo e da
consciência da população, dos combatentes, dos quadros e responsáveis da
Província. Mas o desencadeamento da luta também resulta do esforço, do combate
de todos os Moçambicanos, em particular nas províncias já em luta armada. Quanto
mais fogueiras existem na floresta, menos possibilidades tem o inimigo de
apagar os novos fogos que nascem.
Neste contexto, devemos saudar a
consciência exemplar dos nossos camaradas na Província de Tete, que souberam
assumir a nossa linha e assim transformaram-se em base de apoio para a expansão
da luta para novas zonas. Fazendo-o, também consolidaram a situação em Tete.
Mais feridas sangram no corpo da fera colonialista, mais
débil se torna a sua força real, ainda que maior seja o seu rancor e raiva de
desespero. A população de Manica e Sofala soube assumir a nossa disciplina, os
nossos princípios estratégicos e tácticos. Ainda que submetida ao trabalho
forçado, à palmatória, ao imposto, embora levada para os campos da morte das
companhias de açúcar, mesmo sofrendo a asfixia da poeira nas fábricas de cimento,
apesar do chicote na construção das estradas, a população de Manica e Sofala
com paciência esperou a palavra de ordem do partido, com disciplina aguardou
que o esforço comum criasse as condições propícias ao desencadeamento 4a luta.
Ao agir assim, a população de Manica e Sofala mostrou que soube transformar os
seus sofrimentos em determinação revolucionária, demonstrou que possui a
maturidade política necessária para levar à vitória a nossa guerra de
libertação,
A abertura da nova frente é uma grande
derrota para o colonialismo português e o imperialismo. Manica e Sofala é um centro estratégico de desdobramento das tropas
colonialistas; a recente transferência da sede do Alto Comando Militar inimigo
de Nampula para a Beira, demonstra bem a importância
militar da Província. Pelas riquezas agrícolas, minerais, pela sua actividade
industrial, pela importância da sua rede de comunicações, Manica e Sofala goza
dum lugar preponderante no dispositivo de exploração económica colonial e
imperialista do nosso país. Dezenas de companhias americanas, inglesas,
francesas, alemãs, japonesas e portuguesas, auferem lucros fabulosos,
explorando as riquezas e os trabalhadores nesta Província.
B evidente, assim, que a abertura da luta
em Manica e Sofala afecta profundamente a estrutura ida exploração colonialista
e imperialista. Os sonhos e promessas rápidas de vitória que tradicionalmente o
Alto Comando colonialista vem prometendo às suas tropas desmoralisadas, sofreu
um golpe fatal, Novas mentiras terão que ser inventadas por Kaúlza, para
esconderem em vão a derrota final cada vez mais iminente.
Ë certo também que o inimigo, ferido num
dos seus pontos mais sensíveis e dolorosos, vai reagir mais brutalmente, mais
ferozmente, mais criminosamente. Devemos estar conscientes de que as vagas de
prisões e torturas, bombardeamentos e massacres, serão mais numerosos, mais
intensos, mais sistemáticos.
O que mais é, devido à situação estratégica
da Província em relação ao resto da África Austral, devemos saber que em Manica
e Sofala o imperialismo, os racistas sul-africanos ,e rodesianos, farão tudo
para esmagar a nossa luta.
Fracassarão. Os crimes que cometem, a
agressão contra o nosso Povo, é gasolina lançada na fogueira da guerra popular.
Estamos seguros também que ao esforço da aliança imperialista e racista
corresponderá um desenvolvimento consequente da solidariedade internacional,
do campo das forças progressistas que nos apoiam.
A nossa vitória de hoje é também de todos
os povos, dos que combatem ao nosso lado, especialmente, em Angola e na
Guiné-Bissau, dos que nos apoiam firmemente na África e no mundo, é uma vitória
do campo socialista nosso aliado, é uma vitória ainda do próprio povo português
em luta contra o fascismo e a guerra colonial.
Ao desencadearmos a luta em Manica e
Sofala, onde se encontra implantada uma fracção importante da comunidade
portuguesa do nosso país, queremos reafirmar que a nossa luta não é contra ela,
que a nossa vitória só pode beneficiar os que vivem do trabalho honesto, os que
sofrem da exploração colonial e fascista. O Povo moçambicano, fraternalmente,
convida os soldados portugueses, a população portuguesa, a unirem-se ao esforço
comum de libertação.
Neste décimo ano da FREL.IMO, no momento em
que, terminadas as celebrações do 25 de Junho, nos preparávamos para celebrar o
25 de Setembro, a acção unida do Povo e dos combatentes da FRELIMO abriu uma
nova frente,
É um momento de grande alegria e orgulho
para todo o Povo Moçambicano. Mas é também um momento em que comovidamente
evocamos a memória dos camaradas que no campo de batalha, na acção clandestina,
nas prisões colonialistas heroicamente se sacrificaram pela libertação da nossa
terra e do nosso Povo, e tornaram possível, pelo seu sangue e sacrifício, mais
esta grande vitória.
Saibamos ser dignos desse sangue puro e
generoso, intensifiquemos o combate, consolidemos a luta em Manica e Sofala e
nas outras Províncias, estendamos a luta para novas frentes.
A LUTA
CONTINUA! INDEPENDÊNCIA OU MORTE, VENCEREMOS!
* Por ocasião do começo da luta armada de
libertação nacional na Província de Manica e Sofala, o Presidente da FRELIMO,
Samora Machel, dirigiu uma mensagem especial ao povo moçambicano e combatentes
da FRELIMO, a qual veio publicada em «A Voz da Revolução» n.° II, de
Julho/Agosto de 1972.