A AVIAÇÃO SÉRIA E A AVENTUREIRA
Paralelamente, ia voando o
velho companheiro Luís, nos seus belos aviões da D.E.T.A . , com uma
assistência modelar, quase nos cem por cento de segurança. Fazia-se um piloto
cada vez melhor.
Foi sendo conhecido por toda a parte, até internacionalmente.
Se aparecia uma
figura de grande relevo, um Presidente da República, era o comandante escolhido
para o levar, com segurança, a toda a parte. Foi distinguido e muito bem, pelo
nosso Governo, pelo seu mérito aeronáutico.
Eu, pobre de mim!
Tinha um espírito diferente e fugira da D.E.T.A. para não me sujeitar àquela
disciplina, àquela rigidez de serviço, que afinal é necessária, mas que me
contendia com os nervos.
Eu era demasiado
aventureiro. Queria mais sensações novas e só assim, cá fora, as viveria.
E então havia coisas que me faziam delirar!
Cheguei ao Gurué onde havia muitos
milhares de indígenas que nunca tinham visto um avião ao pé. Uns dias depois da
minha chegada, alguém notou que os ossos da galinha à cafreal, por exemplo,
quando essa era a comida, quando iam para a cozinha, eram disputados com um
interesse fora do vulgar. Todos queriam os restos de comida que eu deixava.
Eu tinha o meu carro e
por vezes metia-lhe água no radiador, pois tinha-se furado. O Gurué tem riachos
por todos os lados. Às vezes estavam oitocentos ou mil trabalhadores a colher a
folha do chá e eu parava o carro ali mesmo para meter água. Era como se
aparecesse o diabo. Largavam cestos de colheita, largavam tudo e disparavam
numa correria louca por aquelas encostas abaixo a fugirem de mim, e eu sem
perceber.
Um dia, o Administrador do Gurué, Anselmo
Alves, que viria a ser Director da Chá Moçambique, descobriria tudo. De noite
não havia trabalhador que se aventurasse a sair à rua.
Certa vez houve um
crime. Um trabalhador foi horrivelmente ferido à zagaiada, e porquê?
Por causa do “Injequene!! E quem era o “Injequene”? Eu mesmo.
Na crença deles esta
palavra significava "O homem que andava no ar à custa de carne
humana", isto é, tinha de comer carne humana, para poder voar. E então
tinha emissários que andavam de noite de palhota em palhota a escolher as
vítimas que me eram entregues e eu então levantava voo e ia para a serra de
Zomba, que era ali ao lado, na Niassalândia, banquetear-me.
Toda aquela gente dormia com
as zagaias prontas a entrar em acção, caso aparecesse um emissário a querer
levar uma vítima.
Àquele desgraçado que,
por acaso, foi bater à porta do vizinho, furaram-no todo. Deu um trabalhão ao
Administrador tentar acabar com tal crença. Fartei-me de voar com trabalhadores
que eram metidos no avião aterrorizados, pois estavam convencidos que iam ser
devorados mesmo. Um Régulo, de nome Maquiringa, dizia ao Administrador que me
viu, ele próprio, a comer um braço de um homem. Esse Régulo também foi voar e
eu nunca vi um homem tremer tanto.
A pouco e pouco este
feitiço foi desaparecendo, mas creio que ainda hoje há homens na região que
estão absolutamente convencidos de que eu andava no ar, porque comia carne
humana.
Os que disputavam os restos
da minha comida queriam ganhar através disso, o mesmo poder que eu tinha.
Um amigo meu, que era
chefe de contabilidade de uma das maiores empresas do Gurué, chamado Capela,
tinha um carro precisamente igual ao meu.
Uma noite, por volta das dez
horas, foi à loja da Plantação, que ficava perto de um acampamento e demorou-se
um pouco. Quando regressou ao carro, viu-o rodeado por centenas de indígenas
que, de zagaia em punho, o ameaçavam. Como o carro era igual ao meu, eles
pensavam que eu próprio ali tinha ido buscar uma vítima. Ele não teve mais a
fazer do que meter-se no carro e arrancar à maior velocidade possível.
E eu corria também o perigo de ser morto, mas achava um piadão àquilo.
Aquela "auréola" de
antropófago, de sobrenatural, vindo daquele povo tão atrasado, tão miserável,
tão inculto, correspondia para mim a uma valiosa condecoração: eu estava
contente.
Havia mais uma
história curiosa entre eles, que ainda tornava mais difícil qualquer
possibilidade de voar, pois estavam convencidos que a gente nascia com um motor
dentro da cabeça, uma espécie de bússola, que a eles faltava. É que todos,
quando pequenos, eram amarrados às costas das mães, andando sempre a bater com
o nariz e a cabeça de tal maneira que esse aparelho ficava destruído e nenhum
tinha, portanto, bússola capaz para poder dirigir um avião.
Entretanto iniciávamos a nova plantação de chá, a
que dei o nome de “Alverca”, ainda em homenagem à aeronáutica, pois foi dos
primeiros campos de aviação que houve em Portugal.
Gostava e ainda hoje gosto
muito de agricultura. Nessa plantação passei ricos bocados da minha vida!
Como sempre gostei de
sensações fortes, um dia meti-me num sarilho que jamais posso esquecer.
A meio da manhã,
apareceu-me um trabalhador a pedir-me para ir à palhota dele matar um leopardo,
que já lhe tinha comido dois cães e não sei quantas galinhas. Dizia que tinha
armado uma ratoeira e que o bicho tinha caído nela, que já devia estar quase
morto, pois um dos bambus afiados tinha-se-lhe enterrado no pescoço. Eu comecei
logo a ver a vida a andar para trás. O leopardo ferido é dos animais selvagens
mais perigosos que há, mas ao mesmo tempo não queria dar parte de fraco.
O homem que andava no ar ter medo de um leopardo? Que ideia!
Mal sabia eu no que me ia de facto meter!...
Disse para o homem chamar mais
três trabalhadores, que trouxessem zagaias, passei por casa e peguei na minha
ponto 22, uma arma automática muito boa, e lá fomos.
Tivemos que atravessar um rio,
o Nivacué, e finalmente chegámos à ratoeira onde o bicho tinha caído - uns oito bambus espetados no chão e virados para o ar,
muitíssimo afiados.
Isto debaixo de uma árvore, e
dependurado nesta, um cão morto, que já cheirava mal a valer. O leopardo
saltara para apanhar o cão e ao cair tinha-se espetado num dos tais bambus
afiados.
Mas de leopardo, nem sombra.
Via-se, sim, uma espécie de túnel por baixo do capim, no sítio por onde ele
tinha seguido.
Numa esperança vaga de que o
bicho já estivesse morto, aventurei-me a ir no rasto. Claro que mandei os
homens à frente e eu ia atrás de arma aperrada, dizendo-lhes: "Não tenham
medo. Se ele aparecer, eu mato-o logo".
Fomos batendo tudo aquilo e
quando chegámos próximo do rio, o tal túnel desaparecia. Comecei a ficar
preocupado, mas ainda lhes disse para baterem de maneira a fazerem um bom quadrado,
pois o animal, morto ou vivo, devia estar ali bem pertinho.
Bate mais daqui e dali quando, de repente, ouvimos um urro que naquele silêncio nos pareceu uma coisa horrível. Urrou e ficou quietinho - era o leopardo mesmo! Então subi a uma árvore e eles também. De cima da árvore, dei uns tiros para o sítio donde viera o urro e a seguir fomo-la esgalhando e atirando paus naquela direcção, a ver se ele dava qualquer sinal. Como não dava, calculámos que qualquer balazita o tivesse apanhado e estivesse de facto morto. Mandei dois homens lá abaixo e que batessem com os paus naquele lugar, pois se ele aparecesse eu imediatamente o abateria.
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