6
Entretanto, Pedro
tinha-se posto em marcha o mais depressa possível, mas não tão depressa que conseguisse
escapar aos olhos espertos de Toalha.
Porém, enquanto Sabonete
apanhara Miguel com toda a facilidade, Pedro não se deixaria agarrar sem luta.
A sua grande esperança era conseguir chegar à sala onde tinham deixado o Dr.
Almeida, Gil e todos os outros admirando o rinoceronte, para lhe pedir ajuda.
Por isso deitou a fugir
pelo corredor fora sem mesmo acender a sua lanterna, na esperança de que o seu
perseguidor não trouxesse nenhuma luz e, assim, acabasse por escapar mais
facilmente na escuridão, que se tornava maior à medida que avançavam. Mas a sua
esperança em breve se transformou em desespero quando se sentiu descoberto por
um foco amarelo que o iluminava pelas costas. Agora a única salvação seria correr,
correr muito, gritando pelos outros até o ouvirem.
Com o maior terror via
aquela luz amarela cada vez mais próxima, e, quando já à entrada da sala do
lago olhou para trás, ficou horrorizado: o seu perseguidor estava quase a
agarrá-lo.
Deu um salto e escapou
mesmo a tempo de entrar na sala e... plof... mergulhou no lago.
No mesmo instante
sentiu-se gelado. Nunca na vida tinha entrado numa água tão fria. Deu duas ou
três braçadas e teve a sensação de que nunca conseguiria chegar à outra
margem... E se chegasse... o que
ganharia?... Toalha iria
apanhá-lo do outro lado!
Virou-se para ver a
distância que os separava e ficou admirado de o ver tão longe... Como era possível
em três braçadas ter nadado tanto?
Então reparou que o homem
o chamava gritando e acenando-lhe com a sua lanterna.
TOALHA — Eh! Minino!...
Num vá! Passop!... Passop!...
Quis nadar em sentido
contrário, mas, no mesmo instante, foi arrastado para o fundo, e, cheio de horror
lembrou-se do buraco que vira há pouco, por onde escoavam as águas do lago...
Calculou que estava a ser levado para lá, mas não foi capaz de lutar contra a
força da corrente, e deixou-se ir, aos trambolhões, atirando de pedra em
pedra, até perder a ideia de tudo quanto o rodeava e já não sentir mais nada...
Quando o viu desaparecer Toalha correu para junto do Sr. Paim e de seu
irmão, a fim de lhes contar o sucedido, mas quando chegou à grande sala da
gruta parou sem saber se havia de falar ou não.
O Sr. Paim, agarrado ao
rapaz que Sabonete tinha apanhado sacudia-o com toda a força.
SR. PAIM — É a última vez
que te pergunto... Quem te ensinou o caminho para aqui?
MIGUEL — Já disse que
andávamos a brincar e descobrimos esta gruta... por acaso...
SR. PAIM (dando-lhe um
bofetão) — Tu julgas que eu sou parvo e vou acreditar que vocês vieram até à
serra da Gorongosa para brincar... aos polícias e ladrões, não?
MIGUEL — Ai!... Ai!...
SR. PAIM — Andavam a brincar aos polícias e ladrões, estes anjinhos!
MIGUEL — Nós já calculávamos
que havia ladrões...
SR. PAIM (interrompendo)
— E trouxeram polícias convosco?
MIGUEL — Não!
SR. PAIM — E o teu irmão foi chamá-los?
MIGUEL — Sei lá!
SR. PAIM (dando-lhe outro
bofetão) — Então toma para aprenderes!
MIGUEL (chorando) — Ai!
Ai! Ai!... Não me bata! Como é que eu posso saber onde ele está?
TOALHA — Eu posso saber!... Ele cair no lago!
SR. PAIM — E foi
arrastado para o escoadouro pela corrente?
TOALHA — É!
SR. PAIM — Pois! Pois!...
Então desse já estamos livres para o resto da vida!
MIGUEL (horrorizado) — O
meu irmão?! O meu irmão?!... Morreu afogado?
Com um forte safanão
conseguiu libertar-se dos braços do Sr. Paim, e, desesperado, correu para o
túnel por onde Pedro tinha desaparecido há pouco.
O Sr. Paim que não
esperava por aquela fuga tão rápida, quase rebentava de fúria. Os seus gritos
altíssimos tornavam-se ainda mais aterrorizadores aumentados pelo eco da
grande abóbada de rocha que cobria a sala.
SR. PAIM —
Pára! Pára!... Senão
atiro!
Então Miguel reconheceu
que os berros que tanto o tinham assustado ainda há
pouco não tinham sido dados por nenhum animal selvagem ou monstro
pré-histórico, mas por aquele ser humano, mais feroz do que qualquer bicho.
E as suas pernas tomavam
asas, tal era o terror de ser novamente apanhado por ele. Felizmente a entrada
do túnel estava próxima. Cheio de esperança de escapar, reuniu todas as suas
forças, acelarando a corrida, e entrou a grande velocidade pela estreita abertura
do corredor... mas, de repente, sentiu-se atirado ao chão, No mesmo instante
dois tiros rebentaram no ar.
Miguel, convencido de que
fora atingido, ficou imóvel, deitado na rocha fria, sem saber ao certo se estava
morto ou se ainda o esperavam piores aventuras, mas... nesse momento, uma voz
conhecida e amiga soou-lhe aos ouvidos.
GIL — Miguel! Miguel!... Estás
bem?... Magoaste-te? A minha espingarda disparou sem eu querer quando vieste
contra mim com toda a força!
MIGUEL (tremendo) — Ah!
Não foi o senhor Paim quem me atirou o tiro?
DR. ALMEIDA (muito
admirado) — O senhor Paim? Não estarás a delirar?...
Mas não teve tempo de
dizer mais nada, porque, no mesmo instante, a luz da sua lanterna bateu em
cheio no Sr. Paim em pessoa, que, de espingarda em punho, perseguia Miguel.
Vinha roxo de cólera e
pronto a disparar contra o rapaz, mas ao ver Gil, o Dr. Almeida e os dois criados,
recuou assombrado...
Porém, no sítio onde se
encontravam, à entrada do túnel, a rocha formava um degrau, e, ao dar um segundo
passo para trás, não encontrou onde poisar o pé, e, caiu desamparado batendo
com a cabeça numa pedra.
MIGUEL (levantando-se de
um salto) — Agarrem-no!... É ele o bandido!
Agarrem-no!
Mas não era preciso. O
Sr. Paim, perdera de repente a cor e ficara imóvel,
estendido no chão, como se tivesse morrido.
MIGUEL (desconfiado) —
Cuidado que pode ser tudo manha!
DR. ALMEIDA (pegando-lhe
no pulso) — Não me parece!
GIL — Pelo sim pelo não
acho melhor o André e o Mateus ficarem junto dele...
Mas Miguel nem deixou acabar a frase.
MIGUEL — Olhem para
ali!... Os outros dois patifes. Toalha e Sabonete, vão
escapar-se por ali!
DR. ALMEIDA — Anda, Gil!
Agora que os descobrimos, não os deixemos escapar!
E ambos deitaram a correr
atrás dos dois fugitivos, que tinham desaparecido por um outro corredor da
gruta.
Só então Miguel viu Ana e Xilokué junto de si. MIGUEL (abraçando a
irmã) — Ana!... Estou tão aflito!
ANA (consolando-o) — Não
estejas! O pior já passou!
MIGUEL (chorando) —
Não!... O pior é que o nosso irmão... caiu ao lago... e... e...
ANA (sem perceber) — Oh!
Ele sabe nadar tão bem!
MIGUEL (chorando) — Mas
foi arrastado para um buraco onde, com certeza... com certeza...
ANA (horrorizada) — Desapareceu?
Miguel abanou a cabeça
sem conseguir dizer mais nenhuma palavra, e Ana veio abraçá-lo, juntando as
suas lágrimas às do irmão.
XILOKUÉ — Ai! Ué! Ai! Ué!
ANA (limpando as
lágrimas) — Como sabes que ele desapareceu? Viste-o ir pela água abaixo?
MIGUEL — Não! Foi o
Toalha quem viu e nos veio contar...
ANA — Mas... pode nem ser verdade! Se ele é tão
malandro e tão mentiroso como o irmão até pode ter inventado isso só para te
assustar! Para tu perderes a cabeça e contares tudo!
MIGUEL (enxugando os
olhos) — Claro! E eu aqui feito parvo sem me lembrar dessa!
ANA — Se Pedro fugiu para
a sala do lago o melhor é irmos lá procurá-lo!
MIGUEL — É já!
ANA — Tu não vens, Xilokué?
X1LOKUÉ (olhando à roda)
— Mim vais procurá di Bongué!
MIGUEL — O quê!... Esse
sacripanta voltou a desaparecer?!... Maldito macaco! Estou-lhe cá com uma raiva!...
Por causa dele é que tudo isto aconteceu!
Mas desta vez Bongué não
se fez esperar muito. Nesse instante apareceu aos saltos e aos guinchinhos,
como se quisesse dizer alguma coisa.
Miguel e Ana, que nunca o
tinham visto assim, estavam espantadíssimos vendo o bicho que ora pulava sobre
o ombro do seu dono ora se atirava ao chão, dando corridinhas para a frente e
para trás, acompanhando tudo isto por grande guincharia.
MATEUS — Eli tá chama... milho ir!
Mas Ana e Miguel não
quiseram saber do macaco e, virando-lhe as costas, meteram pelo corredor que
levava à sala onde esperavam encontrar o irmão.
Ainda não tinham andado
muito, quando ouviram Xilokué e Mateus chamando por eles.
MATEUS — Ó minino!
Minina! Vem cá! Vem nos pressa!
MIGUEL (parando) — O que será agora?
ANA (continuando a andar) — Quero lá saber!
MIGUEL (agarrado-lhe um
braço) — Podem precisar de nós!
XILOKUÉ — Vem nos pressa!... Nos pressa!
Miguel deu meia volta e
correu para eles, e Ana acabou por o seguir, embora bastante contrariada.
Quando chegaram à sala
não notaram nada de extraordinário. André continuava sentado junto do Sr. Paim,
que ainda não acordara do seu desmaio, enquanto Mateus e Xilokué, quase à saída
da gruta, se debruçavam sobre o riozinho, tentando içar qualquer coisa para
fora da água.
ANDRÉ — Ali! Ali! Vai vê!
Os dois irmãos
encaminharam-se para o rio cheios de curiosidade.
ANA — Pescaram um peixe enorme!
MIGUEL — És parva! Não vês que é um saco!
ANA (saltando) — É... é o Pedro!
E, então, ambos deitaram
a correr, lançando-se sobre o irmão e abraçando-o vezes sem conta. Pedro
não lhes dava atenção. Tinha os lábios completamente roxos e tremia de frio.
ANA (fazendo-lhe festas)
— Pedro! Pedro! Meu querido! Abre os olhos, diz qualquer coisa!
PEDRO (abrindo os olhos)
— Tantos bichos! Tantos crocodilos!
ANA (muito admirada) —
Não tenhas medo, Pedro! Não há bichos nenhuns!
PEDRO (sem abrir os olhos) — Eu vi!
MIGUEL (baixinho) — Não
teimes com ele!... Está a confundir as ideias!... Não diz coisa com coisa!
ANA (baixinho) — Coitadinho!... E agora?...
MIGUEL — Agora o mais
importante é tirar-lhe a roupa molhada e pô-lo ao sol para aquecer... Não vês
como está gelado?!
Quiseram ajudá-lo a
pôr-se em pé, mas Pedro estava demasiadamente fraco e trémulo para poder andar
e, teve de ser Mateus a levá-lo ao colo para fora.
A abertura da gruta por
aquele lado era muito mais larga do que no sítio por onde tinham entrado e a
encosta da serra muito menos inclinada e pedregosa. Havia mesmo um caminho,
onde estava estacionado um automóvel.
ANA — Olha! Olha! O carro do senhor Paim!
MATEUS — Já estar curado do porta-bagagem!
MIGUEL —
Pois! Pois! Essa devia ser mais uma
intrujice dele para transportar o que lhe apetece na
caixa sem ninguém descobrir. Malandro! Se eu o apanho... esfanico-o!
ANA — Deixa que ele já se esfanicou
sozinho!
MIGUEL — Vai lá ver se a
esta hora ainda está quietinho ou se já deu dois socos no André e fugiu!
Ana voltou a entrar na
gruta, enquanto os outros ajudavam Pedro a despir-se e lhe davam enérgicas
massagens para o aquecer.
Para quem tinha estado
tanto tempo dentro de água gelada, Pedro conseguiu reanimar com bastante rapidez.
Já completamente enxuto e vestido com roupas emprestadas, sentou-se ao sol e a
pedido de Xilokué começou a contar a sua história:
PEDRO — Quando o senhor Paim percebeu que tínhamos
descoberto o seu esconderijo, ficou furioso e deu ordem aos criados para nos
apanharem. Miguel foi
logo caçado por Sabonete...
MIGUEL — Se estivesses
constipado e a dar espirros de seguida como eu, também tu...
PEDRO — A...A...A...
Atchim!... Também eu! Também nós!...
MIGUEL (rindo) — Ah! Ah!
Ah! Agora só falta a Ana!
PEDRO (assoando-se) —
Isto passa! Não é nada, para o que podia ter sido!
MIGUEL — O Toalha quando
chegou ao pé do senhor Paim disse-lhe que tu tinhas caído ao lago e tinhas
desaparecido pelo escoadouro... Foi verdade?
PEDRO —
Foi! Quando o vi quase a agarrar-me atirei-me à água, na esperança de escapar.
Mas ainda foi pior, quando mergulhei fui arrastado por uma corrente tão forte
que não consegui sair dela. A corrente tornava-se cada vez mais rápida e a
certa altura senti-me puxado para o fundo e perdi a respiração. Felizmente foi
por pouco tempo. Daí a nada vim ao de cima e percebi que a água continuava a
levar-me mas não sabia para onde porque estava completamente às escuras.
XILOKUÉ — Ter medo, ter?
PEDRO
(abanando a cabeça) — Ai não! Já julgava que acabaria por morrer de frio ou
esmigalhado contra alguma pedra, quando vi ao longe uma luz muito fraquinha.
Pensei logo que a água talvez me tivesse a levar para a saída da gruta, e,
cheio de esperança, deixei-me levar sempre com as mãos à frente para não bater
com a cabeça nas rochas.
MIGUEL — Por isso tens as mãos todas arranhadas!
PEDRO — E agora é que me
estão a doer e a deitar sangue!
XILOKUÉ — Passop! Podi entra feitiço!
MIGUEL — Deixa-o falar e conta lá o
resto!
PEDRO — O resto é muito
curto, tive sorte de a corrente me levar para a grande sala, onde Bongué me descobriu
mais morto do que vivo e tão gelado que nem conseguia içar-me para a margem ou
chamar por socorro!
MIGUEL (fazendo festas ao
macaco) — Bongué bonito! Eu dar uma banana neli!
PEDRO (rindo)—
Achas que ele assim percebe melhor?
MIGUEL Percebe! É espertíssimo!... Quem
me dera ter um macaquinho como este! Já reparaste
que sem ele acabaríamos por voltar para Chitengo
sem descobrir nada?
PEDRO — Resta saber se o
doutor Almeida e o Gil conseguiram apanhar os outros dois ou se acabaram por
ser apanhados por eles...
MIGUEL — Também estou admirado com tanta demora!
MATEUS — Eu vou dar ajuda!
Mas não foi preciso, nesse momento saíram da gruta Sabonete e Toalha,
que vinham bem seguros por Gil e pelo Dr. Almeida. Seguiam-se André, transportando
ao ombro o Sr. Paim, desmaiado, e na cauda do cortejo, Ana, cantando e saltando
de alegria.
GIL {franzindo os olhos) — Olhem! Olhem! O nosso amigo Paim tinha a sua indústria bem
montada! Até abrira uma estrada para poder chegar com o carro à fábrica e aos
armazéns!
DR. ALMEIDA — E a
fechadura do porta-bagagens que estava sempre estragada, vê como ela aqui se
abriu!
GIL (espreitando para
dentro do porta-bagagens do carro) — Olhem aqui dois crocodilos mortos!
DR. ALMEIDA — Estou a perceber! Os crocodilos eram apanhados em
armadilhas, mortos Com um tiro à queima-roupa, ou por qualquer outro processo, e
depois transportados para aqui, onde lhes tiravam as peles que, em seguida,
eram mandadas para a Europa.
Toalha e Sabonete seguiam
esta explicação com os olhos arregalados e abanavam a cabeça cheios de admiração
pela rapidez com que ele desvendara todos os segredos!
Aproveitando-se disso o
Dr. Almeida resolveu armar-se em bruxo para os fazer confessar mais alguma
coisa.
DR. ALMEIDA — Eu sei tudo!... Sei que o senhor Paim vos ofereceu maningue
moné para vocês o ajudarem!... E até sei que a fechadura do
porta-bagagens do carro dele não estava estragada. Tudo isso era uma
mentira de que se servia para ninguém desconfiar que transportava lá dentro
peles de crocodilo, e... e...
SABONETE — Sabonete...
ANA (muito espantada) —
Ah!... Ele também tinha negócios de sabonetes?
GIL (rindo) — Não! Neste
caso o Sabonete era o ilustre colaborador do Paim que ele deve ter trazido na
mala do carro quando saiu de Chitengo para se vir encontrar com o Toalha!...
Parece impossível que uns rapazes com uns nomes tão asseados se tenham metido
num negócio tão sujo!
SABONETE e TOALHA — Nós
não ter esperto na cabeça!
DR. ALMEIDA (muito
zangado)— Têm até demais!...Andam há perto de dois anos com aldrabices e
choradeiras por causa dos óbitos da família quando o que queriam era caçar
crocodilos... ainda por cima em zonas proibidas!... André! Vê se arranjas aí
uma corda para amarrar estes dois patifórios antes que eles se escapem! Ficas
encarregado de os guardar!
Entretanto Mateus tinha
deitado o Sr. Paim no assento de trás do carro e o Dr. Almeida veio debruçar-se
sobre ele, procurando ouvir se aquele coração, que sempre julgara amigo e
afinal o atraiçoara, batia ainda...
DR. ALMEIDA (suspirando)
— Este homem precisa de assistência médica! Penso interná-lo no Hospital de
Vila Paiva de Andrade ou, no caso de o médico de lá achar preferível, enviá-lo
de avião para a Beira...
MIGUEL — Se ficasse pelo
caminho não se perdia grande coisa!
DR. ALMEIDA — A nós não nos cabe julgar,
mas apenas curar! No caso de ele se restabelecer depois de ser ouvido pelo
tribunal, os juizes dar-lhe-ão a sentença mais justa, talvez aquela o faça
arrepender-se do mal que praticou. Quem sabe!...
GIL — Enquanto há vida há esperança...
DR. ALMEIDA — Bom!...
Então agora vamos a organizar a nossa vida!... André! Sabes ir daqui até ao
sítio onde deixámos as carrinhas?
XILOKUÉ (apontando) — Eu
sabes! Estar lá no baixo, ó pé di rio!
DR. ALMEIDA — É isso
mesmo! Seguindo o curso de água que vem da gruta deve-se ir lá ter.
ANDRÉ — É sim siô!
DR. ALMEIDA — Convinha
que trouxesses as duas carrinhas. Leva o Xilokué contigo e vejam se conseguem
arranjar caminho até cá. Depois de comermos qualquer coisa, seguiremos todos
juntos para Vila Paiva de Andrade.
GIL — Eu poderei guiar o carro do senhor Paim...
PEDRO (metendo-se na conversa) — Ou eu!
GIL (reparando nele) — O
que é que aconteceu àquele desgraçadinho para estar cheio de feridas e
mascarado de palhaço?!
PEDRO — Atirei-me ao rio
e ia morrendo, mas não morri!
ANA — Coitadinho! Quando
o tiraram de dentro de água estava completamente gelado e até parecia tonto, só
via crocodilos!
PEDRO — É verdade! Quando
abri os olhos só via crocodilos brancos, cruzes, riscos e mais bonecada
esquisita!
MIGUEL — Devias estar bazaruco!
GIL — Ou talvez não...
Foi dentro da gruta que viste isso?
PEDRO — Foi mesmo à
saída... encalhei num pedregulho do rio e...
Mas Gil nem o deixou acabar
a frase e deitou a correr direito à gruta, logo seguido pelo Dr. Almeida e
pelos três irmãos.
Ana foi a última a
chegar, mas a primeira a descobrir, mais ou menos no sítio que Pedro indicara,
um rochedo onde três crocodilos pintados de branco se destacavam de um fundo
coberto de rodelas, cruzes e muitos outros desenhos confusos, sinais mágicos,
destinados a afastar os maus espíritos ou a pedir a protecção dos deuses.
MIGUEL — Oh! Os teus
crocodilos são muito mais mal feitos do que o meu rinoceronte!
PEDRO (rindo) — Deve ter
sido o senhor Paim que os mandou pintar aqui à entrada da sua fábrica de
descasque de crocodilo!
ANA (olhando para Gil
desconfiada) — Achas que sim?
GIL (rindo) — Não! Apesar
destas pinturas serem muito mais recentes do que a outra, devem ter algumas
centenas de anos, Encontraram-se outras obras semelhantes tanto em Moçambique
como em Angola e supõe-se serem obras dos bantos, uma raça que habitava estas
regiões antes da chegada dos Portugueses.
MIGUEL — Esta gruta até parece um museu!
GIL
— É espantoso que esse malandro do Paim, sabendo que existiam aqui tantas
pinturas, continuasse a servir-se disto para fábrica de descasque de crocodilo,
como diz Pedro!
PEDRO — Eu quando cheguei
ainda os vi a esfolar um crocodilo ao pé de uma fogueira meio
apagada.
DR. ALMEIDA — Sempre
quero ver essas magníficas instalações da Fábrica Paim & Companhia!
Enquanto ficava a
fotografar as novas pinturas descobertas, o Dr. Almeida e os três irmãos
entraram na gruta, procurando descobrir a fogueira de que Pedro falara.
Não foi difícil
encontrá-la. A fogueira fumegava ainda; junto dela estava um crocodilo ao qual
tinha sido feito um corte, a todo o comprimento do lombo, para ser esfolado.
Havia também por ali algumas peles cobertas de cinzas 1, e outras
enroladas, prontas a serem metidas em dois caixotes vazios para serem curtidas
em qualquer outro lugar.
DR. ALMEIDA — Como vêem o
nosso amigo Paim tinha tudo bem organizado. Esta gruta assim isolada, cheia de
inscrições e desenhos dos que assustam os nativos, era o melhor local para
poder trabalhar em paz!
PEDRO — Ainda por cima perto da sua "farme"!
MIGUEL (dando um pontapé
num dos caixotes, como se se tratasse do Sr. Paim) — Malandro!
Mas, no mesmo instante,
agarrou-se ao pé gemendo com dores.
PEDRO — Também me saíste um
bom pieguinhas!
MIGUEL — Então experimenta tu pá!
Pedro deu um pontapé com
toda a força; mas o caixote não saiu do mesmo sítio.
PEDRO — Ai! Ai! Livra! Que
é pesado!
DR. ALMEIDA — O que foi? Magoaram-se?
PEDRO — Demos dois
pontapés neste caixote vazio que devia ser leve e afinal é pesadíssimo...
magoou-nos... Não percebo...
DR. ALMEIDA (tentando
levantar o caixote) — Nem eu!
MIGUEL —
Olhem! Olhem! O fundo... o fundo... não está no fundo!
Então o Dr. Almeida,
pegando num martelo que por ali encontrou, começou a despregar o fundo falso do
caixote.
MIGUEL — Aposto que está
cheio de peles de croco...
DR. ALMEIDA (fazendo
saltar o fundo) — De peles de cobra!
PEDRO (apontando o outro
caixote) — E aquele?... Vamos ver aquele!
Arrancaram o fundo ao
outro caixote e viram que continha peles de leopardo!
DR. ALMEIDA — Estão a ver como o patife do
Paim tinha a sua indústria bem montada! Nestes caixotes exportava ele para a
Europa as peles de bois e vacas da sua "farme". E na alfândega
ninguém desconfiava que, por debaixo dessas peles fossem outras, de
crocodilos, de jibóias, ou de leopardos, muito mais valiosas...
Entretanto, Gil, que
acabara de tirar as fotografias, apareceu com a máquina fotográfica e o flash
pendurados ao pescoço.
DR. ALMEIDA — Gil! Gil!
Anda cá ver a quantidade de animais que estes bandidos mataram!
GIL — É espantoso!
ANA — Encontrámos dois
caixotes, mas ainda não sabemos se lá dentro da gruta não haverá mais...
DR. ALMEIDA — Pode muito bem haver...
GIL — Não me parece má ideia
darmos uma volta completa aos arredores... Talvez se encontre qualquer coisa...
PEDRO (piscando o olho) —
Talvez outra pinturazita mais ou menos paleolítica...
ANA — E se nos perdermos?...
MIGUEL — Sempre estás a fazer-te uma azarenta!
DR. ALMEIDA — O mais
prudente será dividirmo-nos em dois grupos, seguindo cada qual por uma galeria
diferente. No caso de encontrarmos corredores muito longos, onde possamos
perder-nos em labirintos, voltaremos logo para trás, e dentro de um quarto de
hora tornamo-nos a juntar aqui!
PEDRO — Eu vou
consigo!... Vamos pela sala do lago para lhe mostrar o sítio onde ia morrendo!
GIL — Então Miguel virá
comigo, nós iremos pela sala do rinoceronte.
ANA — Eu também quero ver
esse bicho outra vez!
Gil encaminhou-se para a
passagem por onde Toalha e Sabonete tinham fugido, e, apesar dos protestos de
Miguel que lhe gritava que o caminho não era por ali, continuou a andar,
fazendo sinal para o seguirem.
Não tinha ainda andado
uns cem passos, quando, de repente, o corredor desembocou numa pequena sala.
GIL (sorrindo) — Ainda
agora, quando vim em perseguição daqueles malandrins, também passei
por aqui. Ao chegar, não reconheci o sítio mas, quando por acaso a minha
lanterna iluminou o tecto e vi quem ali estava, fiquei espantado!
E Gil, virando o foco de
leu para luz, mostrou-lhes a pintura do rinoceronte!
ANA — Não é o mesmo, com certeza!
GIL — É o mesmíssimo! O
caminho por onde viemos é quê é outro!
MIGUEL — Andamos nós às
voltas e reviravoltas para chegar à sala onde estava o senhor Pai m, quando
afinal era tão perto!
ANA — Ainda tivemos sorte
por ele não nos ter ouvido quando aqui estivemos.
GIL — Também já pensei
nisso, e cheguei à conclusão de que nós, como estávamos impressionados com a
pintura e com todo o mistério deste local, talvez tivéssemos falado em voz
baixa...
MIGUEL — Nós também só
ouvimos o senhor Paim quando ele berrava com os outros!... Até pensámos que
era um dinossauro...
Mas Gil já não
lhe dava atenção. Com a sua máquina fotográfica virada para o
tecto, ia disparando de vez em quando o flash que, por breves instantes,
enchia a gruta de uma luz azulada e fria. Daí a momentos, Miguel resolveu arriscar uma pergunta:
MIGUEL — Afinal quem é
que lhe trouxe a máquina?... Nós fomos buscá-la, mas não a trouxemos...
GIL — Quando vimos que se
estavam a demorar, o Dr. Almeida começou a inquietar-se dizendo que era
perigoso andarem lá por fora os dois sozinhos, e mandou o Mateus e o André que
voltaram daí a pouco com toda a minha aparelhagem fotográfica, dizendo que não
vos tinham encontrado. Ficámos atrapalhadíssimos sem saber onde vos havíamos de
procurar, mas Xilokué resolveu rapidamente o problema pedindo a Bongué para
vos descobrir. Quando o macaquito se enfiou por aquela galeria, nós seguimos
atrás dele sem hesitação!
MIGUEL — E não ouviram os
berros do bruto do Paim?
GIL — Não ouvimos
nada!... Devíamos estar na parte mais afastada da gruta, junto à nascente do
rio.
ANA — Schiu!... Eu é que
estou a ouvir qualquer coisa...
PEDRO — A-a-atchim!
MIGUEL — A-a-atchim!
ANA (rindo)— Agora os
meus irmãos conversam na língua dos atchins, só para eu não perceber nada!
GIL (olhando para o relógio).
Estou a ver que os outros já deram a volta
à gruta e nós aqui!
DR. ALMEIDA (saindo de
uma das galerias) — Eu já calculava onde vos viria encontrar!
GIL (um tanto
envergonhado) — Bem... Há bocado não cheguei a fazer estas fotografias... E
resolvi fazê-las agora num instantinho... Foi rápido...
DR. ALMEIDA (rindo) — Foi
só um quarto de hora!
GIL (olhando para o
relógio) — Oh! Passou tão depressa! Estávamos tão interessados no nosso bicho!
DR. ALMEIDA — Fizeram muito bem! Nós entretanto explorámos a gruta toda
e não encontrámos nada de interessante, além do que conhecíamos, o que já não
é pouco!
GIL — Então agora vou propor um programa!
ANA, PEDRO e MIGUEL — Que
é? GIL — É irmos almoçar!
MIGUEL — Boa ideia!...
Seguimos por este corredor! Por aqui é mais perto!
DR. ALMEIDA — Vê lá não
te enganes outra vez no caminho!
MIGUEL — Agora não há
perigo! Vamos com o cheiro no almoço!
DR. ALMEIDA — Com o nariz
entupido não devem ter olfato nem paladar!
Mesmo sem olfato nem paladar o almoço
soube-lhes muito bem. Todos estavam com fome. Até Toalha e Sabonete, comeram
com os criados as habituais papas de fuba temperadas com molho picante.
Depois do almoço,
carregaram os caixotes das peles e puseram-se a caminho. Gil ia à frente, conduzindo
o carro onde o Sr. Paim continuava deitado e as duas carrinhas seguiram atrás.
Em breve passaram pela
"farme" mas não pararam; o Dr. Almeida levava pressa de chegar a
Vila Paiva de Andrade, onde entregaria o seu "amigo" Paim aos
cuidados de um médico e os dois "sócios" aos cuidados da polícia.
Mal lá chegaram
dirigiram-se a casa do administrador a quem contaram todas as suas aventuras.
Tudo se tratou o mais rapidamente possível, mas não tão depressa que Ana não
tivesse tido tempo de comprar na cantina a sua rica saia de palha, um cesto de
feitiço e uma capulana de muitas cores para levar à Mãe. Os rapazes também
compraram arcos e setas em madeira, dois escudos feitos de peles de animais
selvagens e um pequeno tambor próprio para batuque.
Depois, muito satisfeitos
com as suas compras e também aliviados por se terem vistos livres dos seus
forçados companheiros de viagem, partiram para Chitengo.
Mal lá chegaram Pedro e
Miguel, que estavam a sentir-se cada vez pior, enfiaram-se rapidamente na cama,
onde lhes foi servido um chazinho quente com torradas e onde o Dr. Almeida lhes
levou os remédios
de que precisavam para se
verem depressa livres das suas incómodas constipações e se curarem de todas as feridas.
Quando acabou de jantar,
Ana também foi logo para a cama.
Estava cansadíssima, e,
como sabia que na manhã seguinte deveriam partir, muito cedo, num táxi aéreo
que viria trazer mais hóspedes para o acampamento, queria aproveitar para
dormir todo o seu sono.
Dormiu tão profundamente
que quando na manhã seguinte a vieram acordar teve a sensação de ainda não
terem passado cinco minutos.
Abriu a janela; no céu
começavam a aparecer as cores da madrugada...
Pensar que era a última
manhã... a sua última manhã na Gorongosa... Alguns visitantes, acompanhados
pêlos guias, entravam para as carrinhas... Que inveja!
Compreendia agora melhor
do que nunca a canção de Mateus.
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Eu vai partir,
tu vai ficá!
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Tu não
vai ver eu a chorá!
Ana ainda não
esquecera o ritmo triste e dolente, e, enquanto tomava banho e fazia a mala
continuava a cantar... "Oh!... Koka missaba! Koka missaba!..."
Quando finalmente tudo
ficou pronto, chamou os irmãos e dirigiram-se todos os três para o restaurante onde
Gil e o Dr. Almeida já os esperavam, diante de um grande prato cheio de fatias
do belo pão do acampamento.
Nenhum deles estava muito
animado, por isso teve de ser o Dr. Almeida a principiar a conversa.
DR. ALMEIDA — Quando vos
convidei, nunca poderia imaginar que vos ficaria a dever um tão grande
serviço!...
MIGUEL (rindo) — Ora! Que ideia! Quem descobriu quase tudo foi o macaco do
Xilokué!
DR. ALMEIDA — Esse também
será recompensado, ficando instalado com o seu dono no acampamento. Quanto a
vocês, não vos posso deixar partir sem vos oferecer estas lembranças...
palpita-me que irão gostar!...
E o Dr. Almeida tirou da
prateleira as três girafas talhadas em dentes de elefante e ofereceu uma a cada
um dos irmãos!
PEDRO — Oh! São tão
bonitas!... Muito obrigado!
ANA (beijando o Dr.
Almeida) — Muito obrigada! Gosto imenso da minha!
MIGUEL (abraçando o Dr.
Almeida) — Quando, chegarmos a Lisboa já nos podemos gabar que caçámos três
girafas na Gorongosa!
DR. ALMEIDA (rindo) — Aí
está um feito extraordinário num sítio onde não há girafas e é proibido caçar!
Ainda não tinham acabado
o pequeno-almoço quando Xilokué apareceu correndo e saltando de alegria!
XILOKUÉ — Vem ver! Minino!
Vem ver!
DR. ALMEIDA — Que mais temos agora?
XILOKUÉ — Coisa boa! Vem
ver!
Pela última vez lá foram
todos, os miúdos à frente e o Dr. Almeida com Gil atrás.
O miúdo dirigiu-se para a
saída do acampamento e começou a subir a uma das grandes acácias que bordavam
a picada. De entre os ramos saíam uns guinchinhos
agudos semelhantes aos do Bongué.
Xilokué, lá do alto,
chamava os meninos para que o seguissem. Pedro e Miguel trepam logo pela árvore
e Ana trepou atrás dos irmãos. Viram então um macaquinho que fazia esforços
desesperados para tirar uma das mãos de dentro de uma cabaça amarrada ao
tronco da árvore... mas não conseguia... Xilokué aproximou-se dele, muito
devagarinho e, de repente, agarrou-o, desprendeu a cabaça, e, sem se importar com
a gritaria do bicho, trouxe-o cá para baixo.
ANA — Como é que
conseguiste apanhá-lo?
PEDRO —
A cabaça tinha
lá dentro alguma ratoeira?
MIGUEL — Vais ficar com outro macaco?
DR. ALMEIDA — Já vão ver
o segredo da cabaça...
E, pegando numa pedra,
partiu-a ao meio, tirando lá de dentro uma banana!
ANA — Uma banana?... Tem
cola? Porque é que o macaco não conseguia tirar a mão?
GIL (rindo) — Não
conseguia, não! Ele não queria!
MIGUEL — Lá isso queria!
Ele estava a fazer imensa força para se safar!
GIL — Pois sim! Mas não
queria ir sem a banana, como a sua mão cheia não cabia pela abertura da cabaça,
acabaria por ficar ali toda a vida!
PEDRO — E como sabia ele
que lá dentro estava uma banana, antes de meter a mão?
DR.ALAMEIDA — Os macacos,
como a maior parte dos animais selvagens, têm um olfato apuradíssimo, deve-lhe
ter cheirado de longe.
GIL — Sim, senhor, ficou
tudo explicado... Só ninguém respondeu à pergunta de Miguel... Afinal para quem
é o macaco?
XILOKUÉ — P'rá minino leva!
ANA (saltando) — Oh!
Muito Obrigada! Muito obrigada! Com tantas recordações nunca mais nos
esqueceremos da Gorongosa!
DR. ALMEIDA — Então...
Gostaram verdadeiramente da Gorongosa?
PEDRO — Gostámos?... Adorámos!
MIGUEL — Gozámos imenso!
ANA — "Gorongozámos" imenso!
Neste momento o ruído do
avião começou a ouvir-se. Primeiro ainda vago, por vir de longe, depois num
rugido forte, cada vez mais forte, vibrando no ar, mesmo sobre as suas cabeças.
O sol que já libertara a terra de todas as sombras nocturnas convidava-os
para novas jornadas, para novas aventuras, mas o avião acabado de aterrar, não
lhes deixava quaisquer esperanças... Então quando de repente o silêncio voltou
a pairar sobre as coisas, ouviu-se alguém cantando.
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Eu vai parti... tu vai ficá
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Tu não vai vê eu a chorá...
DR. ALMEIDA — Têm agora de aprender o resto dos
versos:
E se algum dia eu vai voltá
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Já não vai vi p'rá me esconde do teu olhá
Oh!...
Koka missaba
Oh!...
Koka missaba!
Gorongosa, 27-3-1970.
1 Processo utilizado,
pelos indígenas para conservar as peles até serem curtidas.
Cestos redondos e com
tampa empregues pelos indígenas em certos ritos.