5

 

Quando, depois do pequeno almoço, o Dr. Almeida e Gil se envolveram em discussão sobre o que haviam de fazer nesse dia, quando Ana e Pedro se sentaram junto da fogueirinha que tinham acendido de manhã e os criados começaram a arrumar tudo, Miguel foi ter com Xilokué.

MIGUEL — Queres vir procurá-lo?... Vamos os dois!...

O rapazinho abanou repetidas vezes com a cabeça e por fim levantou-se do velho tronco onde parecia colado.

XILOKUÉ — Nós não sabi qui lado eli foi!

MIGUEL — Eu sei! Vi a cobra ir naquela direc­ção, ia com certeza atrás dele!

XILOKUÉ (chorando) — Nós num vai encontra rastro di sagui!

MIGUEL — Sabes lá! O macaquinho pode ter fugido!

XILOKUÉ — E ela fugido também!

MIGUEL — Pode ter subido a uma árvore!

XILOKUË — Ela subido também!

MIGUEL — Pode ter nadado para a outra mar­gem do rio.

XILOKUÉ — Bongué num vai no rio!

MIGUEL — Então, vamos procurar ali para os lados da serra.

Encaminharam-se os dois para o morro acinzen­tado, abrindo caminho entre as ervas bravias, tão entusiasmados na busca do macaco ou de qualquer rasto deixado por ele que nem mediam o perigo que estavam a correr, metendo-se assim, sozinhos, pela floresta povoada de animais ferozes.

Xilokué de vez em quando parava e punha-se a escutar, olhando à roda ou ajoelhando e pondo o ouvido no chão.

MIGUEL — Ouves alguma coisa?

Mas ele abanava a cabeça tristemente e lá recome­çavam a subida.

Tinham já entrado na zona mais rochosa, onde só a vegetação rasteira crescia entre as pedras quando Xilokué parou, de pescoço esticado e olhos bem aber­tos como se tivesse ouvido qualquer coisa.

Miguel ia repetir a pergunta que já fizera tantas vezes, mas o outro fez-lhe sinal para ele estar calado.

Não se passaram muitos segundos sem que os dois rapazes ouvissem um guinchinho e logo outro, dois guinchinhos agudos que se distinguiam bem de entre os outros ruídos do mato. Percebia-se que eram de   macaco,   mas  seriam  daquele que  procuravam?

Com os corações aos saltos puseram-se a olhar para cima, para baixo, para todos os lados, até desco­brirem no alto de um rochedo o macaquinho de Xilokué, coçando a barriguinha e fazendo caretas como se estivesse a fazer troça deles.

Deitaram a correr, saltando de rocha em rocha, a ver quem chegava primeiro, mas Bongué quando os viu, correndo para ele, resolveu entrar na brincadeira, pondo-se também aos pulos, fugindo de cada vez que. o dono se aproximava dele, como se estivesse a jogar às escondidas.

Bem podia Xilokué chamá-lo, falar-lhe em dia­lecto chigorongosa... Não havia maneira de o con­vencer a deixar-se agarrar.

MIGUEL (ofegante) — Tens... tens a certeza de que é o teu macaco?

XILOKUÉ (ofendido) — Certeza, pois!

MIGUEL (sentando-se) — Então vê se o apanhas que eu já não posso mais!

Mas Bongué tinha desaparecido outra vez!

XILOKUÉ (aflito) — Ai! Ué! Ai! Ué! Eu já não Bongué!

MIGUEL (levantando-se) — Maldito macaco! Onde se terá ele metido?

XILOKUÉ (apontando) — Ali... Eu vê rabo di macaco! Rabo di macaco!

Miguel, olhando na direcção apontada pelo garoto, reparou num buraco escuro meio tapado por um tufo de verdura. Já esquecido do seu cansaço, seguiu Xilokué e, ambos, cheios de curiosidade, puseram-se a espreitar à entrada da gruta... mas do macaco nem sombra!... A verdade é que tudo aquilo lá por dentro eram sombras, por isso mais uma menos uma...

Do fundo do buraco vinha um frio húmido que veio fazer imensas cócegas no nariz constipado de Miguel...

MIGUEL — Atchim!... "Baldita" constipação!

XILOKUÉ — Bongué!...  Bongué!...

Mas o bicho não dava sinais de vida.

MIGUEL — O melhor é entrarmos para ver se o encontramos!

XILOKUÉ — Xilokué num vai no escuro... passop!

MIGUEL — A...  A...  Atchim!

XILOKUÉ — Tu tá padecê! Eu vai no mato... Eu arranjará molhinho di erva chêrosa pá chêrá! Logo vai fica bom!

MIGUEL (remexendo nos bolsos) — O que eu queria era um lenço!... Oh! Oh! Achei!

XILOKUÉ — Lenço?

MIGUEL (radiante) — Melhor! A pilha eléctrica que ontem me deu o doutor! Agora já podemos entrar na gruta!

Miguel, sem esperar pela resposta do Xilokué, enfiou-se de gatas pelo buraco com a lanterna acesa, enchendo de luz amarela o corredor negro e soturno... O outro seguia-o um pouco contrariado. Apesar do desejo de encontrar o seu amigo macaco o terror do escuro e o conhecimento do perigo que sabia existir em certas cavernas onde os animais selvagens fazem covil, faziam-no hesitar.

Tremendo   de   frio   ou   de   medo,      ia   muito agarrado   a   Miguel,   como   se   ele   o   fosse   defen­der de qualquer fera que lhes aparecesse pela frente...

XILOKUÉ (parando e agarrando-se ao braço de Miguel) — Passop!

MIGUEL Ouviste algum barulho?... Será ele?

Mas não se ouviu mais nada, por isso continua­ram a andar, lentamente, explorando bem o caminho com o foco de luz antes de darem cada passo...

A caverna ia alargando e era preciso atenção, não fosse Bongué estar escondido num buraco ou atrás de alguma saliência da rocha.

Mas, de súbito, Miguel parou... pareceu-lhe ouvir um berro, que não era de macaco nem de morcego, como ouvira em Conímbriga' mas antes parecia um grito dado por qualquer animal misterioso!...

XILOKUÉ (recuando um passo) — Milho genti espera fora!

Aquele grito, embora fraco, tirara de repente a Miguel toda a coragem que até ali sentira.

MIGUEL — Vamos embora!  Depressa!

Mas, nesse instante, o foco da sua lanterna caiu sobre o macaco que, um pouco mais à frente, encarra­pitado na parede rugosa da gruta, coçava a barriguinha, com o mesmo ar de troça!

Já sem se lembrar do medo que acabara de ter, Xilokué correu para o seu amigo, enquanto Miguel que também se aproximara, apontava a lanterna bem para cima, direito aos olhos de Bongué para tentar encandeá-lo com o foco de luz.

Naquele sítio a gruta alargava, formando como que uma pequena sala de tecto em abóbada, próximo da qual o macaco estava empoleirado.

MIGUEL — O melhor é ires lá buscá-lo!

O rapazinho ia começar a subir pela parede rochosa, parede irregular onde era difícil encontrar sítio para meter os pés... Mas... de repente... parou!

XILOKUÉ — OhL. Ali!... Ali!... Bicho di feitiço! MIGUEL — Morcego?

XILOKUÉ — Rinocêronti!

MIGUEL (aterrorizado) — Rinoceronte aqui?

E, todo a tremer, procurava descobrir a fera nos cantos e recantos da caverna!...

XILOKUÉ (apontando o tecto) — Ali! Bicho di feitiço!

MIGUEL — Um rinoceronte no tecto?

XILOKUÉ — Tá lá, tá!... Ele vai fazê mal na genti!

Miguel sentia-se cada vez mais atordoado... Se por um lado lhe apetecia fugir imediatamente do rinoce­ronte, que sabia ser um dos mais ferozes animais de África, por outro não queria acreditar que naquela caverna tão estreita pudesse ter entrado tal bicho! E o macaco?

Esse continuava a subir pela rocha, não parecendo nada assustado. A sua calma veio dar maior con­fiança a Miguel.

MIGUEL — Tu não estarás maluco?... Tens a certeza que é mesmo um rinoceronte... grande? Assim? E Miguel esticava muito os braços, para explicar a Xilokué como o rinoceronte era grande, pois viera-lhe à ideia que ele se enganara no nome do animal a que se queria referir.

XILOKUË (tremendo de medo) — Grandi! Big! Big! Oh!

Então Xilokué, segurando com a mão gelada a mão de Miguel, apontou o foco da lanterna para cima.

MIGUEL —  Mas!...  Mas...  é uma pintura!

Era realmente uma extraordinária pintura, repre­sentando um rinoceronte, de cabeça baixa, como se fosse atacar algum invisível inimigo. Fazia impressão ver ali esse estranho animal ocupando quase completamente o tecto da gruta, pintado sabe-se lá porquê... sabe-se lá por quem... sabe-se lá quando...

E Miguel ficara-se parado a admirar aquela obra espantosa, que ao mesmo tempo lhe provocava uns certos arrepios pela espinha abaixo.

Mas Xilokué estava ainda mais aflito do que ele... Dominado pelas superstições antigas da sua tribo, fora levado a acreditar desde pequeno que as pinturas e gravuras que por vezes se encontravam em pedras e grutas não tinham sido feitas por mão de homem mas por qualquer divindade ruim, sempre pronta a vingar-se de quem tivesse a curiosidade ou o azar de desco­brir as suas obras.

XILOKUÉ (puxando por Miguel) — Vai embora! Vai nos pressa! Embora!

MIGUEL (reparando no macaco que continuava empoleirado) — Então não levamos Bongué?

XILOKUÉ — Eli logo vem!...

MIGUEL — E depois se não vem?... O melhor é levá-lo já... Segura na lanterna que eu vou buscá-lo!

Um tanto contrariado mas por outro lado cheio de vontade de reaver o seu amigo, Xilokué aproximou-se novamente da rocha onde ele estava, iluminando o caminho a Miguel que subia rapidamente para tentar apanhá-lo.

Mas o macaco continuava a trepar, até atingir o ponto mais alto da caverna, agarrando-se à saliência onde estava pintado o chifre do rinoceronte.

Xilokué susteve um grito de aflição... Temia acima de tudo o terrível castigo que o animal enfeitiçado lhes daria por Bongué se ter agarrado assim ao seu chifre, balouçando-se sem qualquer sombra de respeito...

Entretanto Miguel aproximara-se do sítio onde ele estava e ia a estender a mão para o agarrar quando, de repente, num salto, desses que só os macacos sabem dar, ele se atirou para os braços do seu dono!

Xilokué, que não esperava pelo mergulho do seu amigo, abriu as mãos, fechou os olhos, mas quando voltou a abri-los, não viu mais nada...

A lâmpada eléctrica que os iluminava acabara de se estilhaçar entre as pedras bicudas da gruta...

MIGUEL (horrorizado) — Par... partiste a... pilha?

Mas não teve resposta, apenas se ouviam uns leves gemidos cortados por uns soluços tão desesperados  que Miguel nem sentiu coragem para se zangar. A verdade é que se encontrava numa posição muito difí­cil, e, nesse momento, o seu principal problema era conseguir sair dali inteiro...

O mais rápido seria largar-se de repente, mas o salto no escuro, da altura em que estava, para as pedras aguçadas do chão enchia-o de terror... seria a última das coisas a tentar.

Procurou com o pé alguma cavidade na rocha por onde pudesse descer, mas não conseguia descobrir nada...

Como Xilokué parara de chorar e não se ouvia o mínimo ruído, Miguel tinha a terrível sensação de estar só, cego, surdo e sem ao menos se sentir apoiado em terra firme, completamente isolado num mundo misterioso e cheio de perigos desconhecidos...

MIGUEL — Xilokué!... Xilokué!... O que estás a fazer?

XILOKUÉ — Estás pidindo muloi 2 di gruta p'rá num fazê hanga3 na genti!

MIGUEL — Muloi da gruta?

XILOKUÉ — Sinhô... grandi... feiticêro! Ele vai chega... Eli vai zanga!

Então ouviu-se um berro medonho... Foi um berro fortíssimo que parecia vir das profundidades da Terra ou da goela de algum monstro terrível...

     Com o susto, Miguel largou as mãos e por momentos pareceu-lhe que voava, mas quase no mesmo instante aterrou desastradamente no chão.

Tremendo de medo e caminhando às apalpadelas Xilokué aproximou-se dele.

XILOKUÉ — Tu tá à padece?

MIGUEL — Dói... Doem-me os joelhos e as mãos... sinto... sinto aqui sangue!

XILOKUÉ — Eu vai ajuda!  Gente via fugi!

MIGUEL — Se eu fosse capaz de me pôr em pé!

Ajudado pelo amigo, Miguel conseguiu levantar-se. Todo ele tremia e tinha uma horrível impressão no estômago, como se fosse desmaiar. Mas, na sua cabeça ainda meio atordoada, um pensamento ia tomando uma força cada vez maior: "E se a fera, o deus ruim, o "muloi" do rinoceronte, aquela criatura misteriosa que ele não sabia como era, mas de quem já tinha ouvido por duas vezes os terríveis berros, viesse para se vingar deles... por onde haviam de fugir, naquela escuridão medonha?

Olhou à roda... Então os seus olhos, já habituados ao escuro, distinguiram uma pálida claridade, tão fraca que mal se via, mas foi o suficiente para o orientar.

MIGUEL (baixinho) — Xilokué! Vês aquela luz?... Deve vir da abertura do túnel por onde entrá­mos... Ajuda-me a ir até lá!

XILOKUÉ (baixinho) — Não. É olho di grandi muloi!

MIGUEL   (tremendo)      Ele   deita  fogo  pelos olhos?

XILOKUÉ — Tu vai vê!... Eli vai chega!

        Miguel nunca na vida se lembrava de ter passado tão horrorosos como aqueles!... Com o olhar fixo na ponta de luz que mal se distinguia, espe­rava a todo o instante ver surgir um monstro medo­nho, lançando chamas, pronto a vingar-se deles pela ousadia de terem entrado na sua caverna!...

Passaram minutos que lhe pareceram horas, ou dias, ou anos, mas nada do que esperava aconteceu. Entretanto na sua cabeça começaram a juntar-se ideias e os pensamentos tornaram-se mais claros...

MIGUEL (baixinho) — Não podemos ficar aqui toda a vida à espera que ele chegue!

XILOKUÉ (baixinho) — Eli tá ali... Espera na genti!

MIGUEL (baixinho) — Tens a certeza que aquele rinoceronte tem "muloi"?

XILOKUÉ (baixinho) — Certeza! Todos tem!

MIGUEL (baixinho) — Quem te disse?

XILOKUÉ (baixinho) — Cocoana sabi tudo!

MIGUEL (baixinho) — Cocoana?

XILOKUÉ (baixinho) — Homem velho sabi di feitiço!

MIGUEL (baixinho) — Chiiiu! Estou a ouvir qualquer coisa...

— Miiii... guel!... Miiii... guel! — ouviu-se ao longe.

MIGUEL — Ouves? Estão a chamar-me!

XILOKUÉ (baixinho) — É eli! Eli tem esperto na cabeça. Eli tá chama! Passop!

— Mi... guel! — a voz de Ana soava agora muito fraca.

      MIGUEL  (furioso)  — Qual passop,  nem meio passop! Julgas que não conheço a voz da minha irmã? É ela! É ela quem deve andar à nossa procura!

E, atirando com todas as crendices e medos para trás das costas, Miguel resolveu avançar corajosa­mente na direcção da frincha de luz. Ia devagarinho, tropeçando aqui e acolá nas pedras da gruta.

Sentia as pernas pouco seguras e as feridas das mãos e dos joelhos doíam-lhe e continuavam a deitar sangue, mas a esperança de sair daquele horrível buraco dava-lhe novas forças!

Nunca soube quanto tempo caminhou assim às apalpadelas, seguido de Xilokué que murmurava em chi-gorongosa frases incompreensíveis, destinadas a afastar os maus espíritos.

A luz que vira momentos antes tornava-se cada vez mais nítida. Viria aquela claridade da entrada da caverna ou seria obra de feitiço?

Só quando conseguiu espreitar e viu o sol bri­lhando pela saída do túnel, por onde tinham vindo, ficou aliviado de todos os terrores que sentira há pouco!

MIGUEL (alto) — Vamos, Xilokué! É tudo men­tira, não há nada! Não há cá nenhum muloi! Vamos embora! Embora!... Embora!

Quando chegaram cá fora a primeira coisa que viram foi Bongué ao colo de Ana todo repimpado.

MIGUEL — Olha para aquele malandro! Se o apanho... Nem sei o que lhe faço!

ANA — E eu faço-te o mesmo! Pregaram-nos um susto! Onde é que vocês se meteram?

Então foi preciso explicar como tinham entrado na gruta atrás do macaquinho, como o tinham encon­trado, e como ele se atirara para os braços do dono, partindo-lhe a lanterna, como Miguel caíra com o susto que apanhara ao ouvir uns horríveis berros, que pareciam ter vindo da goela de algum animal fantástico...

DR. ALMEIDA — Ou de algum animal verdadeiro...

MIGUEL — Não vimos por lá rasto de nenhum bicho...

XILOKUÉ —  Há rinoceronti!

MIGUEL — Oh! Agora já não me levas com as tuas crendices! Aquele rinoceronte não faz mal a ninguém!

DR. ALMEIDA (pasmado) — Um rinoceronte que não fazia mal a ninguém?

PEDRO (arregalando os olhos) — Havia um rino­ceronte na caverna?

MIGUEL — Havia... Quer dizer... Não havia... quer dizer, era só uma pintura!

GIL (mudando a voz) —  Um pintura?...

MIGUEL — Pois! Não tinha nada de especial. Era um rinoceronte que estava desenhado no tecto da gruta!

GIL (sacudindo) — Tens a certeza?

MIGUEL (rindo) — Tenho! Mas não vale a pena afligir-se tanto! O bicho não tem nenhum feitiço como o Xilokué julgava!

     GIL  (correndo  para  a entrada da caverna) — Quero lá saber do feitiço! Quero é ver essa pintura. E já!

DR. ALMEIDA — Calma, Gil! Calma!... Nin­guém entrará naquela caverna sem uma espingarda!... Além da pintura é possível que encontremos lá dentro algum animal feroz e teremos de levar armas para nos defendermos!

MIGUEL — E pilhas eléctricas! A mim ninguém me apanha lá dentro sem "maningue" pilhas eléctricas!

Rapidamente preparou-se a expedição. Os quatro miúdos levavam lanternas para iluminar o caminho e os homens espingardas carregadas para o que desse e viesse.

O que mais demorou foi convencer Xilokué a entrar novamente na caverna. Só se decidiu quando o Dr. Almeida lhe disse que se ele ficasse cá fora sozi­nho a cobra voltaria e lhe comeria o macaco! Por fim lá entraram. Miguel ia à frente, muito orgulhoso da sua descoberta a que começava agora a dar mais valor.

As feridas das pernas e das mãos que já tinham sido desinfectadas, quase não lhe doíam, mas no seu nariz inflamado pela constipação, o vento frio vindo do fundo da gruta, fazia umas comichões deses­peradas! Em breve chegaram ao sítio da pintura.

MIGUEL (apontado a sua lanterna para o rinoce­ronte) — Cá está ele! Atchim!

GIL — É espantoso!

DR. ALMEIDA — É de um realismo extraordinário!

O rinoceronte, iluminado pelos focos de quatro lanternas, via-se agora com muito mais nitidez. Percebia-se que o pintor tinha aproveitado a saliência da rocha para dar mais relevo ao desenho, desta­cando-a do fundo pela cor e pelo volume.

Depois das exclamações de Gil e do Dr. Almeida, todos tinham ficado calados admirando em silêncio aquela maravilha. Miguel e Xilokué porque já a conheciam antes de todos os outros e se sentiam muito importantes, no seu papel de guias, Pedro por se achar paralisado pelo espanto e pela admiração, André e Mateus porque aquele tipo de pinturas e gra­vuras rupestres sempre lhes metera um certo respeito supersticioso e Ana pela simples razão de ainda não ter encontrado no seu vocabulário reduzido nenhuma palavra capaz de dizer o que sentia, com categoria suficiente para causar boa impressão nos "grandes".

ANA (de repente) — Empreembrióstico!

GIL — O quê?

ANA — Empreembrióstico!... Quer dizer, giro, bestial, extraordinário, maravilhoso.

GIL — Aí está um adjectivo que andava a fazer falta nos livros de história da arte!

DR. ALMEIDA (rindo) — Toma nota, Gil, quando publicares os primeiros artigos sobre esta pin­tura não te esqueças de empregar esse termo!

GIL — Fica combinado! E a propósito, precisa­mos de fazer aqui umas fotografias a cores!

MIGUEL — Tem um encarniçado tão bonito o corpo do bicho!

ANA — Vê-se bem que foi pintado há pouco tempo!

GIL (troçando) Deve ter só alguns milhares de anos!

ANA (espantadíssima) — O quê?! Há milhares de anos os homens já sabiam pintar assim?

GIL — Encontraram-se no Norte de Espanha e em França pinturas feitas em grutas, semelhantes a estas, algumas delas com mais de dez mil anos! Estas são mais recentes, mas mesmo assim!...

ANA (piscando o olho) — Bem dizia eu que tinha sido feita há pouco tempo!

PEDRO — Essas grutas de que falou agora são as Altamira e Lãs...

GIL — Lascaux e outras mais antigas ainda como Aurinhac, Pair Non Pair, todas do Paleolítico!

PEDRO — E acha que esta pintura também é do Paleolítico?

GIL — Apesar de mais recente tem exactamente as mesmas características... Repara como está bem feita a cabeça do animal, como as patas estão dese­nhadas com tanta perfeição, como o artista desbastou a rocha com outra pedra mais dura para dar maior relevo ao chifre.

PEDRO — E já se encontraram mais pinturas destas em Moçambique?

GIL — Já! Principalmente ao Norte da província e na região de Manica onde nos encontramos 4 descobriram-se em rochas e cavernas pinturas mais ou menos semelhantes feitas em tons alaranjados, amare­lados e castanhos.

PEDRO — Vê! Acho isso indecente!

GIL (espantadíssimo) — Indecente?

PEDRO — Claro! No liceu fizeram-me empinar todos os nomes das grutas espanholas, francesas, aus­tríacas e não sei que mais... e nunca me falaram destas de Moçambique!

ANA — Deixa que eu quando tiver aulas de his­tória lhes ensinarei! Hei-de dizer à professora que já vi um rinoceronte amoroso feito pelo Paulo... não sei quantos!

GIL — Paulo não sei quantos?

PEDRO (rindo) — Ah! Ah! Ah! Ela está a falar no Paulo Eolítico!

GIL — Ah! Ah! Ah! Isso não é um homem! É um período da Pré-História em que os homens se serviam de utensílios de pedra lascada, viviam em cavernas e não sabiam semear as terras nem domesticar os animais...

ANA — Então o que é que comiam?

GIL — Os frutos e as raízes que apanhavam, os bichos que conseguiam caçar...

PEDRO — Não haviam de caçar grande coisa com arcos de madeira e pontas de seta em pedra!

GIL — Para eles a caça devia ter uma enorme importância. Calcula-se que para caçar um animal, esses primitivos o seguiam, observando os seus hábi­tos, os seus bebedouros favoritos, as suas horas de descanso, durante dias e dias até o conseguirem apanhar!

PEDRO — Por isso eram capazes de desenhar os bichos com tanta perfeição!

GIL — Supõe-se até que as cavernas e rochas onde foram pintados ou gravados fossem uma espécie de santuários, nas quais se faziam certos ritos mágicos...

ANA (estremecendo) — Então aqui faziam-se ritos mágicos?... Como eram?

MATEUS — Coisa di feitiço...

GIL — Pois! De feitiços em que hoje já não se acredita! Esses homens primitivos, depois de fazer o animal muito bem feitinho atiravam-lhe com setas, convencidos de que se conseguissem atingi-lo no dese­nho também lhe acertariam quando o viessem a encontrar.

MIGUEL — A-a-atchim!

DR. ALMEIDA — O teu pai, quando te vir che­gar constipadíssimo e cheio de feridas, há-de dizer que eu não tomei conta do filho como devia!

MIGUEL — O só Doutor "dão" teve culpa “denhuma"!

DR. ALMEIDA — Pois não, mas passaria a ter se te deixasse ficar mais tempo aqui ao frio. O melhor é ires-te embora para não piorares!

PEDRO — Eu vou com ele e de caminho trago a minha máquina fotográfica para tirarmos o retrato ao rinoceronte.

GIL É melhor trazeres a minha que tem flash. Sem isso não consegues nenhumas fotografias de jeito!

PEDRO — Está bem!  Eu volto já!

MIGUEL — Adeus! Não se demorem muito!

GIL — Não! Por enquanto preciso do André e do Mateus que têm força suficiente para me servirem de poleiro e assim eu posso fotografar alguns pormeno­res do nosso bicho, mas logo que se despachem desse serviço irão ter contigo!

Pedro e Miguel deixaram os outros entretidos a procurar pelo chão quaisquer objectos deixados ali pêlos homens primitivos e enfiaram por um estreito corredor que julgavam conduzir à saída da gruta.

Durante algum tempo, caminharam calados, mas a certa altura Miguel parou.

MIGUEL — Se calhar enganámo-nos!

PEDRO — Quando viemos para cá o caminho pareceu-me mais curto!

MIGUEL — Só se a sala do rinoceronte tem duas saídas!

PEDRO — Schiü! Não ouves nada? Parece água a correr! A gruta deve ser atravessada por algum no subterrâneo... Gostava imenso de o descobrir!

MIGUEL — Comigo não contes! Já me chegaram os sustos que apanhei hoje!

PEDRO — Andas sempre a armar-te em herói e, afinal, quando chegam as ocasiões não passas de um medricas!

MIGUEL — Se tu tivesses ouvido os roncos que eu ouvi há bocado, também fugias a sete pés!

PEDRO — Oh! Isso era algum morcegozito!

MIGUEL (virando as costas) És parvo, pá!... Vem-te embora!

PEDRO — Vai tu, se quiseres!  Eu fico!

MIGUEL — E depois se te perdes? Se partes a lanterna ou se és apanhado por algum monstro?

PEDRO — Morro! E então tu mandas pôr assim no jornal: jovem e corajoso explorador morto por um monstro desconhecido quando explorava uma ca­verna inexplorada...

MIGUEL — Explorador, explorava, inexplo­rada... Não tens jeito nenhum para pôr anúncios no jornal!... Eu faço uma melhor: dois jovens heróis víti­mas de um terrível monstro desconhecido quando exploravam uma caverna desconhecida!

PEDRO — Hum! Desconhecido e desconhecida também não fica bem!

MIGUEL — Pois não! Mas se morrermos os dois ninguém põe este anúncio no jornal!

PEDRO (rindo) — E se não morrermos, para que é que ele serve?

MIGUEL — Para nada!... Nessa altura faz-se um muito mais bonito: "Dois jovens heróis descobrem, com o risco da própria vida, um fabuloso animal de uma espécie desaparecida há milhões de anos!"

PEDRO — Isso! Um monstro pré-histórico, um enorme dinossauro com vinte metros de comprido com o corpo de hipopótamo e chifre de rinoceronte...

MIGUEL — Em oiro!

PEDRO Estás sempre a imaginar coisas que não podem existir!

MIGUEL — E o teu dino... existiu alguma vez?

PEDRO — Já pois! Os dinossauros eram bichos enormes que enchiam a terra antes de aparecer o pri­meiro homem...

MIGUEL — E não ficou nem um?

PEDRO — Dizem que não... mas é capaz de ter ficado!

MIGUEL — Aqueles berros que ouvi ainda agora se calhar eram do tal dino...

PEDRO — Dinossauro!

MIGUEL — Esse mesmo!

PEDRO — Quem me dera ver um! Mas estou com a impressão de que um bicho tão grande não caberia numa gruta tão estreita como esta!

MIGUEL Sabes lá se a gruta é sempre assim? Pode alargar imenso para aquele lado... até pode ter outra entrada...

PEDRO — Pois pode!  Vamos procurá-la!

E Pedro recomeçou a andar, logo seguido por Miguel, que subitamente perdera o medo com o entu­siasmo de encontrar o fabuloso animal descrito pelo irmão.

Não andaram muito sem que encontrassem o rio que já tinham ouvido. Era um riacho de água transpa­rente que saltava entre pedras numa longa cantilena de milhares de anos.

Por algum tempo seguiram ao longo do seu curso e acabaram por chegar a uma grande sala, quase toda ocupada por um espantoso lago subterrâneo.

A sala parecia não ter outra saída além de um estreito buraco por onde a água se escapava a toda a velocidade.

MIGUEL — E agora?

PEDRO — Agora voltamos para trás! Não pode­mos passar daqui!

MIGUEL — Ora bolas! Tanta discussão e afinal não encontrámos nada!

PEDRO (virando a lanterna para o tecto) — Nem ao menos há pinturas!

MIGUEL (virando a lanterna para o chão) — Nem rasto de animais!... Só gostava de saber quem terá dado aqueles roncos tão esquisitos...

PEDRO (troçando) — Isso foi uma "ouviragem!" MIGUEL — "Ouviragem?" O que é isso?

PEDRO — Não sabes que no deserto quando há muito calor e muita luz se têm miragens? Quer dizer, vêm-se coisas que não existem... É quase o mesmo... nas grutas, quando há muito frio e muito escuro... e um bocado de medo, têm-se "ouviragens", quer dizer, ouvem-se coisas que não existem!

MIGUEL Vai gozar outro, pá!

Estava furioso. Naquele momento teria preferido encontrar o mais horroroso dos monstros do que ter de aturar toda a vida as gracinhas daquele género dos irmãos e dos amigos! Ainda não desistira de descobrir qualquer passagem por onde pudessem continuar as buscas, apesar do frio e da constipação, que estava cada vez pior!

MIGUEL — Pedro! Pedro! Achei!  Achei!

PEDRO — O dinossauro?

MIGUEL — Ainda não! Mas achei outra saída! Vem! Depressa! Vem!

Escondida por uma rocha mais saliente havia uma abertura que dava entrada a um corredor sombrio que parecia alargar lá para o fundo.

Com os corações aos saltos e a sensação de que iriam finalmente encontrar explicação para aquele mistério recomeçaram a caminhar. Mas, Pedro que ia à frente, parou passados instantes.

PEDRO (baixinho) — Não ouves vozes?

MIGUEL (baixinho) — Oiço!

PEDRO (baixinho) — Queres ver que demos a volta e viemos ter ao mesmo sítio!

MIGUEL (baixinho) — Deixa-te de conversas e segue para a frente! Quando lá chegares logo verás!

As vozes tornavam-se cada vez mais rápidas, cada vez mais fortes! E havia uma que dominava todas as outras. Era uma voz um pouco rouca, uma voz de alguém habituado a comandar e a ralhar com os outros... Não parecia nem a do Gil nem a do Dr. Almeida e muito menos as do Mateus ou do André.

Mas, de repente, as vozes calaram-se e tudo voltou a cair no silêncio. Pedro e Miguel, tremendo de medo e de frio, olharam um para o outro, tentando recupe­rar coragem para continuarem nas suas buscas.

MIGUEL Sabes se os dinossauros falavam como gente?

PEDRO — Se calhar falavam... e também deviam deitar fumo pela boca quando a abriam...

MIGUEL (impressionado) Tens a certeza?...

PEDRO (baixinho) — Não!... Mas cheira-me a tanto fumo...

MIGUEL (baixinho) — E também deitariam lume pelos olhos?...

PEDRO (baixinho) — Capazes disso eram eles!

MIGUEL (baixinho — Então deve ser por isso que eu estou a ver claridade no fundo do corredor...

PEDRO (baixinho) — É melhor apagarmos as lanternas e caminharmos muito devagarinho e sem barulho.

Miguel sentia-se agora dividido entre um grande desejo de descobrir esse animal fantástico que a sua imaginação lhe fazia ver como o mais terrível monstro e um medo enorme de vir a ser apanhado por ele.

Com a cabeça baralhada e o coração apertado seguia atrás de Pedro, cuja figura se recortava na cla­ridade do fundo da galeria por onde caminhavam ambos.

De repente viu-o parar, acenando-lhe com o braço como a dizer para vir mais depressa.

Esquecendo todos os seus receios, ia avançar mas de repente ficou paralisado...

Um grito enorme, mais forte do que todos os outros que ouvira até ali, rebentou na caverna, ecoando sinistramente pêlos seus corredores. Fe­chou os olhos para não ver e tapou os ouvidos para não ouvir.

      Estava certo de que o irmão já fora descoberto pelo dinossauro, ou talvez até já tivesse sido devorado pelo monstro... Mas quando abriu os olhos viu com o maior espanto que ele continuava no mesmo sítio, acenando-lhe com o braço como se nada tivesse acontecido.

Quase de gatas arrastou-se até ao fundo do corre­dor, tremendo de medo. Via agora o irmão com um dedo sobre a boca, pedindo-lhe para não fazer baru­lho e para apagar a luz, e, certo de que qualquer ruído se poderia tornar muito perigoso para ambos, cami­nhava o mais cuidadosamente possível. Mas, Pedro, já aborrecido com tanta demora, veio puxá-lo por um braço, ansioso por lhe mostrar o que vira mais adiante do sítio onde tinha estado.

Porém, Miguel, cego pela claridade vinda de uma abertura rasgada na rocha, a princípio não distinguiu nada... Só a pouco e pouco pôde ver que se encon­trava numa grande sala, por onde o riozinho já seu conhecido se escapava para o exterior.

Então começou a procurar o monstro, cheio de ansiedade; mas por mais que procurasse não o desco­bria. Só quando Pedro lhe agarrou no nariz,  virando-Ihe a cabeça para o fundo da caverna, conseguiu diferençar qualquer coisa mexendo atrás de um rochedo.

PEDRO (baixinho) — São  homens!

Miguel queria responder ao irmão, mas o seu nariz dava-lhe tantas comichões que tinha de o segu­rar com toda a força para não dar um espirro.

PEDRO (baixinho) — Estão a mexer numa fogueira meio apagada!

MIGUEL —...

PEDRO Olha! Olha! É... É... o senhor Paim!

Então Miguel, cheio de espanto, largou o nariz e, no mesmo instante, soltou o maior espirro da sua vida!

MIGUEL — A-a-a-atchim!

As abóbadas aumentaram e repetiram o seu espirro tantas vezes que o Sr. Paim e os seus compa­nheiros se levantaram alarmados.

SR. PAIM (gritando) Ouviram? Está alguém a espiar-nos! Depressa, Sabonete! Toalha! Apanhem-me esse malandro antes que ele fuja!

Mas o "malandro" estava demasiadamente atrapa­lhado para conseguir pôr-se em fuga e repetia sem parar:

— A-a-atchim... A-a-a-atchim... A-a-atchim...

 

1 Aconteceu em Conímbriga.

   2 Muloi — Feiticeiro.

     3 Hanga — Feitiço. 

                4  IMPORTANTE — Ver o mapa de Moçambique em que estão marcados os locais onde se encontraram pinturas e gravuras

                rupestres.

Como vêem, não aparece indicada nenhuma estação na serra da Gorongosa, mas as estações marcadas com os números l, 2 e 25 encontram-se relativamente próximas.

A gruta descrita neste livro não existe realmente, mas, sendo a serra da Gorongosa rochosa e possuindo grutas que ainda não foram exploradas... Quem sabe o que lá se virá a encontrar?