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Apesar de todas as
aventuras da noite anterior os três irmãos dormiram lindamente e já era tarde,
desta vez mesmo muito tarde, quando se despacharam dos banhos, dos pequenos
almoços, das arrumações e conseguiram sair do seu rondável.,
Cá
fora não se via ninguém. Os turistas que geralmente passeavam por ali ou descansavam à
sombra dos chapéus-de-sol da piscina, deviam ter partido há muito para os passeios nas picadas... Os criados deviam
ter já acabado de arrumar todos os quartos... O Dr. Almeida e Gil já há muito
que deviam estar ocupados nos seus trabalhos... Até o próprio Xilokué já devia
ter desistido de esperar por eles.
Sem saber o que fazer,
foram até à piscina e sentaram-se debaixo de um chapéu-de-sol.
PEDRO — Se tivesse fato, tomava banho!
ANA — Também estava a pensar nisso!
MIGUEL — E eu estou a
pensar que tomo mesmo assim!
ANA — Assim vestido?
Miguel encolheu os ombros
e, tirando os sapatos, mergulhou na piscina, fazendo de propósito para salpicar
os irmãos.
ANA — Parvo!
MIGUEL — Parvos são vocês
por não virem tomar banho! A água está óptima!
Miguel rebolava-se, dava
mergulhos e nadava em todos os estilos
possíveis e imagináveis, mas, os irmãos, apesar de já estarem cheios de
inveja, fingiram não o ver.
Felizmente,
Xilokué veio acabar com aquele suplício. O miúdo corria para eles rindo e saltando com o ar mais feliz deste mundo. Tinha
vestido a farda que Sabonete deixara no seu quarto e parecia mesmo um palhaço
trapalhão: os calções curtos chegavam-lhe a meio das pernas, a camisa
sobrava-lhe por todos os lados e o cinto de couro, muito largo, quase lhe dava
duas voltas à cintura.
XILOKUË (cantando e dançando) —
Xilokué vai cá ficá,
no Chitengo tabaiá!
ANA (muito
admirada) — O
quê?... O quê?... Explica lá isso
melhor!
XILOKUÉ (continuando
a cantar) —
Messungo
1convidá,
Xilokué vai cá ficá!
PEDRO (começando a
perceber) — Ah! Então já não voltas para ao pé dos teus pais?
XILOKUÉ — Teus pais tem maningue minino.
ANA — E não se ralam que tu os deixes?!
XILOKUÉ — Eles vai ficá
canimambo2 no Messungo!
PEDRO — Isso quer dizer
que eles vão ficar muito agradecidos ao doutor Almeida quando ele lhes pedir
para tu ficares cá no acampamento?
XILOKUÉ — É!
ANA — Mas não começas já
a fazer o serviço do Sabonete, nem vestes essa farda, com certeza!
XILOKUÉ (rindo) — Vais
ter farda nova, vais aprender no ler, vais ficar todo chibante!
E, Xilokué, tirando do
bolso das calças um papel, desdobrou-o e pôs-se a fingir que lia. Pedro,
sentado na sua cadeira, via perfeitamente à transparência que o papel tinha
apenas um desenho, mas não se desmanchou, esperando até o outro querer acabar.
PEDRO — Agora empresta-me!
Mal pegou na folhinha
amachucada, Pedro viu que era um mapa onde havia traços azuis e pretos, talvez indicando estradas e rios e em que alguém
marcara, a tinta, duas pequenas circunferências.
ANA (cheia de curiosidade) — o que é isso?
Miguel, que acabara de sair
do banho,
aproximou-se deles.
MIGUEL — Deixa-me ver, pá!
PEDRO (enxotando-o) — Não
me molhes!... Põe-te a andar de aqui para fora!
MIGUEL (encolhendo os
ombros) — Também não me interessa!... É um mapa da Gorongosa!
PEDRO (espantado) — Como é que sabes?
MIGUEL (afastando-se com
ares superiores) — Ainda não percebeste que sou um génio?
Aproveitando a surpresa
de Pedro, Ana arrancou-lhe o mapa das mãos e pô-lo sobre a mesa, debruçando-se
sobre ele.
PEDRO — Já viste que
dentro das circunferências há uns sinais esquisitos...
ANA (virando o mapa) —
Não acho nada esquisito! São um três e um quatro! Estavas a vê-los de pernas
para o ar!
Pedro sentia-se derrotado
com o desembaraço dos irmãos. Em poucos minutos tinham percebido tudo!... Tudo
não se pode dizer... Afinal nada estava explicado ainda!
Como Ana também não
despregava os olhos do mapa, só Xilokué notou que acabara de entrar no
acampamento uma das carrinhas com o Dr. Almeida e Gil, e tratou de fugir antes
que o vissem assim vestido com a farda de Sabonete. Os dois homens saíram do
carro e aproximaram-se da piscina.
GIL — O que estão vocês a ver tão interessados?
PEDRO —
É um mapa do parque que Xilokué encontrou no bolso do fardamento de Sabonete.
GIL (pegando no papel) —
Mostra!
PEDRO — Estes números
três e quatro devem querer dizer alguma
coisa!...
GIL (observando com toda a atenção) — Olha, o número três está mais
ou menos no sítio onde eu vos fui encontrar ontem com o carro empanado!
DR.
ALMEIDA — É verdade!... Foi exactamente nesse ponto!
ANA
— Como é que Sabonete podia saber o sítio onde. nós íamos ter a
pane?
PEDRO — Claro que não sabia
onde nós íamos ter a pane, mas podia saber onde iriam caçar ontem à noite!
GIL — Bravo, mestre
Pedro! Você até parece o detective sabichão
dos romances policiais!
DR. ALMEIDA — Sabem que
agora de manhã voltámos lá e encontrámos, escondidas entre os arbustos da
margem, armadilhas para apanhar crocodilos e um crocodilo morto a tiro lá
dentro!
PEDRO
— Ah! Punham as armadilhas num dia e depois era só esperar que caíssem os bichos e ir
lá matá-los na noite seguinte!
ANA
— Coitadinho do crocodilo!... Deve ter caído na armadilha naquele momento, por isso gritava
tanto!
Todos
se riram, pois ninguém conseguia sentir pena de um bicho tão antipático mas, mesmo
assim, concordavam que, se alguém caçava no parque, estava a desobedecer ao
regulamento.
Neste momento,
Miguel, ainda vestido com as calças e a camisa molhadas, aproximou-se do grupo; e, vendo que
o mapa era o centro das atenções, resolveu meter-se na conversa.
MIGUEL — Então, era ou não era a Gorongosa?
PEDRO (intrigado) —
Era!... Mas só queria que me dissesses como
conseguiste descobrir tão depressa, ainda para mais com o papel virado
ao contrário!
MIGUEL (rindo) — Ora! Não
havia de ser o mapa da Groenlândia!
PEDRO — Logo vi que foi "ó
calhas!"
MIGUEL
— Logo vistes mas não descobriste!... E eu descobri!
PEDRO — Então vê lá se
descobres esta: Estão aqui duas rodelas com os números três e quatro lá dentro,
uma está a marcar o sítio onde ouvimos os tiros ontem... E a outra?... O que é
que indica?
MIGUEL —
Indica o sítio onde iremos ouvir os tiros hoje! "Tá-se" mesmo a ver!
GIL (rindo) — Estes miúdos são espantosos!
DR. ALMEIDA (coçando a
cabeça) — E são capazes de ter razão!
GIL (esfregando as mãos)
— Isso quer dizer que teremos velada nocturna lá para
os lados da serra da Gorongosa, para tentarmos caçar os caçadores!
DR. ALMEIDA — Parece uma fraca pista para apanharmos esses malandros! É
claro que... esta ou outra rodela pode corresponder a um local onde eles tenham
caçado ontem... ou há mais dias... Reparem que até não se encontra dentro da
zona do parque...
PEDRO (apontando a
misteriosa rodelinha) — Na! Eles ainda aqui não vieram!
ANA — Como é que sabes?
PEDRO — Basta pensar um
bocadito... Se este papel foi encontrado no bolso de Sabonete, é porque também
faz parte da quadrilha e, como ele só se foi embora ontem, não podia ter andado
a caçar antes de sair do acampamento... ainda para mais tão longe!
DR. ALMEIDA — Está bem!
Mas por não terem ido ontem, ninguém nos diz que vão hoje, ou amanhã... ou no
fim do mês!...
GIL — Teríamos de ficar dias e dias à espera...
DR. ALMEIDA — Ainda hoje é
dia quatro!
PEDRO (saltando) — Dia
quatro! É o número que vem escrito nesta
rodela! Tenho a certeza que esta noite eles irão lá!
DR. ALMEIDA — Bravo,
Pedro! Acho perfeito o teu raciocínio! Esta
noite, eu e Gil, mais alguns criados de confiança, iremos bater esta
região e...
MIGUEL (interrompendo) — E... e... e nós?
DR. ALMEIDA (dirigindo-se
a Gil) — Achas que eles devem ir?:..
GIL — Acho absolutamente
indispensável!... Até tenho a impressão de que se eles não forem não se descobrirá
nada!
Nunca os três irmãos
tinham ouvido umas palavras que lhes soassem tão bem, nem um elogio quê lhes
soubesse melhor. É que pela primeira vez uma pessoa crescida fora capaz de
confiar neles como se fossem grandes!
Só depois do almoço começaram os
preparativos para a viagem que, desta vez, levaria bastante mais tempo. As duas carrinhas onde iriam foram
verificadas de cima a baixo pelo
mecânico do acampamento, e só depois
se começaram a arrumar as bagagens. E eram
tantas as bagagens! Meteram-se espingardas, cargas de dinamite, binóculos, máquinas fotográficas com teleobjectivas e flash, lanternas
eléctricas, sacos de dormir, mantas, almofadas; fora as comidas e as bebidas que deviam chegar e sobrar para mais de
três dias!
Xilokué
mais o seu macaco levantaram certos problemas: todos sabiam por
experiência própria como é insuportável o cheiro a macaco dentro
de uma carrinha fechada, durante toda a noite, mas o miúdo não se decidia a ir sem levar
o seu amigo!
Finalmente,
Ana achou a solução, lembrando que o bicho poderia dormir
dentro de um caixotinho, coberto por uma manta, em cima do tejadilho do carro. Então meteu-se mais uma manta e um caixotinho!
Quando as carrinhas
estavam já cheias que até parecia não caber
mais nada, entraram as pessoas. O Dr.
Almeida, Ana, Pedro e Mateus partiram primeiro; Gil, Miguel, André e Xilokué seguiram atrás.
Meteram
pela picada que leva à saída do parque, e antes de chegar à aldeia de
Gué Maria do rio Pungué, viraram à direita na direcção de Vila Paiva de Andrade.
Apesar de o Dr. Almeida e
André conduzirem a toda a velocidade
possível naquelas estradas poeirentas e de mau piso, ainda levaram mais
de três horas para lá chegar.
Vila Paiva de Andrade,
com o seu posto de administração, a sua escola, o seu hospital e a sua cantina-restaurante,
onde se vende tudo, pareceu-lhes uma terrinha simpática, onde apetecia
descansar.
O Dr. Almeida parou o
carro diante da cantina e logo daí a instantes André veio estacionar atrás
dele. Como um enxame de moscas que caísse sobre dois torrões de açúcar, um
grupo de rapazitos indígenas, que por ali andavam, vieram a correr para admirar
os turistas. O próprio dono da cantina, um indiano, saiu da loja, pronto a
ajudá-los.
O HOMEM DA LOJA — Os
senhores precisam de alguma coisa?
ANA (saltando do carro e
apontando a montra da loja) — Quero! Quero! Quero um desses cestinhos
giríssimos para levar à mãe! E quero aquela saia de palha! E quero uma capu...
uma capul...
DR. ALMEIDA — Ana!
ANA — Isso! Isso! Uma capulana!
DR. ALMEIDA (meio zangado meio devertido)
— Eu disse Ana!
ANA (sem perceber) — E eu
disse capul... É feio?...
DR. ALMEIDA (sem conseguir dominar o riso)
— É feio, é mesmo muito feio sair-se assim
de bordo sem pedir autorização ao
comandante. Deixa as compras para a volta, porque é tarde e estamos cheios de pressa!
Entretanto, Gil tinha-se aproximado.
Trazia na mão o mapa encontrado no bolso de Sabonete e um outro da zona da
serra da Gorongosa. Estenderam-se os dois
mapas em cima de uma mesa da esplanada e todos se vieram debruçar sobre eles, comparando-os.
GIL —
Precisávamos de uma indicação sobre o caminho que devemos seguir para a serra.
O
HOMEM DA LOJA — Não têm que se enganar! Os senhores seguem em
frente até à "farme" do Paim e depois, logo em seguida, começam a subir
a encosta direito ao rio...
MIGUEL (interrompendo) —
À "farme" do Paim? Então a quinta onde o senhor Paim tem uma criação
de gado é aqui?... Não sabia!
DR. ALMEIDA — Sabia eu!
Mas nunca pensei que lhe iríamos passar mesmo à sua porta!
ANA — Podíamos fazer-lhe uma visita!
PEDRO
— Se ele cá estivesse, mas como foi para a Beira!
O
HOMEM DA LOJA — Nunca se sabe quando está ou não; a maior parte
das vezes passa por aqui de noite...
GIL (olhando para o mapa
de Sabonete) — E depois do rio continua a haver estrada?
O
HOMEM DA LOJA — Para esses lados nunca fui, mas talvez aqui um dos rapazes lhe
possa dizer... Ó Chico! Sabes se há estrada para lá do rio?
CHICO — Pouca...
GIL — E é boa?
CHICO — Pouco...
GIL — Mas pode subir-se a serra?
CHICO — Pouco...
Como as informações
eram poucas e o tempo também não era muito, resolveram ir andando,
decididos a resolver por si próprios os problemas que encontrassem
pelo caminho.
Passada a
"farme" do Paim, onde bois e vacas pastavam sossegadamente entre o
capim altíssimo, a estrada começava a subir. Aproximava-se da serra.
Na região da montanha o
clima é mais fresco e húmido e a vegetação
muito mais rica do que na planície. Riachos e ribeiros descem lá do
alto, correndo entre as encostas, e ao longo dessas linhas de água cresce a
floresta em vários andares; junto ao chão, os arbustos,
cobertos de folhagem espessa e emaranhada que podem esconder todos os animais
rasteiros, todas as pequenas víboras, como as surucucus e as mambas peçonhentas.
No primeiro andar é o reino das trepadeiras,
que enroscadas nos troncos grossos e nos longos ramos; encobrem as
jibóias de dorso sarapintado e os leopardos com malhas no pêlo, mesmo próprias
para poderem passar despercebidas entre as folhas esverdeadas. Mas, lá no alto,
às copas das grandes árvores só chegam as
águias e os outros pássaros selvagens,
cujos ninhos ficam encarrapitados nos morros da serra.
A certa altura começaram
a ouvir um ruído distante que cada vez se tornava mais nítido.
PEDRO — O que é isto?
ANA — Parece o motor de um avião!
MIGUEL
— Talvez seja o helicóptero dos bandidos carregados com peles dos animais
assassinados...
DR. ALMEIDA (sorrindo) —
Podia ser um belo motor, mas não de avião nem de helicóptero...
PEDRO — Então de que é?
DR. ALMEIDA — Já vão ver!
A estrada subia cada vez
mais em curvas e contracurvas apertadas e perigosas, quando, de repente, uma
enorme catarata, desdobrando-se em três maravilhosas quedas-d'água, surgiu
diante dos seus olhos, assombrados. Pararam os carros e saltaram todos em
terra, vindo debruçar-se sobre o precipício.
O barulho era
ensurdecedor. Aquela imensa cortina de água, feita espuma branca, ao cair
sobre os rochedos do leito do rio soltava uma espantosa nuvem de minúsculas
gotas, num nevoeiro onde os raios de sol se transformavam em arco-íris.
Era surpreendente!
Ana só encontrou um
adjectivo capaz de resumir toda aquela maravilha:
ANA — É giríssimo!... É
incrivelmente giro!
DR. ALMEIDA (fingindo-se
zangado) — Giríssimo, uma coisa tão bela? Para ti tudo é girol. Tudo tem a
mesma categoria, desde o macaco do Xilokué aos cântaros da serra da Estrela ou
à espada de Afonso Henriques!
Xilokué aprovou com a
cabeça. Ana não disse nada, mas ficou a pensar que na próxima ocasião havia de
encontrar um termo mais próprio.
Mas
não se podia perder tempo; ainda faltava percorrer a parte mais
difícil do caminho, onde a estrada por vezes desaparecia sob o matagal e era
preciso abrir passagem para os carros poderem avançar.
Gil ia agora à frente,
acompanhado pelos dois rapazes.
Todos os três se
debruçavam sobre os mapas, medindo distâncias e fazendo contas de cabeça para
conseguir transformar em quilómetros os centímetros marcados no papel.
PEDRO
— Os mapas são ambos do mesmo tamanho?
GIL — Felizmente! Senão
ainda era preciso fazer mais contas! Reparem que o mapa de Sabonete até parece
copiado por cima do outro. Estão ambos à escala de um por quinhentos mil.
PEDRO — Isso quer dizer
que cada centímetro vale...
GIL — Cinco quilómetros!
MIGUEL — E quantos
quilómetros já andámos desde a Vila Paiva de Andrade?
ANDRÉ — Quarenta
quilómetros, siô!
PEDRO (medindo o mapa) —
Quarenta quilómetros são oito centímetros, portanto, estamos a chegar!
GIL — Pois estamos!... É
claro que esta rodela com o número quatro não deve estar exactamente no sítio
onde eles vêm caçar, mas o melhor é pararmos ali naquela mata, junto ao
riozinho, e aguardar os acontecimentos.
MIGUEL — Podíamos ir até
ao rio ver se por lá estão armadilhas para apanhar crocodilos!
GIL — Só se os caçadores fossem parvos!
PEDRO (admirado) —
Porquê?!... Eles também as tinham armado ontem no Urema!
GIL — Pois tinham, mas o Urema é um rio de
águas mornas e calmas com grandes fundões,
como os crocodilos gostam; este não passa de um riacho remexido
e frio. Seria
tão estúpido procurá-los
aqui como procurá-los no Tejo!
MIGUEL
— Então o que é que os caçadores vêm cá fazer?
GIL
— Devem procurar quaisquer outros animais nestas
regiões... Talvez cobras... a pele da cobra vende-se, como a do crocodilo, para fazer
sapatos e malas.
MIGUEL — Quando se ouvirem tiros se verá...
GIL — Agora o mais
importante é escondermos bem as carrinhas
para eles não desconfiarem que estamos
aqui...
André, ao fim de algumas
manobras, conseguiu disfarçar o carro entre o matagal, de forma que só quem chegasse muito perto conseguiria vê-lo, e o
Dr. Almeida fez outro tanto.
Então todos sairam para
melhor poderem gozar aquela paisagem extraordinária. Encontravam-se numa região completamente selvagem, diante dos altos
píncaros da serra da Gorongosa.
Ali tudo era verde e
húmido, e do emaranhado espesso da verdura saía um
cheiro intenso, formado de mil perfumes
confundidos, que apetecia respirar... Mas à medida que a serra tomava
altura toda aquela vegetação ia desaparecendo, deixando à vista o seu corpo escuro e rochoso, a que o silêncio desse
fim de tarde sombrio dava uma impressionante grandeza...
ANA
(estremecendo) — Eu volto para a carrinha!
MATEUS — Eu vai no
mato busca lenha pá foguêra!
ANA — Vão acender uma fogueira? MATEUS — É pá afasta animal ruim!
GIL — Tenham paciência, mas
esta noite não acenderão o fogo. Assim daríamos logo notícia da nossa presença
aos caçadores que pretendemos caçar! Como
temos duas carrinhas poderemos dormir à vontade. Dividiremos entre os
homens as horas de vigia, pois deverá estar sempre um acordado e atento a
qualquer ruído suspeito lá de fora!
PEDRO — Eu também gostava de ficar de vigia!
MIGUEL — E eu também!
GIL — Nem pensem nisso!
Vocês precisam de dormir, e, se alguma acontecer, descansem que nós vos
chamaremos.
MIGUEL — Então deixe-me ficar com o Xilokué!
GIL — Como queiras,..
Desde que não se lembrem de ir dormir para o mato...
MIGUEL — Só se
quisséssemos acordar no papo de algum leopardo!
Como a noite se
aproximava a passos largos, o Dr. Almeida distribuiu uma ração de comida, água,
um saco de dormir e uma pilha eléctrica a cada um deles, e para os que tinham
de ficar de vigia durante a noite um cobertor, uma carabina e um termo com café.
O macaco ficou, como
estava combinado, metido no caixote coberto por uma manta sobre a carrinha,
onde dormiriam André, Mateus, .Miguel e Xilokué. Mas
quando se deitaram o bicho não parava de guinchar
e de remexer como se estivesse numa grande aflição.
XILOKUÉ — Ai! Ué! Ai! Ué! Macaco
tá a padece?
MIGUEL — Que ideia! Ele agora está óptimo!
XILOKUÉ — Eli está a ouvi
cheiro di leopardo ou cobra jubóia vai come neli!
MIGUEL — Não tenhas medo!
Eu tenho feitiço
para afastar bichos maus!
Quando
falou em feitiço, Miguel queria referir-se a sua espingarda, mas Xilokué
convenceu-se de que ele trazia qualquer objecto com poderes mágicos
e assim ficou
descansado a dormir o resto da noite.
Deitado no banco de trás
da carrinha, perto do pretinho adormecido, Miguel procurou manter-se acordado, atento ao que se passava, mas, lá fora,
não se ouvia o mínimo ruído. Até o
próprio macaquinho deixara de
guinchar... Mateus e André à frente ressonavam regaladamente, e Miguel, cansado da viagem e das emoções
da noite anterior, também se deixou dormir, e não acordou nem quando o Dr.
Almeida veio chamar o André para o substituir na velada nocturna.
Pedro, sozinho no outro
carro, não descansava como os outros, e até mesmo nos curtos momentos em que conseguia pegar no sono sonhava com os caçadores
furtivos que haviam de chegar... E, às quatro
horas da manhã, quando Mateus veio acordar Gil e este saiu do carro, foi
atrás dele.
PEDRO (baixinho) — Não consigo dormir!
GIL (baixinho — Pois
ainda dormia mais um bocado se não fossem
esses malandros...
PEDRO (baixinho) — Então
posso ficar consigo? Sempre lhe tiro o sono!
GIL — Bom! Já que os tais
malandros não vêm para nos animar!
PEDRO (baixinho) — Ainda
devem vir hoje... É dia quatro!
GIL (baixinho) — Cinco!
Agora já passa da meia-noite!
PEDRO (baixinho) — Pois passa!...
GIL (baixinho) — Podem vir só no dia quatro do próximo mês...
PEDRO (baixinho) — É verdade...
GIL (baixinho) — E podem
ter desistido da caçada!
PEDRO (rindo) — Mas
afinal você é nosso amigo ou é amigo dos malandros?
GIL (rindo) — Já estou farto de esperar!
Pedro entrou no carro e
trouxe de lá um saco com biscoitos e café.
PEDRO (oferecendo) — Coma
alguma coisa para matar o tempo!
GIL (baixinho) — E de
caminho mato a fome e a sede!
Sentaram-se ambos no
tejadilho da carrinha para, daquele posto de mira, melhor poderem vigiar em torno.
PEDRO
(olhando o céu) — Tantas estrelas e tão brilhantes!
GIL
— Já reparaste como são diferente das que se vêem em Portugal?
Estamos no hemisfério sul!
PEDRO — Por isso não vejo as Ursas nem a Estrela Polar... Como é que os navegadores
portugueses se conseguiam orientar de noite, quando não tinham bússola?
GIL — Aí está uma coisa
impossível, porque a bússola foi inventada
pêlos Chineses mais de mil anos antes de Cristo!
PEDRO (espantadíssimo) —
Mais de mil anos antes de Cristo? Tem a certeza? Não acredito!
GIL (troçando) — Bem, a
certeza absoluta não tenho... Compreendes, eu não
estava lá para ver!
PEDRO — Está a gozar comigo!
GIL — Foi só um
bocadinho, desculpa, já não tornarei a brincar até ao fim! A verdade é que a
data da invenção da bússula se perde na
noite dos tempos, e ao certo só sabemos que foram os chineses quem
ensinou aos Árabes a forma de se utilizarem, desse instrumento para com ele
encontrarem o norte...
PEDRO — Depois, os Árabes
ensinaram aos Portugueses...
GIL — E aos outros povos.
Sabemos que os cruzados já se serviram dela
para chegar à Palestina!
PEDRO — Então os capitães
das caravelas já levavam todos a sua bússolazita na algibeira!...
GIL — Geralmente ia
montada num suporte na cabine do comandante.
PEDRO — e não podiam levá-la no bolso?
GIL — Qual era a vantagem?
PEDRO — Para eles nenhuma,
mas para mim dava-me imenso jeito!
GIL — Então porquê?
PEDRO —
Suponha um barquinho à vela numa noite de tempestade nestas regiões dos mares
do sul... O capitão muito enjoado chega-se à amurada, nisto vem uma onda, o
barco quase se vira e a bússola... plof! Cai dentro
de água!
ANA (saindo da carrinha) — E depois?
PEDRO — Olá!... Também já acordaste?
ANA
(esfregando os olhos) — Já há imemso tempo que vos estava a ouvir, mas como falavam
baixinho e eu não percebia bem o que diziam achei melhor vir para mais
perto... Ora conta lá essa do capitão!
PEDRO — É a história de
um capitão que perdeu a bússola durante uma noite de tempestade e agora não
sabe como se há-de orientar!
ANA — Isso é facílimo...
Quando desaparecerem as nuvens procura no céu a Estrela Polar e...
PEDRO (apontando o céu) — E onde está ela?
ANA (espantadíssima) — Olha... caiu!
PEDRO (rindo) — Ah! Ah!
Ah! A Estrela Polar caiu!...Ah! Ah! Ah! Hás-de participar essa descoberta no
observatório mais próximo... Ah! Ah! Ah!
GIL (rindo) — E repara que
não foi só a Estrela Polar, foram as duas Ursas, a Cassiopeia e mais uma data
delas...
ANA (desconfiada) — Não se riam
mais e expliquem-me porque é...
GIL - Lembra-te que
estás no hemisférico sul, e, se há estrelas visíveis nos dois hemisféricos, as que
se encontravam mais próximas do Pólo Norte são apenas visíveis no norte e...
ANA — As que estão na
direcção do Pólo Sul... só se vêem no sul...
PEDRO — E há alguma
estrela a indicar o sul para o meu capitão se orientar?
GIL — Não, mas poderia
encontrá-la procurando no céu aquela constelação que ali vêem formando uma
cruz, o Cruzeiro do Sul, e ligando por uma linha imaginária a sua estrela mais
brilhante com outra mais brilhante ainda, Achernar, que vêem além. O ponto
acima do Pólo Sul fica mais ou menos a meio dessa
linha.
ANA (apontando) — Já percebi!... Não é
difícil! Nisto das estrelas o que eu acho
mais difícil de perceber não são essas coisas... É como eles
conseguem os nomes!
PEDRO — Ah! Ah! Ah! Esta
minha irmã tem cada uma! Quando se fundar o Clube das Asneiras hás-de ser "presidenta!"
GIL — Ah! Ah! Ah!
Realmente as estrelas têm cada nome!
ANA (furiosa) — Se também
acha porque se ri tanto?
GIL
— Grande parte dos nomes das estrelas chegaram até nós através dos Romanos
que, por sua vez, os tinham aprendido com os Gregos. Estes pensavam que os seus heróis
lendários eram premiados pêlos deuses e
colocados no céu para exemplo dos mortais. São os casos de Orion, Cassiopeia,
Hércules e muitas outras...
ANA — E as Ursas?
PEDRO — Dessas é que tu
costumas tirar mais exemplos!
GIL (rindo) — Vocês são
insuportáveis!... Eu ia a dizer que por vezes os astrónomos também dão às
constelações nomes de animais cuja forma fazem lembrar...
PEDRO — Está bom de ver
que os astrónomos nunca tiveram grande jeito para desenho!
GIL (rindo) — Realmente a
escorpião não se parece lá muito com um escorpião, .nem
a cisne com um cisne!
PEDRO — Agora pergunto
eu!... Os Gregos e os Romanos vieram até ao hemisférico sul?
GIL — Não me consta...
PEDRO — Então porque é
que algumas estrelas aqui também têm nomes
esquisitos como Achernar e outros assim?
GIL —
Naturalmente foram-nos buscar a diversas mitologias 3 … Acharam bonito!
PEDRO — Os astrónomos
queriam era "armar-se" em sabichões e agora quem se trama é quem tem
de decorar esses nomes incríveis!
ANA — Olha, Pedro! Aí
tens um ofício que te deve servir à
maravilha... com a mania de que és sabichão e sem jeito para desenho...
deves dar um bom astrónomo!
GIL (rindo)— Chega-lhe
Ana, para lhe tirar as peneiras!
MIGUEL
(saindo da carrinha) — Atchim! Estou "buito"
constipado. Foi da "hubidade" da serra!
ANA
— Qual humidade nem meia humidade, foi do banho que ontem tomaste vestido na
piscina. Nem ao
menos tiraste o fato molhado depois de sair da água! É bem feito!
MIGUEL — Tu tens...
Mas nunca ninguém chegou
a saber o que Ana teria porque, nesse mesmo
instante, se ouviu o estrondo de
qualquer coisa caindo no chão. Catrapuz!
Logo
se seguiram uns guinchinhos tão agudos e tão aflitos que todos
estremeceram de susto olhando à roda. Então repararam que o caixote
onde dormira o macaco desaparecera do tejadilho da carrinha,
mas só Ana e Miguel, por estarem mais perto, puderam ver à luz das estrelas uma
sombra misteriosa escorregar rapidamente
pela traseira do carro e sumir-se entre a folhagem fofa e emaranhada que cobria o solo.
ANA (gritando) — É uma
co... uma cobra enorme!
MIGUEL — Foi ela quem
deitou o caixote ao chão!
Gil
saltou rapidamente do seu poleiro e, pegando na espingarda, pôs-se
à procura do bicho para lhe atirar, mas a cobra, encoberta pelo
matagal e pela noite, desaparecera sem deixar rasto. Acordados pelo estrondo e pelo grito de
Ana, os que ainda dormiam nas carrinhas deitaram fora as cabeças estremunhadas.
DR.
ALMEIDA — O que foi'?... São eles?
GIL — Antes fossem!
Infelizmente não se ouviu nem um tirinho durante todo este tempo... Até já quase nos esquecíamos que estávamos aqui para
caçar esses malandros quando, de repente...
DR. ALMEIDA — É sempre assim!... Durante as longas vigílias os acidentes
surgem sempre quando as pessoas, já fartas de esperar, começam a convencer-se
de que não acontecerá nada!
GIL — Desta vez foi o
macaquito a vítima da nossa distracção!... Coitado! A esta hora deve estar no
papo da jibóia!
Os olhos de Xilokué,
demasiadamente grandes para a sua carita miúda, pareciam querer saltar-lhe das
órbitas e, no seu olhar húmido, lia-se a dúvida, o terror e o desgosto enorme
de ter perdido o seu amigo... Mas teria mesmo morrido o macaco?
Miguel, que não costumava
perder as esperanças logo às primeiras contrariedades, acendera a sua lanterna,
procurando encontrar entre a folhagem que os rodeava o bicharoco ou algum rasto
deixado por ele.
Todos os outros também se
puseram à procura, só Xilokué, sentado num velho tronco caído, completa-mente
mergulhado no seu desgosto, nem tentava descobrir o paradeiro de Bongué.
MIGUEL — Não estejas
triste... Talvez ele ainda apareça!
XILOKUÉ — Xilokué tem dor no coração!
Foi então que lá no alto, cantaram os primeiros pássaros, e no céu roxo
se abriu de repente uma barra amarela, cada vez mais clara, cada vez mais
larga, enchendo o horizonte. E cada coisa tomou a sua cor e os recantos
sombrios perderam o mistério e o tamanho que a noite lhes emprestara. É que
uni novo dia acabara de nascer e com ele a esperança dos que tinham perdido a
alegria!
1 Messungo — Senhor branco.
2 Canimambo — Agradecer.
3 Mitologias
— Histórias dos deuses e heróis
das diversas religiões.