3
Oh!...
Koka
missaba'
Oh!... Koka missaba
Eu vai partir, tu vai ficá
Oh!... Koka missaba
Oh!...
Koka missaba
Tu não vai vê eu a chorá...
Ana
acordou ao som desta canção cantada por uma voz ao mesmo tempo suave e
profunda.
Onde
estaria?... Olhou à volta e, ao ver os cortinados
com desenhos de animais selvagens, lembrou-se de repente. Deu um salto
da cama e foi abrir a janela. Como o sol já ia alto!... Tinha perdido
estupidamente mais de metade da manhã a dormir!... Que horas seriam?... Foi
buscar o seu relógio e viu que marcava seis e meia. Sacudiu-o com toda a
força... Aquele relógio, desde que tomara um banho de mar, nunca mais ficara
bom...
Saiu do quarto e foi
bater à porta dos irmãos, mas eles já se tinham ido embora. Ficou furiosa por não a terem acordado e resolveu tomar banho e vestir-se rapidamente para não perder mais tempo.
Cá fora, a mesma voz embaladora continuava cantando:
Ohl...
Koka missaba Oh!... Koka
missaba...
Ana
aproximou-se do jardineiro que cantava enquanto
regava a relva.
ANA — Estás a cantar uma
música muito bonita...
MATEUS — É canção di longi, di minha terra, canção landim!
E sorria mostrando uns lindos
dentes brancos, que Ana julgou
reconhecer...
ANA — Hás-de-me cantar mais canções da tua terra, Sabonete!
O sorriso do criado transformou-se numa gargalhada
divertida.
MATEUS — Sabonete num está cá...
Eu ser Mateus!
Ana despediu-se um tanto
envergonhada pela sua confusão e foi ter
com os irmãos que, perto do carro do Sr.
Paim, conversavam animadamente com outros hóspedes do acampamento. As
suas vozes, ao longe, pareciam repetir as palavras de Mateus: "Sabonete
não está cá! Sabonete não está cá!"
Mas foi Xilokué quem veio
confirmar que nessa manhã
encontrara vazia a esteira onde ele dormira.
Sabonete, sem temer os perigos do parque, tinha fugido durante a noite.
Nesta altura, o Dr. Almeida, Gil
e o Sr. Paim saíram do restaurante,
aproximando-se do grupo. Tal como os
outros, também eles discutiam o "caso Sabonete".
DR. ALMEIDA — Já não é a primeira vez que este diabo me faz partida! Volta e meia aparece
por cá o seu irmão Toalha, com uma grande lamúria, pedindo para o deixar
sair pois lhes morreu o pai, a mãe, o avô
ou a avó! A princípio acreditei na história, mas, a pouco e pouco,
comecei a desconfiar de tanta desgraça... Agora estou certo de que se tivesse
feito as contas teria verificado que estes rapazes já enterraram mais de três mães, dois pais e cinco avós!
SR. PAIM — E já repararam que esses óbitos se dão sempre poucos dias depois de receberem o ordenado?!...
É tudo a mesma malandragem!...
DR. ALMEIDA — Como em toda a parte há os bons e os
maus.
SR. PAIM (sorrindo) — E os
péssimos, como este vosso amigo!... Bem, por
este ano não vos aborreço mais!
GIL
— Ó Senhor Paim, já sabe que o vemos sempre
partir com saudades...
Nesse
momento apareceu Mateus trazendo as malas para o carro. Ia a carregar no botão
para abrir o porta-bagagens quando o senhor Paim
lhe deu um berro inesperado:
SR. PAIM — Arreda a mão, cabeça de
alho chocho! Não sabes que esse fecho está
estragado? Quantas vezes é preciso repetir-te para pores as malas
sobre o assento de trás!
MATEUS (estremecendo) — Sim, patrão! Eu vai pôr
tudo!
SR. PAIM — E não ficou nada no quarto que me vá
fazer falta na Beira?
MATEUS — Não,
patrão!
SR. PAIM — Bom, então, adeus! E toma lá saguati
2 para ti!
MATEUS (juntando as mãos) — Obrigado, patrão!
Patrão piro ano vai volta!
SR. PAIM — Pois! Pois! Até
à volta! Pois! Pois!
A sua
irritação tinha passado tão depressa como viera,
e, repetindo o seu estribilho favorito, meteu-se no carro e partiu. Por algum tempo o viram acenando com a mão,
até desaparecer ao longe na picada que leva à saída do parque.
PUM! PUM! PUM!... PUM! PUM!...
PUM! PUM! PUM!...
Soou um
tambor dos lados do restaurante, chamando os hóspedes para o pequeno almoço.
O
Dr. Almeida olhou para o céu.
DR. ALMEIDA — Já é tardíssimo! Tinha pensado
que hoje sairíamos cedinho e afinal com tantos
sarilhos tudo se atrasou e ainda
aqui estamos a esta hora!
ANA (olhando para o seu relógio) — O meu relógio
parou! Ainda vai nas sete e um quarto!
DR. ALMEIDA (sorrindo) — E quantas horas calculas que sejam?
ANA (olhando na direcção do Sol) — Aí umas dez e
meia.
DR. ALMEIDA Tanto tu como
o teu relógio estão adiantados! São sete em ponto!
ANA (admiradíssima) — Sete horas!... Não acredito!...
O senhor doutor estava a dizer que era tarde!
DR. ALMEIDA — E é! O Sol, nesta altura do ano, levanta-se por volta das cinco da manhã... Felizmente
estamos a caminhar para o Inverno e já começa a refrescar o tempo. Se fosse em
Janeiro teríamos de sair antes das seis horas para não nos derretermos na passeata!
ANA — Ah! Parece-me que percebo!... Às sete horas
parecem dez... Em Janeiro parece Verão... Em Agosto parece Inverno... e...
MIGUEL — E a minha
irmã parece parva... e...
ANA — E não é! E tu
pareces burro e és mesmo!
PEDRO — E se vocês se
calassem!... Sabem que o doutor Almeida já
está aborrecido com a fuga do Sabonete e ainda vêm para cá maçá-lo mais!
DR. ALMEIDA — Felizmente não temos falta de pessoal
para o serviço, mas faz-me uma certa impressão que ele tenha fugido assim,
durante a noite, com tantos perigos...
GIL — Também a
mim... Aqui há história!
DR. ALMEIDA — Não pensemos mais
nisso. De hoje em
diante só voltarei a lembrar-me do Sabonete e do Toalha quando tomar banho!... Agora temos de arrumar o nosso farnel que o cozinheiro já deve ter
preparado...
ANA (baixinho) — Ó senhor doutor! Deixe o Xilokué vir connosco!
DR. ALMEIDA — Está bem!... Mateus, diz ao cozinheiro para trazer as caixas com os pastéis,
as sanduíches, as frutas e os chuítes. E não se esqueçam do tarro do gelo e do
garrafão da água... maningue água! Vá,
depressa, não quero canganhiça!
MATEUS — O
quei, siô doto!
PEDRO — O que é isso
de canganhiça?
DR. ALMEIDA — É uma palavra que por cá se emprega e
significa coisa mal feita ou aldrabice.
PEDRO — E maningue? Chuítes?... Parece mesmo inglês
macarrónico!
DR. ALMEIDA — E é! Usam muitas
palavras inglesas, que pronunciam à
sua maneira, é claro...
assim dizem chuítes em vez de sweets quando falam em doces, moné em vez de money quando querem dizer
dinheiro, maningue em vez de many, que significa
muito.
MIGUEL —
É tudo à inglesa! Nas ruas da Beira os
automóveis até andam pela esquerda como em Londres!
DR.
ALMEIDA — Influências da África do Sul e da
Rodésia, que eram províncias da Inglaterra e são nossas vizinhas a sul e a oeste de Moçambique. Assim os turistas
quando cá vêm já não se atrapalham com o trânsito!
MIGUEL — E os que vêm
lá da terra?
DR. ALMEIDA — Os portugueses são
tão simpáticos com os estrangeiros que até
modificam os seus hábitos para eles não estranharem!
ANA — Até parecem
coisas de certos macacos!
DR. ALMEIDA (muito
admirado) — Qual raça?
ANA — A raça dos
macaquinhos de imitação!
Quando finalmente ficaram prontos os cestos e os
garrafões, arrumaram-se no fundo da carrinha juntamente com máquinas de filmar, máquinas fotográficas e uma caixa
contendo cargas de dinamite para o que desse e viesse.
Mas, ao arrumarem tudo, ninguém reparou que debaixo do oleado do chão Miguel tinha vindo esconder
qualquer coisa!
O Dr. Almeida, de espingarda ao
ombro, foi o primeiro a entrar para o
carro, logo seguido por Ana, Miguel, Pedro e Xilokué, mais o seu macaquinho Bongué.
Meteram pelo mesmo caminho por onde tinham passado
na véspera, mas, antes de chegarem à casa dos leões, viraram à direita, em
direcção aos lagos.
Por toda a parte se viam manadas de zebras, bois-cavalos e inhacoses, pastando o capim alto, ou
grupos de impalas-vermelhas que, ao
ouvirem aproximar-se o carro, se lançaram em correrias e saltos espantosos,
até encontrarem refúgio nalgum tufo de verdura...
Aproximava-se o meio-dia e,
àquela hora em que, nos
meses de Dezembro ou Janeiro, o calor seria insuportável, em pleno Abril podia passear-se pelas
picadas do tando, onde corria uma
leve aragem cheia de estranhos perfumes de
ervas aromáticas e selvagens.
O céu, extraordinariamente claro,
cobria tudo como uma abóboda azul que a oeste
vinha assentar na grande serra da Gorongosa.
ANA (apontando a serra) — O parque vai até além?
DR. ALMEIDA — Termina nos contrafortes da serra.
ANA — E não podemos
lá ir?... Deve ser giro...
DR. ALMEIDA —
É muito bonito mas...
ANA
(gritando) — Ai, pare! Peco-lhe! Pare! Pare!
Todos olharam à roda, assustados.
Um pouco adiante, num bosque de acácias
espinhosas, um elefante, pachorrentamente, colhia raminhos tenros de uma
árvore.
DR. ALMEIDA — Não tenhas medo dos
elefantes. São os
animais mais mansos do parque, desde que não
sejam atacados nem desconfiem de nós.
ANA — Está bem! Eles podem não desconfiar de mim... mas eu é que desconfio deles"... Na!... Na!... Nem no Jardim Zoológico! Nunca mais lhes vou
levar o molhinho de ervas!
DR. ALMEIDA — Fazes mal!... Olha
para aquela simpática manada!
Realmente viam-se mais elefantes na orla da mata de acácias, mas, felizmente para Ana, a picada afastava-se do sítio onde se encontravam. Começava
a respirar aliviada quando viu ao longe uma grande árvore barrando o
caminho.
ANA — Olhem para ali!
PEDRO — Quem terá atirado aquela árvore ao chão?
MIGUEL — Nos filmes de cow-boys costumavam
ser os índios, para não deixar seguir as
carripanas!
PEDRO
— Mas aqui não há índios nem cowboys!
MIGUEL — Mas pode haver bandidos que tenham querido
cortar-nos o caminho...
ANA (aflita) — A sério? Diga
lá doutor Almeida... Vamos ser
atacados?...
DR. ALMEIDA — Que ideia! Aquilo não foi feito com
segundas intenções...
ANA — E quais foram as primeiras?... Porque é que
atiraram a árvore abaixo?... Quem a atirou?... Parece que não nos quer dizer...
DR. ALMEIDA — Como insistes muito, sempre te direi
que foram os elefantes! Bem, compreendes, eles,
coitadinhos, por vezes já estão cansados de levantar a tromba à procura
de comida, e então deitam as árvores abaixo para se servirem mais à vontade.
ANA — Coitadinhas das
árvores!
DR. ALMEIDA (rindo) — São simpáticos mas um
bocadinho desajeitados... não fazem estas coisas por mal.
ANA — Já percebi que os
elefantezinhos são os seus queridos...
O
Dr. Almeida riu, e lá fez a manobra de contornar o obstáculo, saindo com a
carrinha da picada e voltando a entrar
alguns metros adiante. Aproximavam-se
da região dos lagos. O terreno era coberto
de erva rasteira e naquela planície imensa uns estranhos morros, parecendo fantasmas, tomavam altura.
PEDRO — O que é
aquilo?
DR. ALMEIDA —
São morros de muchem, formigueiros
de formigas-brancas.
PEDRO — Umas que
estragam tudo?
DR. ALMEIDA — São o terror destas
terras! Um formigueiro
bem organizado é capaz de destruir todo o
madeiramento de uma casa em poucos meses...
ANA — Olhem! Olhem! Já
vejo um lago!... Ih! Que bonito! Olhem aquelas
árvores sem folhas à beira de água!
MIGUEL — Têm umas
flores enormes.
DR. ALMEIDA — Já vão ver o que acontece às flores
quando eu tocar a buzina...
XILOKUÉ (rindo) — He! He! He!
Aproximavam-se do lago à maior
velocidade permitida
nas picadas: quarenta quilómetros à hora. Iam calados, com os olhos fixos nas grandes árvores
despidas, onde as flores brancas
davam um efeito extraordinário.
A pouco e pouco, começaram a ficar com a impressão
de que estavam enganados... Seria possível?...
Seria possível?... Mas só quando o Dr. Almeida tocou a buzina
acreditaram no que viam... As flores abriram
asas e transformaram-se em pássaros! Eram centenas de garças brancas
enchendo o céu com os seus voos e os seus gritos agudos!
ANA
— Que sonho! Nunca vi nada tão bonito!
PEDRO
(entusiasmado) — Deixem-me tirar uma fotografia!
Porém, antes que ele conseguisse preparar a máquina
os pássaros tinham fugido todos, indo pousar num embondeiro na outra margem do
lago.
DR. ALMEIDA (rindo) — Tira antes o retrato aos hipopótamos!...
Olha aquele tão engraçadinho com a boquita
aberta e um nenúfar no alto da cabeça!
ANA (rindo) — Que
monstro tão ridículo!
MIGUEL — Olha além tantos! ANA — Agora é que se pode dizer que são
montes de hipopótamos!
MIGUEL — E estás a ver aquelas
ilhotas no meio do lago?... São mais!
ANA — É verdade! Lá está um a
espreitar só com os olhitos e as
orelhinhas de fora!
PEDRO (arrumando a máquina no estojo) — Já tirei
três fotografias. Espero que fiquem bem.
MIGUEL — Por melhor que fiquem nunca ficam bem!
PEDRO — Porquê?
MIGUEL — Podes fazer uma fotografia linda, apanhar
todos os bichos em posições estupendas e os mais formidáveis lagos, campos ou
árvores, que nunca conseguirás mostrar isto...
PEDRO — Isto o quê?
MIGUEL (levantando os braços e respirando fundo) — Todo este tamanho enorme... este cheiro
a terra, esta calma, este silêncio!
PEDRO (troçando) — Eh, pá, agora deste em poeta?
DR. ALMEIDA — não te rias! O que ele diz é verdade.
E é outra grande lição da Gorongosa!
Seguiram. Aproximavam-se do rio
Urema, em direcção ao "Paraíso",
o local das merendas, onde iriam comer. O calor já apertava, mas o
"Paraíso", cheio de árvores ramalhudas, era ainda um lugar fresco
onde sabia bem repousar.
Todos saltaram da carrinha e começaram a tirar os
cestos que o cozinheiro tinha metido... E como é bom -abrir cestos de
piquenique! Lá de dentro saem caixinhas em
plástico de muitas cores cheias de empadas, rissóis, pãezinhos louros
com queijo, compota ou paio. Nesse dia o cozinheiro tinha-se esmerado. Numa caixa frigorífica vinham laranjadas, cervejas e
um formidável gelado de abacaxi.
Os meninos, quando acabaram de comer, sentiam--se
as pessoas mais felizes do mundo.
PEDRO — Agora só me apetecia deitar-me ali à sombra
daquela árvore! Mas... tenho medo que seja perigoso!... Pode aparecer algum
leão...
ANA — Ou uma elefanta!
DR. ALMEIDA — Não há perigo porque o local das
merendas é todo vedado com arame farpado. Aliás, nunca aparecem por aqui
animais perigosos. Vêem-se apenas
hipopótamos, mas esses só se afastam do rio para pastar depois do
sol-posto. Podem fazer a sesta sem receio. E, se alguma coisa houver, cá estará
a minha espingarda para vos guardar!
Os três irmãos e Xilokué deitaram-se todos, satisfeitos.
Ainda mal tinham tido tempo de enxotar as primeiras moscas e mosquitos que zumbiam à sua
volta, dando-lhes de vez em quando
valentes ferroadas, quando um ruído inesperado se começou a ouvir ao longe...
Era um misto de roncos, uivos e ladridos que cada
vez se tornavam mais violentos.
MIGUEL — Temos
pancadaria!
ANA — Serão alguns bichos a lutar?
DR. AEMEIDA — Não tenho a certeza mas está-me a parecer que há bocado vos enganei
quando disse que nunca apareciam por aqui animais ferozes...
ANA — Pelos berros, não parecem ser muito mansos!
PEDRO — Será um leão?
XILOKUÉ — Mini num vai vê!... Mim
té medo di mabeco!
DR. ALMEIDA — Mabecos?!... És capaz de ter razão!
PEDRO — Já no outro dia o André falou nos mabecos, mas ainda não percebi que bichos são
esses!
DR. ALMEIDA — Subam para o carro, e se Xilokué tiver acertado aposto que nunca mais se esquecerão
dos mabecos!
XILOKUÉ — Siô doto
num vai leva carro! Mabeco átácá logo neli!
DR. ALMEIDA — Não tenhas medo! Eu trago a minha espingarda e cargas de dinamite para os
afastar se for preciso. Vá, sobe. Senão ficas aqui sozinho!
Esta ameaça foi suficiente para acabar com a teima
do miúdo, que saltou para a carrinha o mais depressa possível. A batalha
continuava a ouvir-se ao longe, e o Dr. Almeida dirigiu-se para os lados de
onde vinham todos aqueles berros assustadores.
Os passageiros de trás iam ansiosos: Xilokué agarrava-se ao seu macaquinho, que parecia
também muito nervoso, dando de vez em quando gritinhos agudos e os três irmãos roíam as unhas e esticavam os pescoços
por cima do tejadilho da carrinha, na esperança de descobrir no imenso tando
deserto o sítio onde se travava a luta. A
primeira coisa que viram foi uma nuvem de pó onde não se distinguia
nada, mas de onde saíam
uivos furiosos, que, de vez em quando, eram abafados por um tremendo
rugido de leão.
PEDRO — Parecem cães
a ladrar!
ANA — Não querias mais nada?... Cães a lutar com leões!
XILOKUÉ — É mabeco, minina, bicho ruim! Siô doto
num vai chega ao pé! Mabeco ouve cheiro di carro e rói pineu!
Mas o Dr. Almeida procurava acalmá-lo. Estava
imensamente interessado em assistir àquela luta que sabia ser das mais ferozes
entre os animais da selva, mas que nunca
vira. E, sem dar atenção aos conselhos de Xilokué, meteu a carrinha a
corta-mato para poderem gozar de perto o espectáculo.
Estavam
bastante próximo quando conseguiram distinguir
o leão rodeado por uma matilha de vinte ou trinta cães que o atacavam
sem descanso. Apesar de já se verem por terra muitos mortos, cheios de sangue e
de poeira, os outros não pareciam dispostos a desistir.
MIGUEL — São então estes cães os célebres mabecos?
PEDRO — Livra! Que valentes!
ANA — E sem serem lá muito grandes... O nosso avô
tem um cão serra-da-estrela muito maior!
DR. ALMEIDA — Não são grandes mas são ferozes. É um
dos raros bichos que ataca o leão solitário!
PEDRO — E com uma gana! Olhem! Olhem como se atiram
a ele!... Ena! Aquele levou uma patada que foi parar a milhas!... Porque é que
ele se rebola na terra?
DR. ALMEIDA — Porque estes "encantadores"
cãezinhos comem os próprios companheiros de batalha, quando estes são mortos
pelo inimigo. Para os outros não notarem o cheiro do sangue, os feridos
cobrem-se de terra.
ANA — Bichos
horrendos!...
DR. ALMEIDA — Mas espertos. Reparem na forma como
eles conduzem a batalha! Andam à roda do leão, e, de vez em quando, lá salta um
para o atacar!
ANA (mordendo os pulsos) — AHHHH! Que horror! Olhem
aquele saltou-lhe em cima do cachaço e está a mordê-lo com toda a gana!... Ih!
Tanto sangue!
MIGUEL (apontando) — E aquele e aquele! Já foi
apanhado! O leão vai esfanicá-lo. Hum! Como ele uiva!... Já está!
PEDRO — Vocês são pelo leão ou pêlos mabecos?
ANA e MIGUEL — Pelo leão.
DR. ALMEIDA — Não vos dou os parabéns... O vosso
favorito vai perder!
MIGUEL — Não
acredito!
DR. ALMEIDA — Repara como ele começa já a
mostrar-se cansado e como está a perder sangue das feridas!
PEDRO — E os mabecos são tantos!... Ah! Se eu
tivesse aqui uma espingarda, atirava-lhes!
MIGUEL (muito corado) — Eu... eu sei que é
proibido, mas, mesmo assim, trouxe ali a minha espingarda de pressão de ar!...
Deixe-me atirar-lhes! Deixe-me rebentar com aqueles monstros antes que eles
matem o leão!
DR. ALMEIDA — Tu o que precisavas era de uma multa
por teres trazido a espingarda... mas, vá lá... por esta vez passas!
MIGUEL — E deixa-me
atirar aos mabecos?
DR. ALMEIDA — Com uma espingarda de pressão de ar,
o mais que podes é feri-los, irritá-los e fazer com que eles se voltem contra
nós.
PEDRO — Além disso é tarde de mais! O leão já caiu
e eles saltaram-lhe todos em cima!
ANA — Coitadinho do
leão!
DR. ALMEIDA — É a lei da selva! Uma lei sangrenta, mas capaz de ensinar tantas lições!...
Aprendemos hoje que nada é impossível, até uma matilha de cães pode
matar um leão, desde que haja vontade... E todos nós temos o nosso leão lá em
casa!
MIGUEL — Cá o meu é a matemática. Tenho de pôr os meus
mabecos todos a fossar para ver consigo vencer aquilo!
Perto do carro, passavam dois cães arrastando
pedaços de carne do festim. Lembravam um pouco as hienas, mas a expressão dos
seus olhos esverdeados era muito mais feroz.
ANA — Podem ser valentes, mas são
horrendos! XILOKUÉ (muito aflito) — Ai! Ué! Patrão! Ai! Ué! Mabeco vai átácá!
Já outros grupos se vinham aproximando e todos aqueles olhos transparentes, aquelas bocas
babadas de sangue, aquele cheiro a animal feroz que se desprendia
deles, provocavam arrepios na espinha dos meninos. Mas o Dr. Almeida não
parecia assustado e eles viram, com a maior aflição, que apesar de ter o motor
a trabalhar, não tentou fugir.
ANA — Vamos embora!
Depressa!
DR. ALMEIDA — Calma e confiança! É o que é mais preciso nestas ocasiões!
E, esticando o braço, tirou debaixo do seu banco
uma caixa onde estavam arrumados alguns cilindros forrados de papel pardo com
mechas na ponta.
Depois, pegando num, chegou a ponta do seu cigarro aceso à mecha de.cordel e atirou-o na
direcção dos mabecos. Só então avançou com o carro.
DR. ALMEIDA — Teve de ser assim, senão a corta-mato
apanhavam-nos num instante e...
Mas
não teve tempo de acabar a frase. A carga de dinamite
tinha explodido. Quando, daí a momentos, a fumarada se espalhou, os
meninos viram com espanto que todos os terríveis mabecos tinham desaparecido, mas, no céu azul,
maravilhosamente claro, recortavam-se já as primeiras
sombras negras: os abutres e os urubus vinham a chegar.
Quando finalmente o carro entrou na estrada, os
nossos amigos respiraram fundo.
DR. ALMEIDA — Bem! Agora
seguiremos pela picada
que passa perto do rio Urema. Assim daremos a
volta ao parque e chegaremos ao acampamento antes da noite. A esta hora é muito
curioso observar os animais que vêm beber nos bebedouros do rio... Por vezes um
ou outro mais distraído fica por lá...
PEDRO — Porquê?
DR. ALMEIDA — Por não ter
reparado em dois olhitos
muito disfarçados mesmo rente à superfície da água e que pertencem a um crocodilo manhoso, que, mal ele se aproxime, o filará por
uma perna e o levará para o seu fundão!
MIGUEL — Quem não vai para o pé
da margem sou
eu! Livra!
O rio Urema corria mansamente, cortando a imensa planície, onde, aqui e além, se viam
manadas pastando.
Um
grupo de macacos-cães que, de rabo alçado, bebiam
água numa pequena enseada, fugiram assustados ao verem o carro
aproximar-se. Por toda a parte havia uma grande paz e, na tarde que começava então
a cair, apenas se ouvia o chapinhar dos hipopótamos e os gritos agudos dos
pássaros de todas as cores que se cruzavam no céu.
ANA (estremecendo) — Tão bonito!... Só é pena estar
a arrefecer!
DR. ALMEIDA
— Pena é estar a aquecer!
ANA (admirada) — A
aquecer?
DR. ALMEIDA (indicando um dos mostradores do carro)
— Olhem!
PEDRO — Também já reparei que o motor está a deitar
um bocadinho de fumo. Deve estar muito quente. Posso ir ver se o radiador tem
água?
DR.ALMEIDA — Tu sabes
disto?
ANA — Oh! Ele é o mecânico lá de
casa! Percebe imenso de automóveis!
O Dr. Almeida parou, e, Pedro,
cheio de desembaraço, saltou do carro
e abriu o capot. No mesmo instante,
uma grande fumarada espalhou-se no ar.
DR.ALMEIDA — Desatarraxa a
tampa com cuidado! Não te vá saltar água a ferver para a cara!
PEDRO (espreitando) — Não há
perigo! O radiador não tem nenhuma!
ANA — Ainda temos
bastante no garrafão!
DR. ALMEIDA — Nunca se deve ficar sem água no mato!
Ë preferível irmos buscá-la ao rio!
MIGUEL —... E... e... os crocodilos?
DR. ALMEIDA — E... e... para que servem as nossas espingardas?... Vá!... Pega na tua que eu
levo a minha... E vocês juntem os restos de comida numa só caixa para
poderem encher as outras com água.