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Nessa noite, dormiram num hotel da Beira, ou melhor, não dormiram num hotel da Beira, porque estavam tão excitados com a ideia de que no dia seguinte voariam para a Gorongosa num táxi aéreo que os poucos minutos durante os quais conseguiam adormecer eram cortados por sonhos agitadíssimos, onde se misturavam leões, elefantes, búfalos e zebras em perseguições e batalhas medonhas...

Estafados mas felizes, ao fim daquela noite de insónias, levantaram-se de manhã muito cedo na espe­rança de que o Dr. Almeida aparecesse depressa para os levar... mas ele só apareceu ao meio-dia!

Uf! Finalmente chegaram ao aeroporto onde deze­nas de aviãozinhos pintados com riscas, com quadra­dos, com triângulos de cores, pousados na pista faziam um efeito engraçadíssimo.

DR. ALMEIDA — Vamos naquele com quadra­dos amarelos... gostam?

ANA — É giríssimo!

E Ana, sem sombra de medo, correu para o avião.

Desta vez não precisou de ajuda para apertar o cinto de segurança, nem se admirou, quando, poucos minutos depois de levantar voo, aterraram no pequeno aeroporto da Gorongosa.

Foi ela a primeira a saltar para o chão na ânsia de descobrir na planície coberta de capim, limitadas ao longe por tufos de árvores verde-escuros, algum dos animais com que sonhara...

Mas nada... Nem bichos... nem gente... nem nada...

Apenas o balão às riscas vermelhas e brancas des­tinado a indicar a direcção do vento se balouçava tris­temente no ar morno.

O Dr. Almeida parecia aborrecido por não apare­cer ninguém e os três irmãos já começavam a desani­mar com aquela triste recepção, quando viram surgir, correndo do lado das casas que formavam o acampa­mento, um rapaz muito alto, vestido de caqui'.

DR. ALMEIDA — Então, Sabonete, já se ti­nham esquecido de que eu chegava hoje?

Sabonete sorriu mostrando duas grandes carreiras de dentes muito brancos que se destacavam na pele escura.

SABONETE        Sabonete   nunca   esquece   siô doto!  Outros já vêm!

O segundo a chegar junto deles foi um branco, ou melhor, encarnado, pois ninguém se lembraria de chamar branco a um homem com o pescoço, as boche­chas e principalmente o nariz tão vermelhos.

Ana estava extasiada a olhar para aquele nariz batatudo, luzidio e bexigoso, quando o Dr. Almeida a despertou do seu espanto.

DR. ALMEIDA — Senhor Paim, quero apresentar-lhe três novos amigos, Ana, Pedro e Miguel, filhos de um velho colega do liceu.

SR. PAIM — Muito prazer... pois, pois, tenho muito prazer em os conhecer!

Logo atrás do Sr. Paim, vinham mais outros dois criados, também fardados de caqui bege, com grandes cintos de cabedal castanho.

O Dr. Almeida falou-lhes com o mesmo modo amável que tinha para toda a gente.

DR. ALMEIDA — Vivam o André e o Mateus! Entrem, entrem! Podem ir descarregando o avião, vêm aí caixotes com provisões para a farmácia e para a despensa! Levem as malas dos meninos para um dos rondáveis livres.

Já o Dr. Almeida e os três irmãos iam a atravessar o grande portão de rede, que separa o campo de avia­ção do acampamento, quando viram aparecer ao longe a figurinha mirrada de um miúdo indígena.

Apesar do calor o rapazinho corria a toda a velo­cidade, chamando-os com grandes gritos e acenos de uma das mãos, enquanto a outra segurava contra o peito qualquer coisa embrulhada numa capulana2 aos quadrados  de várias cores.  Quando chegou ao pé deles vinha ofegante.

RAPAZINHO —  Eu trazê... doto di bicho... sagui doenti!

E, abrindo o pano, descobriu uma carinha de bebé enrugada e feia, onde dois olhitos muito tristes metiam dó...

RAPAZINHO (implorando) — Salva sagui, siô doto!

DR. ALMEIDA Vamos lá a ver! Quem és tu? De onde vens? Como te chamas?

RAPAZINHO — Eu chamas Xilokué, vens do aldeia Gué Maria do rio Pungué.

DR. ALMEIDA — E vens a pé desde a aldeia?

RAPAZINHO — No pé sim,  siô doto!

DR. ALMEIDA Caminhaste dezassete quiló­metros sozinho?! E não sabes que é proibido andar pelo parque? Não sabes que é perigoso? Pode vir leopardo!

RAPAZINHO — É,  sim siô!

DR.  ALMEIDA — Devias ser castigado!

RAPAZINHO (abanando a cabeça) — É, sim siô!

DR.  ALMEIDA — E agora?

RAPAZINHO — Agora tu salva meu sagui, tu dá castigo a eu, e eu contenti!

DR. ALMEIDA (rindo) — Uma tal devoção tem de ser recompensada, não acham?

ANA — Pois claro! Agora tem de tratar o macaco! Ainda para mais ele é tão giro!

PEDRO — E o miúdo, coitado! Fartou-se de andar e arriscou a pele para o salvar.

MIGUEL — Deixe-o ficar no acampamento!

DR. ALMEIDA (abrindo o portão) — Bem! A pedido de vários ouvintes, podem entrar o Xilokué e companhia!

O acampamento que os meninos pensavam ser composto por barracas de campanha ou tendas des­montáveis era afinal uma pequena aldeia onde havia restaurante, bar, lojas, correio e até uma piscina redonda!

As casas onde iriam dormir deixaram-nos encan­tados! Chamavam-lhes "rondáveis", eram redondas e cobertas de colmo, com uma varanda, dois quartos e uma casa de banho!

Mateus trouxe as malas e recomendou-lhes para não se demorarem, pois já tinham começado a servir o almoço no restaurante. Mas nem era necessária a recomendação. Por sua vontade deixariam os fatos e as calças a amachucarem-se mais um dia dentro das malas, dispensariam o almoço e saltariam já para uma das carrinhas do acampamento, daquelas que tinham visto à entrada e onde os turistas, chegados de avião, davam a volta ao parque.

O mais depressa que puderam, arrumaram tudo e correram para o restaurante — uma construção baixa, de chão vermelho, com grandes janelas abertas sobre uma esplanada.

Entraram. No interior, as paredes, cobertas de canas brilhantes de verniz, estavam enfeitadas com peles e troféus de caça: cabeças de búfalos, de impalas de cudos de palapalas, com as suas armações retorci­das, erguidas no ar.

Mas o que mais encantou os meninos foram três estupendas esculturas de girafas, brancas e espantosa­mente elegantes, com os longos pescoços inclinados para trás e as cabeças muito pequenas e tão delicadas que apetecia ficar a admirá-las por longo tempo. E foi assim que os veio encontrar Sabonete.

SABONETE — Gostam?...  É bonito?

ANA —  Muito bonito!

SABONETE — É coisa bem boa! Feito di denti di elefanti!

MIGUEL (espantado) — São em marfim verdadeiro!

PEDRO — Por isso é que estão um bocadinho torcidas! Têm o mesmo feitio de um dente!

MIGUEL (abanando a cabeça) — Devem valer bastante...

Sabonete riu-se, unindo as cabeças dos dedos cobertos de anéis de todas as cores e esfregou-as umas nas outras.

SABONETE — Maningue!... Moné!... Maningue!

Pedro ia a perguntar-lhe que língua era aquela quando viu o Dr. Almeida, que, acompanhado por um outro rapaz africano que acabava de entrar na sala.

DR. ALMEIDA — Estão a admirar as minhas girafas?

ANA —  São giríssimas!

DR. ALMEIDA — Também gosto imenso! Foram-me oferecidas por um artista indígena, que tem um talento extraordinário...

MIGUEL    Bem!  Estas já estão vistas... e as outras, de carne e osso, quando é que o senhor doutor nos mostra?

DR. ALMEIDA — Vai ser difícil!... Em primeiro lugar porque não há girafas no Parque da Gorongosa e, em segundo, porque não irei convosco hoje!... Tenho muito trabalho por cá!

Os meninos deram três ohs! Tão tristes, cheios de desilusão, que o Dr. Almeida se apressou a tranquilizá-los, indicando-lhes o seu amigo.

DR. ALMEIDA — Em meu lugar irá o Gil, que conhece as picadas como os seus dedos.

ANA É de cá?

GIL — Nasci na Beira, mas vivi aqui.

DR. ALMEIDA — O Gil também já esteve em Lisboa onde fez o curso de história, mas acabou por voltar à sua terra.

GIL — Ando à procura da nossa própria história!

PEDRO — Aqui? Na Gorongosa?!

GIL (sorrindo) — Aqui só durante as férias!

ANA — Que sorte! Isto é giríssimo!

MIGUEL (ansioso por partir) — Despachem-se lá para irmos!

DR. ALMEIDA — Escusas de ter pressa! A esta hora todos os bichos fazem a sesta e terás de esperar que venha o fresco da tarde para os veres saírem das matas para o tando... Agora vamos ao almocinho!

ANA — Ai! Não me obrigue a comer!... Só tenho calor e sede.

DR. ALMEIDA — Então vou mandar vir para ti um batido de banana-maçã.

MIGUEL e PEDRO — Nós também queremos! Nós também queremos!

Foi um almoço formidável! Ao batido de banana-maçã seguiram-se batidos de abacaxi e de papaia3 numa mistura de gostos e perfumes esquisitos que os meninos nunca tinham provado!

Quando acabaram aquela extraordinária refeição, voltou-lhes a ânsia de partir. De cinco em cinco minu­tos perguntavam ao Gil quanto tempo faltava para começarem a volta, até que este, já farto de os ouvir, mandou chamar André, um dos condutores das carri­nhas vermelhas que estavam ao serviço dos turistas do parque.

ANA (subindo para a carrinha mais próxima) — Vamos nesta!

PEDRO (subindo atrás dela e pondo-se em pé lá dentro) Olhem! Olhem! O tecto é aberto! Quem quiser pode espreitar por aqui!

ANDRÉ (sentado ao volante) — Por onde vamos, doto Gil?

GIL — Mete pela picada número um, direito à casa dos leões.

MIGUEL — O que é isso?

GIL — Já vais ver!

A estrada era bordada de capim alto e de acácias com grandes copas ramalhudas, onde despontavam as primeiras flores.

PEDRO — Olhem, olhem aquelas árvores têm troncos amarelos!

GIL — São as árvores de febre amarela! Dizem que dão quebranto a quem estiver debaixo delas! Não sentes o perfume adocicado que deitam as suas flores?

A pouco e pouco a floresta tornava-se mais densa e o caminho mais estreito. Aqui as árvores do sono misturavam-se com as palmeiras anãs, espinheiros e trepadeiras bravias, num emaranhado espantoso...

ANA (olhando à roda) — É formidável!... Só é pena não se ver nem um bicho...

Neste momento, como que a responder ao pedido de Ana, ouviu-se um grunhido, saído do matagal que bordava a estrada. Pararam o carro.

Mas não se ouviu mais nenhum ruído. Um silêncio impressionante pesava no ar...

Havia qualquer coisa de misterioso naquela flo­resta perfumada.

E os meninos ficaram suspensos, de olhos muito abertos, fixando a folhagem emaranhada onde mal se distinguiam os troncos... quando, de repente... um deles lhes pareceu mexer...

Mas seria realmente um tronco? Ou antes uma serpente?...

Iodos três sustinham a respiração para poderem ouvir melhor... e, daí a segundos, sentiram os estali­dos de alguns galhos quebrados... O bicho, depois de uma pequena paragem, voltara a avançar, aproximando-se da estrada...

Era um elefantezinho, com pouco mais de um metro de altura, que, muito feliz por se ter desemba­raçado do matagal e se encontrar em campo livre para brincar, deu uma corridinha de menino gordo, desajeitado e pencudo, aproximando-se do carro.

ANA (rindo) — Oh! Que giro! Que amor!... Deixe-me fazer-lhe uma festinha! Os elefantes são sempre mansíssimos! Eu no Jardim Zoológico até...

Mas  um grito feroz de Gil interrompeu-a.

GIL —  André!  Depressa!  Para trás!   Depressa!

Os meninos olharam uns para os outros cheios de vontade de rir. Que mal poderia fazer um elefante tão pequeno?

Se Gil fugia assim ao primeiro bicharoco que lhes aparecia no caminho, o que faria quando visse um leão?

Mas estes pensamentos não duraram muito, por­que, mal tinham recuado alguns metros, surgiu de repente, no meio da estrada, a mãe do elefantezinho que, orelhas em escudo e com as grandes presas afia­das, cortando o ar, avançou para eles, lançando furio­sos grunhidos.

O chão estremecia à sua passagem e com a espan­tosa velocidade4 a que ia, em breve alcançaria o carro, se André não tivesse acelerado a fundo, recuando pela picada estreita, numa manobra arris­cada, mas a única possível para fugir à fera.

Quando ela finalmente desistiu, todos estavam amarelos como limões.

MIGUEL — Uf! Nunca apanhei um susto tão grande na minha vida!

ANA — Parece impossível como podem ser tão diferentes aqui e no Jardim Zoológico! Até parecem maiores!

PEDRO — Se o Gil não tivesse logo mandado recuar, a esta hora estávamos todos feitos em açorda!

GIL — Os elefantes são geralmente animais man­sos, mas as fêmeas, quando têm crias, tornam-se peri-gosíssimas e atacam com violência todas as pessoas ou animais que tentem aproximar-se dos filhos.

ANA — Isto é que é amor maternal!

PEDRO — É muito bonito mas estragou-nos o passeio... Agora teremos de voltar para trás!

GIL — Que ideia! O perigo já passou. A nossa amiguinha juntou-se à manada e seguiu o seu cami­nho. Daqui a momentos já poderemos passar sem medo!

E assim foi. À medida que andavam as árvores iam escasseando; entravam agora numa zona de tando, cheia de charcos lamacentos.

MIGUEL — Olhem! Olhem! Ali naquele charco, um javali!

PEDRO — E além outro!

ANA — Olhem as zebras! E os zebros... com cara de boi e pernas de cavalo!

GIL — Não são zebros, menina! Estes animais não se distinguem das fêmeas pela pelagem. O que tu julgas serem zebros são bois-cavalos. Pertencem a outra raça, embora se vejam muitas vezes nas mesmas manadas, pastando em boa camaradagem.

MIGUEL — Que rica vida!

Ao chegarem ao cruzamento com outra picada, encontraram uma carrinha cheia de turistas rodesianos todos armados com máquinas de fotografar e de  filmar. Deviam vir da casa dos leões e estavam tão entusiasmados que até meteram conversa.

UM RAPAZ — Go on! Go on! Many lions! Many lions! 5

ANDRÉ (acelerando) Maningue leões! Maningue!

Finalmente, chegaram à célebre casa dos leões. Situada numa imensa planície sem árvores, a casa dos leões compunha-se de cinco edifícios em tijolo, meio arruinados. Aproximaram-se. Não se via nem um único bicho. Só o cheiro desagradável a animal selvagem ficara no ar.

ANA Estes  aparecem aos turistas estrangeiros!

MIGUEL — Para nós deixam ficar o mau cheiro!

PEDRO — Não percebo porque fizeram estas casas para os leões... parecem casas para gente!

GIL  - Já foram! Aqui era o velho acampamento. Naqueles edifícios ficavam os quartos e além a cozi­nha e o restaurante.

PEDRO — Então agora isto tudo só serve para os leões?

GIL — Tiveram de abandonar este sítio porque durante a época das chuvas as cheias do rio Missi-cadzi entravam nos edifícios.

ANA    Bem!  Estou  a ver que não vejo...

GIL (rindo) — Vamos dar a volta às traseiras para "ver se vemos" qualquer coisa...

Nada...  também ali  não encontraram nenhum bicho. Estavam quase para desistir, quando de uma das cozinhas saiu um leão de farta cabeleira negra, que, muito devagar, bamboleando-se sobre as suas enormes patorras, avançou em direcção ao restau­rante, sentando-se à sombra de um arbusto. Disfarça­damente, deitou uma olhadela verde para os lados do carro, abriu a boca, mostrando a sua grande língua, que mais parecia uma serpente cor-de-rosa entre os caninos aguçados, e soltou um formidável urro. No carro todos estremeceram.

ANA Livra! Que dentinhos!... Acha que ele não lhe apetecerá experimentá-los em nós?

GIL -  Os leões são uns grandes preguiçosos, só se mexem quando têm fome e precisam de caçar.

PEDRO     Como é que eles caçam?

GIL — Tem vários processos, mas o mais curioso a que assisti ale hoje é o de batida, feita com grupos de um leão e várias leoas.

MIGUEL  - E cada um toma a sua posição e sabe o que há-de fazer?

ANA — Não acredito!

GIL Também eu não acreditava antes de ver, mas quando vi acreditei que tudo aquilo era uma manobra cuidadosamente preparada.

MIGUEL   Então conte  lá!

    GIL - Eles têm uma estratégia formidável: geral­mente o leão comanda as operações mas a caçada é feita pelas leoas; duas ou três leoas escondem-se atrás de algumas moitas de espinheiros ou palmeiras anãs, enquanto os outros, contornando a zona de pastagem onde se encontra a caça, se lançam em perseguição  dos animais, orientando-os com astúcia na direcção das companheiras emboscadas. E quando um dos infelizes passa ao pé de uma dessas leoas, ela... zás!

MIGUEL — Salta-lhe em cima e crava-lhe as gar­ras no lombo!

PEDRO — E os dentes no cachaço...

GIL — E assim a vítima cai morta por terra...

ANA — Trata de se servir...

GIL — Enganas-te, é sempre o leão a encetar o petisco... e ai daquela que se meter à frente!... Só depois de o chefe estar saciado as leoas se aproximam para comer a sua parte.

ANA — É indecente! Trabalham mais e só comem no fim!... Chega ao menos para todos?

GIL — Ainda sobram as tripas e o estômago para os abutres, marabus, chacais e hienas.

ANA — Têm sorte!

GIL — Quem, as hienas?

ANA — Não, as hienas são nojentas, quem tem sorte são os leões... Eu gostava de ser leoa!

GIL — Porque é que gostavas de ser leoa?

ANA — Ora, são bichos felizes! Atacam os outros e ninguém lhes faz mal!... Pelo menos aqui!

ANDRÉ — Há mabeco, minina!

GIL — Isso são histórias!... Bem, vamos andando que deste lado há pouco para ver...

ANA — Só ali está aquele paspalhão, sem graça nenhuma!

Deram uma volta, aproximando-se do restaurante. Aí, na varanda do primeiro andar, um casal de leões imponentes olhava-os com ar superior.

        PEDRO — Ena, pá! Aquilo é que é classe!... Deixe-me tirar um retraio!

GIL — Tira à vontade, mas depois vamos embora porque é proibido andar depois do sol-posto nas pica­das do parque, e, como já devem ter notado, a noite nestas regiões de África cai de repente 6.

Realmente o céu já começara a tingir-se de verme­lho. Bandos de aves selvagens aproximavam-se da margem do rio: gnus-coroados, marabus, aigrettes e pelicanos procuravam poleiro nos troncos mais altos das árvores secas, enquanto os macacos, saltavam de ramo em ramo, até encontrar um sítio confortável para passar a noite.

O silêncio daquele maravilhoso fim de tarde era apenas cortado de vez em quando pelo piar triste dos pássaros ou pelos gritos agudos de algum macaco mais irrequieto.

Mas era preciso voltar. Os poucos quilómetros que separavam a casa dos leões do acampamento pas­saram muito mais depressa na viagem de regresso, sem emoções nem maus encontros; os próprios ani­mais que na ida os tinham espantado, pareciam-lhes agora velhos conhecidos.

À chegada ao acampamento, viram o Dr. Almeida conversando com o Sr. Paim na esplanada do restaurante.

DR.  ALMEIDA — Então gostaram?

OS TRÊS IRMÃOS — Foi formidável! Bestial! Estupendo!

Miguel preparava-se para contar as suas aventuras quando Ana o interrompeu.

ANA - Olha! Olha! O macaco de Xilokué já está bom! Lá vem ele empoleirado no ombro do dono!

DR. ALMEIDA Bastou uma injecção de estreptomicina para se curar!

SR. PAI M (Troçando) — Pois! Pois! Valeu a conversando com o Sr. Paim na esplanada do um rico petisco!

Entretanto Xilokué tinha-se aproximado, e, jun­tando as mãos, inclinou-se diante do Dr. Almeida.

XILOKUÉ      Eu está   canimambo no doto!

D R. ALMEIDA — Então o teu sagui já se pôs bom?

XILOKUÉ         É já!

DR.  ALMEIDA    E agora  vais-te embora?

XILOKUÉ     É já!

DR. ALMEIDA (rindo) — Já não! Vais amanhã de manhã! Eu peço aqui ao senhor Paim para te levar no carro até ao Gué Maria!

SR. PAIM Tudo quanto quiserem, menos isso! Se há coisas com que eu francamente embirre é com cheiro a macaco? Então dentro do carro até me dá vómitos!

XILOKUÉ         Eu vai  no pé patrão!

DR. ALMEIDA — Não senhor! Irás amanhã numa das carrinhas do acampamento! Hoje dormes cá na palhota de um dos criados!

E, vendo Sabonete que andava por ali a servir bebidas aos hóspedes, chamou-o.

DR. ALMEIDA — Hás-de arranjar uma esteira na tua palhota para o Xilokué lá dormir.

SABONETE - Sim siô doto... Não siô... Eu não gosta di dormir com macaco!

DR. ALMEIDA (dando um murro na mesa) — Arre! Já me parece demais tanta discussão por causa de um bicho tão pequeno! Com macaco ou sem macaco, o miúdo dorme contigo, ouviste?

SABONETE (baixando os olhos)         Sim,  siô!

DR. ALMEIDA (já mais bem disposto) — Bom, agora tratem de ir tomar banho e de se arranjarem para o jantar, pois teremos hoje uma ementa esco­lhida com especialidades do acampamento, petisquei­ras famosas!

Quando os três irmãos chegaram à varanda do restaurante, viram uma mesa de seis lugares onde jan­tariam com o Dr. Almeida, Gil e o Sr. Paim.

Noutras mesas mais pequenas, alguns hóspedes tinham já começado a comer. Falava-se de bichos, de safaris e de caça grossa em várias línguas.

Miguel estava a tentar ouvir a descrição de uma caçada, quando chegaram o Dr. Almeida e o seu aju­dante, logo seguidos pelo Sr. Paim.

Sentaram-se. Ana, como era a única "senhora", teve a honra de ficar à direita do dono da casa. Em frente dela sentou-se o Sr. Paim e os dois rapazes fica­ram junto de Gil.

Então, o chefe de mesa, um criado alto e muito negro que usava um cofio 6 vermelho na cabeça aproximou-se deles e começou a servir o vinho branco e a água gelada. Logo atrás veio Sabonete trazendo um prato de camarões gigantes, envolvidos em pão ralado e fritos.

Todos começaram a comer com imenso apetite.

O Dr. Almeida, ao vê-los a regalarem-se com os camarões que ele próprio tinha comprado na Beira nessa mesma manhã, sorria satisfeito.

DR. ALMEIDA — Então, gostaram?... Agora segue-se um prato como vocês nunca provaram: Facochero assado no espeto com molho de piripiri!

MIGUEL — Facochero?...  Nunca ouvi falar...

GIL — É natural! Mas cá pelo parque há bastan­tes! São uma espécie de javalis cinzentos ou averme­lhados com o dorso coberto de cerdas. O peso da sua cabeça enorme e desproporcionada para o corpo, parece obrigá-los a trazer o focinho sempre junto ao chão. Estes animais têm uma força extraordinária e as suas presas, que chegam a atingir vinte e cinco centí­metros, tornam-nos verdadeiras máquinas de guerra.

MIGUEL — Então deve ser dificílimo caçá-los!

GIL — Conforme! Estes, por acaso, apanhei-os de surpresa!

MIGUEL — Ah! Foram caçados por si?... Como foi?... Conte! Foi cá no parque?!

       GIL — Não! Foi numa passeata que fizemos para lá do rio Pungué. A certa altura avistámos um vulto que de longe nos pareceu um animal agitado por movimentos estranhos, como se estivesse com convul­sões! Mas, quando nos aproximámos vimos que não era um só bicho, mas sim dois, lutando furiosamente. E tão furiosamente lutavam que nem ouviram o motor do nosso carro. Os animais soltavam grunhidos assustadores, enquanto se feriam um ao outro numa luta de morte. Tratava-se de dois apaixonados e o mais engraçado é que a rainha dos seus corações, um autêntico monstro, os espreitava de um matagal pró­ximo. Como a luta não parecesse ter fim., resolvi dar um tiro no lombo do bicho que estava por cima. Este, convencido que fora o inimigo a feri-lo, redobrou de energia na ânsia de se vingar. Mas pouco a pouco ia perdendo forças, e, acabou por ser dominado. Quando vi o outro prestes a matá-lo atirei-lhe um tiro mortal. Devem ter morrido ambos ao mesmo tempo sem perceber quem os matara.

Ana tinha lágrimas nos olhos.

MIGUEL — Olha! Olha! A Ana está a chorar com pena dos facocheros!

ANA (rindo) — Não é nada! É do piripiri, que pica muito!

PEDRO — Pica mas é bom!

DR. ALMEIDA — Aqui a comida é bastante semelhante à comida indiana, portanto, muito picante. Mas agora já aí vem uma sobremesa boa para refescar a língua: mousse gelada de abacate com açúcar e limão!

ANA —  Hum!  De isso é que eu gosto!

PEDRO — Sabes lá se gostas de abacate!... nem sabes o que é isso!

DR. ALMEIDA — É uma espécie de pêra pouco doce mas muito saborosa. Verás como é bom!

ANA (provando)  — E é!

PEDRO (provando) —  É formidável!

MIGUEL (provando) — Que pena não haver disto lá em Lisboa!

DR. ALMEIDA — Agora já começam a acreditar no meu paraíso?

OS  MENINOS — Já, pois!

DR. ALMEIDA (sorrindo) — Este meu amigo Gil também não queria acreditar quando aqui há dois anos o desafiei a vir para cá. Afinal encontrou nestes sítios maravilhas que nem eu sabia existirem! Até achados pré-históricos, em grutas e rochedos.

PEDRO —  E  o que é que  acharam?

GIL — Pinturas rupestres, pedaços de cerâmica, pedras trabalhadas...

DR. ALMEIDA — Em resumo, eu sou o coca-bichinhos e ele é o coca-pedrinhas!

ANA  — E o senhor  Paim o que é?

SR.  PAIM — Oh! Eu sou o coca-librinhas!

PEDRO — Bem bom! E como consegue arranjar as librinhas?

SR. PAIM (rindo) — Ora, com negócios escuros!

ANA —  O que são  negócios escuros?

      SR. PAIM (rindo) — Queres um exemplo de um negócio bem escuro?... Vender carvão a pretos numa noite de tempestade!

 GIL (rindo)      Ele  está  a  gozar convosco!

        O  senhor Paim, aqui onde o vêem, é um grande homem de negócios. Tem uma próspera fazenda onde cria magníficos exemplares de gado bovino e uma firma de exportação de peles das melhores de Moçambique. Além disso, é um extraordnário caçador... Fora da Gorongosa, claro!

SR.  PAIM (sorrindo) — Pois!  Pois!

MIGUEL (entusiasmado) — Deve ter passado por imensas aventuras!

SR. PAIM — Já tenho que contar!... Olhem, a última caçada onde fui, matei, eu sozinho, doze búfalos!

MIGUEL (espantadíssimo) — Doze búfalos?! Sozinho?!

SR. PAIM — Desde que se consiga matar o guia é fácil. A manada foge, mas não avança mais de uns quinhentos metros; depois, desorientada, pára. Então basta segui-los, e à queima-roupa matam-se umas poucas de cabeças!... Se não acreditarem, olhem para aqui!

E tirando da carteira uma fotografia entregou-a a Pedro. Pedro, com uma careta, passou-a a Gil.

GIL — É curioso observar que os animais, mesmo os ferozes, como o leopardo, por exemplo, são inca­pazes de matar um guia! Atiram-se geralmente aos mais fracos da manada.

SR. PAIM — Pois! Pois! E não será antes porque não conseguem apanhar os mais velozes?...

GIL (passando a fotografia a Miguel) — Talvez... ou talvez... seja por uma questão de lealdade!

Miguel esteve um bocado a olhar o retrato onde se via o Sr. Paim sorrindo com orgulho diante de um enorme montão de animais mortos, cobertos de man­chas de sangue.

MIGUEL — Que brutalidade! Parece um mata­douro!... Chega a dar gozo matar toda esta bicharada?

SR. PAIM — Oh! Se dá! É uma coisa extraordinária!

MIGUEL — A mim faz-me pena... tantos bichos mortos... assim... à traição...

DR. ALMEIDA (sorrindo) — É isso, Miguel!... É isso!... A Gorongosa já te ensinou a sua primeira lição!

 

         1  Caqui — Tecido de algodão muito fresco que se usa nas regiões quentes.

2  Capulana     Pano  onde  se embrulham as  mulheres indígenas.

      3  Abacaxi e papaia — Frutos tropicais.

      4   Os elefantes chegam a atingir em corrida 80  Km/h.

      5    "Sigam!  Sigam!  Muitos leões!  Muitos leões!".

6  Quanto mais próximo se está do equador mais rápido é o pôr do Sol.

7  Cofio    Chapéu cilíndrico usado pelos indígenas que seguem a religião muçulmana.