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A MENINA DO MICROFONE —
Passageiros do voo TWA quatrocentos e cinquenta com destino a Londres queiram
dirigir-se à porta número três. Lês passagers du vol TWA
450 à destination Londres sont priés de se rendre à la porte numero trois. Passengers on TWA flight 450 to London are requested to proceed to gate
number three.
Pedro, Miguel, Ana e os
pais tinham acabado de chegar ao aeroporto de Lisboa, cheios de malas, de
nervoso e de impaciência pela aproximação da hora em que deveriam partir para a sua primeira viagem de avião.
MIGUEL
— Não ouviram?... Não ouviram?... Estão a chamar-nos! Depressa, tragam as malas!
PEDRO — És parvo, pá! Vais para Londres,
tu?!
ANA — Londres?!...
Landan! Landah é que ela disse, quer dizer Luanda em inglês, está-se mesmo a ver!
PEDRO — Está-se mesmo a ver que a menina é
parvinha e não percebe nada de inglês! London quer dizer Londres! Se te metes
neste avião vais parar a Inglaterra em menos de um fósforo!
MIGUEL
(com ares superiores) — Desde que por lá se arranjem umas caçadas para eu estrear a
minha espingarda, tanto me faz!
PEDRO
(admirado) — Tu levas a tua espingarda de pressão de ar?!
MIGUEL
— Claro! Ir para África sem espingarda é o mesmo que ir para a praia sem fato de banho!
PAI
(chamando de longe) — Pedro! Miguel! Ana! Tragam as vossas malas para serem pesadas aqui!
As
malas dos três irmãos mais outras três dos pais foram-se amontoando a pouco e pouco sobre
a balança.
Os
meninos não despregavam os olhos do
pequeno mostrador onde os quilos se
iam somando... 16 Kg... 30 Kg... 45 Kg... 62 Kg... 78 Kg... 103 Kg.
O EMPREGADO — Só têm
direito a levar vinte quilos por passageiro!
Os senhores levam peso a mais!
MÃE —
Pode lá ser! Ainda ontem pesámos toda a bagagem na balança lá de casa e tinha
cem quilos certos!
PAI — Algum de vocês meteu
mais coisas nas malas?
MIGUEL (Comprometido) —
Eu meti a minha espingarda de pressão de ar e uma caixinha de chumbos... Vou
precisar imenso dela!
PAI — Que disparate!
MIGUEL — Não me diga que
tenho de a deixar!... Vai-me fazer tanta falta!
A MENINA DO MICROFONE —
Passageiros do voo TAP duzentos e quarenta e sete com destino a Luanda, Beira e
Lourenço Marques queiram comparecer na sala de embarque.
PAI (afastando-se) — Toca
a despachar! Tira a espingarda mais a caixa dos chumbos e deita-as fora!
ANA (dirigindo-se ao
empregado) — E se eu levasse a espingarda ao ombro?
O EMPREGADO (rindo) —
Bem... Como não tem bagagem de mão...
MIGUEL (remexendo na
mala) — Tiveste uma ideia bestial, Ana! Verás que esta
espingarda ainda te há-de salvar das garras do leão, das presas do elefante,
do bico do abutre, dos dentes do crocodilo, das unhas do chimpanzé, dos chifres
do... do...
PEDRO (troçando) — Só não
te safas é de perder o avião se continuas a ouvir a lista de toda a bicharada
africana... Adeus! Se cá ficarem os dois, podem ir visitar esses animaizinhos
ao Jardim Zoológico!
Entretanto, Miguel tinha
conseguido descobrir a espingarda e Ana, pegando nela, marchou atrás de Pedro
até à sala de embarque, onde o pai, de bilhetes na mão, os procuravam corri o
olhar.
MIGUEL (piscando o olho
ao pai) — O homem das balanças deixou-nos trazer a espingarda... O pai também
deixa... não deixa?
PAI
— Desde que não me levante problemas, nem eu tenha de carregar com ela!
MIGUEL (todo satisfeito) — Não, pai!
Junto
à saída, uma
hospedeira alta e bonita, rodeada
de passageiros agitados, parecia uma galinha rodeada de pintos.
Ana
olhou para ela e sentiu inveja. Gostaria tanto de ter aquele ar despachado! Aquele
fardamento tão giro, aquele sorriso bem disposto, como a dizer às pessoas: "Tenham, calma, não tenham medo.
Vão ver que é bom passear de avião..."
Como
toda a gente que pela primeira vez faz uma viagem aérea, Ana sentia-se bastante
preocupada, e a sua preocupação ia-se tornando cada vez maior quanto mais se aproximava a hora de embarque. Procurava
disfarçar o medo,
quando, com os outros passageiros entrou na carrinha que os levaria até ao grande avião prateado, de portas abertas, que os
esperava a todos para os engolir.
As
suas pernas tremiam como varas verdes! Seria só ela a sentir assim as pernas? Volta e
meia deitava olhadelas à direita e à esquerda para observar os irmãos, tentando descobrir qualquer sombra de
medo, mas nada se notava nos olhares fascinados que eles deitavam ao
avião.
Então,
encheu-se de coragem e subiu a escada com toda a ligeireza, como se
estivesse muito habituada a fazer viagens daquelas!
A hospedeira indicou-lhe
o seu lugar, junto de uma janela. Pedro sentou-se ao seu lado e Miguel ficou
atrás. Para esse mesmo banco veio um senhor que parecia velho conhecido de toda
a tripulação.
HOSPEDEIRA
— Então já de volta, doutor Almeida?
DR. ALMEIDA — Estive cá um mês!... Acha pouco?... Um mês fora do meu
paraíso até me parece um ano!
Miguel ficou a pensar...
Onde seria o paraíso daquele senhor, que tantas saudades lhe
dava por tão pouco tempo?
Entretanto,
tinham entrado os últimos passageiros e a hospedeira fechara a porta do avião.
Daí a instantes,
ouviu-se a voz do comandante, que, através do microfone, se dirigia a todos os
passageiros.
O
COMANDANTE — O comandante e a sua tripulação dão-lhes as boas-vindas a bordo do nosso
boeing setecentos e sete. A nossa próxima escala em viagem para a Beira será
Luanda, onde chegaremos dentro de oito horas. Pedimos o favor de apertarem os cintos de segurança, endireitarem as cadeiras e
não fumarem.
Ana quis apertar o cinto,
mas não foi capaz. As mãos tremiam-lhe tanto que não havia maneira de acertar
com as duas pontas, e teve de ser o Pedro a prendê-las.
Ela
deitou-lhe um olhar cheio de reconhecimento e angústia.
PEDRO — Não tenhas medo! Vai ser formi...
BBBRRRRRRRRRRUUUUMM!
A
irmã já não conseguiu ouvir o fim da frase porque o ruído do motor abafou todos os
outros. O avião parecia um enorme monstro
resfolegando e estremecendo todo com
o esforço de se pôr em movimento.
BBBRRRRRRRRRRUUUUMM!
O barulho redobrou e as rodas começaram a
deslizar
sobre a pista, primeiro lentamente, depois com mais velocidade até conseguirem desprender-se do chão!
Que maravilha olhar cá
para baixo e ver as casinhas cada vez mais pequenas e o Tejo azul, atravessado
pela sua grande ponte, ficar transformado num riozinho
minúsculo.
Daí
a instantes a hospedeira anunciou pelo microfone que podiam desapertar os cintos de
segurança e fumar. Trazia um tabuleiro com pastilhas elásticas, rebuçados e cigarros, que oferecia a toda a gente
com o mesmo sorriso animador.
Ana tirou uma pastilha,
depois outra, mas já não foi capaz de tirar a terceira, embora tivesse ficado
com pena por ter perdido aquela ocasião única de comer muitas pastilhas elásticas
sem que as pessoas crescidas a mandassem deitar tudo para o lixo. Sentia-se
agora completamente à vontade dentro do avião
e resolveu ir ter com os pais, que estavam sentados mais à frente.
ANA — Afinal aqui está-se
tão bem como em casa!
PAI — Até se está melhor!
Onde é que tu lá em casa tens esta linda vista sobre a costa portuguesa?...
Vês, lá em baixo, a península de Setúbal?...
ANA (apontando) — Ena!
Tão gira! Os campos parecem os quadrados da minha saia escocesa! E as
estradas?! São tal e qual uns fiozinhos!
MÃE
— Ó Ana, não tens vergonha de ter as mãos tão sujas!
ANA — Foi da
espingarda do Miguel!
MÃE — Então vai lavá-las
antes que sirvam o almoço!
Ana dirigiu-se para o
fundo do avião, onde além da casa de banho,
havia também uma minúscula cozinha em que se preparavam os carrinhos
das bebidas e os tabuleiros das refeições.
Era engraçado observar a
maneira como a hospedeira e outro empregado de bordo manobravam em tão pouco
espaço, conseguindo preparar rapidamente os almoços para os passageiros.
Ficou longo tempo a
espreitá-los pela cortina entreaberta, procurando descobrir o que iriam comer,
e mais tempo ainda lá ficaria se a rapariga, já farta de tanta curiosidade, não
lhe perguntasse, com o mesmo sorrisinho de
sempre, se desejava alguma coisa. Como não desejava nada resolveu voltar
para o seu lugar, onde encontrou Pedro, muito bem instalado, espreitando pela
vigia.
PEDRO — Ó Ana! Isto é
formidável! Olha além aquele cabo! A entrar pelo mar dentro! O que é aquilo?
ANA (toda sabichona) — É o cabo Espichel, com certeza! Não vês? Acaba ali a
península de Setúbal! Que giro! É tal como no mapa! Forma um bico tão aguçado
que nem se vê o resto da costa...
MIGUEL — Deve
ficar mais para a esquerda...
O COMANDANTE (Falando ao
microfone) — Senhores passageiros, saímos há quinze minutos de Lisboa, voamos a
onze mil metros de altitude e estamos neste momento a sobrevoar a ponta de
Sagres!
Ou com o balanço do avião ou com o espanto
os três irmãos sentiram faltar-lhes as pernas e caíram todos ao mesmo tempo nos
bancos!
Ana, que andava na 4.a
classe e já se julgava doutora em geografia, nem queria acreditar...
ANA — Não pode ser!...
Ele deve estar enganado! Enganadíssimo mesmo!
DR. ALMEIDA (rindo) — Não
está não, Ana! Ele é que está certo!
ANA — Como é que sabe se
está certo?... Como é que sabe o meu nome?
DR. ALMEIDA — Em ambos os casos
calculei...
ANA (espantadíssima) — Calculou?!
D R. ALMEIDA — Pois! Ora
vê lá se não és capaz de resolver este
problema de cálculo: "Um avião deslocando-se a novecentos quilómetros
à hora, em catorze minutos quantos quilómetros percorre?"
PEDRO (depois de tirar
uma esferográfica e um papel do bolso e de fazer a conta) — Duzentos quilómetros!
DR. ALMEIDA — Aí está! É
aproximadamente essa a distância de Lisboa a Sagres, em linha recta, claro!
ANA — Então para saber o
meu nome também calculou assim?
DR. ALMEIDA — Oh! Não!
Isso foi mais fácil! Bastou ouvir os teus irmãos chamarem-te Ana, para eu
calcular que era esse o teu nome!...
MIGUEL — Assim também eu
calculo que o senhor se chama doutor Almeida... vem de Lisboa... e volta para o
seu paraíso... Só me falta saber onde é esse tal paraíso...
DR. ALMEIDA
— Na Gorongosa!
ANA
(franzindo o nariz) - Gorongosa?! O que é isso?
MIGUEL
— Eu sei! É uma reserva de caça! Um parque onde há imensos
bichos e onde se pode caçar à vontade!
DR.
ALMEIDA — E achas que um parque assim seria um paraíso!?
MIGUEL
— Claro! Um paraíso para os caçadores!...Pelo menos para mim era! Havia de ver! Cá
com a minha pontaria!... Dava um tiro!...
Pum! Matava um búfalo, outro tiro!... Pum! Um leão!... Mais dois tiros... Pum!... Pum!... Um elefante!
DR. ALMEIDA
— E depois?
MIGUEL — Depois matava mais!
DR. ALMEIDA
— E depois?...
MIGUEL — Depois tirava um
retrato com a minha espingarda ao ombro e um pé em cima do bicho morto!
DR. ALMEIDA
— E depois?...
MIGUEL
— Depois levava os dentes do elefante, a pele do leão e os chifres do búfalo
como recordação...
DR. ALMEIDA
— E depois?...
MIGUEL
(atrapalhado) — Depois... Depois mais nada...
DR. ALMEIDA — Isso julgas tu! Depois de te
ires embora, viriam as hienas, os abutres,
os marabus, os chacais e todos os
mais horrorosos bichos da selva para
se refastelarem nesses corpos sangrentos que, pouco antes
de chegares, eram
ainda belos animais
cheios de vida e beleza.
MIGUEL — Bem... Mas...
DR. ALMEIDA — ... Mas o
pior é que não és só tu a pensar assim! A partir do século passado, com o
aperfeiçoamento cada vez maior das armas de fogo, os caçadores tornaram-se
muito mais numerosos e muito mais criminosos! Assim, a maior parte das espécies
acabaria por desaparecer se não tivesse sido criado um movimento de protecção
aos animais, tomando-se várias medidas contra as selvajarias dos negros
selvagens e dos brancos por vezes mais selvagens ainda...
ANA — Ora! Ora! Como é
que se pode obrigar os caçadores a não caçarem lá pelo meio daqueles sertões e
sem guardas?!
DR. ALMEIDA — Criando
zonas vigiadas onde é proibido dar um tiro, parques nacionais onde os bichos
vivem à solta, tais como o Parque Kruger na África do Sul, o Parque Quissama em
Angola, o Parque da Gorongosa em Moçambique... e outros...
MIGUEL —
Estou a perceber! Então a Gorongosa é tal como eu disse, mas ao contrário!...
Mesmo assim...
Miguel não chegou a
acabar a frase porque a hospedeira parou diante dele com um tabuleiro na mão pedindo-lhes para levantar a mesinha que estava desarmada
na sua frente.
MIGUEL (encantado) — Oh! Muito obrigado!
Miguel não tirava os
olhos do tabuleiro cheio de coisas boas e de embrulhinhos prateados e
dourados...
A HOSPEDEIRA — Toma laranjada, cerveja ou coca-cola?
MIGUEL (entusiasmado) — Dê-me tudo! Tudo, se faz favor!
Só
quando ela lhe pôs em frente três copos cheios é que se lembrou de que nunca gostara de
cerveja!
Estava
para mandar o copo de volta quando reparou que o Dr. Almeida também quisera a mesma bebida...
Então
bebeu um golo... e depois outro e outro, até se habituar ao sabor. O gosto amargo da
cerveja dava-lhe uma sensação nova, fazia-o sentir-se mais crescido... E era
muito importante para ele, naquele momento, dar a impressão ao seu companheiro
de viagem que bebia, comia e se portava
como um homem.
Assim,
fingiu não se espantar com a variedade do almoço e não deu gritos de
entusiasmo como a irmã.
ANA
— Olha! Olha! Tantos pacotinhos! Um com manteiga...
outro com queijo... outro com sal... outro com pimenta! Já provaste o bolo?... É óptimo!
MIGUEL (com ares
superiores) — Só costumo comer bolos à sobremesa!
ANA (espreitando para
trás) — Olha! Também tens frango assado!... Que sorte! Apanhaste logo a
perna!... Eu gosto tanto de perna!
MIGUEL
(fingindo-se desinteressado) — Se quiseres podemos trocar... Olha, leva também a
laranjada... É uma bebida própria
para raparigas e crianças!
Ana estava tão entretida a comer a sua
perninha de frango que nem disse nada, mas quando a hospedeira voltou com um
tabuleiro de bolachas e chocolates, olhou para o irmão com cara de troça.
ANA — Olha que chocolates
são comida própria para raparigas e crianças, por isso é melhor dares-me o teu...
DR. ALMEIDA — Os homens
não se medem só pelo que comem ou bebem... Mas pelo que pensam ou fazem...
Miguel deitou-lhe uma olhadela cheia
de interrogações.
DR.
ALMEIDA — Tira destes... São muito bons! Eu também como um! Gosto
muito!
Estava restabelecida a
confiança, podia falar-se à vontade. E havia tanta coisa para dizer!
Lá em baixo as nuvens
pareciam pompons brancos, flutuando serenamente sobre a costa africana, sempre
mais ou menos plana e arenosa.
Aquela
nova forma de ver o mundo, que a princípio tanto os entusiasmara, deixara já
de lhes chamar a atenção, e todo o seu interesse ia agora para o Dr. Almeida e para
o seu maravilhoso paraíso da Goron-gosa, que
os enchia de curiosidade e de desejo de fazer perguntas. Assim que desapareceram os tabuleirinhos com os
tristes restos do almoço, Pedro e Ana desceram
as mesas e ajoelharam-se sobre o banco, virando-se para trás.
PEDRO — A Gorongosa fica
para os lados de Lourenço Marques, da Beira
ou...
Pedro
corou por já não se lembrar de mais nenhuma cidade da
província de Moçambique, mas a irmã veio ajudá-lo.
ANA — ... ou de
Quelimane, Inhambane, Porto Amélia ou...
DR. ALMEIDA — Não vás
mais longe! Já percebi que és forte em geografia!
ANA
(rindo) — Nem sempre... Às vezes confundo um bocado os cabos!
DR. ALMEIDA — Em África
não confundirás... Ë tudo muito maior. Temos frequentemente de percorrer distâncias como setecentos, novecentos,
mil quilómetros ou mais!
PEDRO (insistindo) —
Então a Gorongosa deve ficar afastadíssima
de qualquer das cidades mais importantes?
DR. ALMEIDA — Não. Fica
na província de Manica, apenas a cento e sessenta quilómetros da Beira. Indo
num dos táxis aéreos que se alugam no aeroporto chega-se em menos de meia hora.
PEDRO — E vai lá muita gente?
DR. ALMEIDA — Bastante!
Temos sempre hóspedes no acampamento de Chitengo.
MIGUEL — Mas... O que vão
lá fazer esses hóspedes?
DR. ALMEIDA — Observar os animais em plena liberdade!
ANA — E a bicharada não entra no acampamento?
DR. ALMEIDA — Não, porque
é rodeado por uma rede alta e tem guardas em todas as entradas.
ANA — Ah! Então é o
contrário do Jardim Zoológico! Lá os bichos ficam dentro das grades e os
homens de fora; na Gorongosa os bichos ficam de fora; e os homens dentro!
MIGUEL (rindo) — Têm mais sorte!
PEDRO — Enquanto não vem o leão!
DR.
ALMEIDA — É a lei da selva!
MIGUEL (troçando) — E os
leões têm licença de caça na Gorongosa?
DR. ALMEIDA (muito sério)
— Sim, porque eles nunca matam para tirar fotografias ou para levar troféus
para casa... Matam para comer, para viver! Devorada a presa, o leão torna-se
manso e indolente. Deita-se à sombra e dormita na companhia da fêmea, enquanto os filhos, geralmente muito brincalhões,
lutam, rebolam, mordiscam-se uns aos outros ou brincam com a juba do
pai, tal e qual como as crianças mal educadas e importunas...
ANA — E... e... o senhor viu...
assim... isso... ao pé? .
DR. ALMEIDA — Claro!
Querem ver um retrato que tirei há tempos a uma numerosa família?
TODOS — Mostre! Mostre!
Então o Dr. Almeida tirou
do bolso uma fotografia a cores onde se
via um casal de leões rodeados por quatro
leaõzinhos felpudos e malhados como leopardos.
ANA — Que amores! Como eu
gostava de ter um assim!
DR. ALMEIDA — Já fiz essa experiência, mas não te aconselho a que a
repitas...
ANA — Porquê?
DR. ALMEIDA — Oh! Isso é
uma velha história...
TODOS — Conte! Conte!
DR. ALMEIDA — Numa caçada onde eu fui...
MIGUEL (troçando) — Ah! Foi?
DR. ALMEIDA — Vou começar
doutra maneira para não lançar a confusão no espírito deste terrível caçador...
Na primeira e última caçada onde eu fui, um dos rapazes do grupo matou uma leoa
nova. Quando se fazia a padiola para transportar o corpo, viu-se aparecer por
detrás de umas moitas cerradas um leãozinho muito lãzudo que chamava pela mãe.
ANA — Oh!
Coitadinho!
DR.
ALMEIDA — Não calculam como me impressionou aquele bicharoco tão engrançado, que morreria em breve de fome ou seria comido por qualquer
outro carnívoro...
PEDRO — Então trouxe-o...
DR. ALMEIDA — Sim,
levei-o para casa e consegui criá-lo a biberão, com grandes garrafadas de leite de vaca... Chamei-lhe Juba, na esperança de
que viesse a ter uma bela cabeleira loira. Ao fim de uns meses estava um
lindo leão e tão forte que tivemos de
subir os muros do jardim para ele não saltar à rua, quando me via sair.
PEDRO — Gostava
muito de si?
DR. ALMEIDA — Muito! Um
dia em que brincava com ele, e lhe fazia
festas, chamaram-me ao telefone. Virei as costas ao meu amigo mas...
ele não gostou. Sentiu-se abandonado e atirou-me uma das suas enormes patorras às costas e... fez-me um tal
ferimento que fui parar ao hospital!
MIGUEL —
Livra!... E depois!?
DR. ALMEIDA — Depois
todos me aconselharam a mandá-lo para o Jardim Zoológico de Lisboa, mas eu
tive pena de o castigar assim. No fundo, estava certo que o seu gesto não tinha
sido de rancor, mas sim de amizade...
ANA — Amizade de leão, claro!
DR. ALMEIDA — Era, como
agora se diz, uma amizade bestial!
PEDRO — E como é que
conseguiu ver-se livre do seu grande amigo?
DR. ALMEIDA — Nessa época
eu andava no Liceu
de Lourenço Marques e era colega de um rapaz que viera da Beira e
conhecia muito bem o Parque Nacional da Gorongosa. Foi ele quem me lembrou que
poderia ir lá soltar Juba. Eu sabia que um leão desconhecido seria mal recebido pelos outros animais da mesma espécie...
demais a mais, deviam estranhar-lhe o cheiro, pois minha mãe, que era
uma senhora muito arranjada e tinha o asseio em grande conta, mandava dar-lhe
banho e lavar-lhe a juba com champô!
PEDRO
(rindo) — Devia ser preciso uma litrada de champô para lavar a juba do Juba!
DR. ALMEIDA — Consumia-se champô em quantidades
industriais! E era uma autêntica tourada de cada vez que eu e o criado
tínhamos de lhe dar banho!
ANA (rindo) — Uma leãozada!
DR.
ALMEIDA (rindo) — Ou isso!
PEDRO
— E sempre levou o bicho para a Gorongosa?
DR. ALMEIDA — Teve de ser, porque ele cada
vez se tornava mais bruto e era impossível
continuar a tê-lo no jardim. Por isso, mal me senti com forças para
fazer a viagem, aluguei uma furgoneta onde enfiei a muito custo o Juba,
partindo imediatamente para lá. Quando cheguei, o veterinário, que nessa época
era um dos directores do parque, desanimou-me
logo! "O seu leão vai ser escorraçado por todas as matilhas e não
lhe será permitido caçar nos terrenos de nenhum dos grupos organizados... No
entanto, pode deixá-lo...". Assim
foi... Soltámo-lo ao norte, numa
zona de tando ' onde geralmente pastam búfalos, bois-cavalos e zebras,
petiscos muito apreciados pêlos
leões.
MIGUEL — E ele fugiu logo?
DR.
ALMEIDA — Ao princípio estava um tanto hesitante e, por várias
vezes, parou a olhar para mini, mas eu, apesar de sentir uma grande
tristeza cá dentro, enxotei-o e ele acabou por desaparecer
no meio do arvoredo...
MIGUEL
— Ah! Foi por isso que o doutor Almeida nunca mais quis caçar... Tem
medo de acertar
no Juba...
DR. ALMEIDA — Talvez...
Realmente o Juba teve uma grande influência na
minha vida... Nesse dia em que o abandonei, encontrei a minha verdadeira
vocação... Resolvi ser veterinário!
PEDRO — E foi para Lisboa tirar o curso?
DR. ALMEIDA — Sim! Eu
tinha crescido em Lisboa e por lá vivi até aos catorze anos, quando o meu pai
foi destacado para Lourenço Marques.
MIGUEL
— Pensei que sempre tivesse vivido em Moçambique!
DR.
ALMEIDA — Não! Até à vossa idade fui um rapazinho como vocês... vivia num
prédio com muitos andares, frequentava o Liceu Camões, ia para
a praia no
Verão... ao futebol ou cinema aos domingos...
MIGUEL
(entusiasmado) — É tal qual o que nós fazemos! Até andamos no Liceu Camões!
PEDRO — Já o nosso pai também lá andou!
DR. ALMEIDA — O vosso pai
é aquele senhor que vai ali adiante?
ANA — É!
DR.
ALMEIDA — Eu bem me parecia!
E, levantando-se de um
salto, atravessou o avião a toda a velocidade e veio postar-se diante do pai
deles de braços abertos.
DR. ALMEIDA — Viva o
Pirata da Perna de Pau!
PAI — O...
Olha o Coca-Bichinhos!
Todos os outros
passageiros se riam enquanto os dois velhos camaradas do liceu se abraçavam comovidamente...
PAI
— Já sei que és director do Parque da Goron-gosa!...
Continuas apaixonado pela bicharada?
DR. ALMEIDA — Sempre o
mesmo! E que é feito de ti?
PAI — Eu vivo em Lisboa,
mas agora venho numa comissão de serviço de
três semanas a Lourenço Marques.
DR. ALMEIDA — Uma bela
passeata, estou a ver!
PAI — Seria, se não houvesse tanto
trabalho!
O Dr. Almeida veio
sentar-se num lugar vago junto dos pais e, durante longo tempo, conversaram os
dois, recordando as belas aventuras, do liceu.
Assim se passaram muitas
horas sem que eles parassem de falar, até que Ana resolveu interrompê-los.
ANA (fingindo-se zangada) — Afinal,
tínhamos arranjado um amigo tão bom, que contava histórias giríssimas de
bichos, e o pai ficou-nos com ele!
DR. ALMEIDA — Tens toda a
razão, Ana! Só vejo um processo de tu me perdoares...
ANA — Qual é?
DR. ALMEIDA — É
convidá-los a todos a virem comigo passar uns dias à Gorongosa!
PAI — Tenho muita pena,
mas é completamente impossível... Venho com imenso trabalho e pouquíssimo
tempo para o fazer!
OS TRÊS IRMÃOS -
Ó pai!...
Nesse momento ouviu-se
novamente a voz do comandante, que falava ao microfone.
COMANDANTE — Dentro de um
quarto de hora aterraremos no aeroporto de Luanda. Pedimos o favor de apertarem
os cintos de segurança, endireitarem as cadeiras e deixarem de fumar. O avião permanecerá cinquenta
minutos no aeroporto, e, com nova tripulação, seguirá viagem para a Beira.
Os três meninos vieram
sentar-se nos seus lugares, e, sem mais lamúrias nem protestos, esperaram que o
avião aterrasse.
Mas, à saída, levavam
umas caras tão desanimadas e tristes que faziam dó.
Ana, de vez em quando,
limpava uma lágrima teimosa e os dois rapazes esforçavam-se o melhor que
podiam para não deixar vir aos olhos a mágoa que lhes enchia o coração...
Não
conseguiam consolar-se com a ideia de passarem ao pé do paraíso sem lá entrar!
Com os outros passageiros que deviam seguir viagem
para a Beira, encaminhavam-se para o restaurante do grande aeroporto onde
deviam jantar enquanto esperavam que o avião fosse reabastecido, quando Ana descobriu entre os caixotes prontos a
ser embarcados num próximo voo para a Europa uma grade de onde saíam uns guinchos agudos que lhe chamaram a atenção e a
despertou da sua tristeza.
ANA
— Pai! Mãe! Pedro! Miguel! Todos! Venham
ver! Estão aqui macacos! Macacos verdadeiros! Venham ver, tão giros!
Venham ver!
DR. ALMEIDA (dirigindo-se
ao pai) — Vê lá tu como um miserável caixote
com meia dúzia de macacos pode fazer
tanto sucesso! Realmente estas crianças andam ansiosas por ver bichos!
MÃE
— Sempre adoraram animais e desde que o pai os convidou para esta viagem, não
pensam noutra coisa!
DR. ALMEIDA — Então
porque não os deixam vir comigo até à Gorongosa por uns dias?
MÃE
— E quem os levará depois para Lourenço Marques?
O
Dr. Almeida fez um gesto largo indicando toda a pista onde dezenas
de aviãozinhos estavam pousados.
DR. ALMEIDA — Um dos
muitos táxis aéreos que se alugam para fazer transportes em toda a província, leva-nos até à Beira e depois tomarão o
avião da carreira!
Pedro,
que ficara junto dos pais enquanto os irmãos se extasiavam diante
dos macacos, nesta altura aproximou-se deles e bichanou-lhes qualquer
coisa aos ouvidos.
MIGUEL — Mentira!
ANA — Verdade!?
Para acabar com as
dúvidas correram todos os três até ao sítio onde os pais e o Dr. Almeida tinham
ficado parados, e começaram uma espécie de dança animadíssima acompanhado por
um coro de "deixe mãe! Deixe pai!" que acabou por os convencer.
O
sol, que iluminava ainda o céu vermelho, sumiu-se de repente como se fosse engolido pela
linha do horizonte.
MÃE — Olhem, olhem como se fez noite!
Mas os meninos nem viram
que escurecera! Para eles tinha acabado de nascer um novo dia!
1 Planície com erva
rasteira.