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Alguns capítulos da obra de Maria da Conceição Vilhena.
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Escreveu Mia Couto, em Cada homem é uma raça, que a "história de um homem é sempre mal contada. Porque
a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos
e transmutáveis homens". Vêm estas palavras a propósito, para esclarecer que, ao escrevermos sobre
Gungunhana, não temos a pretensão de dar, do homem político que foi, um retrato exacto da sua figura
de rei poderoso e dominador. Vamos falar da sua grandeza, mas o assunto não será esgotado; e de modo
algum se pode tratar de uma biografia, porque muito se nos escapa da sua vida. Que sabemos nós do Gungunhana
menino? E da sua juventude? As primeiras décadas da sua vida ficaram mergulhadas num passado perdido,
irrecuperável. Estava-se em meados do séc. XIX, numa sociedade meio comunitária, regida por valores
primitivos, de hábitos ancestrais, a força física, a astúcia, o culto dos antepassados. Sociedade serventuária
da guerra, como forma e necessidade de afirmação do ser. Espaço fabuloso, inventado, recriado e transmitido
oralmente. Um mundo perdido, só recuperado por forma oral, com as falhas do esquecimento e os acréscimos
da imaginação. Um ressuscitar constante de factos pela fantasia, emocionalmente. Por isso nada conhecemos
da infância de Gungunhana. Um menino entre muitos outros meninos a chapinhar na água, ou levantando nuvens
de pó em longas correrias, à chuva e ao sol; trepando às árvores, caçando, pastoreando; imóvel, ouvido
atento, espreitando a fera; de cócoras, à volta da fogueira, escutando histórias... Um menino de origem
zulu em terras de Moçambique. E as vivências íntimas com avós, pais e outros familiares? Em povos
que desconheciam a escrita, a tradição oral era, e continua a ser ainda hoje, o arquivo depositado na
memória, através do ouvido. Quando se pretende fazer um estudo sobre aspectos culturais que já vêm de
trás, a colheita de informação é feita à luz da tradição oral, baseada nos conhecimentos trazidos dos
antepassados, que passaram de pais a filhos e netos, sob a forma de conversa, à sombra da árvore ou em
torno da fogueira. Mas do Gungunhana menino, quem teria fixado uma palavra ou um gesto? Anónimo, um
entre muitos. Quem então poderia pressentir o seu papel na história? Guilherme de Melo e Ungulani
Ba Ka Khosa, romancistas, puderam criar um Gungunhana a viver no seu meio, em Os leões não dormem esta
noite e Ualapi, respectivamente. Aí encontramos o adolescente, num frémito de curiosidade. O erotismo,
as proezas, as prosápias. O jovem a divertir-se, o adulto a reinar. A ficção não tem limites. É seu o
direito de criar e recriar, na liberdade da fantasia. Os sabores, os cheiros, os gostos preferenciais,
os pormenores de uma vida inteira, que o historiador desconhece. É que a ruptura de uma ordem estabelecida
e o consolo delirante da criação fantasiosa são proibidos na produção da obra fundamentalmente histórica.
Na lembrança dos mais velhos escorrem ainda farrapos da vida de Gungunhana. De ouvir contar o que foi
contado por outros velhos. Mas é frágil a memória do homem, sem o suporte de uma escrita que a apoie
e "revivente". Para nós, em história, só o documento conta. Na elaboração deste trabalho utilizámos,
pois, documentos. Uns inéditos, conservados em pastas, nos arquivos; outros já publicados. Ricos de informação
foram os relatórios de viagens às cortes de Manicusse, Muzila, Gungunhana... Mas também foram importantes
as notícias que encontrámos em jornais e revistas da época: estudos, críticas, intrigas, acusações ...
Consultámos igualmente a maior parte das obras escritas então, sobre o sul de Moçambique, no final do
séc. XIX, nacionais e estrangeiras, e também algumas actuais, o que nos permitiu discernir a inexactidão
de algumas informações. Uma visão do branco, daquele que estava no exterior da vida africana. Um olhar
de fora, míope certamente. A melhor informação estrangeira que conhecemos sobre a vida e personalidade
de Gungunhana é um longo artigo em francês, intitulado Un Potentat Africain - Goungounyane et son règne,
pelo médico missionário suiço, o Dr. Liengme, e publicado no Bulletim de Ia Société Neuchâteloise de
Géographie, em 1901. O escrito do Dr. Liengne oferece um interesse enorme pelas muitas informações
que contém, recolhidas bem nessa época. Aí encontramos a descrição da habitação e da aldeia, da maneira
como estas eram construídas (materiais utilizados, processos, forma, disposição, funções...); colaboração
imposta aos seus subordinados; vida privada do régulo; principais festas, organização do exército; alimentação,
trajes, superstições, ritos, guerra... Tudo isto o missionário viu de perto e experimentou, pois viveu
junto do Kraal do Gungunhana, no Manjacaze, de 1892 até ao desmoronamento do Império, em finais de 1895.
Além do seu relatório, que é o testemunho de quem participou, apreciou, julgou, o Dr. Liengme deixou-nos
mais alguns artigos e uma série de fotografias valiosíssimas. Como médico e como missionário, o Dr. Liengme
encontrava-se na situação ideal para bem conhecer o ser humano no seu todo, corpo e espírito. Outro
missionário cuja obra também constitui uma óptima fonte de informação é Henri Alexandre Junod, igualmente
suíço. Era entomologista, etnólogo e linguista; e, das suas publicações, citaremos em especial Vida de
uma tribo sul-africana. Junod esteve largos anos ao serviço da Missão Suiça Romanda, na região de Lourenço
Marques. Trabalhámos com documentos. Procurámos compreender as motivações de há um século atrás e
pô-las em paralelo com uma visão actual. Deste modo se tenta uma voz judicativa desapaixonada. Sê-lo-á
possível? São vários os prismas pêlos quais um mesmo facto pode ser observado e julgado. São vários os
rostos de uma mesma personagem. Vários os momentos e vários os impulsos. Não é o herói de um campo julgado
criminoso pelos do outro campo? Excesso de efeitos contrários, segundo o destinatário; e até multiplicidade
de encenações, de acordo com o proveito auferido e a rede elástica da imaginação. Há factos truncados,
alterados, velados? Sem dúvida. Além disso, tudo é polissémico... E os pareceres multiplicam-se ainda,
porque os aspectos subjectivos, sempre presentes, são pretexto a falas diferentes. Todavia, a nossa
intenção não foi uma análise profunda e crítica desses documentos, numa procura de todas as suas implicações
políticas. Tivemos, sim, o propósito de gravar o vaivém da vida da personagem, através de instantâneos
registados por aqueles que a observaram nas suas palavras quotidianas e nas suas andanças. Preferimos,
pois, registar todo um comportamento que determinava a vida do seu povo e veio a condicionar o seu destino;
a que juntaremos algumas reflexões e comentários no sentido de serem os factos contextualizados e, consequentemente,
mais bem explicados. Tentamos assim associar a voz do Gungunhana à dos seus contemporâneos, amigos
e inimigos, bem como combinar o facto sensacionalista com o pequeno gesto, numa caminhada sociopolítica
que permita esboçar o retrato de um herói em toda a sua grandeza, que simultaneamente desliza para a
decadência. O que investigámos, deste modo, é a pequena história, a vida do dia a dia, os gostos,
os usos, os hábitos, o trabalho, a festa, a crença. A vida com tudo o que ela comporta de rotineiro,
como o comer e o repousar. Tudo o que ela comporta de emocionante, como o amor e o ódio. Não a grande
história, a dos tratados e convenções, do secretismo ministerial, da diplomacia com todo o seu jogo de
interesses, da interpretação dos factos com justeza e rigor crítico. Dos grandes acontecimentos históricos
falar-se-á muito rapidamente e apenas em função do banal quotidiano. Gungunhana terno, colérico, cruel,
orgulhoso: Um ditador? Um democrata? Um cobarde? Um herói? Um traidor? Uma vítima? Tudo isso tem sido
escrito e afirmado. Compete ao leitor fazer o seu juízo, após a leitura desta obra. Compete igualmente
ao leitor conhecedor do actual estado da cultura de Gaza, dar-se conta das mutações culturais operadas
de há um século a esta data.
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