A ILHA DE MO�AMBIQUE:

ENTRE AS PALAVRAS E O SIL�NCIO

Rita Chaves*

Cercadas frequentemente por uma atmosfera m�gica, as ilhas costumam ser convocadas no processo de simboliza��o de ideias, valores, situa��es, potencialidades quase sempre exploradas com gra�a e gosto p�los artistas. Da lend�ria �taca, atravessando eras at� a real�ssima Manhattan, finamente talhada pela sensibilida�de algo prof�tica de Carlos Drummond de Andrade em seu not�vel �Elegia 1938� - que os acontecimentos do dia 11 de setembro de 2002 vieram recordar - a di�mens�o m�tica da ilha � for�a presente no imagin�rio de muitos povos. Para os lei�tores das Literaturas Africanas de L�ngua Portuguesa, o tema logo faz lembrar os problemas que cercam S�o Tom� e, principalmente, Cabo Verde, e acabam por se inserir na personalidade de seus escritores, intervindo fortemente na forma como eles se v�em e na maneira como s�o vistos pelos outros.

Tamb�m n�o nos escapa a lembran�a das ilhas situadas na ba�a de Luanda que poetas e ficcionistas angolanos v�m associando � fertilidade de sentidos ini�cialmente reconhecida nos musseques luandenses. Em se tratando dos angolanos, cabe ainda referir que com a sua capacidade de mobilizar a imagina��o, e assim transformar a falta em festa, eles refizeram no seu pr�prio imagin�rio o desenho do Mussulo, conferindo ao istmo essa carga on�rica de que a ilha se povoa. A con�firmar o processo, temos a for�a da quase Ilha do Mussulo focalizada, por exem�plo, no Rioseco de Manuel Rui.

Os exemplos encheriam p�ginas. Naquele pequeno peda�o de terra em frente ao Mossuril est�o plantadas muitas raz�es para despertar o enorme interesse de que esse Col�quio � testemunho. Com efeito, p�los dramas que abrigou na tra�vessia dos tempos, p�los fatos de que foi palco, reunindo refer�ncias de tantos pontos da terra, a esse destino de foco de debates e encruzilhada de paix�es n�o poderia escapar a Ilha de Mo�ambique.

Acumulando est�rias e acumpliciando-se com a Hist�ria, a Ilha, ao longo dos s�culos, vem superando seus pr�prios limites e excedendo-se na capacidade de apontar para algumas realidades, numa opera��o um tanto surpreendente para sua pequena extens�o e sua anunciad�ssima agonia. A relev�ncia de seu papel na trajet�ria das literaturas em l�ngua portuguesa e, em especial, no itiner�rio da poe�sia mo�ambicana, est� refletida na quantidade e na qualidade dos poetas que so�bre ela lan�aram sua sensibilidade e seu talento. Um dos portos inaugurais da presen�a portuguesa no que seria o pa�s, ela assistiu tamb�m aos in�cios da atividade liter�ria na terra. De Campos Oliveira a Eduardo White, s�o muitos os escritores que com ela estabeleceram uma fecunda rela��o, para n�o insistir evidentemente na figura de Cam�es que ali gastou alguns dos anos vividos fora de Portugal e do nosso Tom�s Ant�nio Gonzaga, para l� levado em castigo por sua participa��o no movimento que recebeu o nome de Inconfid�ncia Mineira.

Considerando que a natureza desse trabalho imp�e recortes, minha op��o foi pela concentra��o num espa�o de tempo em que se agudizaram as contradi���es em torno da quest�o da identidade mo�ambicana, um dos temas mais pre�sentes nos debates que se abriram nas cidades do pa�s desde que se iniciaram as discuss�es sobre o nacionalismo africano. Relembro aqui um ponto importante tocado pelo historiador mo�ambicano ao se referir � insist�ncia do discurso so�bre a harmonia como tra�o dominante na hist�ria da rela��o entre os povos que aportaram na Ilha. Penso que foi essa uma das verdades fabricadas pela ideologia que, sobretudo a partir dos anos 50, procurou camuflar as contradi��es ineren�tes � empresa colonial. A divulga��o das teorias lusotropicalistas de Gilberto Freire e a sua pr�pria viagem �s terras africanas ocupadas por Portugal traduzem esse projeto. Como assinalou Ant�nio Sopa, a paisagem da Ilha de Mo�ambique, ex�primindo divis�es e desigualdades, traduz, na realidade, as assimetrias e as lacunas com que a sociedade em Mo�ambique se confrontou ao longo dos anos.

Em sua estreita liga��o com o cen�rio de que surge, a poesia mo�ambicana n�o ficaria alheia � experi�ncia do dilaceramento que a condi��o colonial mobi�liza nos homens. E a leitura de muitos textos, na perspectiva indicada, conduziu-me a tr�s nomes que nesse trabalho ser�o alvo de minha aten��o: Rui Knopfli, Lu�s Carlos Patraquim e Eduardo White. Associados a diferentes gera��es, os tr�s, al�m da elei��o da Ilha como eixo tem�tico de muitos poemas, t�m em comum uma declarada aposta no empenho est�tico como modo de exercitar a literatura num cen�rio em que as conjun��es hist�ricas surgiam como um convite, quase uma convoca��o, ao barateamento da linguagem como modo de interven��o.

Confirmada a energia daquela matriz nos versos de cada um, � interessante pensar nos recursos de que se valeram esses artistas na representa��o liter�ria desse espa�o e, sobretudo, nos diversos processos que, penetrando na consci�ncia dos homens, conduziram ao gesto de multiplicar sua imagem.

Num breve invent�rio das constru��es po�ticas com que eles procuram al�can�ar as suas diversas representa��es da ilha, dois fen�menos ressaltam na econo�mia po�tica de seus textos. Estamos falando da marca da fragmenta��o como ele�mento expressivo, da recorr�ncia �s associa��es imprevistas e da quebra das fron�teiras entre a forma po�tica e o discurso em prosa. Na base desses procedimentos podemos assinalar uma concep��o de poesia em que a constru��o do lirismo privilegia a formula��o de conceitos afastando-se da musicalidade a que prima�riamente est� associada � linguagem po�tica. A aus�ncia de rimas, a sonoridade fechada, a significa��o retorcida s�o tra�os nesse repert�rio e sinalizam para um modo especial de se aproximar do objeto, ao mesmo tempo em que apontam para uma maneira particular de conceber a poesia na sua rela��o com a modernidade.

Em seu O ser e o tempo da poesia, excelente livro sobre as rela��es entre o discurso po�tico e as sociedades, Alfredo Bosi oferece muitas pistas para a com�preens�o do lugar e da fun��o da poesia em contextos atravessados pela contra�di��o. Abrindo com um brilhante estudo sobre a imagem, Bosi caminha com seguran�a pelos terrenos movedi�os da filosofia da linguagem e analisa rela��es fundamentais como as que se estabelecem entre a imagem e o sonho, a imagem e os sentidos, a imagem e a mem�ria, passando pelos la�os do inconsciente de que se ocupou o mestre da psican�lise. Recorrendo �s ideias de Freud, o estudioso brasileiro procura tamb�m abordar os processos de motiva��o na formula��o das imagens e as vias percorridas para sua convers�o em fetiche.

As observa��es ali presentes ajudam-nos a compreender que pelas trilhas indicadas nos versos dos nossos autores, abrem-se diante de n�s alguns dos ma�pas da Ilha e os itiner�rios propostos no balan�o dessas viagens que a literatura propicia. Tal como os slides ontem expostos, o exerc�cio po�tico em quest�o per�mite visualizar o jogo das diferen�as e as marcas das contradi��es que a hist�ria dos homens tem produzido. Sob o efeito do tempo, apresenta-se o conjunto de ru�nas oferecendo um retrato identificado com a degrada��o e/ou com a transfor�ma��o que a vida imp�e �s paisagens cujo sentido primeiro encontra-se perdido. Mas elas, se assustam os que teimamos em acreditar numa vis�o conservacionista, tam�b�m podem ser vistas como fonte de refer�ncias com as quais a literatura vai buscar elementos para dizer o mundo. Nesse ponto depositado nas �guas do �ndico, esp�cie de entrelugar onde se movem as coordenadas ditadas pela hist�ria e pela geografia do territ�rio hoje identificado com o pa�s, est�o as linhas com que al�guns poetas comp�em as imagens de sua liga��o com a terra e suas hip�teses de escapar aos limites que as fronteiras representam.

Partindo de experi�ncias muito diferentes, Knopfli, Patraquim e White fa�zem da ilha uma matriz de imagens e com elas tentam remexer o ba� das refe�r�ncias que carregam. De certo modo, na rela��o com a Ilha projetam-se as conturbadas rela��es com Mo�ambique, o pa�s em composi��o, a na��o em mon�tagem, esse ch�o convulso onde, em movimento, se articulam desejos e tens�es. Na obra dos tr�s ressaltam-se as marcas da ang�stia, a consci�ncia atormentada de que est�o inseridos numa realidade hist�rica que requer certezas que eles n�o alimentam.

Como meton�mia de uma hist�ria maior, a de cada um com essa realidade geogr�fica, hist�rica, pol�tica e cultural que Mo�ambique vai configurando, a Ilha ser� representada como um mosaico incompleto, no qual as pe�as se perderam e/ou foram inadequadamente colocadas. O desenho, portanto, revela-se confuso e o exerc�cio da palavra � um meio de revolver o terreno e extrair o significado dos fragmentos ora depositados diante de cada olhar. Nesse sentido, a ideia de para��so que algumas vezes remarca o imagin�rio das ilhas � arranhada. Principalmen�te para os dois primeiros, o apego ao espa�o n�o se confunde com a idealiza��o e o que salta s�o os sinais de uma rela��o que, sendo de amor, n�o pacifica esp��ritos e n�o esconde frustra��es. O retrato pintado com os �cansados flancos� que a fortaleza mergulha no mar em �A ilha dourada�, de Knopfli, complementa-se nas �art�rias de poeira e branco encardido� de que fala Patraquim em �Indica missanga sobre o teu corpo�. Em ambos, a ilha organiza-se como a met�fora de uma identidade em desassossego, num processo que mistura recusa e persegui��o, muito distante de encontrar no terreno da subjetividade a serenidade que as mon���es ofereciam � dif�cil arte de navegar.

As sombras e os fantasmas evocados por Rui Knopfli articulam-se aos anjos e p�ssaros de Patraquim e tal conjunto vai encontrar correspond�ncia nas missangas e turbantes referidos por Eduardo White em Janela para oriente, seu �ltimo livro. Um ligeiro invent�rio do l�xico predominante na obra de cada um revela a forte sugest�o do impalp�vel, presente na remiss�o de seres e coisas em movimento. E essa a atmosfera marcante na geografia por que viaja Rui Knopfli, por exem�plo, apresentando-nos a mesquita grande, o antigo Pal�cio S�o Paulo (que j� foi sede do governo e hoje � museu), como � tamb�m nos textos em que Patraquim procura no di�logo personificar o espa�o. O desejo de fixar, enquanto base da cons�tru��o da imagem, esbarra na interdi��o que cerca o pr�prio ato de representar que a poesia chama para si, confirmam tais textos na busca de apreender as di�mens�es do objeto.

Como constru��o po�tica, a Ilha � composta pelas notas da mem�ria que, se � realidade vai buscar alguns tra�os, em seguida, foge �s leis da l�gica conven�cional. Mais do que os desenhos que dela procuram oferecer, os poemas nos tra�zem os desejos e os tormentos dos poetas que para ela se voltam na tentativa de fixar algum percurso que permita restabelecer liga��es amea�adas pela emerg�n�cia de um tempo que mistura os dados, confunde as experi�ncias e multiplica as associa��es. No interior da crise que o colonialismo em fim de carreira institui, sem indicar possibilidade de solu��o, os contrastes fundados na Ilha assomam, acor�dando sentidos conectados com a Hist�ria sempre cruzando aquelas ruas. Diante do mundo em movimento, pela poesia de Knopfli e Patraquim, a Ilha desfila seus m�ltiplos significados, ora associada a Pr�spero ora a Caliban, tendo projetada em si a conflitada rela��o desses dois escritores com o pr�prio universo de que bro�taram, como homens e como poetas.

O terceiro nome selecionado para a minha viagem pela Ilha de Mo�ambi�que pertence a uma gera��o mais jovem da poesia mo�ambicana. Integrado ao grupo que criou a revista Charrua, Eduardo White, desde sempre um cultor da rebeldia, procurou fazer da poesia um ato de insurrei��o. Afastando-se da tona�lidade �pica mais pr�xima da poesia como um canto coletivo, como prevalecia nos anos imediatamente posteriores � independ�ncia do pa�s, o autor de Amar sobre o Indico caminhou na dire��o do lirismo individualizado e concentrou-se na tem�tica amorosa, refor�ando uma linha da poesia mo�ambicana tamb�m visita�da por nomes reconhecidos do panorama liter�rio como Jos� Craveirinha e Heliodoro Batista, al�m dos dois poetas em foco neste estudo.

Ao inserir-se nessa linhagem, Eduardo White tamb�m faz da Ilha um ponto de liga��o com a realidade mo�ambicana de que �, ao mesmo tempo, ator e tes�temunha. E, ao eleger esse eixo tem�tico, ele refor�a o que Ant�nio C�ndido chama de �nexo de causalidade interna � e sinaliza para a maturidade da literatura mo�ambicana como um sistema em constitui��o, contribuindo para que a Ilha su�pere os limites de simples espa�o e se defina como um porto de representa��es, uma verdadeira ��rea geo-po�tica [...], cuja heran�a refeita e renovada se refracta na escrita de outros poetas como Alberto de Lacerda, Gl�ria de Sant'Anna, Orlando Mendes, Virg�lio de Lemos, Rui Knopfli�, tal como apontou Ana Mafalda Leite2, em palestra proferida na Universidade Eduardo Modlane.

Em seu itiner�rio, Eduardo White faz da ilha uma esp�cie de meton�mia do apre�o pela liberdade presente em toda sua obra. A met�fora do voo com que alarga os la�os do seu imagin�rio parece encontrar nesse peda�o de terra � parte uma frutuosa correspond�ncia, como se na Ilha ele aportasse inicialmente a ca�minho das outras terras a fim de exercitar a ilimitada profus�o de cores, cheiros e sabores que incorpora em sua poesia. N�o por acaso, o livro publicado em 1999 se chama Janela para oriente. Em suas p�ginas, radicalizam-se aqueles procedimen�tos art�sticos a que nos referimos como definidores tamb�m da poesia de Knopfli e Patraquim, ou seja, a marca da fragmenta��o, o uso das associa��es imprevistas e a ruptura das fronteiras entre prosa e poesia. A partir desses recursos, tal como seus antecessores, o poeta formula interroga��es e investe numa pesquisa que � tamb�m de auto-reconhecimento, confirmando a ideia de que em contextos acir�rados pela contradi��o, em diferentes n�veis, as quest�es em torno da identidade ganham relevo e, via de regra, convocados � express�o, os poetas apostam na inven��o de seus pr�prios instrumentos.

No processo de recria��o de sua linguagem, White seleciona os materiais para recompor a sua identidade de mo�ambicano, fundando na multiplicidade de ele�mentos as senhas com que abre o di�logo com um universo em que a pluralidade tem que ser a chave. A dimens�o oriental da Ilha que ele percorre n�o se op�e � ��frica distante que faz a curva para o Ocidente�. Com as sugest�es presentes na m�sica de Ravi Shankar, nos versos de Tagore, nos mel�es da Mal�sia, no bonsai japon�s, ele parece querer completar uma experi�ncia de descentramento que come�a na dire��o do �ndico e nas ilhas que o povoam.

Nesse sentido, talvez se possa encontrar entre Eduardo White e seus antecessores um di�logo que retoma pontos e introduz algumas diferen�as bastante significativas. O oriente de que a ilha � meton�mia surge na poesia do autor de Amar sobre o Indico e Janela para oriente como espa�o de dinamiza��o de um uni�verso cultural que reclama a inser��o de sinais capazes de introduzir Mo�ambi�que noutros mapas. Para um leitor formado p�los paradigmas do ocidente, como eu me vejo, h� sempre o risco de enxergar na presen�a oriental um aspecto do ex�tico, pontas daquele orientalismo produzido pelo discurso da hegemonia t�o bem tratado por Eduardo Said. Da� a import�ncia do conhecimento hist�rico que ajuda a compreender as especificidades de cada contexto, a partir da relativiza��o da�queles valores que o discurso colonial pretendeu passar como absolutos. A pre�sen�a do oriente na poesia mo�ambicana tem o lastro que lhe d� a inser��o daquelas sociedades num conjunto bastante diverso daquele de que o Oceano Atl�ntico foi palco.

Noutras palavras, os rumos trilhados por White se afastam daqueles vislum�brados nas veredas percorridas por Knopfli e Patraquim, como se na sua viagem ele fizesse escala no peda�o de terra em que os outros desembarcam e de onde fitam, atormentados, a parte continental do pa�s. Vale citar Knopfli:

Neste raso Olimpo argamassado em febre

E coral, o Deus maior sou eu. Por mais

Que as pedras, os muros e as palavras afirmem

Outra coisa, por mais que me abram o corpo

Em forma de cruz e me submetam a �rida

Voz �s doces inflex�es do cantoch�o latino,

Por mais que a vontade de pequenos deuses

P�lidos e fulvos talhe em profusas l�pides

O contr�rio e a sua persist�ncia os tenha

Por Senhores, o sangue que impele estas veias

�� � o meu. P�rticos, frontarias, o metal

����������������� Das armas e o Poder exibem na tua sigla

�� A arrog�ncia do conquistador. Por�m o mel

� Das t�maras que modula o gesto destas gentes,

�� O cinzel que lhes agu�a a madeira dos perfis,

A lenta chama que lhes devora os magros rostos,

Meus s�o. Dolorido e exangue o pr�prio

Cristo � mouro da Cabaceira e tem a esgalgada

Magreza de um velho coj� asceta.

������� Ra�a de escribas, mandai, julgai, prendei:

������� S� Alah � grande e Maom� o seu profeta.

 

Como se v�, a presen�a enf�tica do eu em proje��o aponta para a crise identit�ria tematizada na po�tica que a Ilha catalisa. O tom �, portanto, atraves�sado por uma dose de ang�stia manifesta no pr�prio talhe do Cristo magro e mouro. Seguindo Knopfli, temos Patraquim:

Eis as casas. Grutas de sal a c�u onde me descubro. E sou nome ou reboco do dia que se extenua e sonha, vento mar�timo que me leva �s praias fulgurantes que faltam nos livros. Aqui me deito, peixe, mem�ria, homem, contigo e a chuva e o iodo e o som das casuarinas circulares, teu verde a�oitado de desejo. O bosque.

Aqui me ergo, pendurado em panos �s janelas, imagem de despudor sem mim. Porque aqui me esque�o do que me querem. Da hist�ria que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde n�o me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo ger�ndio doutra est�ria �s avessas da hist�ria, onde n�o me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos al�v�olos iluminados do tempo.

Essa obsessiva procura �doutra est�ria �s avessas da hist�ria� aproxima-se de um dos poss�veis sentidos para a poesia na contemporaneidade. E nesse aspecto encontramos mais um ponto de contato entre os textos desses tr�s poetas. Em sua obra, a energia vem da evidente necessidade de perseguir uma certa unidade num ch�o que espelhando o despeda�amento favorece a representa��o de seres em di�vis�o. Para White, todavia, no sentimento amoroso est� � possibilidade de supe�ra��o das interdi��es que a cis�o opera, e a Ilha se torna palco de outro percurso:

Sou ao norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco--te por entre as negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, fr�geis e belas como as missangas e vejo-te p�los seus absurdos olhos azuis. Que viagens eu via�jo, meu amor, para tocar-te esses b�zios, esses peixes vulner�veis que s�o as suas m�os e tamb�m me sonho de turbantes e filigranas e uma navalha que enrolada j� n�o mata. E minhas oferendas de java ouro e frutos incensos e vol�pia.

Quero chegar � tua praia di�fano como um deus, com a m�sica rude e nua do corno de uma palave, um s�quito ajawa, um curandeiro macua, uma mulher que dance uma �ndia t�o distante, e um monge birman�s, clandestino no tempo, que sobre n�s se sen�te e pense. Amo-te sem recusas e o meu amor � esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas mem�rias sobre as paredes e ningu�m sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconformado. Em tudo habita. [...]

 

Em s�ntese, a Ilha, fazendo-se e refazendo-se no imagin�rio desses poetas, segue reinventando origens e destinos, oferecendo-se como fonte de imagens para que alguns escritores se armem na explora��o de uma identidade em movimen�to. Desse percurso n�o est�o ausentes as ru�nas que, se nos angustiam como sinal da degrada��o, no quadro liter�rio constituem uma fonte de di�logo entre dife�rentes gera��es. Provavelmente porque habituados a procurar o equil�brio e a imutabilidade, aos olhos de muitos de n�s causam espanto as deforma��es ou a nebulosidade a cobrir os objetos que o nosso consciente inventa e insiste em re�ter. Recorrendo, uma vez mais, a Alfredo Bosi, no entanto, compreendemos que o que define a nitidez ou o obscurecimento da imagem prende-se menos �� a��o do tempo do que � for�a e � qualidade dos afetos que secundaram o momento de sua fixa��o�3. Da� a �nfase na positividade ou na negatividade das mudan�as que a nossa leitura percebe. Gra�as � carga poliss�mica que caracteriza a poesia, sobrevive no discurso po�tico a possibilidade de misturar contr�rios e revitalizar as franjas de harmonia que a distin��o entre natureza e cultura ergueu. Numa cultura marcada pela cis�o, a contraposi��o � uma constante e s� muito raramente nos livramos da ditadura das dicotomias onde aprendemos a separar o passado do presente, o externo do interno, o alheio do pr�prio, o sonho do real, o sujeito do objeto, o continente da ilha. A consci�ncia, mesmo se muito angustiada, da contradi��o e a cren�a na urg�ncia de apaziguar os fantasmas que saltam da divi�s�o constituem dados relevantes na proposta po�tica desses tr�s poetas da Ilha. As transforma��es de tantas ordens vividas por Mo�ambique impuseram a seus homens uma rela��o conturbada com a sua pr�pria Hist�ria e com a Hist�ria de sua terra. As quest�es envolvendo a forma��o de sua identidade ganharam for�a mas se enquadraram num espa�o de tens�o, fazendo-se movimento e, de ma�neiras diferentes, desembarcaram no terreno, tamb�m ele, movedi�o da poesia. As respostas de Rui Knopfli, Lu�s Carlos Patraquim e Eduardo White encontram-se, n�o obstante a dist�ncia temporal, na forma refinada e convulsa com que incor�poram o problema identit�rio num solo em mudan�a. Se o continente revela abalos e assimetrias, a Ilha convida a uma paragem, um ex�lio que, afinal, nem chega propriamente a ser. De certo modo, esses poetas encontram-se com muitos ou�tros poetas, de diversas partes do globo. Entre eles o nosso extraordin�rio Carlos Drummond de Andrade, que, numa de suas bel�ssimas cr�nicas, tamb�m confes�sava a sua atra��o por esse lugar que estimula o sonho e frequenta a imagina��o dos homens. Em �Divaga��o sobre as ilhas�, no livro intitulado Passeios na ilha, ele explicitava um alimentado projeto:

Se um dia me acontecer uma pec�nia [...], eu compro uma ilha; n�o muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem t�o perto, tamb�m, que de l� possa eu aspirar a fuma�a e a graxa do porto. Minha ilha (e s� de imaginar j� me considero seu habitan�te) ficar� no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto de ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a pratic�-los diuturnamente. Porque esta � a ci�ncia e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa e uma n�o muito estouvada confraterniza��o.4

 

Com arguta sensibilidade, o mineir�ssimo escritor indicava uma no��o de feli�cidade: a vida como um exerc�cio baseado na dif�cil dose de equil�brio entre a solid�o e a conviv�ncia com os nossos iguais. Talvez esteja a� um dos aspectos que explicam essa magia que cerca as ilhas em nossa imagina��o. Talvez esteja a� uma�

das chaves que ajudam a interpretar a op��o desses tr�s escritores aqui aborda�dos.

Antes de concluir, penso ser positivo ainda destacar um aspecto que tamb�m nos intriga quando refletimos sobre o lugar da Ilha de Mo�ambique no itiner�rio da poesia mo�ambicana. Trata-se da sua aus�ncia como tema na literatura, nas �ltimas d�cadas, o que funda um expressivo contraste com a posi��o de relevo alcan�ada nos anos anteriores � Independ�ncia, fato registrado por um de seus cultores, o jornalista e escritor Nelson Sa�te. Na antologia organizada em parce�ria com Ant�nio Sopa, Nelson reconhece que Lu�s Carlos Patraquim constitui �um avaro exemplo�. A este nome, associamos o nome de Eduardo White. E poder�a�mos ligar tamb�m o do pr�prio organizador da colet�nea. De qualquer modo, o fen�meno existe e estimula a sugest�o: ap�s esses debates sobre a palavra que a Ilha de Mo�ambique alimentou, n�o seria interessante atentar para o sil�ncio a que ela parece devotada?

1 Ant�nio C�ndido. �Literatura e subdesenvolvimento�, A educa��o pela noite e� outros en�saios, 1987.

2 Ana Mafalda Leite. �Reflex�es em torno dos conceitos de regionalismo, nacionalismo e universalismo na Literatura Mo�ambicana�. Comunica��o apresentada nas Jornadas de Literatura e Cultura. Maputo, abril de 1999.

3 Alfredo Bosi. O ser o tempo da poesia, 1977.

4 Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa, 1979, p. 964.

Bosi, Alfredo. O ser o tempo da poesia. S�o Paulo: Cultrix, 1977.

C�ndido, Ant�nio. �Literatura e subdesenvolvimento�. In A educa��o pela noite & outros

ensaios. S�o Paulo: �tica, 1987. Patraquim, Lu�s Carlos. Mon��o. Maputo/Lisboa: INLD/Edi��es 70, 1980.

A �inadi�vel viagem. Maputo: AEMO, 1985.

Knopfli, Rui. Ilha do Pr�spero. Louren�o Marques: Minerva Central, 1972.

- O escriba acocorado. Lisboa: Livraria Morais, 1978.

Leite, Ana Mafalda. �Reflex�es em torno dos conceitos de regionalismo, nacionalismo e

universalismo na Literatura Mo�ambicana�. Comunica��o apresentada nas Jornadas de

Literatura e Cultura. Maputo, abril de 1999. Sa�te, Nelson e Sopa, Ant�nio (organizadores). A Ilha� de Mo�ambique pela voz dos poetas.

Lisboa: Edi��es 70, 1992. White, Eduardo. Amar sobre o Indico. Maputo: Associa��o dos Escritores Mo�ambicanos,1984.���

Janela para oriente. Lisboa: Caminho, 1999.

 

 

* Rita Chaves � professora Doutora de Literaturas Africanas de L�ngua Portuguesa da Uni�versidade de S�o Paulo e

�� professora visitante da� Universidade Eduardo Mondlane/ Mo��ambique. E autora do livro A forma��o do romance

�� angolano (1999).

voltar