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Encontrará aqui biografias, não só de artistas, como dos principais grupos musicais portugueses, ordenados
pela primeira letra porque são conhecidos.
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Para aqueles que têm páginas próprias, ficará também o link para elas.
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Como começou a sua carreira artística? Eu, a certa altura, reuni a família, os meus pais e tios, e
disse "Eu queria ir para o teatro". Havia uma razão: nós tínhamos uma grande relação com artistas, sobretudo
a minha tia, com quem eu tinha sido criado. Era amiga de grandes actrizes, da actriz Virgínia, por exemplo,
e o meu pai dava aquelas festas que se faziam nas quintas e iam muitos artistas. Aconteceu uma coisa
muito engraçada entre o meu pai e o actor Estevão Amarante. Bem, ele era um sota. Nessa altura havia
trens de aluguer (os táxis da época), e o meu pai tinha trens desses na estação do Rossio, e havia um
sota, que era um homem que vinha pôr os cavalos cansados na quinta e levava os outros para trocar, de
modo que às vezes passava noites inteiras sem fazer nada e havia ali uma taberninha, que ainda lá está,
onde se cantava muito o fado vadio, e o rapaz tinha a mania de cantar o fado. Ora um empresário do Éden
antigo (aquele que ardeu nos anos trinta) disse-lhe: "Ouve lá tu queres ir para o teatro?" e ele "P'ró
teatro?" "Sim, cantares o fado no teatro?". Diz ele: "Não sei, só se o meu patrão me deixasse", "Então
eu falo com o teu patrão". Ele falou com o meu pai que disse "O rapaz que vá cantar o fado para o teatro".
Dão ao rapaz um fado chamado o Fado do 31. O rapaz vai cantar e tem um êxito tão grande que deixou de
ser sota para ser o Estevão Amarante. Bem, entre a minha família e o mundo artístico também havia
uma ligação, porque quando se davam festas a companhia do Éden também ia para lá para a quinta, havia
aquelas adegas muito grandes com quarenta e tal tonéis... isto nos anos vinte, trinta, quando ainda eu
era pequeno. Então resolvi ir para o Conservatório, a família concordou, mas tinha de tirar o curso de
quatro anos. Quando chego lá, encontro a Maria Barroso, o Rui Ferrão e a Eunice Muñoz (que foi a minha
primeira namorada). Começou cedo a sua ligação aos palcos. Passados seis meses telefona o Robles
Monteiro para a Maria Matos, que era a minha professora da arte de dizer, e pergunta " Há aí algum rapaz
que tenha jeito e que seja suficientemente louco para vir substituir o Caeiro (era o Igrejas Caeiro),
que adoeceu com papeira, tenho de ter o teatro fechado dois ou três dias e não tenho ninguém que o vá
substituir. A Maria Matos diz assim: "Conheço um que é meio maluco e que tem jeito". Então foram ter
comigo e disseram "Queres estrear-te no Teatro Nacional, na Companhia da Amélia Rey Colaço?". E eu com
a inconsciência dos 16 anos disse "Quero!", fiquei muito satisfeito, e fui logo, eram umas 11 da manhã.
Cheguei e lá estavam a D. Amélia Rey Colaço, a D. Palmira Bastos e a Lucília Simões, a fazerem uma peça
de um autor português chamado Manuel Frederico Pressler e eu ia fazer de filho do Robles Monteiro e daAmélia
Rey Colaço, neto da Palmira Bastos, sobrinho do Raul de Carvalho, irmão do Álvaro Benamor. Bem, era a
fina-flor do teatro português. Então puseram-me lá, "Sabes ouvir o ponto?", eu já tinha seis meses de
ouvir o ponto, nessa altura o curso tinha uma cadeira que era aprender a ouvir o ponto. "Sei, pouco mais
ou menos", então puseram lá o ponto, o ponto começou a pontar, eu comecei a dizer, dizia ali, agora diz
a andar para ali. Pronto, ensaiámos nessa noite, no dia seguinte, à tarde, o Robles perguntou, "Posso
abrir a bilheteira para fazer o espectáculo da noite?", "Pode" e então estreei-me no Teatro Nacional
onde estive seis anos. E como é que começou a escrever? Depois da morte do meu pai fiquei um bocado
desorientado e o Pepino Martin Vasques disse-me "Vai lá para a minha quinta em Alcadenares (muito perto
de Madrid) distrair--te. E eu já tinha a mania de ser escritor de teatro (tinha entrado numa peça durante
dois anos, O Leque de Lady Windermeer, de Oscar Wilde, e confesso que a minha primeira peça foi inspirada
nela). Então fui para Madrid, não tinha nada para fazer, ele ia tourear e eu ia escrevendo. E escrevi
dois actos, li-lhe a ele e a uns amigos nossos, "É pá isso é giro, e tal". E então como os toureiros
sempre tiveram uma grande ligação com artistas, também iam muitos a casa dele a festas, e apareceu uma
actriz muito célebre, que queria fazer uma peça no teatro. Tinha acabado a Guerra de Espanha (1944),
ainda estava a mundial a acabar, e os autores tinham ou desaparecido, ou fugido, ou sido mortos (como
o caso do Lorca), e ela estava aflita porque não tinha peça e tinha de fechar o teatro. De brincadeira
o Pepino diz "Olha, este está a escrever uma peça e é gira", "Está?", eu disse "Estou, mas está em português
e eu nem me atrevo amostrar á senhora". Ela insistiu, levou a peça e passado uns dias vem o genro dela
ter comigo e diz "A minha sogra quer oferecer-te um almoço". Eu fui, era praticamente nas Portas do Sol,
um prédio muito bonito, com um terraço muito grande, era verão, o almoço foi no terraço e ela diz-me
"Olhe, o menino vai acabar a peça, que eu vou estreá-la e quem vai traduzir é o meu genro". Mas faltava
o 3º acto, e quem é que lhe diz que eu era capaz de o fazer? Já não sabia como é que havia de chegar
ao fim, demorei dois meses para acabar a minha primeira peça chamada Teodora Dulaine. Bem, como também
não havia autores em França, uma grande actriz francesa veio ver peças a Madrid, e viu a minha. Eu já
estava em Portugal a escrever uma comédia para o teatro Avenida, isto por volta de 1947. Recebo um convite
através da Sociedade de Autores para a estreia em Paris, no Teatro Antoine, no Boulevard de Strasbourg,
respondi que nessa altura não poderia ir mas que iria mais tarde. Cheguei a Paris no comboio expresso,
vieram informar-me que tinha gente à minha espera, saí e estava à minha espera uma senhora chiquérrima,
que era a actriz e ela diz "Tenho o maior prazer que jante connosco depois de ver a peça. E o seu pai
não veio?", "Infelizmente o meu pai já morreu", "Ah...". Depois de ver a peça fui ter com ela ao camarim
e diz-me "E os direitos de autor do seu pai, o senhor ficou com eles?" , "Não, o meu pai nunca escreveu
peças", "Então de quem é a peça?" "É minha, fui eu que a escrevi, a senhora viu-a em Madrid com o meu
nome, o meu pai não se chamava Eduardo Damas. "O senhor é o autor da peça? Com essa idade?" Voltei
para Portugal, e estreei a comédia Aios que Escândalo!, que foi um grande sucesso. Tinha um número que
era praticamente uma rábula de revista, feito pela Aida Batista. O Fernando Santos que era um grande
autor de revista foi ter comigo e perguntou-me se eu não queria fazer uma revista com ele, "Vamos fazer
a próxima revista do ABC com a Hermínia Silva". Depois conheci uma actriz, a Line Mota, que trabalhou
pouco em Portugal e foi para Itália, trabalhar para a Cinecitá e foi uma actriz muito célebre dos anos
cinquenta e parte dos anos sessenta do cinema italiano. Nós estávamos de namoro e apareceu um contrato
para eu ir adaptar a Aida para o cinema (que foi o primeiro filme em que entrou a Sofia Loren). Depois
de dois anos em Itália voltei para Portugal. A estrutura da revista na primeira metade do século era
muito diferente da revista contemporânea ? A estrutura da revista vem do Auto da Alma do Gil Vicente,
tem o diabo e o anjo que são o compère e a comère, que eram o compadre e a comadre, passam as figuras
que até têm música, passa o soldado, passa a alcoviteira, passa o doido. Até há uma coisa muito engraçada,
que a D. Palmira Bastos dizia "Ai eu destesto entrar naquele auto", "Mas ó D. Palmira, então...", "Ó
meu filho, tu sabes o que eu tenho de dizer, não sabes ?" ela tinha de dizer "Furtaste a chiba, cabrão!"
e "A doença que tu tens é de merda merdeira". Um fenómeno curioso era o modo como as músicas passavam
muito rapidamente para a rua.. Os ceguinhos cantavam as cantigas, e havia folhas com os versos. Havia
uma revista no Maria Vitória e a Beatriz Costa era nessa altura 3ª figura, isto nos finais dos anos trinta.
Ela estreou-se como corista e foi para o Brasil com a companhia. Durante a viagem, que durava três semanas
até ao Rio de Janeiro, faziam festas a bordo e adoeceu uma artista que era a Lina Demoel. Como a Beatriz
estava sempre nos bastidores e era esperta, sabia o papel dela e foi ao camarote da Lina: "A Sr. D. Lina
importa-se que eu faça o seu número do Bur-rié" Ela fez o número a bordo com um êxito tão grande que
quando chegou ao Rio de Janeiro a Lina lhe disse "Passas a fazer o Burrié" e ela saltou de corista para
artista, mas de 3ª ou 4ª categoria. Ela veio para Portugal e foi também nessa categoria fazer já uns
papelinhos na revista no Maria Vitória, em que a Maria das Neves era a vedeta, casada com o empresário
Lopo Lauer. No dia da estreia a revista agradou, mas o número do Cochicho afundou (como se costumava
dizer) "pela caixa do ponto", mas depois recuperou e até ficou famosa. Um dia, a Beatriz foi ao camarim
da Maria das Neves e disse "Srª D. Maria não se importa, hoje não, que amanhã eu cante só uma vez aquilo,
eu gostava tanto de cantar aquilo" e ela disse "Ó rapariga, se queres cantar aquilo, diz lá ao meu marido
que eu te autorizo a cantar e amanhã cantas, pronto. Tu sabes o texto?" "Ai, eu aprendo até amanhã".
Ela era danada. A chefe de quadro, a Georgina Cordeiro, era uma mulher muito bonita, e nessa altura a
censura ainda não fazia nada, e ela aparecia com um soutien, com a barriga toda à mostra, e collants.
A Beatriz faz a rábula como gente grande e no refrão "Eh rapaziada, quem é que quer apitar, repipi pi
pi, no cochicho da menina" substituiu por "Eh rapaziada, quem é que quer apitar, repipi pi pi, no umbigo
da Georgina" e meteu-lhe o dedo no umbigo. Bem o público riu à gargalhada, salva de palmas e a Maria
das Neves disse "Passas a cantar isto todos os dias". O número veio para a rua, a revista subiu, foi
um êxito e a Beatriz foi logo contratada como lª figura para o Apolo.
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