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Encontrará aqui biografias, não só de artistas, como dos principais grupos musicais portugueses, ordenados
pela primeira letra porque são conhecidos.
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Para aqueles que têm páginas próprias, ficará também o link para elas.
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O QUE FEZ CIDÁLIA O fado, queiram ou não, tornou-se um dos símbolos vivos da língua: saudosista
de primeira, rebelde acima de todas as suspeitas, história em pacto de intimidade com quase tudo o que
é comtemporâneo. Ao longo do tempo não faltaram tentativas de lhe atribuir parentescos, descobrir-lhe
intenções, ou mesmo dar-lhe um corpo - Maria da Glória ou Glória Maria. Cada um vê o fado à sua imagem
e semelhança. Quando Cidália Moreira tomou o lugar entre fios e microfones e, com uma voz meridional,
começou a trabalhar como suas as palavras do fado, aquelas caras da noite que assistiam recapitularam
todas as perguntas possíveis. Para uns o fado é uma "força cósmica universal". Será? ou antes, uma espécie
de antropofagia'? Será? Para outros, um pouco de grito a que a minoria lusitana terá direito. De vez
em quando era quase necessário que Cidália parasse para alguém dizer: é isso mesmo. Cidália Moreira
é forte e frágil ao mesmo tempo. O olhar é bravo e comove-se: não é teatro onde a simulação tem o seu
valor. E as mãos são transparentes e acompanham como ferro uma voz que não é claustro: sente intensamente
o mundo presente. Tenta agarrar outras palavras quando estas a tentaram para formas de sentimentalidade.
O fado de Cidália deixa bem claro, que é falsa a reputação de distância que cerca o fado. Será então,
o fado, um serviço público? É enquanto gerava fado nos poemas de Vasco Lima Couto e de José
Carlos Ary dos Santos, alguém se lembrou que fazer fado é uma forma de confissão, de nudez e se não for
assim, será brincadeira ou mistificação. E porque não Camões ou Carlos Drummond de Andrade? O fado a
prestar um serviço: deselitizar a poesia, pôr a língua na civilidade. Castiço é isto. Vêem alguns
no fadista um profeta visionário a relembrar a face menos nítida e menos real de um país que não existe.
Não vi Cidália a desgastar-se nisso. O que fez Cidália? Procura textos que digam alguma coisa ligada
à vida de todos os dias? Cantigas de amigo? Foram umas longas horas de teste definitivo. A provar que
a poesia pode estar no dia-a-dia. Num exercício solitário de fado. E mesmo quando se discorda do texto,
Cidália transforma o fado numa adivinha: trabalha cada palavra como se cada palavra estivesse desligada
dos que a ouviam. Forma umas longas horas com um fado que vai percorrer o purgatório das interpretações
num país onde a educação poética e musical foi sempre moldada por padrões estrangeiros. Por isso, menospreza-se
a categoria dos clássicos do fado. a não ser que fique arrumadinha na prateleira folclórica dos costumes
vocais nativos. Todavia, a força manifestada por esta algarvia levanta questões e problemas cruciais
à prática cultural no Portugal de hoje. Por exemplo: o dilema dos que hesitam entre cantar para o povo
e não apenas sobre ele. É evidente que não compete ao fadista tentar sistematizar o estudo do carácter
nacional a partir do "português" revelado no folclore, na mitologia e na tradição. Esta tarefa competirá
aos que não receiam ser vítimas conscientes das contradições do sistema. Deste ou daquele sistema, é
da teoria. Ao fadista compete reflectir deliberadamente um estilo, de vivência ou de narrativa. Cidália
criou um estilo tanto mais forte quanto o texto é fruto de uma imaginação fértil. E um estilo que sofistifica
o verso. Um estilo que provou, ao longo de horas, que o fado não é para iniciados. É para ser ouvido
pelos que o próprio fado retrata. O valor permanente do fado está nessa sua pretensão: a aspiração do
fadista que se dispõe a expressar o seu país em palavras e não apenas a entendê-lo. Nesse sentido, o
fado é parte de uma luta entre a cultura oral e a cultura escrita. Não existe sem oralidade e não fica
limitado a um público restrito. E a nostalgia vem desta identificação... O fado que fez Cidália
aponta para tudo menos para o que tem sido entendido como "essencialmente destruidor" e não se circunscreve
no que tem sido descrito como "uma vasta ilusão". Nem sequer para uma "orgia intelectual". O que se ouviu
de Cidália, pela forma como se ouviu, é um antindividualismo dirigido voluntarioso, para não dizer implacável.
Provou ao longo de horas que o fado tem, neste país, o elementar direito permanente à pesquisa estética,
à actualização da inteligência artística portuguesa e à estabilização de uma consciência criadora nacional.
Uma prova destas é uma conquista muito mais importante do que a sensualidade oral já conseguida para
o fado, por exemplo, por Amália Rodrigues, e mais importante do que os cantares do submundo português
dos anos 40 e 50 a lembrar as esperanças que restavam no crespúculo do arbítrio. Cidália, possivelmente
alheia ao efeito teatral da sua voz, não se veste com fantasias. Tenta fazer uma história. A história
do fado que se recusa a ser infeliz por um preço qualquer.
Carlos Albino Guerreiro
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